Uma igreja megalomaníaca

Corretamente, o triunfalismo é um dos grandes perigos que ameaçam as igrejas evangélicas no século XXI. Esse triunfalismo aparece bastante na pregação da Teologia da Prosperidade, nos decretos e profetadas (eu decreto que) e na confissão positiva (as palavras têm poder). Mas ele também aparece nas igrejas que se preocupam com os pobres, que se envolvem com as questões sociais e que são profundamente envolvidas com a Teologia da Missão Integral (TMI). E, talvez, a megalomania dessas últimas seja ainda maior que no caso da Teologia da Prosperidade.

Para provar o meu ponto, vamos começar com um texto da Bíblia:

Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo.
Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava.
 Jesus, entretanto, disse: “Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.” (João 12:1-8)

A missão principal da Igreja
É muito popular a ideia de que a missão principal da Igreja é cuidar dos pobres. Há, inclusive, muitos que sugerem que o dízimo não deveria ser dado a nenhuma igreja local, mas apenas distribuído aos pobres, de acordo com o desejo do dizimista. Qualquer investimento que não seja voltado para a caridade é considerado um desvio de recursos financeiros.

Contudo, o texto acima nos mostra uma outra prioridade: a adoração a Jesus. No dia anterior, Jesus havia ressuscitado a Lázaro. Maria queria agradecer a Cristo por esse grande milagre. O discurso “piedoso” do século XXI diria que ela deveria ter dado dinheiro aos pobres, mas ela preferiu um ato extravagante de adoração: pegou um perfume que custava quase um ano de trabalho (trezentos dias de trabalho) e derramou-o inteiro aos pés de Jesus! A casa inteira ficou com o cheiro do perfume! Ela ainda usou seus cabelos pra enxugar os pés, um ato que denotava humildade, mas também uma intimidade que fosse até indevida.

Judas censurou a mulher pela sua escolha de gratidão. Não precisamos entrar no mérito do caráter de Judas agora: a Bíblia fala que outros discípulos também fizeram a mesma censura (Marcos 14:4). Eles estavam indignados com a atitude, como muitos hoje ficariam. Afinal, o que pode ser mais piedoso e agradável a Deus do que servir ao pobre?

Jesus responde: adorar a Deus é muito mais importante. Maria não deveria ser perturbada. Os pobres sempre poderiam receber o cuidado da Igreja, mas o Cristo na Terra estava prestes a desaparecer. Nenhuma homenagem a Ele era exagerada demais ou mal empregada, porque adorar a Deus é algo que traz honra ao adorador. Por esse motivo, em todo o mundo deve-se contar o que foi feito por ela:

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.  (Marcos 14:6-9)

A Igreja que censura a adoração a Cristo em nome dos pobres é uma Igreja megalomaníaca e idólatra, que dá ao homem aquilo que deve ser dado a Deus.

Mary Magdalen anointing Christâ??s feet - Stained Glass
Catedral de St. Vitus, Praga, Rep. Tcheca

O problema insolúvel
Além do problema da definição da prioridade da Igreja, um outro problema da Igreja megalomaníaca é que ela quer resolver um problema que Jesus disse que nunca seria resolvido. Erradicar a pobreza é uma meta tão impossível como erradicar as doenças. Não é uma tarefa que uma pessoa, as universidades, o Estado e até mesmo a ONU possam atingir. Será uma meta deste milênio e de todos os outros. E nem mesmo o Corpo de Cristo conseguirá erradicá-la.

Por quê? A resposta é bem simples: porque, para acabar com a pobreza, seria preciso acabar com o pecado no mundo. Em última análise, todas as formas de pobreza são consequências do pecado original. Podemos empobrecer porque fomos vagabundos, porque um desastre natural destruiu o que temos, porque uma guerra ou outra catástrofe nos atingiu e até porque o “sistema” impede nossa ascensão social. Tudo isso ou é pecado ou é uma consequência da maldição que Deus lançou sobre a terra por causa do pecado de Adão e Eva no Éden.

Apenas uma pessoa tem o poder de acabar com o pecado, e as doenças, e a pobreza: Cristo Jesus. Apenas Ele é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Por meio do seu sacrifício na cruz, Jesus morre no lugar dos pecadores e o pecado da Igreja é morto com Ele. Por meio de Sua ressurreição, Jesus nos dá uma nova vida, e a Igreja ressuscita com Ele. É assim, morrendo e ressuscitando por nós, que Cristo dará fim ao pecado, à pobreza e às nossas enfermidades e deficiências.

Por isso, precisamos ser razoáveis sobre a nossa capacidade e a nossa missão. Jesus quer que a Igreja seja sal da terra (Mateus 5:13), e não que ela transforme a terra velha em terra nova. Quando a Igreja assume sobre si a tarefa de erradicar a pobreza, ela está assumindo uma tarefa que vai esgotar todas as suas forças e que está além de sua capacidade.  O nosso papel é o de minorar a pobreza, o de socorrer os que estão ao nosso alcance, e não o de transformar o mundo inteiro de modo que o mal desapareça! O pregador que lança um fardo assim sobre a sua igreja local está sendo injusto e megalomaníaco.

Amor aos pobres ou a si mesmo?
Por fim, não podemos deixar de apontar para o fato de que, nem sempre, quem cuida dos pobres está realmente interessado neles. Muitos fizeram da pobreza o seu ganha pão. Porque eles cuidam dos pobres, recebem ofertas e verbas, da Igreja, do Estado e de pessoas comuns. Se a pobreza acabar, a ONG fecha e o dinheiro some. Esses são verdadeiros Judas, falsos apóstolos de Cristo usando o pobre em benefício próprio.

Mas há uma forma mais sutil de cair no mesmo erro de Judas. Cuidar dos pobres é uma forma de ser bem visto pelo mundo. É uma boa obra que acalma a nossa consciência e que parece tão poderosa que chega a cobrir nossos pecados. Vejo isso em Nova Iorque, onde moro. Se você faz voluntariado e dá dinheiro a uma causa social, você pode ser sexualmente imoral, abandonar sua família e até abortar. A caridade cobre todos os seus pecados e faz de você alguém que pode exigir reconhecimento. É a boa obra que salva.

Seja por interesse financeiro, seja por interesse espiritual ou emocional, esse tipo de cuidado com os pobres é idólatra e megalomaníaco. Se for feito dentro da Igreja, isso é usar o nome de Deus para colher benefícios indevidos. É tentar um caminho fora da cruz para achar perdão para os seus pecados e para viver segundo a lei do coração, ao invés de se submeter à Lei de Deus.

Conclusão
O cuidado com os pobres não deve ser um fim em si mesmo. O cristão verdadeiro só possui um fim em sua vida: glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre. A prática da caridade só é legítima se for um desdobramento de nossa adoração a Deus. Se fixarmos os nossos olhos na riqueza ou na pobreza, estamos sendo idólatras da mesma maneira.

E aqui é preciso ter fé. É preciso muita fé para acreditar que, quando derramamos perfume sobre os pés de Cristo e os enxugamos com os nossos cabelos, fazemos um bem maior do que dando tudo o que temos aos pobres. É preciso fé para acreditar que, por meio da adoração a Deus, fazemos um bem maior ao mundo do que gastando toda a nossa energia na caridade.

Contudo, Cristo veio nos salvar do pecado para a adoração. Quando adoramos a Cristo, a nossa salvação é evidenciada. E, quando Cristo é adorado, também pregamos o Evangelho com nossos perfumes e cabelos, e é apenas o Evangelho que pode nos livrar do pecado, que é a raiz de todo o mal do mundo. Dos pobres podemos cuidar em todo o tempo, e devemos fazê-lo. Mas cuidado para não deixar de derramar o bálsamo do melhor da sua vida aos pés de Cristo Jesus.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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Lembrem-se dos pobres

Quando o mundo pensa em pobreza, o Brasil não aparece mais no imaginário coletivo. Ao contrário de muitos países africanos e asiáticos, o Brasil é visto como uma “potência emergente”, uma terra cheia de oportunidades e riquezas. Para haitianos, nigerianos e estrangeiros de outras nacionalidades, o Brasil é atrativo o suficiente para valer o risco de se contratar “coiotes” para tentar viver aqui. Não somos mais vistos como um país “coitado” que deve ser visto com leniência, e sim como um país pronto a assumir mais responsabilidades e gerar riquezas.

Contudo, apesar de todo o progresso material acontecido no Brasil, ainda temos 16 milhões de pessoas vivendo na pobreza, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). É muita gente, cerca de 8,5% da população do país. O assunto é tão valorizado no Brasil que não é exagero dizer que o Bolsa Família, um programa governamental de combate à pobreza, decidiu as eleições presidenciais de 2014. Apesar de todos os escândalos de corrupção e dos problemas econômicos tratados na campanha eleitoral, o Bolsa Família foi decisivo porque 1 em cada 4 brasileiros depende do benefício, mais de 45 milhões de pessoas.

Se formos pensar em quantos brasileiros são dependentes de outros benefícios do Governo, como o seguro-desemprego, é inevitável perguntar: quantos pobres existem no Brasil? Aliás, o que é ser pobre? É apenas uma questão de renda ou envolve, por exemplo, a capacidade de conseguir se sustentar sem depender da ajuda de outros ou do Governo? Porque, se a pobreza e a dependência estão relacionadas, o Brasil é um país profundamente pobre, onde talvez um terço ou mais das pessoas dependa de outros para o seu sustento.

favelajacarta

A pobreza é um assunto extremamente relevante no Brasil, muito mais do que parece. Temos que começar discutindo o que é pobreza e como quantificá-la, com honestidade. Pra mim é óbvio, mas é preciso mostrar à sociedade que tornar um número tão grande de pessoas dependentes do Governo não é um caminho que elimina a pobreza, mas que a preserva. Temos que pensar em formas de reduzir essa dependência. Ignorar esse assunto é ser cego ao fato de que, para o brasileiro, a pobreza é um problema mais sério que a corrupção e a criminalidade. Se fosse diferente, outro candidato teria vencido as eleições de 2014.

Mas as igrejas protestantes insistem em subdimensionar essa questão.

Jogando o problema para outros
Quando falamos em pobreza, basicamente a resposta dos protestantes é a de passar o problema adiante, como se fosse uma batata quente em nossas mãos. A postura política explica pra quem jogamos a batata.

Os que estão mais à esquerda querem que o Estado resolva o assunto. Querem mais programas sociais do Governo e profissionais contratados pelo Estado para cuidarem do problema. Defendem que os necessitados devem procurar a Igreja e serem encaminhados para algum programa governamental. Simples assim, sem muito envolvimento. Quando a igreja tem algum trabalho social, logo procuram uma parceria com o Estado para receber recursos financeiros do Governo e livrar os fiéis da responsabilidade de financiar a caridade. Não importa se, para isso, é preciso desvincular o trabalho social da igreja, se é preciso esconder qualquer referência a Cristo…escondemos a Deus e a Igreja para termos o dinheiro do Governo.

Os que estão mais à direita jogam a batata no colo do pobre. Eles defendem, corretamente, que o dever do Estado é o de promover uma sociedade onde cada um tenha a liberdade de fazer a própria vida e receba, de volta, o resultado de seu esforço individual. Mas negligenciam que há um dever cristão, que o Senhor exige de todos os seres humanos, de amar ao nosso próximo.

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)

E o que é amar? Amar é abrir o coração (e o bolso) e socorrer aos que estão necessitados:

Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. (1 João 3:17-18)

Mais do que isso. A fé que salva é uma fé que faz obras. Biblicamente, as obras são maiores do que a caridade, pois envolvem todos os atos de obediência ao Senhor. Contudo, é inegável que a caridade é mostrada, claramente, como um exemplo de boas obras! Uma fé insensível aos pobres não tem utilidade e não é a fé que nos salva.

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (Tiago 2:14-17)

Vejam bem, os versículos acima são um lembrete a todos, à esquerda e à direita, que a caridade é um dever de todos, mas principalmente dos que são cristãos. Essa batata quente é nossa. É uma responsabilidade individual. Não pode ser delegada ao Estado ou ao pobre! E não deve ser negligenciada.

O lugar da caridade na missão
O meio bíblico de lidar com o problema da pobreza é a caridade (falo mais sobre isso aqui). Ser caridoso é um dos traços do amor e da fé verdadeiros. Com toca a certeza, é uma das questões que merecem a nossa atenção. Mas não é a questão mais séria que deve ocupar a Igreja. E quem ensina isso é o próprio Jesus, quando Maria, a irmã de Lázaro, derrama um perfume caro sobre Ele. Jesus nos ensina que adorá-Lo tem prioridade sobre o cuidado com os pobres.

Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. Jesus, entretanto, disse: Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes. (João 12:3-8)

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua. (Marcos 14:6-9)

Também é verdade que a principal ocupação dos apóstolos era a oração e o ensino da Palavra de Deus. Por analogia, os pastores também devem ocupar-se principalmente com tais deveres. Orar e ministrar a Bíblia tem precedência sobre o “servir as mesas”, que é a prática da caridade dentro da Igreja. Porém…e esse porém é muito importante…o cuidado com os pobres era tão importante que pessoas honestas deveriam ser eleitas pela Igreja para este fim!

Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. (Atos 6:2-4)

E aqui é preciso corrigir um erro grosseiro de interpretação. “Piedosamente”, muitos pastores e presbíteros esquivam-se de um envolvimento maior com a caridade porque essa não seria a função deles. “Há diáconos eleitos para isso”, dizem. Contudo, quando lemos outros textos, vemos que os apóstolos também faziam caridade. A fala de Judas Iscariotes em João 12 não mostra apenas que ele era desonesto, mas mostra que era comum que se usasse parte do dinheiro dado a Jesus para ajudar os necessitados. E um apóstolo cuidava disso. Quando Paulo foi até Jerusalém apresentar seu trabalho apostólico aos Doze, recebeu uma recomendação bem específica:

e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2:9-10)

Assim como hoje há “pastores-mestres” (mais dedicados ao ensino), “pastores-conselheiros” (especialistas em aconselhamento) e até “pastores-administradores” (uma função mais típica de presbíteros regentes), por que não “pastores-diáconos” ou “presbíteros-diáconos”? A liderança da Igreja também precisa se envolver!

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Aplicações
Vamos recordar alguns pontos:

– A caridade é uma marca do amor verdadeiro e da fé que salva;
– A caridade é uma responsabilidade individual, de todos, e não pode ser simplesmente transferida a outros;
– A caridade é tão importante que a Igreja deve eleger homens que se dedicarão, especialmente, a isso;
– A caridade não é o dever principal de um pastor, mas ele deve se lembrar dos pobres em seu ministério.

Isso tudo mostra que a pobreza não é o problema mais grave do Universo, a ponto de ignorarmos todo o resto (como parece ser o ponto de vista dos brasileiros), mas não é uma questão marginal ou secundária para os cristãos. Entretanto, há pouco destaque ao assunto no protestantismo. Vemos isso de várias maneiras:

– Poucas igrejas possuem ministérios dedicados à caridade abertos à participação de leigos;
– Pouquíssimos cristãos estão dispostos a se voluntariar e assumir um compromisso de longo prazo com esses ministérios;
– Os díaconos são mais conhecidos por cuidar do templo e gastam mais tempo com questões administrativas do que no cuidado com os mais pobres;
– Poucos membros se oferecem como voluntários para participar de ministérios de caridade;
– Pouco dinheiro é investido pelas igrejas protestantes em caridade, e há uma pressão muito grande para se buscar financiamento governamental…o que não deixa de ser uma forma de se fazer caridade com o dinheiro dos outros;
– Quase não se prega sobre caridade. Quando pregamos, falamos genericamente em missão integral, mas pouco se diz sobre a necessidade de envolvimento individual e pastoral no combate à pobreza;
– Projetos de plantação de igrejas não começam destinando recursos ou pensando em ministérios de socorro aos necessitados;
– Quantas escolas, creches, hospitais e centros de recuperação protestantes, sustentados pelas igrejas protestantes, vemos hoje?
– Prega-se mais sobre prosperidade e riqueza do que sobre caridade e pobreza.

Creio que é preciso ir além. Quem já foi em países desenvolvidos sabe que o argumento mais forte para justificar eticamente o catolicismo romano é a caridade. Em debates apologéticos, é cada vez mais comum que o apologista católico aponte, com razão, para o grande número de pessoas assistidas em seus sofrimentos por meio do trabalho de católicos. Milhares de sacerdotes ordenados e leigos dedicam a sua vida à caridade dentro do catolicismo. Dedicam à vida, não dez minutos dos seus dias. E os protestantes brasileiros estão muito atrás.

Assim como Judas, hoje há muitos políticos que usam os pobres como meio de desviar dinheiro. Querem um Estado cada vez mais gigante e inchado para poderem encher seus bolsos e usam os pobres como desculpa. O país inteiro sofre com isso. Mas só denunciar a Judas não basta. É preciso seguir o exemplo de Jesus na cruz, e dar a vida pelos outros. É preciso seguir o conselho de Pedro, Tiago e João e nos lembrar dos pobres. É preciso seguir o exemplo de Paulo e nos esforçarmos nisso. É preciso lembrar o que a Bíblia ensina sobre uma fé sem obras e um amor que não se compadece de quem é necessitado.

Precisamos nos arrepender do nosso pecado e nos lembrar dos pobres. Para a graça de Deus. E você pode começar a fazer isso agora.

Um projeto que você deveria conhecer é o Projeto Santa Luz, da Child Fund, apoiado pela Igreja Presbiteriana Nacional. Se outras igrejas se mobilizassem para fazer ações similares, estamos fazendo algo concreto pelo país. Um outro projeto é a Missão Vida, de recuperação de moradores de rua. Ambos os projetos necessitam de orações, recursos e envolvimento.

Mas faça algo onde você está, na sua comunidade. A responsabilidade é minha, sua…de todos. E seremos cobrados, individualmente, no Dia do Juízo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro