Hora de sair da IPB? Perguntas de um presbiteriano carismático

Uma das perguntas que não protestantes fazem é por que surgiram tantas igrejas diferentes da Reforma Protestante? Uma das respostas está no princípio do livre exame da Bíblia. Livre exame não significa livre interpretação, mas dá a cada protestante o direito de examinar a interpretação de seus líderes, para verificar se ela está correta ou não. De certa maneira, foi o que Martinho Lutero fez, ao questionar se o catolicismo romano estava ou não em acordo com a Bíblia. Ao fazer isso, querendo ou não, Lutero examinou e julgou todo o Magistério e a Tradição católicas até então. A esperança do reformador não era criar uma outra igreja, mas sim mudar o catolicismo. Mas, qo ser pressionado entre submeter-se a Roma ou arcar com as consequências, a consciência de Lutero o obrigou a se submeter a Deus, antes de se submeter à Igreja. E assim começou o luteranismo, e o protestantismo.

De modo análogo, o livre exame e o dever de consciência também explicam porque o protestantismo já nasceu fragmentado. A questão do significado da Santa Ceia dividiu os seguidores de Lutero, Calvino e de Zwinglio. E, assim, vertentes diferentes do protestantismo surgiram, porque a discordância doutrinária, embora não fosse tão central quanto a da autoridade da Bíblia, ainda era importante o suficiente para não permitir que pontos de vista tão diferentes como a consubstanciação e o simbolismo da Ceia pudessem coexistir na mesma igreja.

Esse mesmo tipo de dilema se repetiu, em questões mais ou menos importantes, ao longo de toda a História da Igreja. Antes de falar do meu dilema pessoal, lembro-me de como presbiterianos deixaram a Presbyterian Church of the United States of America (PCUSA) por rejeitarem o liberalismo teológico adotado pela PCUSA. Isso não ocorreu no século XVI, mas em pleno século XX ainda ocorreram divisões por esse motivo.

No Brasil, há dois grupos em um dilema parecido: os batistas calvinistas e a Convenção Batista Brasileira (CBB) e os presbiterianos não cessacionistas na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Submeter-se ao resto da denominação e calar-se sobre as convicções pessoais ou seguir a consciência e sair da denominação? No caso batista, pelo governo congregacional, o problema é até mais fácil de ser equacionado. Mas, para verdadeiros presbiterianos, como eu, a solução não é tão simples.

Como o próprio nome do meu blog denuncia, creio na doutrina reformada, mas também sou carismático quanto aos dons espirituais. Sou um dos poucos que resolveu assumir os dois lados como uma bandeira de fé. Mas, eventualmente, recebo perguntas de leigos, seminaristas e pastores sobre o mesmo dilema: é hora de sair da IPB? Fico e me submeto, tento mudar ou saio? Mas, se sair, para onde ir? Não há uma denominação brasileira de alcance nacional que realmente abrace tanto a doutrina reformada como a contemporaneidade de dons como profecia, línguas, curas, milagres e discernimento de espíritos. Essa opção pode até existir, localmente, mas não para a esmagadora maioria dos que conheço.

Como resolver? Não é um problema simples, e, por isso, esse texto não tem como ser curto. Escrevo aqui principalmente para pastores e seminaristas. Há várias coisas que precisamos considerar.

A discordância justifica sair?
A primeira pergunta que precisamos nos fazer é: eu considero a contemporaneidade dos dons carismáticos um ponto tão importante, a ponto de entender que as igrejas não podem viver de modo saudável sem o exercício desses dons? Se eu não considero um ponto tão importante assim, então não há motivos para sair. O melhor seria se submeter. Agora, se eu considero que as igrejas perdem algo importante sem a crença e o exercício desses dons, então o caminho é influenciar a IPB ou sair.

Reparem que não falei apenas de crença, mas de exercício dos dons. Se nossa crença nos dons extraordinários é forte e incomoda a consciência, mas não há disposição para praticar esses dons no dia-a-dia da Igreja, é melhor ficar onde está. Muitos que dizem crer nos dons vivem em um cessacionismo prático. Se há medo de mudar isso ou se o cessacionismo prático é confortável, então é melhor calar a boca e se submeter.

Você consegue fundamentar a sua crença?
Uma segunda pergunta é se conseguimos fundamentar, na Bíblia, não apenas porque os dons extraordinários não cessaram, mas também porque a Igreja perde muito ao não exercê-los. Vou além: caso eles devam ser exercidos, precisamos ter de modo bem claro quais são os princípios bíblicos que vão limitar e orientar a prática dos dons.

No meu caso pessoal, há vários textos aqui no blog que explicam porque creio na contemporaneidade dos dons extraordinários e até alguns limites sobre como esses dons devem ser exercidos. Há bons livros que tratam do assunto. Entre eles, fui influenciado pela Teologia Sistemática de Wayne Grudem, pelo livro “O Dom da Profecia“, também de Wayne Grudem, e os livros “Surpreendido Pelo Espírito Santo” (CPAD) e “Surpreendido Pela Voz de Deus” (Vida), de Jack Deere (ambos fora de catálogo no Brasil). O livro “Cessaram os Dons Espirituais”, que traz diferentes pontos de vista sobre o assunto, também foi de grande utilidade. Infelizmente, também está fora de catálogo.

Não sei que fundamento você usa (ou não) para justificar o lado carismático de sua fé. Para não deixar completamente em branco qual o meu posicionamento, eu vou deixar apenas um texto bíblico aqui:

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão (Atos 2:17-18)

Os últimos dias são o período que começou com a vinda de Jesus Cristo e dura até o retorno dele no fim dos tempos. A marca desse período é o derramar do Espírito Santo e a manifestação do dom da profecia. Ao limitar a manifestação da profecia de Joel apenas ao período apostólico, entendo que a IPB erra e abre mão de uma grande promessa dada por Deus para esse momento da História. Só o Senhor sabe a falta que as visões dos jovens, os sonhos dos velhos e a profecia de filhos e filhas tem feito ao crescimento qualitativo e quantitativo de nossas igrejas.

Não sei qual a sua resposta. Mas a minha é: os dons ditos extraordinários deveriam estar sendo praticados. Ao optar por não fazê-lo e ensinar que eles cessaram, a IPB peca e perde muito por isso. Entendo que não apenas devo ensinar que os dons ainda existem, mas que devo buscar o exercício deles em meu ministério.

Reforma ou Carisma?
Uma terceira pergunta que precisamos nos fazer é: se for preciso escolher, fico com Reforma ou com Carisma? É preciso sermos realistas. Nem todos os pastores vão ter dons ou perfil para começar uma nova igreja. Alguns não vão ter recursos financeiros ou tempo para se dedicarem à plantação. E aí é preciso saber para qual lado pende o seu coração.

Há pastores presbiterianos que consideram o “Carisma” mais importante. Entre eles, coloco aqueles pastores que já não ensinam mais nada de reformado em suas igrejas, mas embarcaram em modas como o G-12. Pastores que não são carismáticos por causa de uma teologia sólida, mas porque querem imitar as igrejas “que crescem” e desfiguraram suas congregações de tal maneira que elas não parecem mais reformadas. Igrejas com cultos de cura, de libertação espiritual, que ensinam sobre demônios territoriais, onde pastores não querem mais governar com presbíteros e invejam os bispos e “apóstolos” de outras denominações. Esses eu nem os considero reformados. Deveriam ser honestos, sair e irem a denominações neopentecostais ou abrirem igrejas onde eles podem governar de modo déspota.

Eu considero a “Reforma” mais importante. Por mais que valorize os dons carismáticos a ponto de expor o meu nome por causa deles, jamais os trocaria pelo ensino reformado da centralidade e suficiência da Escritura, da soberania e da providência de Deus e da glória de Deus como objetivo maior de todo ser humano. Mesmo os simples cinco pontos do calvinismo valem mais do que a prática da profecia. Prefiro dez mil vezes estar em uma igreja onde não possa falar contra o cessacionismo, mas ouça sermões sobre a soberania de Deus, do que estar em uma igreja onde possa exercer qualquer dom, mas não possa ensinar o calvinismo.

E é por isso que considero difícil a um verdadeiro presbiteriano simplesmente sair e abrir um trabalho. Eu creio que o governo da Igreja deve ser feito de modo conciliar. Jesus não entregou a chefia dos apóstolos a nenhum deles. Desde o início, o cristianismo teve uma liderança plural. As igrejas não decidiam sozinhas suas questões doutrinárias, como bem mostra Atos 15 e o Concílio de Jerusalém, o texto áureo do governo presbiteriano. Sair para começar algo novo pode significar uma ruptura com esse tipo de governo para começar algo de modo episcopal, onde o pastor governa a Igreja. E esse não é um modelo que eu considere bíblico. Por todos esses motivos, eu ainda não saí da IPB.

Não saí também porque, ao meu ver, os concílios existem para arbitrar questões. Isso pressupõe que haverá diferentes partidos dentro da denominação em relação a algumas questões. Uma igreja conciliar que proíbe seus pastores de questionar a biblicidade de alguma regra já não é mais conciliar. Se o debate é proibido, já não há mais porque haver concílios que se reúnem com regularidade. E eu entendo que a IPB ainda não debateu devidamente essa questão.

O que quer a IPB?
E aqui vem uma pergunta que a denominação como um todo não quer responder de modo claro. A IPB quer pastores carismáticos em seu meio? Se sim, então essa diferença de opinião precisa ser tolerada. Não há porque perseguir e fazer campanhas difamatórias contra pastores não cessacionistas. Eles deveriam ser tratados com respeito e terem liberdade para, em algum grau, praticarem o que crêem. Se não, a denominação também precisa dizer isso claramente. Mais do que isso: ela não pode mais tolerar que pastores desfigurem suas igrejas como tem acontecido em várias cidades do Brasil, com todo tipo de mau pentecostalismo. Ela não pode mais ordenar pastores que sejam carismáticos. O que está escrito precisa ser cumprido, ainda que isso signifique perder pastores e até igrejas no processo.

A indefinição é que não traz paz verdadeira para a denominação. Se o confessionalismo estrito é a norma, amém! Mas que se tirem os pastores que vivem em desacordo. Alguns deles até ganham destaque denominacional, em vários níveis. Enquanto isso existir, a norma escrita sempre será desafiada. Agora, se a contemporaneidade dos dons é um assunto menor, onde pode existir liberdade de divergência, então que a liberdade seja real. Em outras denominações reformadas, é possível apresentar algumas divergências em relação aos Símbolos de Fé de Westminster. O pastor apresenta as suas divergências e o Presbitério julga se o ministro pode ou não ser recebido, se as divergências são menores ou se são significativas. E, caso o ministro seja aprovado, não há colegas de ministério acusando-os ou perseguindo-os, como acontece no Brasil.

Se a IPB responder, de modo enfático, a resposta para muitos como eu seria mais fácil. Hoje eu não sou administrativamente um pastor. Estou há mais de dois anos no exterior, sem campo na IPB, e estou como membro de uma igreja presbiteriana em Brasília. Devo voltar ao Brasil em 2020 (Deus sabe se sim ou se não), mas eu mesmo não sei se persigo uma reintegração ao ministério pastoral ou se busco exercer o pastorado fora da IPB. Peço até que você ore por isso. Mas, da minha parte, confesso que estou disposto a buscar viver de modo integral tanto Reforma como Carisma. Amo a IPB, gostaria muito que fosse lá. Mas, se não for possível, que Deus me mostre o que fazer.

Não tenho uma resposta para quem me pergunta. Mas espero que esse texto ajude outros colegas reformados e carismáticos a tomarem uma decisão. E espero que esse texto motive pastores e presbíteros da IPB a buscarem um posicionamento mais firme e consistente da denominação sobre essa questão.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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