O relacionamento entre a Bíblia e a Igreja

Talvez o maior diferencial entre católicos e protestantes seja o relacionamento entre a Bíblia e a Tradição da Igreja. Em termos de autoridade, os protestantes costumam afirmar que a Bíblia é a nossa “única regra de fé e prática”, ao passo que os católicos consideram que “a Tradição precede a Escritura”, como fala o Pe. Paulo Ricardo.

A questão é muito mais importante do que parece. Uma vez que um dos lados está errado quanto às fontes de sua doutrina, o resto do edifício teológico cai junto. Por isso, resolvi usar o vídeo do Pe. Paulo Ricardo como um ponto de partida para tratar sobre a minha visão sobre o assunto. Não pretendo aqui responder ponto por ponto ou defender uma visão denominacional sobre o princípio do Sola Scriptura (Somente a Escritura). Repito: trata-se da minha visão particular sobre esse debate.

Entendendo melhor o que é o Sola Scriptura
Inicialmente, é preciso esclarecer o que se quer dizer quando os protestantes afirmam Sola Scriptura. É um espantalho a ideia de que a “única” regra de fé e prática dos protestantes seja a Bíblia. Existem diferentes tradicões teológicas dentro do protestantismo, como a luterana, a reformada e a pentecostal. As diferentes confissões de fé, como a Confissão de Fé de Westminster ou a Confissão Batista de 1689, são um retrato claro disso. Há um magistério, formado por pastores e teólogos que, com seus artigos e opiniões, formam posições que serão seguidas pelas denominações. Isso é fácil de se ver quando tratamos de novos assuntos, como a questão da reprodução humana assistida, por exemplo. Logo, assim como os católicos, a Tradição e o Magistério são fontes de autoridade.

O que diferencia católicos e protestantes é o relacionamento entre essas diferentes fontes de autoridade. Para os protestantes, a Bíblia está acima da Tradição, do Magistério e até mesmo de supostas revelações do Espírito Santo. Por quê? Seria por que os protestantes crêem que Deus fala somente através da Escritura? Claro que não! Mesmo em seminários cessacionistas, aprendemos que a criação é a revelação geral de Deus, ou seja, ela proclama a glória de Deus e o Senhor fala por meio dela. Também acreditamos, pela própria Bíblia, que Deus também fala e age por meio da Igreja, que é o Corpo de Cristo.

O que o Sola Scriptura diz, porém, que apenas a Bíblia pode ser considerada, de modo confiável, a palavra de Deus. Apenas quando lemos as Escrituras Sagradas temos a certeza de que estamos lendo as instruções de Deus para nós. Por este motivo, todas as outras fontes de autoridade devem ser medidas pela Bíblia. E, nesse sentido, a Bíblia se torna a “única” regra de fé e prática, porque apenas ela pode obrigar a consciência dos homens. É nisso que acredita, por exemplo, a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Pessoas há que estranham adotar a Igreja Presbiteriana uma Confissão de Fé e Catecismo como regra de fé, quando sustenta sempre ser a Escritura Sagrada sua única regra de fé e de prática. A incoerência é apenas aparente. A Igreja Presbiteriana coloca a Bíblia em primeiro lugar. É ela só que deve obrigar a consciência. É também princípio fundamental da Igreja Presbiteriana que toda autoridade eclesiástica é ministerial e declarativa; que todas as decisões dos concílios devem harmonizar-se com a revelação divina. A consciência não se deve sujeitar a essas decisões se forem contrárias à Palavra de Deus.

Na verdade, isso faz muito sentido, para aqueles que têm fé. As supostas revelações do Espírito Santo por meio dos profetas podem ser apenas um subjetivismo pessoal, ou até um embuste. A Tradição também pode ser discordante, mesmo dentro de uma mesma corrente religiosa. Não é segredo para ninguém que os papas Bento XVI e Francisco possuem visões diferentes sobre a Teologia da Libertação, por exemplo. Ou que a Renovação Carismática Católica não é aprovada por católicos que reprovam o Concílio Vaticano II, para ficar em casos mais recentes. O Magistério também diverge, e todas as polêmicas envolvendo a exortação apostólica Amoris Laetitia, do papa Francisco, mostram isso. Afinal, cardeais também são mestres da Igreja Católica. Por esses motivos, os protestantes recusam-se a entender que a Igreja é infalível, seja por meio da Tradição, do Magistério ou do papado. Nem mesmo os concílios protestantes são considerados infalíveis, como afirma a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Ainda outro princípio da mesma Igreja é que os concílios, sendo compostos de homens falíveis, podem errar, e muitas vezes têm errado. Suas decisões, portanto, não podem ser recebidas como regra absoluta e primária de fé e prática; servem somente para ajudar na crença ou na conduta que se deve adotar. O supremo juiz de todas as controvérsias, em matéria religiosa, é o Espírito Santo falando na e pela Escritura. Por esta, pois, devem-se julgar toda e qualquer decisão dos concílios e toda e qualquer doutrina ensinada por homens.

Assim sendo, ao contrário do que sugere o Pe. Paulo Ricardo, os protestantes não dizem com o Sola Scriptura, que sem Escrituras não existe Igreja. Nem tampouco negamos que exista Tradição e Magistério. Contudo, apenas a Bíblia pode ser apontada, em toda a sua extensão, como sendo uma revelação divina, algo que não pode ser atribuído com 100% de certeza a outras autoridades. Uma vez que ela é confiável, ela torna-se a régua com a qual se mede todas as outras coisas. Essencialmente, isso é o que significa Sola Scriptura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO que é a Igreja?
Antes de tratar da questão da natureza da Bíblia em si, é preciso esclarecer como protestantes e católicos vêem a palavra “Igreja” de modo diferente. Um erro cometido pelo Pe. Paulo Ricardo e por católicos de modo geral, é o de confundir o Corpo de Cristo com a instituição “Igreja Católica Apostólica Romana” (ICAR), como se Igreja e ICAR fossem idênticos, e qualquer outro uso seja impróprio. O Corpo de Cristo, ou seja, o grupo de pessoas que verdadeiramente adora a Cristo Jesus, é maior que o catolicismo ou o protestantismo.  Mas, se os protestantes são seitas, lembro que as igrejas ortodoxas são tão antigas quanto as igrejas romanas. O Grande Cisma ocorreu, em parte, devido à insistência do bispo de Roma em ter a primazia sobre os demais patriarcas cristãos da Igreja Oriental. Com todo o respeito à igreja romana, é óbvio que as igrejas mais antigas são as orientais, uma vez que o Evangelho saiu da Palestina para a Síria, e dali para o resto do mundo.

Logo, protestantes e católicos possuem um framework diferente para a discussão “Bíblia e Igreja”. No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo diz que Cristo prometeu estar com a Igreja, e que a Igreja é o Corpo de Cristo, logo Cristo fala por meio da Igreja. O problema é que ele iguala “Igreja” à ICAR, enquanto protestantes, ortodoxos e outras correntes do cristianismo aplicam esses ensinos bíblicos à totalidade dos verdadeiros discípulos de Cristo, sem qualquer vinculação institucional. Conferindo o que a Bíblia diz:

Então, Jesus aproximou-se deles e disse: Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mateus 28:18-20)

 

Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito.(…)Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo. (1 Coríntios 12:12-13, 27)

Cada pessoa batizada no Espírito Santo é membro do Corpo de Cristo, o que inclui um conjunto maior que a ICAR. Isso é institucionalmente reconhecido, uma vez que o papa Francisco reconhece a salvação dos protestantes e até pediu perdão a eles, chegando a elogiar Martinho Lutero. Com esses gestos de comunhão, fica claro que, mesmo dentro de uma ótica católica, a “Igreja” é maior que a ICAR. Nesse sentido, Jesus não fala apenas pela ICAR. Ele fala pela “Igreja”.

É a Igreja infalível?
Mas, uma vez que a “Igreja” é o Corpo de Cristo, isso significa que a Igreja seja infalível? De modo algum. Ou então, por que o papa Francisco pediria perdão aos protestantes por 500 anos de perseguições? Ou então pedir perdão pelos erros cometidos durante o genocídio de Ruanda? Isso sem falar nos fartamente documentados casos em que a ICAR protegeu por décadas a sacerdotes pedófilos, o que já é de amplo conhecimento da sociedade. E, veja bem, o papa Francisco não fala apenas de pecados de membros da Igreja, mas de “pecados e faltas da Igreja”.

Ah, mas a infalibilidade seria doutrinária, assim como a papal, quando o papa fala ex cathedra. Mas a própria Bíblia mostra igrejas que precisaram de exortações apostólicas e do próprio Jesus por abrigarem erros e heresias em seu meio. As sete cartas do Apocalipse ilustram bem isso. Vejam o que Jesus diz sobre a igreja em Pérgamo:

No entanto, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, que ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas. Portanto, arrependa-se! Se não, virei em breve até você e lutarei contra eles com a espada da minha boca. (Apocalipse 2:14-16)

Isso sem falar em todos os erros que surgiram nas igrejas que receberam cartas do apóstolo Paulo, onde os pastores (bispos para a ICAR) permitiram que fosse pregado desde uma volta à Lei de Moisés até um tipo de protognosticismo, onde se pregava que não havia problemas em viver na libertinagem sexual. É até possível falar-se na infalibilidade apostólica quanto às doutrinas. Creio que nenhum protestante se oporia a isso. Contudo, o que temos hoje não são apóstolos, mas bispos. E, atendendo ao que a própria Bíblia ensina, eles estão sim sujeitos a falhas doutrinárias.

papafranciscoO início da Igreja
Uma outra diferença clara é sobre a diferente visão que certos grupos do protestantismo tem sobre o início da “Igreja”. O Pe. Paulo Ricardo, assim como os dispensacionalistas, acredita que a Igreja iniciou-se no Pentecostes, descrito em Atos 2. Contudo, os protestantes adeptos da Teologia do Pacto, como eu, entendem que a Igreja é a continuação do Israel bíblico. Esse entendimento era o mesmo dos apóstolos:

Destina-se esta felicidade apenas aos circuncisos ou também aos incircuncisos? Já dissemos que, no caso de Abraão, a fé lhe foi creditada como justiça. Sob quais circunstâncias? Antes ou depois de ter sido circuncidado? Não foi depois, mas antes!
Assim ele recebeu a circuncisão como sinal, como selo da justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. Portanto, ele é o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados, a fim de que a justiça fosse creditada também a eles; e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão. (Romanos 4:9-12)
Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: “Por meio de Isaque a sua descendência será considerada”. Noutras palavras, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão. Pois foi assim que a promessa foi feita: “No tempo devido virei novamente, e Sara terá um filho” (Romanos 9:6-9).
Se é santa a parte da massa que é oferecida como primeiros frutos, toda a massa também o é; se a raiz é santa, os ramos também o serão. Se alguns ramos foram cortados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado entre os outros e agora participa da seiva que vem da raiz da oliveira cultivada, não se glorie contra esses ramos. Se o fizer, saiba que não é você quem sustenta a raiz, mas a raiz a você. (Romanos 11:16-18)
E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. (Gálatas 3:29)

Por que isso importa? Ora, o Pe. Paulo Ricardo afirma que a Igreja precede a Bíblia. Bom, de qual igreja ele fala? Certamente, não pode ser da ICAR, pois as Escrituras do Antigo Testamento estavam escritas e eram lidas antes do Pentecostes. Ele diz que a época de ouro da Igreja, a era dos mártires, foi uma época em que o Novo Testamento não estava sendo lido ou ensinado nas igrejas cristãs. Sim, o Novo Testamento não fora amplamente divulgado em sua completude, mas as Escrituras do Antigo Testamento estavam lá, o tempo todo, guiando as igrejas cristãs e alimentando-as espiritualmente. A Escritura precede a Igreja neotestamentária pelo simples fato de que ela já existia antes mesmo da encarnação de Jesus.

Porém, a verdadeira Igreja (que não é a instituição ICAR) começou antes de Moisés escrever o Gênesis, e essa Igreja é anterior à redação da Bíblia. Logo, sim, o padre acerta quando mostra que é possível haver salvação, fé e fiéis saudáveis sem as Escrituras. Deus, por si só, é capaz de produzir isso. Enoque, Noé, Abraão e José não tinham Bíblia alguma pra ler. Mas tinham a Palavra de Deus, porque Deus se relacionava com eles, e falava com eles e os nutria espiritualmente sem nada escrito. Nenhum protestante nega que o relacionamento com Deus, no Espírito Santo e por meio de Jesus, seja dispensável. A melhor Bíblia sem um relacionamento com Deus não salva ninguém. Contudo, não era esse o caso da igreja primitiva, porque ela tinha as Escrituras do Antigo Testamento, além do Espírito Santo para ser espiritualmente alimentada.

Jesus e a Tradição
Se entendermos que a Igreja é a continuação de Israel, também fica fácil entender porque as Escrituras precedem a Tradição ou o Magistério. Qualquer leitura do Antigo Testamento mostra claramente que reis e até os sacerdotes fizeram acréscimos indevidos à Lei. Em essência, a mensagem de todos os profetas era a de que o povo deveria abandonar qualquer mudança na Lei ou no culto prescritos por Deus, e voltar às Escrituras.

Isso é visto de modo mais marcante e extremo no tenso relacionamento entre Jesus e os fariseus. Assim como os católicos de hoje, os fariseus também construíram uma série de crenças e práticas alheias à Escritura. Curiosamente, Jesus não endossou essa postura:

Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. (Marcos 7:6-9)

Jesus claramente via uma diferença entre o mandamento de Deus e a tradição dos homens. O que Ele condenou foram os ensinos e práticas que os homens acrescentaram ao que Deus já havia revelado. Quando levamos a sério a advertência de Jesus, nosso cuidado em evitar criar doutrinas que sejam “preceitos de homens” seria o maior possível. Mas, ao reproduzir o mesmo método usado pelos fariseus, validando uma tradição humana e colocando-a como algo vindo de Deus, a ICAR faz uma opção muito mais arriscada.

Jesus, a Bíblia e a Palavra de Deus
Creio já ter explicado de modo satisfatório porque não é nenhum absurdo usar o Sola Scriptura. Mas há mais um ponto que precisa ser explorado. Se Jesus é o Logos (Palavra) de Deus, como escrito em João 1:1, como a Bíblia pode ser chamada pelos protestantes de “Palavra de Deus”? No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo declara que “A Palavra de Deus é Jesus. A Sagrada Escritura é um instrumento pelo qual podemos ter acesso a Jesus.” Segundo ele, “a Bíblia é preciosa, mas é apenas um instrumento”. E o que a Igreja precisa é da Palavra de Deus (Jesus).

Bem, é claro que não se deve adorar a Bíblia. A Bíblia não é a Segunda Pessoa da Trindade. Vários povos indígenas adoram a Jesus tendo apenas poucas porções traduzidas da Bíblia ou apenas pelo testemunho oral de missionários, isto é, pode sim ter igreja sem Bíblia, mas não sem Jesus. Com tudo isso eu concordo.

Contudo, a Bíblia não é apenas um instrumento. A Bíblia não é a Palavra de Deus em seu sentido máximo, o Logos Divino, por meio do qual todas as coisas foram feitas e que é a luz que ilumina a todo homem. Mas ela é a Palavra de Deus, porque é o Espírito Santo quem fala por meio dos autores humanos que escreveram os livros da Bíblia.

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16-17)
Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:19-21)

Ou seja, o Espírito Santo é o Autor da Bíblia! E de toda a Bíblia, incluindo o Antigo Testamento, já que “toda a Escritura” é inspirada (soprada) por Deus. Nela, é Deus quem fala. E não, não é exatamente a ICAR quem define e institui o que é o que não é a palavra de Deus, assim como não é você, leitor(a), quem define o que eu falei ou não. A Igreja não define o que Deus falou, ela reconhece. O processo de seleção dos livros que fariam parte do Novo Testamento é um processo de reconhecimento, de discernimento do que Deus falou, do que é sagrado e do que não é.

Logo, a autoridade não vem da Igreja, mas sim do reconhecimento dado por ela de que a Bíblia é uma obra divina. Não é como se a Igreja tivesse a liberdade de definir de modo irrestrito o que é o que não é sagrado. Não, o que acontece é que ela reconhece os sinais que mostram se um determinado livro é ou não sagrado. Há uma diferença enorme entre definir e reconhecer.

E que sinais seriam esses? Bom, se a Bíblia for um simples instrumento, como diz o padre, então fica até difícil dizer no que ela se distingue de outros livros. Mas a Bíblia é viva e eficaz:

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. (Hebreus 4:12)

A Bíblia é o único livro que pode tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Timóteo 3:17). A fé só é produzida pela pregação das Escrituras:

Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Romanos 10:11-17)

Destaquei a fala de Isaías, para mostrar que a pregação ali não é apenas sobre Cristo, mas é a pregação das Escrituras. Logo, embora as Escrituras não sejam a Palavra de Deus no sentido em que Jesus o é, ainda assim elas são “vivas”, “geram fé” e aperfeiçoam os homens. E muito mais poderia ser dito. Basta ler o Salmo 119 para enumerar muitas outras características que ajudaram a Igreja a reconhecer o que é e o que não é Palavra de Deus e parte da Bíblia.

Se a Igreja usasse sua autoridade para autenticar um livro que não viesse de Deus, isso não faria do livro algo sagrado. Tampouco daria ao tal livro todas as qualidades descritas acima.

Uma palavra final
Encerro por aqui, reconhecendo que há muito mais a ser estudado sobre o assunto. Aos protestantes que estejam flertando com o catolicismo, e questionando a solidez do Sola Scriptura, lembro que há livros que tratam do assunto com uma profundidade muito maior do que eu poderia fazer em um blog. Lembro que o posicionamento errado quanto à questão da autoridade pode ter implicações espirituais profundas, logo, não é o tipo de coisa para se decidir apenas por um texto de Internet ou um vídeo no YouTube.

Entristece-me saber que há protestantes que se debruçaram sobre as opiniões teológicas e filosóficas de autores católicos, mas não tiveram o mesmo empenho e curiosidade em estudar o que a melhor teologia protestante ensina sobre isso. Entristece-me ainda mais quando vejo que a maioria dos protestantes sequer leu a Bíblia toda e é incapaz de comparar os ensinos bíblicos com as tradições religiosas do cristianismo.

No mais, eu não acredito em uma tradição que se desvie de seus princípios fundamentais. A Igreja está construída sobre a pessoa de Cristo, Ele é a pedra angular. Mas o que vem acima disso é o fundamento dos apóstolos e profetas, ou seja, o ensino registrado nas Escrituras, na Bíblia. E um edifício que não se assenta sobre o seu fundamento está condenado a cair:

Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Efésios 2:19-22)

Sola Scriptura!

Solus Christus!

Sola Gratia!

Sola Fide!

Soli Deo Gloria!

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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Foro privilegiado e o julgamento de líderes: uma reflexão bíblica

“Todos são iguais perante a Lei”, diz a Constituição do Brasil. Contudo, na prática, as coisas não parecem ser assim. Enquanto pessoas comuns são julgadas por juízes de primeira instância, as autoridades têm direito ao “foro privilegiado”. Dependendo do cargo que ocupam, as autoridades são julgadas por tribunais de instâncias superiores. Em princípio, esse privilégio visa defender o interesse público e não é algo pessoal, pois liga-se somente ao cargo, e não à pessoa que o ocupa.

Contudo, o foro privilegiado pode ser desvirtuado, como bem mostra a política brasileira atual. Nomeações como as de Carolina Pimentel são questionadas, pois usariam o foro privilegiado como uma maneira de escapar de investigações e pedidos de prisão. O caso mais notório é o do ex-presidente Lula, que foi nomeado ministro de Estado, supostamente para escapar de investigações da Operação Lava-Jato. No caso, a nomeação está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal.

Não é à toa que o instituto do foro privilegiado está sendo questionado no Brasil. E o cristão, como deve se posicionar? A questão é mais complexa do que parece, e não pretendo dar um parecer definitivo e bem fundamentado aqui. Entretanto, creio que a Bíblia traz alguns princípios espirituais que ajudam nossa análise. Qual o ensino bíblico sobre o julgamento de líderes? Vamos usar 1 Timóteo 5 como nosso texto-base:

Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade. (1 Timóteo 5:17-21, grifos meus)

O princípio da honra

Presbíteros são os líderes da Igreja do século I. O termo significa “ancião” e também é usado para descrever os pastores. O primeiro ensino do texto é o de que os presbíteros que presidem bem devem ser merecedores de “dobrados honorários”. A palavra “honorários” pode ser traduzida como “avaliação pela qual o preço ‘fixado”, mas também tem o sentido de “honra, reverência, deferência”.

O princípio é o de que líderes devem ser honrados, principalmente quando executam bem a sua função e se ocupam de tarefas mais importantes. No caso de presbíteros, isso se aplica àqueles que são bons líderes e se dedicam à pregação e ao ensino da Bíblia. Essa honra se manifesta por meio do pagamento do salário, como um reconhecimento do trabalho feito por eles, e por meio do respeito e reverência que devemos a eles.

De modo análogo, as autoridades civis também têm o direito de serem remuneradas, por meio dos impostos. O trabalho delas é reconhecido pelo Senhor, que também exige de nós que lhes demos a honra que lhes é devida.

Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Romanos 13:6-7)
O princípio do julgamento justo
A honra não livra as autoridades espirituais de responderem pelos seus atos. Presbíteros são líderes espirituais, mas que podem ser denunciados quando erram. A condição exigida no Novo Testamento é o de que mais de uma pessoa tenha testemunhado o fato.
Em princípio, isso parece ser uma espécie de “foro privilegiado”, mas o princípio das duas testemunhas é aplicado a todos os casos de disciplina bíblica, seja no Antigo ou no Novo Testamento:
Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniqüidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato. (Deuteronômio 19:15)
Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. (Mateus 18:15-16)
Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida. (2 Coríntios 13:1)
A exigência das duas testemunhas é uma forma de garantir um julgamento justo, e se aplica tanto a pessoas comuns (irmão), como a autoridades. É a regra geral para qualquer pecado cometido, como forma de se estabelecer um fato.
As autoridades civis também têm direito a um julgamento justo. Biblicamente, porém, esse direito é o mesmo dado a pessoas comuns.
justiçastf
O princípio do exemplo
Líderes são exemplos para seus liderados. Se um líder não é punido quando comete uma falta grave, os liderados perdem o temor e começam a pecar. É exatamente o que acontece hoje no Brasil. Uma vez que as autoridades raramente são punidas, o brasileiro comum deixa de ver problema em cometer pequenos atos de corrupção. Ou pior: muitos partem mesmo para o crime. Não há meio mais eficaz de liderar do que o exemplo.
Por isso, quando os presbíteros “vivem no pecado”, a Bíblia ensina que eles devem ser repreendidos na frente de todos. É uma sentença mais rigorosa do que a de um cristão comum, que seria repreendido privadamente. Todavia, uma vez que o presbítero ocupa uma função pública e deve ser um referencial para a Igreja, ele é julgado com um rigor maior, “para que também os demais temam”. Quanto maior o conhecimento, ou a autoridade, mais rigoroso é o juízo:
Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. (Tiago 3:1)
As autoridades civis também respondem por seus atos e são julgadas quando erram. Não é porque Deus as constituiu que elas podem fazer o que quiserem. O Salmo 82 é uma grande prova dessa verdade:
1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.
2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?
3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado.
4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.
5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra.
6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.
7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.
8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações. (Salmo 82)
O princípio da imparcialidade
Um último princípio a ser analisado é o da imparcialidade. No texto-base, Paulo encerra suas recomendações a Timóteo sobre presbíteros, dizendo que ele não deveria fazer nada com parcialidade. Os conselhos que ele dá sobre as lideranças deve ser guardado sem prevenção, ou seja, sem reservas ou receio de se cometer algum erro.
Secularmente, a autoridade goza da presunção da honestidade. Presume-se que ela não errou, a não ser que exista prova em contrário. Nem sempre o cidadão comum é tratado assim, e precisa provar a sua inocência em alguns casos, além de ser julgado com maior rigor em certas situações. Na Igreja também somos tentados a tratar pastores e presbíteros da mesma maneira: a posição pressupõe um certo nível de integridade. Infelizmente, os cristãos “comuns” não gozam da mesma presunção, embora também se espere deles um certo nível de integridade.
Autoridades e pessoas comuns devem ser julgados imparcialmente, sem qualquer tipo de favorecimento. Se, por exemplo, a lei brasileira dá privilégios a autoridades e a pessoas com curso superior, a Bíblia não adota esse padrão em seus julgamentos.
Cristo: nosso modelo de líder
Parece-me claro que os princípios bíblicos parecem não validar o foro privilegiado. Entretanto, o argumento mais forte que encontro para me opor ao privilégio não está nos princípios acima, mas em Cristo Jesus.
Cada líder tem a missão de representar a Cristo dentro de sua esfera de poder. Isso vai desde o irmão mais velho cuidando dos menores até os reis e presidentes. Quando honramos os pais, por exemplo, isso nos lembra que devemos honrar muito mais a Deus e ao seu Filho. Jesus é aquele que julga com justiça. Ele é o exemplo perfeito de como devemos viver. E Ele é imparcial em seus julgamentos.
No entanto, o próprio Cristo foi julgado e condenado injustamente, apesar de sua perfeição! Se Cristo fosse uma autoridade do mundo, certamente ele teria tentado obter algum tipo de “foro privilegiado” para escapar. Jesus tinha o direito de fazê-lo, como Filho de Deus. Porém, Ele preferiu não usar seu privilégio:
Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?  Naquele momento, disse Jesus às multidões: Saístes com espadas e porretes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias, no templo, eu me assentava [convosco] ensinando, e não me prendestes. Tudo isto, porém, aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram. (Mateus 26:53-56)
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)
Por amor aos seus liderados, Cristo não recorreu a anjos ou ministros. Ele aceitou ser julgado e até condenado em um julgamento injusto. Ele mostrou que o verdadeiro líder deve estar disposto até a morrer pelos seus! Na verdade, a condenação de Jesus é o motivo pelo qual nós somos salvos:
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1 Pedro 3:18)
Pense em como isso é diferente dos líderes que usam o foro pivilegiado para se protegerem, ainda que prejudicando a sociedade! As autoridades desse mundo querem usar o seu poder para se protegerem do povo. Cristo faz o oposto. Ele aceita sofrer o mais injusto dos julgamentos, com o maior rigor possível, para que nós fôssemos salvos.
Porque Ele sofreu e ressuscitou, líderes e liderados que erram e vivem no pecado podem ter esperança. Sim, até mesmo os políticos e magistrados brasileiros. Basta que se rendam ao Líder Supremo, à Autoridade Suprema, que é Jesus Cristo.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Mudar a presidente não é o suficiente

Escrevo este texto poucas horas depois do anúncio de que o Congresso Nacional acolheu a abertura do pedido de impeachment da presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Para muitos, como eu, um eventual impeachment representa um alívio e uma esperança para o país, mergulhado em denúncias de corrupção, rombo nas contas públicas (um Governo que gasta muito mais do que arrecada com impostos) e uma grave crise econômica. Um novo presidente pode significar mudanças positivas que ajudem a reverter esse quadro tão negativo.

Contudo, o maior erro que podemos cometer é achar que o presidente certo será a salvação do Brasil, como se precisásssemos apenas de um novo líder. Mesmo que trocássemos, instantaneamente, todos os integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, ainda assim o Brasil estaria longe de deixar o seu atraso. Um golpe militar que desse a algum sábio ditador poderes absolutos ainda não seria suficiente para trazer o Brasil para o grupo dos países mais desenvolvidos do mundo.

Um país apodrecido

Nossa situação é muito parecida com aquela vivida pelo reino de Judá, no século VIII antes de Cristo. Veja em Isaías 1 como Deus avaliava o estado de seu povo naqueles dias.

Ai, nação pecadora, povo carregado de iniqüidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao Senhor, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás. Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo.
Isaías 1:4-6

Demais? Vejamos: por dia, são assassinadas no Brasil mais de 150 pessoas. É mais que o número de mortes do conflito entre israelenses e palestinos. Na última década, o número de divórcios subiu 160%! Mais de 340 mil apenas em 2014. O Vale do Rio Doce e o litoral capixaba sofrem com a maior tragédia ambiental da nossa história. Não se respeita a vida, o casamento e a criação.

Na verdade, é interminável a lista dos graves pecados cometidos diariamente pelo brasileiro. Nosso emprego dos sonhos é o serviço público, porque ganha mais, trabalha menos e ainda tem estabilidade. Dito de outra forma, valorizamos mais a preguiça do que o trabalho. As crianças não respeitam os pais e a violência nas escolas explode. Aliás, os pais querem que as escolas eduquem os filhos, e a educação que o Estado quer oferecer é o marxismo e a ideologia de gênero, desconstruindo o modelo familiar ensinado na Bíblia. Os bandidos são presos e ficam em presídios lotados e imundos, e isso, quando o juiz não manda soltar! Mesmo os policiais são pegos quase todos os dias em casos de abuso de autoridade, execuções informais e até de conluio com o crime organizado.

Faltou tanta coisa ainda! O amor à sensualidade, o desleixo com a saúde pública (basta olhar o surto de bebês com microcefalia), o culto que gira em torno de dinheiro e prosperidade, a impunidade confundida com graça, o jeitinho que nunca segue regras, a glorificação do malandro…não é exagero algum dizer que, da planta do pé ao alto da cabeça, não há nada são no Brasil.

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Um povo apodrecido

No entanto, o brasileiro gosta de pensar que o problema está apenas na cabeça. O povo é bom, honesto e trabalhador. O único problema seria a elite política e empresarial corrupta que governa a Nação. Se os políticos e os empresários fossem trocados por gente do povo, o Brasil seria um país justo e ordeiro.

Outros, mais sofisticados, insistem que o nosso problema é “de cabeça”, de mente, de educação. Estamos presos a ideologias do atraso. Se aprendermos mais sobre política, economia, sociologia e filosofia, mudaríamos nossa forma de ser e agir. O Brasil seria um país de Primeiro Mundo, mas com seu tempero tropical.

Se, porém, levamos o texto bíblico e a realidade a sério, precisamos entender que o nosso problema é de cabeça e de coração. Não é apenas a elite que é corrupta. O povo também rouba. Também trai a mulher e abusa dos enteados. Também mata, estupra e espanca todo mundo em casa. O povo também gosta de sensualidade, drogas e dinheiro fácil. Não é apenas a educação do Brasil que é corrompida, mas também seu coração. Verdade seja dita: eu, você e mais um monte de cristãos amamos e valorizamos a vida fácil e detestamos o trabalho duro! Muitas vezes preferimos pecar e ter dinheiro no bolso do que ser santos e viver na miséria.

O primeiro passo para a mudança não é trocar de presidente: é aceitar o julgamento de Deus a nosso respeito! Precisamos parar de acreditar que somos a Israel fiel dos dias de Josué, de Davi ou de Salomão, que o Senhor gosta tanto de nós que Ele é brasileiro! Não! Somos o doente incurável que está diante do Senhor dos Exércitos.

Uma igreja apodrecida

E os protestantes e evangélicos que não se iludam, achando que todos os males do Brasil são culpa dos que não conhecem a Deus. Também sobre nós se aplica o que o Espírito Santo fala em Isaías 1:

De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Isaías 1:11-15

Não faz tanto tempo assim que saí do Brasil. Mas, pelo que me lembro, as igrejas do Brasil estão muito preocupadas com crescimento. De modo geral, todas as denominações desejam isso, o que muda é a receita. Algumas prometem prosperidade, desde que sejam trazidas gordas ofertas e dízimos generosos para o culto. Outros querem uma igreja simpática, que acolhe o pecador…e o pecado. Não disciplinam, não confrontam, não são explícitas quanto ao Evangelho…e o resultado é que o pecado está misturado com o culto solene. Os adoradores continuam com sangue nas mãos…o sangue das vítimas da violência, dos roubos, dos adultérios…e esse sangue nunca é lavado. Não há arrependimento. Apenas tolerância.

Era exatamente assim o culto nos dias do profeta Isaías. Os judeus pensavam que as ofertas cobririam os pecados. Que bastava sacrificar animais gordos e fazer cultos bonitos, que Deus ignoraria o pecado. A preocupação era toda exterior: ninguém examinava seus atos diante de Deus. O resultado: cultos e orações rejeitados por um Deus cansado de sofrer com o pecado de Seu povo.

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A única salvação possível

Humanamente, nem a Israel do século VIII a.C. e nem o Brasil do século XXI possuem esperança. O câncer já se alastrou e a infecção é generalizada. Mas Deus não é homem. Há uma solução:

Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra. Mas se recusardes, e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do Senhor o disse.
Isaías 1:16-20

Se houver mudança, se houver arrependimento, há purificação. Ainda que tenhamos derramado tanto sangue que nossa alma esteja vermelha escarlate, o Senhor nos tornará brancos como a neve. Se houver santidade, o cadáver insepulto reviverá.

Mas essa não é uma obra que eu e você possamos fazer. Para nós, com a nossa força, é impossível lavar-se e purificar-se. Mudar o coração está além de nossa capacidade. Todavia, o mesmo Isaías nos fala quem pode fazer isso por nós:

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. Isaías 53:4-6

Isaías falava a respeito de Jesus, o nosso Salvador, que tomou sobre si as nossas enfermidades, dores e pecados. O castigo por cada homicídio, adultério, idolatria, roubo e transgressão foi lançado sobre Jesus. Todos os que são salvos foram, um dia, ovelhas desgarradas e desviadas, mas Jesus sofreu no nosso lugar para nos trazer salvação.

Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores. Isaías 53:10-12

Em Isaías 1:16-20, a Bíblia nos fala que, se quisermos e obedecermos, comeremos o bem desta terra. O que é isso, se não o bom prazer do Senhor? Só entra nesse prazer aqueles que fazem parte da posteridade de Jesus. O sofrimento de Jesus foi expiatório, ou seja, o sofrimento d’Ele aplacou a ira de Deus sobre o nosso pecado e nos tornou propícios a Deus.

Quando depositamos nossa fé em Jesus e aceitamos o Seu conhecimento, ou seja, a Sua Palavra, somos salvos. Jesus nos justifica e nos faz parte de Sua podteridade. Ele leva sobre si o nosso pecado e intercede por nós. E é por meio dessa amizade que somos transformados. É Cristo quem nos leva ao verdadeiro arrependimento e transforma nossas vidas sujas em algo mais branco que a neve.

Bem sei que é apenas no fim dos tempos que todos verão que Jesus é a Verdade. Até lá, os países não aceitarão serem governados por Cristo. Cedo ou tarde, a mesma podridão alcançará o mundo inteiro. Mas, enquanto isso não acontece, os povos que mais ouvem essa mensagem e seguem ao Senhor são mais preservados por Ele. Já os que não lhe dão ouvidos, mesmo que sejam materialmente prósperos, apodrecerão e sofrerão o juízo divino. E isso já está acontecendo.

Até lá, uno-me aos profetas que clamam: “Brasil, olha pra cima!”

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

 

Cristo Salvador? Sim! E o Cristo Redentor?

Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Porque, na esperança, fomos salvos. (Romanos 8:22-24a)

Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5:14-17)

Se perguntarmos a um estrangeiro qual a primeira imagem que lhe vêm a cabeça quando se fala em Brasil, provavelmente será  a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro. Quando olhamos para aquela imagem, de um Jesus de braços abertos, imaginamos que redenção significa acolhimento. Talvez o Cristo Redentor seja aquele que está de braços abertos, pronto a receber a quem quer que seja.

Essa imagem não é diferente da que muitas pessoas têm sobre a obra salvadora de Cristo Jesus. Quando dizemos que as pessoas são salvas pela graça, enfatizamos que qualquer um pode vir a Jesus, o que é uma verdade. Não importa o passado ou o pecado, Cristo está aberto para salvar a qualquer um que se aproxime dele.

A questão é que reduzimos a salvação de Cristo ao simples perdão de pecados. Gostamos de falar que Cristo é o nosso Salvador, porque associamos esse título à parte da salvação que nos é conveniente: em Cristo, todos os nossos pecados são perdoados e nossa culpa é removida. O céu volta a ser uma opção para nós. E isso é o que importa, certo?

O que é salvação?

Entretanto, ser salvo não é apenas ter a culpa do pecado removida. Jesus não veio ao mundo morrer na cruz para que continuássemos a viver no pecado, sem medo de sermos condenados ao inferno. Dizer-se cristão e continuar nos mesmos hábitos, preso aos mesmos gostos e inclinações, é uma grande mentira.

Todo aquele que é salvo tem a esperança de ter o seu corpo redimido. A palavra usada na Bíblia tem o sentido de “libertar alguém pelo pagamento de um resgate”. Redimir é mudar o estado de alguém a um preço muito grande. Ao morrer na cruz e ser punido em nosso lugar, Jesus pagou o preço necessário para libertar o nosso corpo da escravidão do pecado. Ele começou ali a nos redimir.

Contudo, a redenção ainda não foi concluída. Todo verdadeiro cristão anseia pelo dia em que não pecará mais. Ele geme em seu interior, aguardando o dia em que não mais terá pensamentos impuros, ira pecaminosa ou desejos contrários aos de Cristo. É nessa esperança de ser transformado que ele é salvo.

Vemos assim que a redenção é a libertação do pecado que ainda habita em nós. É um evento futuro, mas já iniciado! Aquele que está em Cristo já é uma nova criatura! Ela não é mais a mesma velha pessoa, tudo passou! A redenção já foi iniciada, mas ainda não foi concluída.

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O meio da redenção

Sem dúvida alguma, a redenção é uma obra realizada pelo Senhor Jesus. Nenhum ser humano tem o poder de se auto-redimir. Jejuns, orações ou atos de caridade não podem comprar a liberdade do ser humano. Apenas Cristo pode nos libertar.

Parece bom, mas confesso que muitas vezes é desesperador saber disso. A redenção é uma obra que não está sob meu controle. Eu dependo inteiramente de Deus para que ela aconteça. E, muitas vezes, não entendo se Cristo está mesmo realizando sua obra redentora em minha vida ou qual o meu papel em tudo isso. Como Cristo me redime?

A resposta bíblica é clara: a redenção acontece por meio da santificação. E santificar-se é morrer e viver com Cristo. Só é redimido quem morre para si mesmo e para seus desejos e paixões e vive para Cristo. Ser livre é abandonar tudo o que se é e o que se tem na cruz, para receber em troca um novo ser, com novos gostos e desejos, refeito pelo Senhor. Ser livre é ver o nosso eu morrer e ver Cristo vivendo em nosso lugar.

A recusa da redenção

Parece simples, mas, se pensarmos bem, são poucos os que realmente desejam ser redimidos. Porque a redenção envolve uma transformação completa que não queremos que aconteça. Redimir não é consertar, é substituir.

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E nós não queremos essa substituição. Por exemplo, redimir é preferir, de verdade, um mundo onde a pornografia e a prostituição não existam. É preferir o celibato e a castidade à imoralidade sexual, ao sexo fora do casamento. É ansiar pelo dia em que não será possível dar vazão às frustrações do dia-a-dia olhando uma modelo no computador ou acariciando pesadamente uma namorada.

Redenção é ver a beleza em um espírito manso e tranquilo, e não em um corpo sarado e adornado com belas jóias e vestidos. É procurar o seu valor pessoal em Cristo, e não na opinião que outros homens e mulheres têm sobre nós. É estar bem sozinha, com o Senhor, sem ver o casamento como a razão última da vida, a ponto de sacrificar a fé em um relacionamento impuro.

É amar a Deus mais do que se ama o dinheiro. É estar contente com o que se tem e ter a alma cheia de gratidão, mesmo em meio à pobreza ou à doença. É não ansiar pelo dia de amanhã, mesmo quando não se sabe se haverá um lugar para reclinar a cabeça à noite. É preferir um dia na presença do Senhor do que dez mil dias na Disney, em um resort no Caribe, nas raves da Europa ou em qualquer outro lugar.

E isso é algo que não queremos. O que queremos mesmo é ir para o céu e levar um pouco do inferno conosco. Queremos brincar com as chamas do inferno e ter a garantia de que Deus curará as queimaduras.

O Senhor, de fato, cura as queimaduras que o inferno produziu e ainda vai produzir em nós. Mas Ele também nos queima em seu fogo purificador, até que morra todo o desejo que temos pelo fogo do inferno. Ele envia tribulações e sofrimentos para purgar-nos de todo o desejo pelo que é mau. Afinal, Jesus veio ao mundo para substituir o nosso coração de pedra por um coração de carne, que realmente ama e deseja o que é do Senhor. E esta é a nossa esperança.

Uma oração final

Pai, agradeço ao Senhor porque a obra de Cristo é completa. Louvo ao Senhor porque, em teu Filho, tenho o perdão de meus pecados, e a redenção de todo o meu ser. Leva adiante essa obra em minha vida. Dai-me a graça de ser liberto de todo amor que tenho pelo pecado. Que, a cada dia, o Senhor trabalhe em mim para substituir o meu eu pecador pela nova criatura que eu já sou, em Cristo Jesus. Perdoa-me os pecados e o meu apego a eles, bem como minha frieza em relação a Ti. Dai-me a graça de ansiar, junto com a sua criação, pelo dia em que serei completamente transformado. Em nome de Jesus. Amém.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima

Barro nas  mãos do Oleiro

Quando perdemos Jesus

Em vários momentos da nossa vida, parece que Jesus não está mais presente em nossas vidas. Isso é fácil de perceber quando estamos longe da Igreja, com a Bíblia acumulando poeira na estante e nós nem nos lembramos mais como orar. Mas, mesmo quando estamos comparecendo aos cultos e atividades da igreja, temos a sensação de que perdemos algo.

É uma sensação diferente do silêncio de Deus. Tudo está “normal”, mas não há mais a consciência de que o Senhor está presente. Acordamos, trabalhamos, até fazemos deveres religiosos, mas sem que reflitamos sobre o Senhor, sem que O amemos e o desejemos, sem que Ele ocupe os nossos pensamentos. Imaginamos que o Senhor está por perto, mas, na verdade, Ele tomou outro caminho e nós nem percebemos. Foi o que aconteceu com José e Maria, na história que podemos ler em Lucas 2:41-52.

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Não tire os olhos de Jesus

Era a época da Páscoa e José e Maria estavam voltando de uma viagem que eles faziam todos os anos. Jesus já tinha uma certa idade e seus pais humanos relaxaram e o perderam de vista. Imaginaram que Jesus estava com outras pessoas na caravana que voltava de Jerusalém para Nazaré. E continuaram vivendo normalmente. O engano só foi percebido no dia seguinte.

Hoje, é possível cometer o mesmo erro, e ir fazendo as mesmas coisas, sem perceber o sumiço de Jesus. Por exemplo: quantos pais não se surpreendem quando descobrem que seus filhos já não amam mais o Senhor há muitos anos? Pais que vão à igreja e oram, mas que relaxam e não percebem o mau testemunho dentro de casa, a frieza com que se falou de Deus, a negligência com o Senhor na hora de tomar decisões, a amizade com o pecado…mas sempre imaginando que Jesus estava em casa.

Felizmente, José e Maria perceberam isso no dia seguinte. Eles poderiam ter se dado conta somente quando chegassem a Nazaré. É importante que, todos os dias, nos examinemos e vejamos se o Senhor tem estado conosco. Se temos sido frios espiritualmente, se temos sido incrédulos, se temos amado pequenos pecados e nos recusado a lutar contra eles…precisamos, diariamente, verificar o nosso estado espiritual para corrigir, o quanto antes, aquilo que está errado.

Onde achar Jesus?

E corrigir não significa melhorar os nossos esforços humanos. A verdadeira correção acontece é quando voltamos para Jesus. José e Maria pensavam que lideravam a Cristo, que Cristo os seguiria. Nessa história, o Senhor está relembrando-os de que Jesus não é apenas “filho de Maria”, Ele é “Filho de Deus”, maior que José e Maria, e Ele é quem deve ser seguido.

Nós também achamos que é Jesus quem nos segue. Se vamos para a igreja, para o trabalho ou para a balada, é óbvio que Jesus precisa estar ali! Bom, como Deus Onipresente, Cristo está em todos os lugares. Mas a presença abençoadora d’Ele não. Quando isso acontece, somos nós que precisamos voltar para Jesus!

E onde podemos encontrá-lo? O próprio Jesus nos responde:

Ele perguntou: Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai? (Lucas 2:49 – NVI)

Jesus pode ser encontrado na casa do Pai. O templo de Jerusalém simbolizava essa “casa”. Mas, após a morte e ressurreição de Cristo, a Igreja toma o lugar do templo:

Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade. (1 Timóteo 3:15)

Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. (…)Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo. (1 Coríntios 3:9, 16-17)

Quando perdemos a Cristo, é na Igreja que iremos encontrá-lo! Não me refiro, com isso, ao prédio que chamamos de igreja, mas sim às pessoas salvas pelo Senhor que são, de fato, a sua Igreja. É no meio dos irmãos que o Senhor está.

O que Jesus faz?

Mas, encontrar a Jesus na Igreja é mais do que estar simplesmente lá. É mais do que sair com gente que se diz cristã para comer uma pizza ou cantar violão na praça em um fim de semana. É perfeitamente possível fazer todas essas coisas e, ainda assim, perder a Jesus.

Como encontrá-lo? Repare no que Jesus estava fazendo.

E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os. E todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas. (Lucas 2:46-47)

Jesus conversava com os doutores sobre a Lei, sobre o Antigo Testamento, sobre a parte da Bíblia que eles tinham até aquele instante. Jesus ouvia e interrogava. Havia um diálogo entre o Senhor e os doutores.

Quando a Igreja se reúne para aprender sobre a Palavra, Jesus ouve nossas orações e questionamentos e também nos questiona de volta. De fato, nos Evangelhos, é fácil perceber que a atividade preferida de Jesus no Templo de Jerusalém era o ensino.

Cristo sempre nos liderará para a Palavra e para a Igreja. Os cultos, os cursos e até mesmo o momento da pizza são oportunidades que o Senhor usará para nos interrogar sobre a Sua Palavra e moldar os nossos corações.

José e Maria estavam surpresos quando acharam ali a Jesus. Contudo, Ele nos diz, com naturalidade, que ali deveria ser o primeiro lugar. Muitos há que procuram um Jesus perdido em livros, peregrinações, obras de caridade…mas se recusam a ir até a Igreja e aprender a Palavra com os irmãos. A Igreja é imunda, hipócrita, falsa, dizem. A Bíblia é um livro ultrapassado. Contudo, é na Igreja e na Palavra que Ele está. É somente ali que aprenderemos quem é Jesus e o que Ele veio fazer: morrer na cruz pelos nossos pecados, no nosso lugar, e ressuscitar para que possamos ressurgir com Ele para uma nova vida.

Um bônus

Por fim, há uma bênção quando nos reencontramos com o Senhor. Ele desce conosco para “Nazaré”, Ele vem conosco para o nosso trabalho, nossos estudos, nosso casamento. Soberanamente, Ele vai crescendo em nossos corações. E a graça d’Ele vai crescendo também em nós.

Jesus nunca será sujeito a nós, como ele foi a José e a Maria, enquanto criança. Mas o exemplo de vida d’Ele (no caso, a submissão) estará sempre conosco. Teremos, assim como José e Maria, o privilégio de conviver com o Filho de Deus.

Que Ele sempre more em nossos corações. E que eu e você possamos encontrá-Lo no lugar certo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Como matar um cristão de sede?

Qualquer pessoa que tenha lido a Bíblia com um mínimo de seriedade já lutou contra algum texto que lhe parecia muito difícil…de entender ou de viver. Na verdade, isso é esperado de um livro sagrado: se ele fosse fácil como um livro de auto-ajuda, ele não poderia ter uma origem divina. Mas é frustrante quando algumas passagens continuam enigmáticas ao longo dos anos, por mais que você leia e releia, ore e converse com outras pessoas. Com certeza, há algumas que nunca entenderemos nessa vida.

É o que acontece comigo e um trecho muito conhecido do Evangelho de João:

Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. (João 4:13-14)

Quando li a primeira vez, imaginava que, como um cristão, não sentiria falta de coisa alguma. Não teria dentro de mim nenhum vazio ou frustração. Haveria sempre um certo contentamento que me satisfaria em qualquer circunstância. Bom, aqui estou eu, mais de 20 anos após a minha conversão…e quem me conhece sabe que carrego frustrações, vazios, arrependimentos…sinto uma sede indefinida que parece nunca ser saciada e que, por vezes, parece me sufocar. Começa então uma verdadeira batalha interior: mas será que essa palavra de Jesus é verdadeira? Por que então a sede? Mas o Espírito Santo não deveria jorrar para sempre em meu interior?

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Creio que não estou sozinho. Deve haver outros, como eu, que leram o Evangelho de João, olharam para a própria vida e também vivem uma luta visceral com essa fala de Jesus. Não que eu tenha encontrado a resposta. Mas, recentemente, o Senhor me deu um vislumbre do início da resposta.

Leia a passagem com atenção
Aprendi nos seminários que 90% do trabalho do estudioso da Bíblia é a observação. E, ao ouvir um sermão de Tim Keller sobre amor e luxúria (está na lista do podcast dele), ele chamou a minha atenção para algo que nunca havia percebido. Se você não conhece a história da mulher samaritana, leia todo o capítulo 4 do Evangelho de João. Aqui eu só vou destacar alguns versículos:

Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.

Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)?

Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.

Respondeu-lhe ela: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu, porventura, maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e, bem assim, seus filhos, e seu gado?

Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.

Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.

Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e vem cá; ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido.

Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. (João 4:7-18)

Ora, mas que coisa estranha! Reparem: Jesus fala da água viva, a água que mata a sede para sempre. Ele diz à samaritana que ela pode pedir essa água. Ela vai e pede…e Jesus a manda chamar o marido!

Na verdade, Jesus estava começando a dar a ela a água viva, a água que mata a sede! Ele começou a fazer isso apontando o pecado da samaritana. Ele começou a fazer isso quando a confrontou sobre a legitimidade do seu relacionamento romântico, quando apontou como aquela mulher havia fracassado em cinco casamentos e havia escolhido viver em um relacionamento fora da vontade de Deus. Não é possível ter o Espírito Santo fluindo em nossa vida e saciando a nossa profunda sede existencial enquanto o nosso pecado não for tratado!

Se continuarmos lendo João 4, veremos que a confrontação do pecado levou a mulher a reconhecer seu erro e a começar a enxergar a autoridade de Jesus. Ela se interessa por adoração, mostra desejo de conhecer o Messias, aquele que explicaria todas as coisas, e aí ela tem a revelação de que Jesus é o Messias, o Ungido, o Salvador prometido no Antigo Testamento. Todo esse processo de iluminação e de revelação sobre quem é Jesus começou quando o Senhor apontou o pecado que precisava ser tratado e tocou naquela área de sua vida em que ela não tinha mais esperanças ou que ninguém achava que pudesse ser consertada.

A seguir, ela vai e testemunha de Jesus a toda a sua cidade. Quando os habitantes de Sicar saem e questionam a Jesus, todos são iluminados e transformados. A fonte encheu o coração da samaritana e transbordou para alcançar os seus vizinhos.

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Matando de sede
E daí eu encontro uma resposta para os vazios que ainda carrego comigo. Se quero matar minha sede, devo ir até Jesus e dizer “onde estão meus maridos”. Devo admitir o meu pecado. Devo deixar que o Senhor me questione e que Ele me fale a verdade, ainda que seja doloroso ouvi-la. Mesmo sendo pastor, não posso mentir: há vários pecados e quartos escuros na minha vida que não foram expostos e tratados. E, enquanto isso não acontecer, a fonte será apenas um fio d’água a correr.

Creio que isso acontece com muitos outros, por dois motivos básicos. Comecemos pelo motivo mais “piedoso”. As igrejas não sabem lidar com o pecado de seus fiéis. Quando as pessoas realmente nos contam sobre sua ira que não passa, sobre suas dificuldades sexuais e afetivas, sobre a tristeza mórbida que sentem e cultivam…raramente vamos além de uma breve oração sobre o assunto. Não temos conselheiros sábios e pacientes em quantidade suficiente para conversar conosco, assim como Jesus conversou com a samaritana, e tratar dos nossos pecados. Falando como pastor, admito que é muito mais fácil organizar uma conferência de 10 dias sobre um tema doutrinário difícil do que aconselhar um único adolescente que não consegue parar de se masturbar e ver pornografia na Internet. Organizar dois acampamentos de Carnaval, ao mesmo tempo, é infinitamente mais fácil do que dar um conselho útil a um casal que está passando por uma crise conjugal. É preferível escrever uma monografia sobre a carta aos Romanos do que ajudar uma vítima de abuso sexual a superar o que houve e se relacionar afetivamente com alguém.

Mas há um motivo bem menos “piedoso” para matar os cristãos de sede: o medo deles fugirem e esvaziarem a Igreja. Minha leitura pode até estar errada, mas todos estão muito mais preocupados em ter uma igreja cheia do que em ter uma igreja saudável. A maioria dos pastores e presbíteros prefere uma igreja cheia de cristãos que vivem no pecado e estão espiritualmente sedentos do que uma igreja pequena e vazia de cristãos que estão sendo confrontados e tratados a deixarem o pecado. Temos medo de “dar nome aos bois” e ver as ovelhas abandonando a Igreja porque estão ofendidas com a confrontação. Amamos mais a quantidade do que qualidade. Preferimos ministrar a grandes auditórios do que perder horas e horas, por meses a fio, com uma única pessoa em luta contra a pornografia ou a compulsão por comida. Nos tornamos uma igreja industrial.

Se queremos mudar, é preciso que todos façam uma reflexão. Se você é uma “ovelha” em luta contra o pecado, precisa entender que o seu pecado deve ser nomeado, apontado, exposto e tratado pelo Senhor. Deve orar pedindo ao Senhor que mande alguém ajudá-lo (ou ajudá-la) a desobstruir o caminho que a fonte do Espírito fará em sua vida. Deve se dispor a isso.

Se você é um(a) líder, seja pastor, presbítero, diácono, presidente de mocidade ou o que quer que seja…é preciso entender que Jesus nos chama para conduzir os cristãos a uma vida plena. E não basta apenas pregar sobre isso, dizer que Deus tem um plano maravilhoso para a vida das pessoas e que Ele tem uma abundância espiritual e existencial a nos oferecer. É preciso ir do evangelismo para a verdadeira comunhão. É preciso conhecer as pessoas a ponto de saber qual o pecado delas e de orientá-las. É preciso perder o medo de desagradar as pessoas e se lembrar que os verdadeiros filhos de Deus querem ser tratados, e não fugirão! E, se nos falta conhecimento, devemos humildemente orar, estudar e pedir ajuda de outros líderes…até que saibamos o que fazer quando pecadores pedem a nossa ajuda para que a fonte do Espírito Santo jorre, de uma vez para sempre, em seus corações.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Lembrem-se dos pobres

Quando o mundo pensa em pobreza, o Brasil não aparece mais no imaginário coletivo. Ao contrário de muitos países africanos e asiáticos, o Brasil é visto como uma “potência emergente”, uma terra cheia de oportunidades e riquezas. Para haitianos, nigerianos e estrangeiros de outras nacionalidades, o Brasil é atrativo o suficiente para valer o risco de se contratar “coiotes” para tentar viver aqui. Não somos mais vistos como um país “coitado” que deve ser visto com leniência, e sim como um país pronto a assumir mais responsabilidades e gerar riquezas.

Contudo, apesar de todo o progresso material acontecido no Brasil, ainda temos 16 milhões de pessoas vivendo na pobreza, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). É muita gente, cerca de 8,5% da população do país. O assunto é tão valorizado no Brasil que não é exagero dizer que o Bolsa Família, um programa governamental de combate à pobreza, decidiu as eleições presidenciais de 2014. Apesar de todos os escândalos de corrupção e dos problemas econômicos tratados na campanha eleitoral, o Bolsa Família foi decisivo porque 1 em cada 4 brasileiros depende do benefício, mais de 45 milhões de pessoas.

Se formos pensar em quantos brasileiros são dependentes de outros benefícios do Governo, como o seguro-desemprego, é inevitável perguntar: quantos pobres existem no Brasil? Aliás, o que é ser pobre? É apenas uma questão de renda ou envolve, por exemplo, a capacidade de conseguir se sustentar sem depender da ajuda de outros ou do Governo? Porque, se a pobreza e a dependência estão relacionadas, o Brasil é um país profundamente pobre, onde talvez um terço ou mais das pessoas dependa de outros para o seu sustento.

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A pobreza é um assunto extremamente relevante no Brasil, muito mais do que parece. Temos que começar discutindo o que é pobreza e como quantificá-la, com honestidade. Pra mim é óbvio, mas é preciso mostrar à sociedade que tornar um número tão grande de pessoas dependentes do Governo não é um caminho que elimina a pobreza, mas que a preserva. Temos que pensar em formas de reduzir essa dependência. Ignorar esse assunto é ser cego ao fato de que, para o brasileiro, a pobreza é um problema mais sério que a corrupção e a criminalidade. Se fosse diferente, outro candidato teria vencido as eleições de 2014.

Mas as igrejas protestantes insistem em subdimensionar essa questão.

Jogando o problema para outros
Quando falamos em pobreza, basicamente a resposta dos protestantes é a de passar o problema adiante, como se fosse uma batata quente em nossas mãos. A postura política explica pra quem jogamos a batata.

Os que estão mais à esquerda querem que o Estado resolva o assunto. Querem mais programas sociais do Governo e profissionais contratados pelo Estado para cuidarem do problema. Defendem que os necessitados devem procurar a Igreja e serem encaminhados para algum programa governamental. Simples assim, sem muito envolvimento. Quando a igreja tem algum trabalho social, logo procuram uma parceria com o Estado para receber recursos financeiros do Governo e livrar os fiéis da responsabilidade de financiar a caridade. Não importa se, para isso, é preciso desvincular o trabalho social da igreja, se é preciso esconder qualquer referência a Cristo…escondemos a Deus e a Igreja para termos o dinheiro do Governo.

Os que estão mais à direita jogam a batata no colo do pobre. Eles defendem, corretamente, que o dever do Estado é o de promover uma sociedade onde cada um tenha a liberdade de fazer a própria vida e receba, de volta, o resultado de seu esforço individual. Mas negligenciam que há um dever cristão, que o Senhor exige de todos os seres humanos, de amar ao nosso próximo.

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)

E o que é amar? Amar é abrir o coração (e o bolso) e socorrer aos que estão necessitados:

Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. (1 João 3:17-18)

Mais do que isso. A fé que salva é uma fé que faz obras. Biblicamente, as obras são maiores do que a caridade, pois envolvem todos os atos de obediência ao Senhor. Contudo, é inegável que a caridade é mostrada, claramente, como um exemplo de boas obras! Uma fé insensível aos pobres não tem utilidade e não é a fé que nos salva.

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (Tiago 2:14-17)

Vejam bem, os versículos acima são um lembrete a todos, à esquerda e à direita, que a caridade é um dever de todos, mas principalmente dos que são cristãos. Essa batata quente é nossa. É uma responsabilidade individual. Não pode ser delegada ao Estado ou ao pobre! E não deve ser negligenciada.

O lugar da caridade na missão
O meio bíblico de lidar com o problema da pobreza é a caridade (falo mais sobre isso aqui). Ser caridoso é um dos traços do amor e da fé verdadeiros. Com toca a certeza, é uma das questões que merecem a nossa atenção. Mas não é a questão mais séria que deve ocupar a Igreja. E quem ensina isso é o próprio Jesus, quando Maria, a irmã de Lázaro, derrama um perfume caro sobre Ele. Jesus nos ensina que adorá-Lo tem prioridade sobre o cuidado com os pobres.

Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. Jesus, entretanto, disse: Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes. (João 12:3-8)

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua. (Marcos 14:6-9)

Também é verdade que a principal ocupação dos apóstolos era a oração e o ensino da Palavra de Deus. Por analogia, os pastores também devem ocupar-se principalmente com tais deveres. Orar e ministrar a Bíblia tem precedência sobre o “servir as mesas”, que é a prática da caridade dentro da Igreja. Porém…e esse porém é muito importante…o cuidado com os pobres era tão importante que pessoas honestas deveriam ser eleitas pela Igreja para este fim!

Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. (Atos 6:2-4)

E aqui é preciso corrigir um erro grosseiro de interpretação. “Piedosamente”, muitos pastores e presbíteros esquivam-se de um envolvimento maior com a caridade porque essa não seria a função deles. “Há diáconos eleitos para isso”, dizem. Contudo, quando lemos outros textos, vemos que os apóstolos também faziam caridade. A fala de Judas Iscariotes em João 12 não mostra apenas que ele era desonesto, mas mostra que era comum que se usasse parte do dinheiro dado a Jesus para ajudar os necessitados. E um apóstolo cuidava disso. Quando Paulo foi até Jerusalém apresentar seu trabalho apostólico aos Doze, recebeu uma recomendação bem específica:

e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2:9-10)

Assim como hoje há “pastores-mestres” (mais dedicados ao ensino), “pastores-conselheiros” (especialistas em aconselhamento) e até “pastores-administradores” (uma função mais típica de presbíteros regentes), por que não “pastores-diáconos” ou “presbíteros-diáconos”? A liderança da Igreja também precisa se envolver!

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Aplicações
Vamos recordar alguns pontos:

– A caridade é uma marca do amor verdadeiro e da fé que salva;
– A caridade é uma responsabilidade individual, de todos, e não pode ser simplesmente transferida a outros;
– A caridade é tão importante que a Igreja deve eleger homens que se dedicarão, especialmente, a isso;
– A caridade não é o dever principal de um pastor, mas ele deve se lembrar dos pobres em seu ministério.

Isso tudo mostra que a pobreza não é o problema mais grave do Universo, a ponto de ignorarmos todo o resto (como parece ser o ponto de vista dos brasileiros), mas não é uma questão marginal ou secundária para os cristãos. Entretanto, há pouco destaque ao assunto no protestantismo. Vemos isso de várias maneiras:

– Poucas igrejas possuem ministérios dedicados à caridade abertos à participação de leigos;
– Pouquíssimos cristãos estão dispostos a se voluntariar e assumir um compromisso de longo prazo com esses ministérios;
– Os díaconos são mais conhecidos por cuidar do templo e gastam mais tempo com questões administrativas do que no cuidado com os mais pobres;
– Poucos membros se oferecem como voluntários para participar de ministérios de caridade;
– Pouco dinheiro é investido pelas igrejas protestantes em caridade, e há uma pressão muito grande para se buscar financiamento governamental…o que não deixa de ser uma forma de se fazer caridade com o dinheiro dos outros;
– Quase não se prega sobre caridade. Quando pregamos, falamos genericamente em missão integral, mas pouco se diz sobre a necessidade de envolvimento individual e pastoral no combate à pobreza;
– Projetos de plantação de igrejas não começam destinando recursos ou pensando em ministérios de socorro aos necessitados;
– Quantas escolas, creches, hospitais e centros de recuperação protestantes, sustentados pelas igrejas protestantes, vemos hoje?
– Prega-se mais sobre prosperidade e riqueza do que sobre caridade e pobreza.

Creio que é preciso ir além. Quem já foi em países desenvolvidos sabe que o argumento mais forte para justificar eticamente o catolicismo romano é a caridade. Em debates apologéticos, é cada vez mais comum que o apologista católico aponte, com razão, para o grande número de pessoas assistidas em seus sofrimentos por meio do trabalho de católicos. Milhares de sacerdotes ordenados e leigos dedicam a sua vida à caridade dentro do catolicismo. Dedicam à vida, não dez minutos dos seus dias. E os protestantes brasileiros estão muito atrás.

Assim como Judas, hoje há muitos políticos que usam os pobres como meio de desviar dinheiro. Querem um Estado cada vez mais gigante e inchado para poderem encher seus bolsos e usam os pobres como desculpa. O país inteiro sofre com isso. Mas só denunciar a Judas não basta. É preciso seguir o exemplo de Jesus na cruz, e dar a vida pelos outros. É preciso seguir o conselho de Pedro, Tiago e João e nos lembrar dos pobres. É preciso seguir o exemplo de Paulo e nos esforçarmos nisso. É preciso lembrar o que a Bíblia ensina sobre uma fé sem obras e um amor que não se compadece de quem é necessitado.

Precisamos nos arrepender do nosso pecado e nos lembrar dos pobres. Para a graça de Deus. E você pode começar a fazer isso agora.

Um projeto que você deveria conhecer é o Projeto Santa Luz, da Child Fund, apoiado pela Igreja Presbiteriana Nacional. Se outras igrejas se mobilizassem para fazer ações similares, estamos fazendo algo concreto pelo país. Um outro projeto é a Missão Vida, de recuperação de moradores de rua. Ambos os projetos necessitam de orações, recursos e envolvimento.

Mas faça algo onde você está, na sua comunidade. A responsabilidade é minha, sua…de todos. E seremos cobrados, individualmente, no Dia do Juízo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro