Foro privilegiado e o julgamento de líderes: uma reflexão bíblica

“Todos são iguais perante a Lei”, diz a Constituição do Brasil. Contudo, na prática, as coisas não parecem ser assim. Enquanto pessoas comuns são julgadas por juízes de primeira instância, as autoridades têm direito ao “foro privilegiado”. Dependendo do cargo que ocupam, as autoridades são julgadas por tribunais de instâncias superiores. Em princípio, esse privilégio visa defender o interesse público e não é algo pessoal, pois liga-se somente ao cargo, e não à pessoa que o ocupa.

Contudo, o foro privilegiado pode ser desvirtuado, como bem mostra a política brasileira atual. Nomeações como as de Carolina Pimentel são questionadas, pois usariam o foro privilegiado como uma maneira de escapar de investigações e pedidos de prisão. O caso mais notório é o do ex-presidente Lula, que foi nomeado ministro de Estado, supostamente para escapar de investigações da Operação Lava-Jato. No caso, a nomeação está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal.

Não é à toa que o instituto do foro privilegiado está sendo questionado no Brasil. E o cristão, como deve se posicionar? A questão é mais complexa do que parece, e não pretendo dar um parecer definitivo e bem fundamentado aqui. Entretanto, creio que a Bíblia traz alguns princípios espirituais que ajudam nossa análise. Qual o ensino bíblico sobre o julgamento de líderes? Vamos usar 1 Timóteo 5 como nosso texto-base:

Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade. (1 Timóteo 5:17-21, grifos meus)

O princípio da honra

Presbíteros são os líderes da Igreja do século I. O termo significa “ancião” e também é usado para descrever os pastores. O primeiro ensino do texto é o de que os presbíteros que presidem bem devem ser merecedores de “dobrados honorários”. A palavra “honorários” pode ser traduzida como “avaliação pela qual o preço ‘fixado”, mas também tem o sentido de “honra, reverência, deferência”.

O princípio é o de que líderes devem ser honrados, principalmente quando executam bem a sua função e se ocupam de tarefas mais importantes. No caso de presbíteros, isso se aplica àqueles que são bons líderes e se dedicam à pregação e ao ensino da Bíblia. Essa honra se manifesta por meio do pagamento do salário, como um reconhecimento do trabalho feito por eles, e por meio do respeito e reverência que devemos a eles.

De modo análogo, as autoridades civis também têm o direito de serem remuneradas, por meio dos impostos. O trabalho delas é reconhecido pelo Senhor, que também exige de nós que lhes demos a honra que lhes é devida.

Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Romanos 13:6-7)
O princípio do julgamento justo
A honra não livra as autoridades espirituais de responderem pelos seus atos. Presbíteros são líderes espirituais, mas que podem ser denunciados quando erram. A condição exigida no Novo Testamento é o de que mais de uma pessoa tenha testemunhado o fato.
Em princípio, isso parece ser uma espécie de “foro privilegiado”, mas o princípio das duas testemunhas é aplicado a todos os casos de disciplina bíblica, seja no Antigo ou no Novo Testamento:
Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniqüidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato. (Deuteronômio 19:15)
Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. (Mateus 18:15-16)
Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida. (2 Coríntios 13:1)
A exigência das duas testemunhas é uma forma de garantir um julgamento justo, e se aplica tanto a pessoas comuns (irmão), como a autoridades. É a regra geral para qualquer pecado cometido, como forma de se estabelecer um fato.
As autoridades civis também têm direito a um julgamento justo. Biblicamente, porém, esse direito é o mesmo dado a pessoas comuns.
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O princípio do exemplo
Líderes são exemplos para seus liderados. Se um líder não é punido quando comete uma falta grave, os liderados perdem o temor e começam a pecar. É exatamente o que acontece hoje no Brasil. Uma vez que as autoridades raramente são punidas, o brasileiro comum deixa de ver problema em cometer pequenos atos de corrupção. Ou pior: muitos partem mesmo para o crime. Não há meio mais eficaz de liderar do que o exemplo.
Por isso, quando os presbíteros “vivem no pecado”, a Bíblia ensina que eles devem ser repreendidos na frente de todos. É uma sentença mais rigorosa do que a de um cristão comum, que seria repreendido privadamente. Todavia, uma vez que o presbítero ocupa uma função pública e deve ser um referencial para a Igreja, ele é julgado com um rigor maior, “para que também os demais temam”. Quanto maior o conhecimento, ou a autoridade, mais rigoroso é o juízo:
Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. (Tiago 3:1)
As autoridades civis também respondem por seus atos e são julgadas quando erram. Não é porque Deus as constituiu que elas podem fazer o que quiserem. O Salmo 82 é uma grande prova dessa verdade:
1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.
2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?
3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado.
4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.
5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra.
6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.
7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.
8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações. (Salmo 82)
O princípio da imparcialidade
Um último princípio a ser analisado é o da imparcialidade. No texto-base, Paulo encerra suas recomendações a Timóteo sobre presbíteros, dizendo que ele não deveria fazer nada com parcialidade. Os conselhos que ele dá sobre as lideranças deve ser guardado sem prevenção, ou seja, sem reservas ou receio de se cometer algum erro.
Secularmente, a autoridade goza da presunção da honestidade. Presume-se que ela não errou, a não ser que exista prova em contrário. Nem sempre o cidadão comum é tratado assim, e precisa provar a sua inocência em alguns casos, além de ser julgado com maior rigor em certas situações. Na Igreja também somos tentados a tratar pastores e presbíteros da mesma maneira: a posição pressupõe um certo nível de integridade. Infelizmente, os cristãos “comuns” não gozam da mesma presunção, embora também se espere deles um certo nível de integridade.
Autoridades e pessoas comuns devem ser julgados imparcialmente, sem qualquer tipo de favorecimento. Se, por exemplo, a lei brasileira dá privilégios a autoridades e a pessoas com curso superior, a Bíblia não adota esse padrão em seus julgamentos.
Cristo: nosso modelo de líder
Parece-me claro que os princípios bíblicos parecem não validar o foro privilegiado. Entretanto, o argumento mais forte que encontro para me opor ao privilégio não está nos princípios acima, mas em Cristo Jesus.
Cada líder tem a missão de representar a Cristo dentro de sua esfera de poder. Isso vai desde o irmão mais velho cuidando dos menores até os reis e presidentes. Quando honramos os pais, por exemplo, isso nos lembra que devemos honrar muito mais a Deus e ao seu Filho. Jesus é aquele que julga com justiça. Ele é o exemplo perfeito de como devemos viver. E Ele é imparcial em seus julgamentos.
No entanto, o próprio Cristo foi julgado e condenado injustamente, apesar de sua perfeição! Se Cristo fosse uma autoridade do mundo, certamente ele teria tentado obter algum tipo de “foro privilegiado” para escapar. Jesus tinha o direito de fazê-lo, como Filho de Deus. Porém, Ele preferiu não usar seu privilégio:
Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?  Naquele momento, disse Jesus às multidões: Saístes com espadas e porretes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias, no templo, eu me assentava [convosco] ensinando, e não me prendestes. Tudo isto, porém, aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram. (Mateus 26:53-56)
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)
Por amor aos seus liderados, Cristo não recorreu a anjos ou ministros. Ele aceitou ser julgado e até condenado em um julgamento injusto. Ele mostrou que o verdadeiro líder deve estar disposto até a morrer pelos seus! Na verdade, a condenação de Jesus é o motivo pelo qual nós somos salvos:
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1 Pedro 3:18)
Pense em como isso é diferente dos líderes que usam o foro pivilegiado para se protegerem, ainda que prejudicando a sociedade! As autoridades desse mundo querem usar o seu poder para se protegerem do povo. Cristo faz o oposto. Ele aceita sofrer o mais injusto dos julgamentos, com o maior rigor possível, para que nós fôssemos salvos.
Porque Ele sofreu e ressuscitou, líderes e liderados que erram e vivem no pecado podem ter esperança. Sim, até mesmo os políticos e magistrados brasileiros. Basta que se rendam ao Líder Supremo, à Autoridade Suprema, que é Jesus Cristo.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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Resolve, Daniel! Ou A igreja que não ora pelo Brasil

Sem dúvida alguma, um dos assuntos mais importantes sendo discutidos hoje, em todo o mundo, é o relacionamento entre religião e política. No Oriente Médio, vemos desde a proibição de um partido religioso no Egito (a Irmandade Muçulmana) até os conflitos com o Estado Islâmico, que impõe uma versão radical da sharia em seus territórios. No Ocidente, assuntos como o casamento homoafetivo, o aborto, a educação de filhos e a imigração geram intensos debates sobre a liberdade religiosa e a laicidade do Estado. Nas ditaduras, procura-se controlar rigorosamente qualquer tipo de manifestação religiosa, para evitar a queda de regimes, como aconteceu no Leste Europeu, onde os cristãos ajudaram a derrubar o comunismo. Basta lembrar o papel do papa João Paulo II na luta contra o comunismo polonês.

No Brasil, não é diferente…mas, como sempre, tem a sua particularidade. Por um lado, as bancadas católica e evangélica são atuantes e recebem várias críticas nos assuntos comportamentais, como aqueles ligados ao aborto e ao homossexualismo. Contudo, a atuação morre aí. Enquanto o Brasil assiste a uma grave crise política, com denúncias de corrupção, pedidos de impeachment da presidente e manifestações que levam milhares de pessoas às ruas, os políticos e as igrejas evangélicas permanecem em silêncio. Nenhuma palavra, seja em uma direção, seja em outra, é dita. É como se o Evangelho não tivesse nenhuma resposta ou orientação para a realidade do nosso país.

Manifestação do dia 12 de abril em Brasília (DF)
Manifestação do dia 12 de abril em Brasília (DF)

Um silêncio inexplicável
Contudo, esse silêncio é, no mínimo, incoerente, em qualquer grande segmento do cristianismo. Os católicos sempre influenciaram a política, tanto que até hoje o papa se pronuncia regularmente sobre a política internacional. Já a Reforma Protestante desconectou o poder dos reis da Igreja Católica, trouxe guerras e revoluções políticas e ajudou a acabar com o absolutismo medieval. Várias experiências políticas surgiram do protestantismo, como a famosa Genebra de João Calvino.

Como já dissemos, Genebra era uma cidade governada por concílios. Antes de Calvino não havia uma normatização legislativa organizada e explicitada para todos. Movido pelo seu zelo de sempre ser fiel ao ensino moral da Bíblia, e ajudado por seu conhecimento jurídico, ele foi o agente e mentor de várias mudanças políticas. É bem verdade que Calvino só foi chamado para se envolver ajudando na confecção do corpo de leis para a cidade, posteriormente à sua intensa atividade na reformulação da vida religiosa. Aqui destacamos dois pontos, por considerá-los de maior grandeza, a relação entre a igreja e estado, e o governo com a participação popular. (Rev. Sérgio Paulo Ribeiro Lyra)

Mesmo entre os pentecostais, o simples fato deles se engajarem para eleger uma numerosa bancada evangélica já mostra que há o entendimento de que eles devem influenciar a política. Até grupos cristãos historicamente mais enfáticos na separação entre a Igreja e o Estado, como é o caso dos batistas, possuem um Martin Luther King Jr que mudou a história dos Estados Unidos.

Historicamente, a omissão dos protestantes e evangélicos brasileiros é inexplicável. A história, a teologia e a prática da maioria desses grupos mostra que eles não consideram que a Igreja deva permanecer alheia aos debates políticos. O passado e o presente mostram que eles não consideram que a Igreja deva cuidar somente de assuntos espirituais. No caso específico dos seguidores de João Calvino é ainda pior, já que eles seguem o ensino de que não há uma separação entre o sagrado e o secular e que tudo é sagrado.

Argumentos como “devemos nos preocupar com a evangelização” ou de que apenas assuntos ligados à fé devem ser falados nos púlpitos e nos palanques mostram-se hipócritas quando há um empenho para eleger deputados ou se celebra a vida e a morte de cristãos que atuaram politicamente, como Dietrich Bonhoeffer, que foi executado por sua luta contra o nazismo.

Dietrich Bonhoeffer
Dietrich Bonhoeffer

O silêncio pecaminoso dos líderes
Mas pior do que a incoerência histórica é o pecado de omissão que se esconde por trás desse silêncio. Sim, é verdade que nem Jesus e nem os discípulos se engajaram para derrubar o Império Romano ou para implementar um reino de Deus terreno. Sim, é verdade que Jesus ensinou que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Contudo, isso não implica que o Novo Testamento silencie sobre os pecados e deformidades da política. Além do exemplo claro de João Batista, há várias condenações mais discretas (porém claras) presentes no texto neotestamentário.

Assim, pois, com muitas outras exortações anunciava o evangelho ao povo; mas Herodes, o tetrarca, sendo repreendido por ele, por causa de Herodias, mulher de seu irmão, e por todas as maldades que o mesmo Herodes havia feito,acrescentou ainda sobre todas a de lançar João no cárcere. (Lucas 3:18-20)

Naquela mesma hora, alguns fariseus vieram para dizer-lhe: Retira-te e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te. Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia, terminarei. (Lucas 13:31-32)

Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve. (Lucas 22:25-26)

Ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram; agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus. (Atos 4:24-30)

Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria. (Apocalipse 18:2-3)

Seja por meio da pregação (João Batista), do ensino (Jesus), das orações (os apóstolos em Atos) ou da profecia (o anúncio do julgamento divino no Apocalipse), a Igreja neotestamentária denunciou o pecado dos governantes seculares. O simples fato de tais relatos serem registrados por escrito e lidos nas igrejas já era uma forma de pregar contra o pecado. O Novo Testamento não é o fim da vigorosa atuação política profética que existia no Antigo Testamento. A ênfase é outra (a teocracia judaica acabou), mas a pregação continua viva.

O que não se pode aceitar é que os pastores e líderes cristãos fiquem em silêncio diante do que acontece no Brasil. Que não exista uma voz de destaque que se levante para despertar a Igreja e mobilizá-la diante da grave situação de crise que enfrentamos. Sem pregações e ensinos da liderança, a Igreja apenas assiste ao que está acontecendo e é levada pelo rumo dos acontecimentos.

Martin Luther King Jr em Selma
Martin Luther King Jr em Selma

O silêncio pecaminoso dos fiéis

O silêncio nos púlpitos e no ensino da Igreja é culpa dos pastores e líderes. Mas os liderados não podem se omitir da culpa pela ausência de orações em favor do Brasil. Hoje não há um único movimento nacional de orações pelo país e por nossas autoridades. Quebramos assim o mandamento bíblico que nos mostra como podemos ter uma vida tranquila e mansa.

Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. (1 Timóteo 2:1-2)

Por que o Brasil vive uma onda de violência tão grande, a ponto de morrerem mais pessoas aqui do que em guerras sangrentas em outros países? Por que não temos tranquilidade para investir e prosperar economicamente? Por que a piedade e o respeito se tornaram raros, enquanto o país mergulha na sensualidade de prazeres carnais e na irreverência desmedida com tudo e com todos? A culpa é de quem? Do Governo? Antes de culparmos os outros, assumamos que a culpa é minha e é sua, de todos os cristãos filhos de Deus que oram e suplicam pouco pelo país e por nossas autoridades. Quando fazemos isso, não é mesmo?

Apenas colhemos o que plantamos. A Bíblia nos mostra o caminho para a transformação da sociedade. Mas o silêncio dos púlpitos acaba produzindo o silêncio dos fiéis em seus quartos e cultos. Como nunca se prega sobre o país, tendemos a pensar que esse tipo de assunto não faz parte da vida cristã. De modo bem torto, concordamos com todos os militantes ateus que falam que a fé deve ser completamente excluída da política.

Nas poucas vezes que pude visitar igrejas norte-americanas, pude ver que lá não é assim. Vi pastores comentando sobre política durante os cultos e fazendo orações pelas autoridades nacionais e municipais. Vi orações serem feitas sobre assuntos debatidos no Congresso americano e até sobre protestos em países islâmicos. E tudo isso no culto dominical: era um momento de oração rotineiro. Se um fiel de lá quiser orar pelo país na vida diária, ele saberá pelo que orar. E no Brasil?

Resolve, Daniel!

Como resolver isso? Talvez um movimento de oração, o Desperta Débora, tenha uma resposta. Nos anos 90, mães começaram a se encontrar para interceder a Deus pela vida dos seus filhos. Baseados no exemplo bíblico de Débora, elas foram “despertas” e começaram a orar. Tenho certeza que as mães que foram fiéis em oração terão muitas histórias maravilhosas para contar sobre como Jesus salvou e preservou seus filhos ao longo desses últimos 20 anos.

Hoje é preciso que nos inspiremos em outra figura bíblica, e sugiro o profeta Daniel. Nele vejo o que falta a líderes e a fiéis. Como profeta, ele não teve receio de apontar o pecado e aconselhar reis poderosos.

Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniqüidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranqüilidade. (Daniel 4:27)

Tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que sabias tudo isto. E te levantaste contra o Senhor do céu, pois foram trazidos os utensílios da casa dele perante ti, e tu, e os teus grandes, e as tuas mulheres, e as tuas concubinas bebestes vinho neles; além disso, deste louvores aos deuses de prata, de ouro, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra, que não vêem, não ouvem, nem sabem; mas a Deus, em cuja mão está a tua vida e todos os teus caminhos, a ele não glorificaste. (Daniel 5:22-23)

Daniel não foi somente um profeta e um confrontador ousado. Ele foi também um homem que orava intensamente pelo seu povo.

Falava eu ainda, e orava, e confessava o meu pecado e o pecado do meu povo de Israel, e lançava a minha súplica perante a face do SENHOR, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus (Daniel 9:10)

O que nos falta é isso. Precisamos nos reunir para orar pelo país. Para confessar o nosso pecado individual e os pecados do nosso povo. Para suplicar, ou seja, orar intensamente, pedir intensamente pela transformação do Brasil. Sem isso, que mudança podemos esperar?

O que nos falta é resolvermos fazer isso. No momento em que tomarmos uma decisão, aí sim começaremos a fazer.

Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. (Daniel 1:8)

Resolve, “Daniel”! Aí sim o Senhor vai nos usar para mudar o Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Lembrem-se dos pobres

Quando o mundo pensa em pobreza, o Brasil não aparece mais no imaginário coletivo. Ao contrário de muitos países africanos e asiáticos, o Brasil é visto como uma “potência emergente”, uma terra cheia de oportunidades e riquezas. Para haitianos, nigerianos e estrangeiros de outras nacionalidades, o Brasil é atrativo o suficiente para valer o risco de se contratar “coiotes” para tentar viver aqui. Não somos mais vistos como um país “coitado” que deve ser visto com leniência, e sim como um país pronto a assumir mais responsabilidades e gerar riquezas.

Contudo, apesar de todo o progresso material acontecido no Brasil, ainda temos 16 milhões de pessoas vivendo na pobreza, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). É muita gente, cerca de 8,5% da população do país. O assunto é tão valorizado no Brasil que não é exagero dizer que o Bolsa Família, um programa governamental de combate à pobreza, decidiu as eleições presidenciais de 2014. Apesar de todos os escândalos de corrupção e dos problemas econômicos tratados na campanha eleitoral, o Bolsa Família foi decisivo porque 1 em cada 4 brasileiros depende do benefício, mais de 45 milhões de pessoas.

Se formos pensar em quantos brasileiros são dependentes de outros benefícios do Governo, como o seguro-desemprego, é inevitável perguntar: quantos pobres existem no Brasil? Aliás, o que é ser pobre? É apenas uma questão de renda ou envolve, por exemplo, a capacidade de conseguir se sustentar sem depender da ajuda de outros ou do Governo? Porque, se a pobreza e a dependência estão relacionadas, o Brasil é um país profundamente pobre, onde talvez um terço ou mais das pessoas dependa de outros para o seu sustento.

favelajacarta

A pobreza é um assunto extremamente relevante no Brasil, muito mais do que parece. Temos que começar discutindo o que é pobreza e como quantificá-la, com honestidade. Pra mim é óbvio, mas é preciso mostrar à sociedade que tornar um número tão grande de pessoas dependentes do Governo não é um caminho que elimina a pobreza, mas que a preserva. Temos que pensar em formas de reduzir essa dependência. Ignorar esse assunto é ser cego ao fato de que, para o brasileiro, a pobreza é um problema mais sério que a corrupção e a criminalidade. Se fosse diferente, outro candidato teria vencido as eleições de 2014.

Mas as igrejas protestantes insistem em subdimensionar essa questão.

Jogando o problema para outros
Quando falamos em pobreza, basicamente a resposta dos protestantes é a de passar o problema adiante, como se fosse uma batata quente em nossas mãos. A postura política explica pra quem jogamos a batata.

Os que estão mais à esquerda querem que o Estado resolva o assunto. Querem mais programas sociais do Governo e profissionais contratados pelo Estado para cuidarem do problema. Defendem que os necessitados devem procurar a Igreja e serem encaminhados para algum programa governamental. Simples assim, sem muito envolvimento. Quando a igreja tem algum trabalho social, logo procuram uma parceria com o Estado para receber recursos financeiros do Governo e livrar os fiéis da responsabilidade de financiar a caridade. Não importa se, para isso, é preciso desvincular o trabalho social da igreja, se é preciso esconder qualquer referência a Cristo…escondemos a Deus e a Igreja para termos o dinheiro do Governo.

Os que estão mais à direita jogam a batata no colo do pobre. Eles defendem, corretamente, que o dever do Estado é o de promover uma sociedade onde cada um tenha a liberdade de fazer a própria vida e receba, de volta, o resultado de seu esforço individual. Mas negligenciam que há um dever cristão, que o Senhor exige de todos os seres humanos, de amar ao nosso próximo.

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)

E o que é amar? Amar é abrir o coração (e o bolso) e socorrer aos que estão necessitados:

Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. (1 João 3:17-18)

Mais do que isso. A fé que salva é uma fé que faz obras. Biblicamente, as obras são maiores do que a caridade, pois envolvem todos os atos de obediência ao Senhor. Contudo, é inegável que a caridade é mostrada, claramente, como um exemplo de boas obras! Uma fé insensível aos pobres não tem utilidade e não é a fé que nos salva.

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (Tiago 2:14-17)

Vejam bem, os versículos acima são um lembrete a todos, à esquerda e à direita, que a caridade é um dever de todos, mas principalmente dos que são cristãos. Essa batata quente é nossa. É uma responsabilidade individual. Não pode ser delegada ao Estado ou ao pobre! E não deve ser negligenciada.

O lugar da caridade na missão
O meio bíblico de lidar com o problema da pobreza é a caridade (falo mais sobre isso aqui). Ser caridoso é um dos traços do amor e da fé verdadeiros. Com toca a certeza, é uma das questões que merecem a nossa atenção. Mas não é a questão mais séria que deve ocupar a Igreja. E quem ensina isso é o próprio Jesus, quando Maria, a irmã de Lázaro, derrama um perfume caro sobre Ele. Jesus nos ensina que adorá-Lo tem prioridade sobre o cuidado com os pobres.

Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. Jesus, entretanto, disse: Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes. (João 12:3-8)

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua. (Marcos 14:6-9)

Também é verdade que a principal ocupação dos apóstolos era a oração e o ensino da Palavra de Deus. Por analogia, os pastores também devem ocupar-se principalmente com tais deveres. Orar e ministrar a Bíblia tem precedência sobre o “servir as mesas”, que é a prática da caridade dentro da Igreja. Porém…e esse porém é muito importante…o cuidado com os pobres era tão importante que pessoas honestas deveriam ser eleitas pela Igreja para este fim!

Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. (Atos 6:2-4)

E aqui é preciso corrigir um erro grosseiro de interpretação. “Piedosamente”, muitos pastores e presbíteros esquivam-se de um envolvimento maior com a caridade porque essa não seria a função deles. “Há diáconos eleitos para isso”, dizem. Contudo, quando lemos outros textos, vemos que os apóstolos também faziam caridade. A fala de Judas Iscariotes em João 12 não mostra apenas que ele era desonesto, mas mostra que era comum que se usasse parte do dinheiro dado a Jesus para ajudar os necessitados. E um apóstolo cuidava disso. Quando Paulo foi até Jerusalém apresentar seu trabalho apostólico aos Doze, recebeu uma recomendação bem específica:

e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2:9-10)

Assim como hoje há “pastores-mestres” (mais dedicados ao ensino), “pastores-conselheiros” (especialistas em aconselhamento) e até “pastores-administradores” (uma função mais típica de presbíteros regentes), por que não “pastores-diáconos” ou “presbíteros-diáconos”? A liderança da Igreja também precisa se envolver!

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Aplicações
Vamos recordar alguns pontos:

– A caridade é uma marca do amor verdadeiro e da fé que salva;
– A caridade é uma responsabilidade individual, de todos, e não pode ser simplesmente transferida a outros;
– A caridade é tão importante que a Igreja deve eleger homens que se dedicarão, especialmente, a isso;
– A caridade não é o dever principal de um pastor, mas ele deve se lembrar dos pobres em seu ministério.

Isso tudo mostra que a pobreza não é o problema mais grave do Universo, a ponto de ignorarmos todo o resto (como parece ser o ponto de vista dos brasileiros), mas não é uma questão marginal ou secundária para os cristãos. Entretanto, há pouco destaque ao assunto no protestantismo. Vemos isso de várias maneiras:

– Poucas igrejas possuem ministérios dedicados à caridade abertos à participação de leigos;
– Pouquíssimos cristãos estão dispostos a se voluntariar e assumir um compromisso de longo prazo com esses ministérios;
– Os díaconos são mais conhecidos por cuidar do templo e gastam mais tempo com questões administrativas do que no cuidado com os mais pobres;
– Poucos membros se oferecem como voluntários para participar de ministérios de caridade;
– Pouco dinheiro é investido pelas igrejas protestantes em caridade, e há uma pressão muito grande para se buscar financiamento governamental…o que não deixa de ser uma forma de se fazer caridade com o dinheiro dos outros;
– Quase não se prega sobre caridade. Quando pregamos, falamos genericamente em missão integral, mas pouco se diz sobre a necessidade de envolvimento individual e pastoral no combate à pobreza;
– Projetos de plantação de igrejas não começam destinando recursos ou pensando em ministérios de socorro aos necessitados;
– Quantas escolas, creches, hospitais e centros de recuperação protestantes, sustentados pelas igrejas protestantes, vemos hoje?
– Prega-se mais sobre prosperidade e riqueza do que sobre caridade e pobreza.

Creio que é preciso ir além. Quem já foi em países desenvolvidos sabe que o argumento mais forte para justificar eticamente o catolicismo romano é a caridade. Em debates apologéticos, é cada vez mais comum que o apologista católico aponte, com razão, para o grande número de pessoas assistidas em seus sofrimentos por meio do trabalho de católicos. Milhares de sacerdotes ordenados e leigos dedicam a sua vida à caridade dentro do catolicismo. Dedicam à vida, não dez minutos dos seus dias. E os protestantes brasileiros estão muito atrás.

Assim como Judas, hoje há muitos políticos que usam os pobres como meio de desviar dinheiro. Querem um Estado cada vez mais gigante e inchado para poderem encher seus bolsos e usam os pobres como desculpa. O país inteiro sofre com isso. Mas só denunciar a Judas não basta. É preciso seguir o exemplo de Jesus na cruz, e dar a vida pelos outros. É preciso seguir o conselho de Pedro, Tiago e João e nos lembrar dos pobres. É preciso seguir o exemplo de Paulo e nos esforçarmos nisso. É preciso lembrar o que a Bíblia ensina sobre uma fé sem obras e um amor que não se compadece de quem é necessitado.

Precisamos nos arrepender do nosso pecado e nos lembrar dos pobres. Para a graça de Deus. E você pode começar a fazer isso agora.

Um projeto que você deveria conhecer é o Projeto Santa Luz, da Child Fund, apoiado pela Igreja Presbiteriana Nacional. Se outras igrejas se mobilizassem para fazer ações similares, estamos fazendo algo concreto pelo país. Um outro projeto é a Missão Vida, de recuperação de moradores de rua. Ambos os projetos necessitam de orações, recursos e envolvimento.

Mas faça algo onde você está, na sua comunidade. A responsabilidade é minha, sua…de todos. E seremos cobrados, individualmente, no Dia do Juízo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro