Gibeá é aqui

No Brasil, a quantidade de crimes chocantes é tão alta, que já se criou uma espécie de insensibilidade em relação à violência. Embora a imagem dos brasileiros seja a de um povo tranquilo, e até devoto, a verdade é que os níveis de pecado e de iniquidade são tão altos, que chegam a superar sociedades que foram destruídas na Bíblia por sua maldade. E isso fica claro quando ficamos sabendo de uma menina de 16 anos que foi estuprada por cerca de 30 traficantes de droga no “Morro da Barão”, no Rio de Janeiro.

Não, isso não aconteceu em lugares distantes e exóticos, como a Índia ou o Afeganistão. Aconteceu no Rio, e os estupradores ainda postaram fotos e vídeos gabando-se do que fizeram. Como é possível que um estupro coletivo seja comemorado e compartilhado em redes sociais? A que ponto chegamos?

Histórias assim nos lembram porque a Bíblia conta histórias igualmente escabrosas, como o estupro e assassinato da mulher do levita, narrado nos três últimos capítulos do livro de Juízes. Infelizmente, o retrato da sociedade brasileira lembra muito a Israel daqueles dias tão conturbados.

Desrespeito à mulher

Uma primeira caracteristica comum que podemos encontrar nos dois episódios é o desrespeito à mulher. Tanto lá como cá, ainda há pessoas que vêem as mulheres como seres inferiores aos homens, que acham que podem tratá-las como se fossem objetos, bens, uma espécie de posse. Apesar de separados por milênios, as duas histórias mostram uma inversão de papéis entre o homem e a mulher. A Bíblia ensina que a mulher deve ser protegida pelo homem. Mas, nos dois casos, a mulher é atacada por eles.

A história de Juízes começa com uma briga conjugal entre um homem da tribo de Levi e sua concubina. Esse status já a coloca em uma situação inferior, porque ela era mulher do levita, mas não tinha todos os direitos e honras devidos a uma esposa. Por algum motivo, a concubina deixa o levita e retorna à casa de seu pai. O levita vai atrás dela e consegue se reconciliar, e os dois voltam pra casa.

No caminho, eles precisam pernoitar em alguma cidade. O servo do levita sugere que eles parem em Jebus, uma cidade cananéia. Os cananeus eram conhecidos por sua pecaminosidade, como bem ilustra a Bíblia:

Depois que o Senhor, o seu Deus, os tiver expulsado da presença de você, não diga a si mesmo: “O Senhor me trouxe aqui para tomar posse desta terra por causa da minha justiça”. Não! É devido à impiedade destas nações que o Senhor vai expulsá-las da presença de você. Não é por causa de sua justiça ou de sua retidão que você conquistará a terra delas. Mas é por causa da maldade destas nações que o Senhor, o seu Deus, as expulsará de diante de você, para cumprir a palavra que o Senhor prometeu, sob juramento, aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó. (Deuteronômio 9:4-5)

O levita prefere evitar o perigo, e diz que eles irão andar até uma cidade de Israel. Em tese, o que se esperava é que os israelitas fossem mais piedosos do que os cananeus. Chegando na cidade de Gibeá, da tribo de Benjamim, eles são acolhidos por um senhor. E aí acontece um fato escabroso: o estupro e o assassinato da concubina:

Enquanto eles se alegravam, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, batendo à porta; e falaram ao velho, senhor da casa, dizendo: Traze para fora o homem que entrou em tua casa, para que abusemos dele. O senhor da casa saiu a ter com eles e lhes disse: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura. Porém aqueles homens não o quiseram ouvir; então, ele pegou da concubina do levita e entregou a eles fora, e eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e, subindo a alva, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro. (Juízes 19:22-26)
É claro que é difícil se colocar no lugar do homem velho. O que fazer quando dezenas de homens, mais novos do que você, se juntam e querem estuprar o seu hóspede? Talvez ele não pudesse evitar um grande ato de violência. Em seu desespero, ele considera a filha e a concubina como uma saída, e as oferece aos estupradores. Mais do que isso: ele mesmo entra em casa, pegou a mulher do levita e a entregou, do lado de fora, na mão dos estupradores. Aquele que se ofereceu para acolher e proteger, foi quem entregou a mulher aos seus abusadores.
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Igualmente chocante é a omissão do marido no meio de tudo isso. Ele poderia ter ido e morrido para salvar a sua mulher e o velho. Se tivesse feito isso, ele cumpriria com o seu chamado de marido, como a Bíblia deixa explícito séculos depois, em Efésios 5:25:
Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela
Esse “entregar” foi, literalmente, morrer. Jesus foi para a cruz morrer pela sua Noiva, a Igreja, para evitar que ela sofresse o juízo divino e fosse liberta do poder de Satanás, o Abusador-Mor dos seres humanos. Conscientemente, Jesus enfrentou torturas físicas e uma morte dolorosa, para nos poupar. É isso o que maridos devem fazer por suas esposas.
Porém, quando um homem é incapaz de assumir um relacionamento, a ponto de dar a ele a dignidade de um casamento, é difícil pensar que ele seja capaz de tal sacrifício. O levita não tentou impedir o velho. Ele não tentou negociar com ninguém. Ele ficou dentro de casa, sabendo que sua mulher estava sendo violentada. Ele esperou até o dia amanhecer para sair e ver a sua esposa. Ele deveria morrer por ela, mas ela morreu para salvar a vida dele.
O mesmo desprezo ocorreu no Morro da Barão. Homens que traficam drogas mostram que não se importam muito com a dignidade humana. São violentos. Usam armas para enfrentar as autoridades, dominam sobre uma comunidade como se fossem o Estado ali. Não é de se espantar que eles resolvam estuprar uma mulher. Felizmente, no caso brasileiro, a menina sobreviveu. Mas poderia ter morrido, como muitas outras que são vítimas de estupros e violências de todo tipo. Aliás, figuradamente, o que não faltam são mulheres que “morrem” para proteger, salvar ou confortar homens.
A proteção dos maus
Por si sós, os relatos são malignos o suficiente. Mas a maldade humana sempre pode descer mais alguns degraus. É o que acontece, de modo geral, no Brasil e naquele caso particular, retratado em Juízes.
Primeiro, vamos à Bíblia. Após a morte da sua mulher, o levita esquarteja seu corpo e o envia para as doze tribos de Israel. Elas se reúnem e o levita conta o que aconteceu. Os demais israelitas querem justiça. Mas, quando eles pediram que Gibeá lhes entregasse os malfeitores, o que aconteceu é estarrecedor:
As tribos de Israel enviaram homens por toda a tribo de Benjamim, para lhe dizerem: Que maldade é essa que se fez entre vós? Dai-nos, agora, os homens, filhos de Belial, que estão em Gibeá, para que os matemos e tiremos de Israel o mal; porém Benjamim não quis ouvir a voz de seus irmãos, os filhos de Israel. Antes, os filhos de Benjamim se ajuntaram, vindos das cidades em Gibeá, para saírem a pelejar contra os filhos de Israel. (Juízes 20:12-14)
A tribo de Benjamim se uniu para proteger os assassinos! Mais do que isso: os benjamitas pegaram em armas para lutar contra Israel! A atitude parece-se muito com a que certos setores da sociedade brasileira adotam em relação aos criminosos. Se um menor comete um crime bárbaro como esse (lembra do Champinha?), há quem defenda o estuprador e assassino. Se falamos em pena de morte, ou em prisão perpétua, há escritores, personalidades e até autoridades que se levantam para combater os que querem justiça. Quando um político é preso ou gravado por causa de crime, os companheiros do partido se levantam para condenar os policiais e juízes, e até fazem vaquinha para pagar multa aplicada a um ladrão.
Isso é muito grave aos olhos de Deus:
Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem. (Romanos 1:32)
Ali, Paulo descreve vários pecados cometidos em seu tempo. Entre eles, homicídios, imoralidades sexuais, contendas e a ausência de afeição natural e misericórdia. Só isso já seria grave. É óbvio que os que cometem tais crimes sabem da condenação divina: a sua consciência os acusa. Contudo, eles não apenas abafam a consciência, como chegam a aprovar os que procedem dessa maneira. Assim, cristalizam o pecado na sociedade.
Isso é mais comum do que parece. Os benjamitas protegeram os assassinos porque eles eram parentes, parte da mesma tribo. Não são só políticos que agem assim. Pais impedem que seus filhos sejam disciplinados quando erram porque…são seus filhos! Familiares de criminosos ocultam o parente e o ajudam a fugir da polícia. Mães de traficantes se calam e não entregam seus filhos, mesmo sabendo que eles estão se tornando cada vez mais violentos.
Jesus foi amigo de pecadores e deu a vida para salvá-los. Mas Jesus não morreu para que os pecadores simplesmente escapassem impunes da ira divina. Jesus não foi como os benjamitas, ele não lutou contra o Pai para evitar que a justiça divina nos alcance. Ao contrário, Jesus morreu para nos livrar do pecado de uma maneira que satisfizesse a justiça divina:
Deus o (Jesus) ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:25-26 NVI)
O pecado cometido precisa ser pago por alguém. Para que o perdão aconteça, alguém precisa absorver o dano. Jesus fez isso no lugar dos que crêem n’Ele. No último dia, se alguém perguntar quem vai pagar pelo estupro que sofreu, pelo roubo que foi cometido contra você ou por qualquer outro mal perpetrado pela Igreja, a resposta será: Jesus pagou. E isso não é injusto, porque, aos olhos de Deus, todos nós merecemos o inferno. O mesmo perdão dado a quem nos fez o mal também é oferecido a nós. A morte de Cristo é a demonstração da justiça de Deus para o nosso tempo.
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A impunidade mata
Mas, o que acontece quando o pecador é protegido da justiça? A resposta é: mais males vão acontecer. Ao contrário da crença comum do Ocidente contemporâneo, a ausência de confrontação e castigo do mal não põe fim ao ciclo de violência. A impunidade apenas traz mais mortes.
No livro de Juízes, as demais tribos de Israel lutaram, de fato, contra os benjamitas. Dezenas de milhares de pessoas perderam suas vidas, de ambos os lados. Benjamim foi quase que inteiramente destruída. Tivesse Benjamim entregue os estupradores e assassinos, apenas eles morreriam. A dor de todos os que realmente amavam a mulher não acabaria. Mas, quando um grupo protege um dos seus da justiça, o que acontece é que essa dor se espalha muito mais.
Ressalte-se que, quanto a isso, Israel não errou. Se o mal não for punido, ele será cometido novamente, e outros se sentirão motivados a praticá-lo. A punição evita que os simples se voltem para a maldade. O tema é recorrente no livro de Provérbios:
Homem de grande ira tem de sofrer o dano; porque, se tu o livrares, virás ainda a fazê-lo de novo. (Provérbios 19:19)
Quando o escarnecedor é castigado, o simples se torna sábio; e, quando o sábio é instruído, recebe o conhecimento. (Provérbios 21:11)
O mau, é evidente, não ficará sem castigo, mas a geração dos justos é livre. (Provérbios 11:21)
Quando o dano não é feito, quando o escarnecedor não é castigado, o resultado é um castigo ainda maior. Deus promete: “o mau não ficará sem castigo”. Se os homens se recusam a aplicar a justiça, Deus a aplicará, como ensina o próprio Novo Testamento:
é porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo, especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. (1 Pedro 2:9-11)
O que acontece hoje, no Brasil, é o mesmo que aconteceu com Benjamim. Porque nós nos recusamos a fazer o que Deus quer, a morte se alastra. Mais de 50 mil assassinatos por ano, sabe-se lá quantos estupros, latrocínios, quantas crianças sendo abusadas fisicamente, quantas mulheres sendo espancadas…e nos perguntamos por que a violência não para. A resposta é simples: somos desobedientes à Deus. Não estamos dispostos a enfrentar os maus e a arriscar nossas vidas para que a justiça seja feita. Somos o país da impunidade.
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Espera-se que a Polícia consiga identificar e prender os estupradores. Com certeza, vários deles já devem ter tido passagens pela polícia e foram soltos em algum momento, como aconteceu com vários outros. No Brasil, as vítimas sofrem uma vida inteira as suas perdas, enquanto os maus são protegidos por uma lei benévola. A impunidade é quase uma certeza.
Uma esperança
Mas, há alguma esperança para o Brasil? Sim, há uma: Jesus. Nele não apenas encontramos perdão para os nossos pecados e omissões, mas uma nova vida:
Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus. (1 Coríntios 6:9-11)
Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5:14-17)
Se Jesus é, de fato, o nosso Deus, então há perdão e há mudança para nós. Basta crer e se submeter a Ele. Ainda há tempo para os criminosos se humilharem diante de Deus, e escaparem do inferno, embora tenham que sofrer a justiça humana. Ainda há tempo do Brasil se arrepender, e voltar à lei de Deus, e pagar o preço que a justiça exige de nós. Em Cristo, há tempo.
Para refletir
1) Tenho tratado bem a todas as pessoas ou as tenho “matado” pelo meu bem-estar? Sou alguém que protege e está disposto a se sacrificar, ou alguém predisposto a exigir sacrifícios dos outros, para poupar-me?
2) Que perigos me levariam a colocar outras pessoas em risco? Tenho coragem para enfrentar os perigos que nos cercam?
3) Como tenho tratado meu cônjuge (ou namorada, ou namorado)? Dou a ele a honra que lhe é devida ou o trato como se fosse um concubino ou concubina?
4) Como tenho me posicionado diante da impiedade no nosso país? Sou alguém que busca a Justiça ou alguém que a evita?
5) No que as minhas atitudes tem refletido o posicionamento de Cristo quanto à violência contra a mulher e à impunidade?
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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O juízo não salvará o Brasil

O ano de 2015 mal começou e já dá aquela sensação de “por favor, acabe logo”! Janeiro nem acabou e as más notícias para o Brasil só se acumulam. Pra começar, um anúncio de aumento de impostos para salvar uma economia com inflação em alta e crescimento em baixa,  como se a carga tributária já não fosse alta o suficiente. Ah sim, os juros subiram também. Ficou mais difícil conseguir o seguro desemprego e outros direitos trabalhistas. Um apagão em 11 Estados e no Distrito Federal mostram a crise no fornecimento de energia. Falta água em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, por causa da falta de chuvas (e de planejamento). Isso fora os problemas com os quais já estamos acostumados, como os 60 mil homicídios que acontecem todo ano no país.

Essas notícias afetam a todos que moram no Brasil, quer sejamos bons, quer sejamos maus. E, ao mesmo tempo em que elas trazem preocupação e ansiedade quanto ao futuro, alguns enxergam motivos para ter esperança. Afinal, como diz o ditado “se não vem pelo amor, vem pela dor”. Quem sabe se o Brasil experimentar um pouco mais de dor, o país não se corrige? Quem sabe uma crise econômica não vai fazer o brasileiro rever seus votos e sua conduta e mudar? Talvez até leve um número maior de brasileiros aos pés do Senhor, por que não? Como disse C S Lewis, a dor é o megafone de Deus para despertar o homem surdo.

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Concordo com Lewis. O sofrimento de uma nação é um chamado de Deus ao arrependimento. Mas não é a garantia de que o Brasil irá se arrepender. Quando leio a Bíblia, vejo que é perfeitamente possível que um povo sofra coisas muito piores…e nunca se volte para Deus.

Juízo? Que juízo?
Como isso acontece? Começa quando se percebe que os próprios cristãos não reconhecem mais a ideia de que Deus julga as nações. Pregamos tanto o individualismo que nos esquecemos que a nossa vida está atrelada a de outras pessoas. Estamos preocupados com as nossas ações, mas não com as leis que são aprovadas, com os vereditos dos juízes ou com a corrupção dos políticos. Nos esquecemos que Deus é retratado como Juiz dos povos e nações, e não apenas como Juiz de indivíduos.

Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com eqüidade e guias na terra as nações. (Salmo 67:4)

Ele julgará entre os povos e corrigirá muitas nações; estas converterão as suas espadas em relhas de arados e suas lanças, em podadeiras; uma nação não levantará a espada contra outra nação, nem aprenderão mais a guerra. (Isaías 2:4)

Eis que, naqueles dias e naquele tempo, em que mudarei a sorte de Judá e de Jerusalém, congregarei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá; e ali entrarei em juízo contra elas por causa do meu povo e da minha herança, Israel, a quem elas espalharam por entre os povos, repartindo a minha terra entre si. (Joel 3:1-2)

Para que o juízo produza arrependimento, é preciso que os cristãos voltem a pregar que há uma relação entre tempos difíceis e o pecado das nações. Precisamos voltar a ensinar que Deus julga até mesmo quem não O serve. O começo do livro de Amós mostra isso claramente. O castigo de Deus não é só sobre o seu povo (Israel), mas também chega a outras nações, como a Síria, Edom, os filisteus e outros:

Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Damasco e por quatro, não sustarei o castigo, porque trilharam a Gileade com trilhos de ferro. Por isso, meterei fogo à casa de Hazael, fogo que consumirá os castelos de Ben-Hadade. Quebrarei o ferrolho de Damasco e eliminarei o morador de Biqueate-Áven e ao que tem o cetro de Bete-Éden; e o povo da Síria será levado em cativeiro a Quir, diz o SENHOR. (Amós 1:3-5)

Aplicando aos dias atuais, é preciso que a Igreja diga claramente: estamos apenas colhendo o que plantamos. Os tempos difíceis do Brasil não são culpa apenas das “elites”, como se o resto do povo não fosse culpado. Afinal, está escrito:

Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. (Gálatas 6:7)

O Brasil tem zombado constantemente de Deus. Somos religiosos, mas decidimos viver como se Ele não existisse. Casamos, nos separamos, roubamos, matamos, educamos nossos filhos, votamos e aprovamos leis segundo o nosso entendimento. Mesmo os ditos “evangélicos” são culpados. Nomeamos como pastores pessoas que não pregam a Bíblia e até consagramos quem admite que nunca a leu por inteiro. As lideranças eclesiásticas tomam decisões que sabemos serem contrárias aos mandamentos de Deus. Abençoamos negócios, políticos e casamentos que a Bíblia condena. E não aceitamos que o mal que acontece no Brasil seja nossa culpa.

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Castigo não muda corações
Mas o grande problema é que o pecado no coração humano é tão duro que nem mesmo o juízo de Deus consegue mudá-lo. Não é que os castigos não tenham utilidade. Quando somos disciplinados, a justiça é feita e os simples aprendem o caminho correto.

O açoite é para o cavalo, o freio, para o jumento, e a vara, para as costas dos insensatos. (Provérbios 26:3)

Quando ferires ao escarnecedor, o simples aprenderá a prudência; repreende ao sábio, e crescerá em conhecimento. (Provérbios 19:25)

Contudo, a verdadeira correção só muda o coração de quem já foi transformado por Jesus.

Mais fundo entra a repreensão no prudente do que cem açoites no insensato. (Provérbios 17:10)

O Antigo Testamento mostra isso claramente. Deus advertiu o povo de Israel várias vezes sobre seus pecados. Trouxe sobre eles todas as maldições da Lei de Moisés. A fome chegou a ser tão grande que mães se tornaram canibais e devoraram seus filhos. Havia doença, pobreza, fome e derrotas militares. Mesmo assim, os reinos de Israel e de Judá não se arrependeram.

Tal sucedeu porque os filhos de Israel pecaram contra o SENHOR, seu Deus, que os fizera subir da terra do Egito, de debaixo da mão de Faraó, rei do Egito; e temeram a outros deuses. Andaram nos estatutos das nações que o SENHOR lançara de diante dos filhos de Israel e nos costumes estabelecidos pelos reis de Israel. Os filhos de Israel fizeram contra o SENHOR, seu Deus, o que não era reto; edificaram para si altos em todas as suas cidades, desde as atalaias dos vigias até à cidade fortificada. Levantaram para si colunas e postes-ídolos, em todos os altos outeiros e debaixo de todas as árvores frondosas. Queimaram ali incenso em todos os altos, como as nações que o SENHOR expulsara de diante deles; cometeram ações perversas para provocarem o SENHOR à ira e serviram os ídolos, dos quais o SENHOR lhes tinha dito: Não fareis estas coisas. O SENHOR advertiu a Israel e a Judá por intermédio de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: Voltai-vos dos vossos maus caminhos e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, segundo toda a Lei que prescrevi a vossos pais e que vos enviei por intermédio dos meus servos, os profetas. Porém não deram ouvidos; antes, se tornaram obstinados, de dura cerviz como seus pais, que não creram no SENHOR, seu Deus. Rejeitaram os estatutos e a aliança que fizera com seus pais, como também as suas advertências com que protestara contra eles; seguiram os ídolos, e se tornaram vãos, e seguiram as nações que estavam em derredor deles, das quais o SENHOR lhes havia ordenado que não as imitassem. Desprezaram todos os mandamentos do SENHOR, seu Deus, e fizeram para si imagens de fundição, dois bezerros; fizeram um poste-ídolo, e adoraram todo o exército do céu, e serviram a Baal. Também queimaram a seus filhos e a suas filhas como sacrifício, deram-se à prática de adivinhações e criam em agouros; e venderam-se para fazer o que era mau perante o SENHOR, para o provocarem à ira. Pelo que o SENHOR muito se indignou contra Israel e o afastou da sua presença; e nada mais ficou, senão a tribo de Judá. Também Judá não guardou os mandamentos do SENHOR, seu Deus; antes, andaram nos costumes que Israel introduziu. Pelo que o SENHOR rejeitou a toda a descendência de Israel, e os afligiu, e os entregou nas mãos dos despojadores, até que os expulsou da sua presença. (2 Reis 17:7-20)

A mesma coisa acontecerá no fim dos tempos. Deus julgará a humanidade com castigos ainda maiores e de alcance universal. E o que a Bíblia diz é que nem assim haverá arrependimento.

Por meio destes três flagelos, a saber, pelo fogo, pela fumaça e pelo enxofre que saíam da sua boca, foi morta a terça parte dos homens; pois a força dos cavalos estava na sua boca e na sua cauda, porquanto a sua cauda se parecia com serpentes, e tinha cabeça, e com ela causavam dano. Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos, deixando de adorar os demônios e os ídolos de ouro, de prata, de cobre, de pedra e de pau, que nem podem ver, nem ouvir, nem andar; nem ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos. (Apocalipse 9:18-21)

O quarto anjo derramou a sua taça sobre o sol, e foi-lhe dado queimar os homens com fogo. Com efeito, os homens se queimaram com o intenso calor, e blasfemaram o nome de Deus, que tem autoridade sobre estes flagelos, e nem se arrependeram para lhe darem glória. Derramou o quinto a sua taça sobre o trono da besta, cujo reino se tornou em trevas, e os homens remordiam a língua por causa da dor que sentiam e blasfemaram o Deus do céu por causa das angústias e das úlceras que sofriam; e não se arrependeram de suas obras. (Apocalipse 16:8-11)

Se nem o fogo, o enxofre, as trevas e a dor física farão os homens se arrependerem de seus pecados, não é a crise econômica ou a falta de água que levará o Brasil a se arrepender e mudar. Não é transformando o presídio em um inferno terrestre que o criminoso será recuperado. O juízo divino faz a justiça do Senhor e ensina aos simples e aos sábios. Mas os perversos não se arrependem.

Jesus: a única solução
Se a crise não salvará o Brasil, o que então pode salvar? O que pode mudar o coração ou a mentalidade dos brasileiros? A resposta é Jesus. Apenas Jesus pode matar o brasileiro corrupto, indolente, que vive jogando sua responsabilidade nos outros e espera que o Governo resolva tudo por ele e transformá-lo em um novo homem.

Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5:14-17)

O arrependimento não vem da crise econômica. A crise pode até ser um instrumento, mas é só a bondade de Deus que nos leva a reconhecer o nosso erro e mudar de caminho.

Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? (Romanos 2:4)

Agora, o arrependimento precisa começar com os que se dizem cristãos! Um versículo muito citado nas igrejas ensina que o arrependimento dos que já conhecem a Deus é que começa a produzir a mudança.

Se eu cerrar os céus de modo que não haja chuva, ou se ordenar aos gafanhotos que consumam a terra, ou se enviar a peste entre o meu povo; se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e me buscar, e se converter dos seus maus caminhos, então, eu ouvirei dos céus, perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra. (2 Crônicas 7:13-14)

Pois bem, todos os governantes dizem que está chovendo menos no Brasil. A crise econômica é como um gafanhoto que come os nossos rendimentos. A saúde pública definha e as doenças se repetem ano após ano. E os cristãos continuam praticando imoralidade sexual, vivem buscando prazeres como os demais, idolatram o dinheiro, erguem outros deuses e não dão ouvidos aos poucos pastores e profetas que ainda pregam a Bíblia. Não conhecemos nem o básico dos Dez Mandamentos e do Evangelho, que se dirá do ensino bíblico sobre política e economia? Elegemos por chefes a pessoas que dizem abertamente que defenderão leis que atacam a Bíblia. E, para piorar, não sentimos misericórdia do nosso povo, que morre porque lhe falta o conhecimento de Deus.

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Sim! Algumas vezes o nosso coração comemora, no íntimo, as crises e sofrimentos. Pensamos “bem feito”! “Quem sabe assim não aprendem?” Mas a verdade é que deveríamos nos entristecer. Os judeus rejeitaram o Evangelho nos dias de Paulo e até tentaram matá-lo várias vezes. E Paulo amava tanto os judeus que preferia ir para o inferno e ser separado de Cristo, se isso pudesse salvar a Israel.

Digo a verdade em Cristo, não minto, testemunhando comigo, no Espírito Santo, a minha própria consciência: tenho grande tristeza e incessante dor no coração; porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne. (Romanos 9:1-3)

Talvez falte em nós o mesmo sentimento. Falte a mesma dor incessante de ver o Brasil afundar cada vez mais em seus pecados e sofrer o juízo de Deus. Falte amor para pregarmos a Palavra e nos sujeitarmos a ela, para desistirmos de ideologias contrárias ao Evangelho e ensinarmos o que é correto, segundo Cristo.

Não ponha a sua esperança no caos. Ponha a sua esperança em Jesus e peça que Ele use a crise e a dificuldade como instrumentos para alertar os simples e corrigir os sábios. Peça que Deus seja bom e leve o nosso país ao arrependimento.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Desigualdade, cobiça e comunismo

Segundo os jornalistas econômicos, o maior problema que enfrentamos hoje no mundo (depois do aquecimento global) é a desigualdade. Em 2016, a riqueza de 1% das pessoas mais ricas do planeta irá ultrapassar a dos 99% restantes, segundo a ONG Oxfam. Pode parecer que estamos falando apenas de multimilionários, mas basta acumular um patrimônio de 798 mil dólares (2,1 milhões de reais) para fazer parte do clube.

O que dizer de tamanha concentração de riqueza? Para os que se identificam com ideologias de esquerda, o mundo nunca foi tão perverso economicamente como nos dias atuais. Uma mudança no capitalismo seria uma necessidade moral. Afinal, a igualdade material é um valor a ser perseguido. Para os que se identificam com ideologias mais à direita, a igualdade material é uma utopia e a desigualdade não é, necessariamente, maligna. Se, de forma geral, a riqueza de todos aumenta, a desigualdade não é um grande problema. A origem da desigualdade seria fruto de interferências excessivas do Governo na economia para outros. O vídeo abaixo, de Rodrigo Constantino, explica esse ponto de vista:

Contudo, a desigualdade não é apenas uma questão econômica. Trata-se de uma questão moral e de implicações religiosas. Por exemplo, o papa Francisco denuncia, constantemente, os males da desigualdade. Movimentos religiosos, como a Teologia da Libertação, entendem que a luta por uma sociedade materialmente mais igualitária é um dever de cada cristão. Por outro lado, a desigualdade parece estar na raiz de outros movimentos, como da Teologia da Prosperidade, onde a riqueza é sinal de bênção divina aos fiéis e a pobreza seria um sinal da maldição de Deus ou um castigo pelo envolvimento com demônios.

Nessas horas, é preciso analisar o que a Bíblia ensina sobre o assunto.

Um problema?
De fato, a Bíblia traz várias advertências sobre a riqueza e o acúmulo de propriedades. Em Isaías, há uma condenação aos que concentram a propriedade de imóveis. Em 1 Timóteo, é dito claramente que o desejo de enriquecer é pecaminoso e que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males, o que inclui mentiras, adultérios, assassinatos, entre outros.

Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra! A meus ouvidos disse o SENHOR dos Exércitos: Em verdade, muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas, sem moradores. (Isaías 5:8)

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. (1 Timóteo 6:9-10)

Tiago é ainda mais duro. Ele anuncia juízo sobre os ricos. Afirma que as riquezas são corruptas, ou seja, elas podem ser destruídas com o passar do tempo, não são eternas. Mas há um detalhe: Tiago denuncia a riqueza adquirida de forma injusta, por meio de fraude, da retenção indevida do salário de trabalhadores e do uso da força para matar e condenar justos…por causa de dinheiro.

Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça; o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens, e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração, em dia de matança; tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência. (Tiago 5:1-6)

E essa é uma distinção importante. É paradoxal, mas a riqueza, em si, não é pecado. O pecado ocorre quando ela é adquirida às custas da exploração de outros, ou por meio da injustiça. Mesmo no caso de Isaías 5:8, o contexto mostra que a ira divina é porque o acúmulo de casas acontecia por meio da injustiça, da quebra da Lei de Deus e porque os ricos deleitavam-se em prazeres enquanto os pobres clamavam ao Senhor.

Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do SENHOR; este desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor. Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra! A meus ouvidos disse o SENHOR dos Exércitos: Em verdade, muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas, sem moradores. E dez jeiras de vinha não darão mais do que um bato, e um ômer cheio de semente não dará mais do que um efa. Ai dos que se levantam pela manhã e seguem a bebedice e continuam até alta noite, até que o vinho os esquenta! Liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes; porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos. Portanto, o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede. Por isso, a cova aumentou o seu apetite, abriu a sua boca desmesuradamente; para lá desce a glória de Jerusalém, e o seu tumulto, e o seu ruído, e quem nesse meio folgava. Então, a gente se abate, e o homem se avilta; e os olhos dos altivos são humilhados. (Isaías 5:7-15)

desigualdade

Mas alguns podem insinuar que toda a riqueza do mundo é de origem pecaminosa. Apenas enriquece quem explorou indevidamente o trabalho de outros e agiu com injustiça. Isso não é verdade. Em primeiro lugar, porque a Bíblia mostra que a riqueza pode sim ser uma bênção que Deus dá a alguns de Seus filhos. Aliás, há ricos entre os melhores servos que Deus já possuiu.

Eu, a sabedoria, habito com a prudência, e acho o conhecimento dos conselhos. O temor do Senhor é odiar o mal; a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa, eu odeio.(…) Riquezas e honra estão comigo; assim como os bens duráveis e a justiça. (Provérbios 5:12,18)

Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção. E a todo o homem, a quem Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus. Porque não se lembrará muito dos dias da sua vida; porquanto Deus lhe enche de alegria o seu coração. (Eclesiastes 5:18-20)

Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal. Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; era também mui numeroso o pessoal ao seu serviço, de maneira que este homem era o maior de todos os do Oriente. (Jó 1:1-3)

Semeou Isaque naquela terra e, no mesmo ano, recolheu cento por um, porque o SENHOR o abençoava. Enriqueceu-se o homem, prosperou, ficou riquíssimo; possuía ovelhas e bois e grande número de servos, de maneira que os filisteus lhe tinham inveja. (Gênesis 26:12-14)

Contudo, ser rico não é sinal certo de favor divino. Assim como ser pobre não é sinal certo de maldição divina. O próprio Jesus viveu como pobre e disse que os pobres eram bem-aventurados.

Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. (Lucas 9:58)

Não vos falo na forma de mandamento, mas para provar, pela diligência de outros, a sinceridade do vosso amor; pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos. (2 Coríntios 8:8-9)

Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.(…) Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar. (Lucas 6:20-21, 24-25)

É chocante, mas do ponto de vista bíblico, podemos estar com Cristo sendo ricos ou pobres. Do ponto de vista espiritual, considerando que este mundo é passageiro e que a eternidade é muito maior que nossa vida terrena, ricos e pobres possuem oportunidades para louvar a Deus e fazer o bem. Ambos enfrentam perigos diferentes que podem levá-los ao inferno. A suma de tudo pode ser encontrada em Provérbios:

O rico e o pobre se encontram; a um e a outro faz o SENHOR. (Provérbios 22:2)

Jesus e a desigualdade
Fica claro, portanto, que a pobreza e a riqueza não são, em si, pecados. Jesus é retratado na Bíblia tanto como homem rico como homem pobre. De certa maneira, a Bíblia pronuncia bem-aventuranças e bênçãos tanto para ricos como a pobres. Ambos foram feitos por Deus e estão debaixo do controle do Senhor. O que é condenável é a riqueza construída em cima de pecados, de amor ao dinheiro, de assassinatos, de escravidão, daquilo que é mau e contrário às leis de Deus. Igualmente condenável é a pobreza causada pelo pecado do coração humano, como mostra Provérbios:

Quem ama os prazeres empobrecerá, quem ama o vinho e o azeite jamais enriquecerá. (Provérbios 21:17)

E isso é refletido no ensino de Jesus. O Senhor condena a riqueza iníqua e abençoa os que são pobres, mas Ele não ensina que o reino dos céus é um reino de igualdade absoluta. Ao contrário, em várias parábolas Jesus nos mostra que, mesmo no céu, as recompensas não serão as mesmas para todos:

Quando ele voltou, depois de haver tomado posse do reino, mandou chamar os servos a quem dera o dinheiro, a fim de saber que negócio cada um teria conseguido. Compareceu o primeiro e disse: Senhor, a tua mina rendeu dez. Respondeu-lhe o senhor: Muito bem, servo bom; porque foste fiel no pouco, terás autoridade sobre dez cidades. Veio o segundo, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu cinco. A este disse: Terás autoridade sobre cinco cidades. Veio, então, outro, dizendo: Eis aqui, senhor, a tua mina, que eu guardei embrulhada num lenço. Pois tive medo de ti, que és homem rigoroso; tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste. Respondeu-lhe: Servo mau, por tua própria boca te condenarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tiro o que não pus e ceifo o que não semeei; por que não puseste o meu dinheiro no banco? E, então, na minha vinda, o receberia com juros. E disse aos que o assistiam: Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem as dez. Eles ponderaram: Senhor, ele já tem dez. Pois eu vos declaro: a todo o que tem dar-se-lhe-á; mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado. (Lucas 19:15-26)

Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro, um, a cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu.(…) Chegando, por fim, o que recebera um talento, disse: Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste, receoso, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondeu-lhe, porém, o senhor: Servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem dez. Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.(Mateus 25:14-15, 25-29)

E aqui há um fato incômodo para muitos: em si mesma, a desigualdade não é um problema para Deus. Mesmo quando falamos das coisas espirituais, as recompensas são dadas segundo o fruto do trabalho de cada um. Sim, no céu todos terão o suficiente para a sua felicidade eterna. Mas alguns receberão uma recompensa maior do que outros.

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A lição das parábolas das minas e dos talentos é a de que não importa o ponto de partida inicial. Uns largam na frente (dez talentos), outros mais atrás (um ou dois). O que importa é o que cada um fará com o que recebeu. Pessoas na mesma condição podem produzir mais ou menos (uma mina pode virar dez, cinco ou continuar uma). O julgamento não é feito com base em números absolutos. Claro que o ensino é, principalmente, espiritual. Mas é aplicável a outras áreas da vida.

A solução bíblica
Isso não quer dizer, porém, que a Bíblia não tenha nada a falar sobre a desigualdade na distribuição dos bens. O Antigo Testamento possuía mecanismos de proteção ao pobre e de redistribuição de renda. Claro, temos que tomar dois cuidados ao aplicar esses mecanismos. O primeiro é o de que o verdadeiro significado é sempre espiritual, em primeiro lugar. O segundo é o de que a lei civil de Israel não é mais regra para os dias atuais, embora seus princípios permaneçam.

Em regra, a rede de proteção do Antigo Testamento era a família e o jubileu. Se alguém empobrecesse, cabia a um parente próximo, o “goel”, o resgatador, o papel de ajudar aquela pessoa a se reerguer. O casamento com as viúvas da família e mesmo o pagamento de dívidas deveria ser feito pelo resgatador para ajudar os que empobreciam. O mesmo princípio permanece em pé no Novo Testamento. Se alguém empobreceu, os mais ricos da família devem ajudar essa pessoa a se reerguer:

Se teu irmão empobrecer e vender alguma parte das suas possessões, então, virá o seu resgatador, seu parente, e resgatará o que seu irmão vendeu. (Levítico 25:25)

Se teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então, sustentá-lo-ás. Como estrangeiro e peregrino ele viverá contigo. Não receberás dele juros nem ganho; teme, porém, ao teu Deus, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com juros, nem lhe darás o teu mantimento por causa de lucro. (Levítico 25:35-37)

Mas, se alguma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiro a exercer piedade para com a própria casa e a recompensar a seus progenitores; pois isto é aceitável diante de Deus.(…) Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente. (1 Timóteo 5:4,8)

O segundo mecanismo de proteção era o Jubileu. Uma vez a cada 50 anos, era proclamado o Ano do Jubileu em Israel. Nesse ano, todas as dívidas eram perdoadas e os que tinham vendido terras as recuperavam. Os hebreus que estavam como escravos eram libertos. Era, de fato, uma redistribuição de renda. O que não contam é que havia, porém, um mecanismo de proteção da renda…dos credores! Deus não se preocupa apenas com os pobres e endividados, Ele também regula o direito de quem compra.

Santificareis o ano qüinquagésimo e proclamareis liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de jubileu vos será, e tornareis, cada um à sua possessão, e cada um à sua família. O ano qüinquagésimo vos será jubileu; não semeareis, nem segareis o que nele nascer de si mesmo, nem nele colhereis as uvas das vinhas não podadas. Porque é jubileu, santo será para vós outros; o produto do campo comereis. Neste Ano do Jubileu, tornareis cada um à sua possessão. Quando venderes alguma coisa ao teu próximo ou a comprares da mão do teu próximo, não oprimas teu irmão. Segundo o número dos anos desde o Jubileu, comprarás de teu próximo; e, segundo o número dos anos das messes, ele venderá a ti. Sendo muitos os anos, aumentarás o preço e, sendo poucos, abaixarás o preço; porque ele te vende o número das messes. Não oprimais ao vosso próximo; cada um, porém, tema a seu Deus; porque eu sou o SENHOR, vosso Deus. (Levítico 25:10-17)

De modo diferente, porém, o Jubileu não é mais aplicável nos dias de hoje, como era em Levítico. Se a cada 50 anos as terras devem ser redistribuídas, então a coerência exige que nos abstenhamos de fazer plantios e colheitas em tais anos. Não há ordens para que o Estado faça reformas agrárias forçadas periodicamente no Novo Testamento. O verdadeiro sentido do Jubileu é de que, em Jesus, nossas dívidas com Deus e nossos pecados são perdoados e temos a chance de recomeçar.

Mas há um princípio espiritual no Jubileu que se aplica aos dias de hoje. Ele vive por meio da caridade. Quando perdoamos, voluntariamente, as dívidas de outros, então levamos algo do jubileu até elas. Quando indivíduos partilham os seus bens com outros para suprir a necessidade dos mais pobres, estamos vivendo o jubileu. Quando comunidades em fartura enviam ajuda financeira a comunidades em dificuldades, o jubileu adquire vida em pleno século XXI.

e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; (Mateus 6:12)

Então, as multidões o interrogavam, dizendo: Que havemos, pois, de fazer? Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. (Lucas 3:10-11)

dá a todo o que te pede; e, se alguém levar o que é teu, não entres em demanda. Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles. (Lucas 6:30-31)

Porque, se há boa vontade, será aceita conforme o que o homem tem e não segundo o que ele não tem. Porque não é para que os outros tenham alívio, e vós, sobrecarga; mas para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve falta. (2 Coríntios 8:12-15)

Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida. (1 Timóteo 6:17-19)

Não precisamos mais de uma lei que nos obrigue a viver o jubileu a cada 50 anos. Podemos vivê-lo todos os dias. Basta praticar a caridade.

A solução comunista
Mas cabe aqui uma última palavra. As soluções bíblicas para a desigualdade material são mandamentos divinos dados a indivíduos. Devemos socorrer os nossos parentes e praticar a caridade com os demais. Os que têm posses podem repartir, voluntariamente, o que tem com os outros. As ofertas devem ser feitas de boa vontade. E cada um responderá, diante de Deus, pela obediência ou desobediência a tais mandamentos.

Contudo, ninguém é obrigado, dentro ou fora da Igreja, a dividir nada! Não há ordens para que o Estado faça, por meio da força, uma partilha involuntária de bens. Aliás…fazer caridade com falsidade é pior do que não fazer, como bem mostra a história de Ananias e Safira, em Atos 5.

Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus. (Atos 5:3-4)

E aí vemos que não é possível sustentar que o comunismo, que as desapropriações forçadas ou outras medidas de força são respostas biblicamente aceitáveis para diminuir a desigualdade. Se eu me preocupo com a pobreza, cabe a mim lançar mão dos meus bens e fazer o que está ao meu alcance para minorar a miséria de outros. Mas eu não tenho o direito bíblico de lançar mão do que pertence a outro para fazer isso. Não se deve fazer caridade com o chapéu alheio! Isso é roubar!

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Mas o comunismo não viola apenas o oitavo mandamento. Um dos argumentos morais contra a desigualdade é que não é justo que uma pessoa use tênis de marca e outra ande descalça. Que um mal tenha o que comer e outro tenha caviar. Que uma pessoa use calça jeans comprada na feira e outra gaste milhares de dólares em uma calça Diesel. Alguns chegam a legitimar o roubo com base na desigualdade:

Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos! Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes. (Férrez, na Folha de São Paulo)

O problema é que a cobiça também é pecado, independente da circunstância. Ainda que um rico use uma jóia que valha por cem casas minhas, ainda que um homem tenha dez esposas deslumbrantes e apaixonadas e eu não tenha ninguém…nada justifica a cobiça e ela não justifica o roubo. Como está escrito:

Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Êxodo 20:17)

O que fazer, então, se um pobre não consegue meios de sobreviver e o rico, próximo a ele, não divide nada? A resposta é chocante, mas é santa: é melhor morrer sem ter roubado nada do rico e herdar o céu do que ir até lá e roubar, movido pela cobiça. Neste mundo, não há recompensa alguma. Mas, na eternidade, há as recompensas que são prometidas ao mendigo Lázaro na parábola contada por Jesus:

Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado. No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. (Lucas 16:19-25)

Você é rico? Ajude seus parentes necessitados e divida suas riquezas com outros. Leve, voluntariamente, o perdão de Jesus aos que estão endividados e carentes. Se não fizer isso, lembre-se que ser condenado por Deus é pior que qualquer tribunal revolucionário marxista. Você é pobre? Espere em Deus e conserve a sua integridade. Ainda há filhos de Deus caridosos neste mundo. E, se tudo falhar, é melhor morrer de fome do que cobiçar e roubar o que é do próximo. Ande com Cristo, e no céu você terá uma eternidade de riquezas.

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Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro