Você quer mesmo um país puro ou uma igreja pura?

Começamos mais um governo. Após ser eleito com um forte discurso de honestidade e combate à corrupção, o governo Bolsonaro começou decepcionando vários de seus seguidores. Um ministro com honestidade discutida, o motorista do filho com dinheiro no banco mal explicado, acordo do Partido Social Liberal (PSL) com Rodrigo Maia na Câmara e, tudo isso, em 18 dias de mandato. Desde já, os pragmáticos e os idealistas se dividem em suas reações.
 
Trazendo para a esfera religiosa, pragmáticos e idealistas também se dividem quando o assunto é Igreja. Como presbiteriano, digo que os idealistas bem podem ser chamados de puritanos. O puritanismo foi um movimento reformado que produziu gigantes como John Owen ou John Bunyan. Eles desejavam uma igreja pura, firmemente enraizada na Bíblia e livre de qualquer ranço trazido pela Tradição que não fosse fundamentado nas Escrituras. Puritanos disciplinavam os membros e excluíam da Igreja aqueles que não mostravam frutos de sua conversão. Apesar de seu vigor, eles foram combatidos por muitos pragmáticos, que preferiam manter mais membros, ter menos conflitos com o poder político e não se incomodavam com a manutenção de certas tradições.
 
Mas, o que diferencia mesmo pragmáticos e puritanos? Por que eles optam por caminhos diferentes? Ao meu ver, a resposta é simples: os puritanos entendem que não há pureza sem sacrifícios, sem limpeza. As palavras “purgar” e “expurgo” são meros sinônimos de purificar. Para que o ouro seja puro, é preciso passá-lo pelo fogo, separar os metais de menor valor e retirá-los, de modo que apenas o precioso metal esteja presente. E a mesma verdade vale para instituições, inclusive a Igreja.
 
Isso é ilustrado de modo dramático na escolha dos levitas para servirem a Deus. Por que Deus escolheu apenas a tribo de Levi para servir no tabernáculo? A resposta está em Êxodo 32:25-28:
 
Vendo Moisés que o povo estava desenfreado, pois Arão o deixara à solta para vergonha no meio dos seus inimigos, pôs-se em pé à entrada do arraial e disse: Quem é do SENHOR venha até mim. Então, se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi, aos quais disse: Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Cada um cinja a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, cada um, a seu amigo, e cada um, a seu vizinho. E fizeram os filhos de Levi segundo a palavra de Moisés; e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens.
Quando o povo de Israel fez o bezerro de ouro, ele ficou fora de controle. Moisés não estava conseguindo impedir a adoração pagã, a bebedeira e a licenciosidade que estavam acontecendo. Tudo parou quando os levitas cingiram a espada e mataram irmãos, amigos e vizinhos que estavam em idolatria. Apenas aí o povo parou.
 
Calma, não estou defendendo que matemos os impuros por aí. Mas não se faz um Brasil puro sem retirar os corruptos do meio, sejam eles filhos, amigos ou vizinhos. Da mesma maneira, não se faz uma igreja pura sem disciplinar e até excluir parentes, amigos e vizinhos. A pureza exige sacrifício.
 
E não adianta apelar para Jesus, porque Ele também purifica o mundo por meio do fogo do juízo. Aqueles que, como os levitas, se ajuntarem ao lado de Jesus, são perdoados e permanecem. Mas, o que vai acontecer com aqueles que permanecerem em adoração idólatra? Serão lançados no inferno pelo próprio Senhor.
 
Eu quero um país puro, uma igreja pura e uma vida pura. A pureza não é uma opção, é um dever para os cristãos. Mas eu entendo que há um preço alto a ser pago por ela. E você: entende isso? Quer pureza para você, sua igreja e seu país? Se sim, junte-se a Jesus. Creia em Jesus. Abra a Bíblia e tire da sua vida o que Jesus quiser remover.
 
Graça e paz do Senhor,
 
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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Em 2018, você lutou por seu país. Em 2019, lute por sua Igreja!

“Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram (João 9:34)”

Uma das lições que aprendi com as eleições brasileiras de 2018 é a de que a participação popular só é aprovada pela elite se o povo concordar com quem manda. Lembro-me de todas as eleições presidenciais pós-redemocratização, e nunca vi tamanho envolvimento popular nas discussões sobre quem votar. Muitos cidadãos comuns ousaram erguer a voz e discutiram nas redes sociais sobre o futuro do Brasil. Gente comum ousou questionar o que professores universitários, jornalistas e artistas ensinavam. O senso comum foi usado como arma e venceu os sofisticados argumentos da elite marxista cultural brasileira.

Obviamente, a elite não reagiu bem a essa “desobediência” popular. Abra qualquer grande jornal e não será difícil ler acusações de que o povo é ignorante e manipulado. Intelectuais não têm receio de insinuar que o povo não tem o conhecimento necessário para discutir temas importantes como o feminismo, a ideologia de gênero ou a arte de uma criança tocar um homem pelado em um museu. Mas, quando o povo votava no mesmo partido das elites, o povo estava finalmente se libertando.

A dinâmica religiosa
Infelizmente, essa dinâmica não é exclusiva da política. Também dentro das instituições religiosas, a elite (clero) não gosta de ver o povo (membresia, leigos) discutir teologia. A membresia é livre para concordar passivamente e acolher o que o clero ensina. Mas, quando membros não se sentem confortáveis com alguma postura ou ensino dos sacerdotes, a ordem é calar a boca e se submeter.

Em João 9, foi exatamente isso o que aconteceu. Jesus curou um cego no sábado, desobedecendo uma tradição religiosa dos fariseus e escribas. Não havia nada na Bíblia que proibisse curar no sábado, mas a interpretação judaica daquele tempo criou essa restrição. Por esse motivo, os fariseus interrogaram o cego sobre a cura. Quando o cego começou a defender a Jesus e a questionar os fariseus, esses o expulsaram, desqualificando-o como alguém “nascido todo em pecados”, indigno de ensiná-los.

O silêncio no século XXI
A maneira como os fariseus trataram o cego curado é a mesma adotada por vários pastores evangélicos quando lidam com seus membros. Darei um exemplo da minha denominação. Vários pastores presbiterianos cortam discussões teológicas com o argumento de que apenas concílios podem discutir tais assuntos. O leigo não foi ordenado ou licenciado para pregar ou ensinar. Em plena era da informação, onde qualquer movimento religioso divulga livremente suas ideias na Internet, os membros são desencorajados a vocalizar dúvidas e discordâncias em blogs, comunidades ou grupos virtuais. Veja bem: não falo de decisões. Essas devem sim ser tomadas em concílios. Mas a divergência é considerada um ato de rebeldia, por menor que seja.

Não se trata, porém, de exclusividade presbiteriana. Nos EUA, é comum existirem sites que fazem uma cobertura jornalística do que acontece nas grandes religiões, promovendo debates e fazendo reportagens sobre escândalos financeiros ou sexuais. Como são vistos? Bom, quando sites católicos americanos questionam o celibato dos padres ou a postura diante de casos de pedofilia, o papa os desqualifica como sendo instrumentos de escândalo e divisão. Normalmente, a mesma resposta acusatória surge quando sites relatam casos como as acusações de abuso sexual contra Bill Hybels ou dentro da Sovereign Grace Ministries. Pergunto: se casos mais leves de discordância doutrinária não podem e devem ser discutidos, o que os pastores dirão se sites e blogs de leigos evangélicos começarem a trazer casos graves de crimes, pecados e desvios de conduta?

Um chamado ao envolvimento leigo
E eu respondo: se os leigos aceitarem a repreensão farisaica e não exigirem que líderes prestem contas de sua doutrina, de suas ações e da maneira como governam suas igrejas, as igrejas afundarão como o Brasil vinha afundando nos anos petistas. Se a membresia confiar tudo ao clero e se calar, por submissão, os maus pastores continuarão a roubar dinheiro, ensinar heresias, distorcer as Escrituras e abusar sexualmente de fiéis. Já os bons pastores não deveriam temer nem restringir a discussão e o escrutínio públicos. Ao contrário, deveriam se engajar nele.

A Igreja deve ser transparente. Como presbiteriano, concordo com a Bíblia que a decisão é conciliar. Mas o debate, o questionamento e as discussões devem ser públicas. Em sua maioria, as cartas de Paulo eram endereçadas à igreja toda. Jesus debatia publicamente, na rua, com os fariseus e com leigos. O que os pastores do século XXI têm a esconder? Qual o medo?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Hora de sair da IPB? Perguntas de um presbiteriano carismático

Uma das perguntas que não protestantes fazem é por que surgiram tantas igrejas diferentes da Reforma Protestante? Uma das respostas está no princípio do livre exame da Bíblia. Livre exame não significa livre interpretação, mas dá a cada protestante o direito de examinar a interpretação de seus líderes, para verificar se ela está correta ou não. De certa maneira, foi o que Martinho Lutero fez, ao questionar se o catolicismo romano estava ou não em acordo com a Bíblia. Ao fazer isso, querendo ou não, Lutero examinou e julgou todo o Magistério e a Tradição católicas até então. A esperança do reformador não era criar uma outra igreja, mas sim mudar o catolicismo. Mas, qo ser pressionado entre submeter-se a Roma ou arcar com as consequências, a consciência de Lutero o obrigou a se submeter a Deus, antes de se submeter à Igreja. E assim começou o luteranismo, e o protestantismo.

De modo análogo, o livre exame e o dever de consciência também explicam porque o protestantismo já nasceu fragmentado. A questão do significado da Santa Ceia dividiu os seguidores de Lutero, Calvino e de Zwinglio. E, assim, vertentes diferentes do protestantismo surgiram, porque a discordância doutrinária, embora não fosse tão central quanto a da autoridade da Bíblia, ainda era importante o suficiente para não permitir que pontos de vista tão diferentes como a consubstanciação e o simbolismo da Ceia pudessem coexistir na mesma igreja.

Esse mesmo tipo de dilema se repetiu, em questões mais ou menos importantes, ao longo de toda a História da Igreja. Antes de falar do meu dilema pessoal, lembro-me de como presbiterianos deixaram a Presbyterian Church of the United States of America (PCUSA) por rejeitarem o liberalismo teológico adotado pela PCUSA. Isso não ocorreu no século XVI, mas em pleno século XX ainda ocorreram divisões por esse motivo.

No Brasil, há dois grupos em um dilema parecido: os batistas calvinistas e a Convenção Batista Brasileira (CBB) e os presbiterianos não cessacionistas na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Submeter-se ao resto da denominação e calar-se sobre as convicções pessoais ou seguir a consciência e sair da denominação? No caso batista, pelo governo congregacional, o problema é até mais fácil de ser equacionado. Mas, para verdadeiros presbiterianos, como eu, a solução não é tão simples.

Como o próprio nome do meu blog denuncia, creio na doutrina reformada, mas também sou carismático quanto aos dons espirituais. Sou um dos poucos que resolveu assumir os dois lados como uma bandeira de fé. Mas, eventualmente, recebo perguntas de leigos, seminaristas e pastores sobre o mesmo dilema: é hora de sair da IPB? Fico e me submeto, tento mudar ou saio? Mas, se sair, para onde ir? Não há uma denominação brasileira de alcance nacional que realmente abrace tanto a doutrina reformada como a contemporaneidade de dons como profecia, línguas, curas, milagres e discernimento de espíritos. Essa opção pode até existir, localmente, mas não para a esmagadora maioria dos que conheço.

Como resolver? Não é um problema simples, e, por isso, esse texto não tem como ser curto. Escrevo aqui principalmente para pastores e seminaristas. Há várias coisas que precisamos considerar.

A discordância justifica sair?
A primeira pergunta que precisamos nos fazer é: eu considero a contemporaneidade dos dons carismáticos um ponto tão importante, a ponto de entender que as igrejas não podem viver de modo saudável sem o exercício desses dons? Se eu não considero um ponto tão importante assim, então não há motivos para sair. O melhor seria se submeter. Agora, se eu considero que as igrejas perdem algo importante sem a crença e o exercício desses dons, então o caminho é influenciar a IPB ou sair.

Reparem que não falei apenas de crença, mas de exercício dos dons. Se nossa crença nos dons extraordinários é forte e incomoda a consciência, mas não há disposição para praticar esses dons no dia-a-dia da Igreja, é melhor ficar onde está. Muitos que dizem crer nos dons vivem em um cessacionismo prático. Se há medo de mudar isso ou se o cessacionismo prático é confortável, então é melhor calar a boca e se submeter.

Você consegue fundamentar a sua crença?
Uma segunda pergunta é se conseguimos fundamentar, na Bíblia, não apenas porque os dons extraordinários não cessaram, mas também porque a Igreja perde muito ao não exercê-los. Vou além: caso eles devam ser exercidos, precisamos ter de modo bem claro quais são os princípios bíblicos que vão limitar e orientar a prática dos dons.

No meu caso pessoal, há vários textos aqui no blog que explicam porque creio na contemporaneidade dos dons extraordinários e até alguns limites sobre como esses dons devem ser exercidos. Há bons livros que tratam do assunto. Entre eles, fui influenciado pela Teologia Sistemática de Wayne Grudem, pelo livro “O Dom da Profecia“, também de Wayne Grudem, e os livros “Surpreendido Pelo Espírito Santo” (CPAD) e “Surpreendido Pela Voz de Deus” (Vida), de Jack Deere (ambos fora de catálogo no Brasil). O livro “Cessaram os Dons Espirituais”, que traz diferentes pontos de vista sobre o assunto, também foi de grande utilidade. Infelizmente, também está fora de catálogo.

Não sei que fundamento você usa (ou não) para justificar o lado carismático de sua fé. Para não deixar completamente em branco qual o meu posicionamento, eu vou deixar apenas um texto bíblico aqui:

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão (Atos 2:17-18)

Os últimos dias são o período que começou com a vinda de Jesus Cristo e dura até o retorno dele no fim dos tempos. A marca desse período é o derramar do Espírito Santo e a manifestação do dom da profecia. Ao limitar a manifestação da profecia de Joel apenas ao período apostólico, entendo que a IPB erra e abre mão de uma grande promessa dada por Deus para esse momento da História. Só o Senhor sabe a falta que as visões dos jovens, os sonhos dos velhos e a profecia de filhos e filhas tem feito ao crescimento qualitativo e quantitativo de nossas igrejas.

Não sei qual a sua resposta. Mas a minha é: os dons ditos extraordinários deveriam estar sendo praticados. Ao optar por não fazê-lo e ensinar que eles cessaram, a IPB peca e perde muito por isso. Entendo que não apenas devo ensinar que os dons ainda existem, mas que devo buscar o exercício deles em meu ministério.

Reforma ou Carisma?
Uma terceira pergunta que precisamos nos fazer é: se for preciso escolher, fico com Reforma ou com Carisma? É preciso sermos realistas. Nem todos os pastores vão ter dons ou perfil para começar uma nova igreja. Alguns não vão ter recursos financeiros ou tempo para se dedicarem à plantação. E aí é preciso saber para qual lado pende o seu coração.

Há pastores presbiterianos que consideram o “Carisma” mais importante. Entre eles, coloco aqueles pastores que já não ensinam mais nada de reformado em suas igrejas, mas embarcaram em modas como o G-12. Pastores que não são carismáticos por causa de uma teologia sólida, mas porque querem imitar as igrejas “que crescem” e desfiguraram suas congregações de tal maneira que elas não parecem mais reformadas. Igrejas com cultos de cura, de libertação espiritual, que ensinam sobre demônios territoriais, onde pastores não querem mais governar com presbíteros e invejam os bispos e “apóstolos” de outras denominações. Esses eu nem os considero reformados. Deveriam ser honestos, sair e irem a denominações neopentecostais ou abrirem igrejas onde eles podem governar de modo déspota.

Eu considero a “Reforma” mais importante. Por mais que valorize os dons carismáticos a ponto de expor o meu nome por causa deles, jamais os trocaria pelo ensino reformado da centralidade e suficiência da Escritura, da soberania e da providência de Deus e da glória de Deus como objetivo maior de todo ser humano. Mesmo os simples cinco pontos do calvinismo valem mais do que a prática da profecia. Prefiro dez mil vezes estar em uma igreja onde não possa falar contra o cessacionismo, mas ouça sermões sobre a soberania de Deus, do que estar em uma igreja onde possa exercer qualquer dom, mas não possa ensinar o calvinismo.

E é por isso que considero difícil a um verdadeiro presbiteriano simplesmente sair e abrir um trabalho. Eu creio que o governo da Igreja deve ser feito de modo conciliar. Jesus não entregou a chefia dos apóstolos a nenhum deles. Desde o início, o cristianismo teve uma liderança plural. As igrejas não decidiam sozinhas suas questões doutrinárias, como bem mostra Atos 15 e o Concílio de Jerusalém, o texto áureo do governo presbiteriano. Sair para começar algo novo pode significar uma ruptura com esse tipo de governo para começar algo de modo episcopal, onde o pastor governa a Igreja. E esse não é um modelo que eu considere bíblico. Por todos esses motivos, eu ainda não saí da IPB.

Não saí também porque, ao meu ver, os concílios existem para arbitrar questões. Isso pressupõe que haverá diferentes partidos dentro da denominação em relação a algumas questões. Uma igreja conciliar que proíbe seus pastores de questionar a biblicidade de alguma regra já não é mais conciliar. Se o debate é proibido, já não há mais porque haver concílios que se reúnem com regularidade. E eu entendo que a IPB ainda não debateu devidamente essa questão.

O que quer a IPB?
E aqui vem uma pergunta que a denominação como um todo não quer responder de modo claro. A IPB quer pastores carismáticos em seu meio? Se sim, então essa diferença de opinião precisa ser tolerada. Não há porque perseguir e fazer campanhas difamatórias contra pastores não cessacionistas. Eles deveriam ser tratados com respeito e terem liberdade para, em algum grau, praticarem o que crêem. Se não, a denominação também precisa dizer isso claramente. Mais do que isso: ela não pode mais tolerar que pastores desfigurem suas igrejas como tem acontecido em várias cidades do Brasil, com todo tipo de mau pentecostalismo. Ela não pode mais ordenar pastores que sejam carismáticos. O que está escrito precisa ser cumprido, ainda que isso signifique perder pastores e até igrejas no processo.

A indefinição é que não traz paz verdadeira para a denominação. Se o confessionalismo estrito é a norma, amém! Mas que se tirem os pastores que vivem em desacordo. Alguns deles até ganham destaque denominacional, em vários níveis. Enquanto isso existir, a norma escrita sempre será desafiada. Agora, se a contemporaneidade dos dons é um assunto menor, onde pode existir liberdade de divergência, então que a liberdade seja real. Em outras denominações reformadas, é possível apresentar algumas divergências em relação aos Símbolos de Fé de Westminster. O pastor apresenta as suas divergências e o Presbitério julga se o ministro pode ou não ser recebido, se as divergências são menores ou se são significativas. E, caso o ministro seja aprovado, não há colegas de ministério acusando-os ou perseguindo-os, como acontece no Brasil.

Se a IPB responder, de modo enfático, a resposta para muitos como eu seria mais fácil. Hoje eu não sou administrativamente um pastor. Estou há mais de dois anos no exterior, sem campo na IPB, e estou como membro de uma igreja presbiteriana em Brasília. Devo voltar ao Brasil em 2020 (Deus sabe se sim ou se não), mas eu mesmo não sei se persigo uma reintegração ao ministério pastoral ou se busco exercer o pastorado fora da IPB. Peço até que você ore por isso. Mas, da minha parte, confesso que estou disposto a buscar viver de modo integral tanto Reforma como Carisma. Amo a IPB, gostaria muito que fosse lá. Mas, se não for possível, que Deus me mostre o que fazer.

Não tenho uma resposta para quem me pergunta. Mas espero que esse texto ajude outros colegas reformados e carismáticos a tomarem uma decisão. E espero que esse texto motive pastores e presbíteros da IPB a buscarem um posicionamento mais firme e consistente da denominação sobre essa questão.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Foro privilegiado e o julgamento de líderes: uma reflexão bíblica

“Todos são iguais perante a Lei”, diz a Constituição do Brasil. Contudo, na prática, as coisas não parecem ser assim. Enquanto pessoas comuns são julgadas por juízes de primeira instância, as autoridades têm direito ao “foro privilegiado”. Dependendo do cargo que ocupam, as autoridades são julgadas por tribunais de instâncias superiores. Em princípio, esse privilégio visa defender o interesse público e não é algo pessoal, pois liga-se somente ao cargo, e não à pessoa que o ocupa.

Contudo, o foro privilegiado pode ser desvirtuado, como bem mostra a política brasileira atual. Nomeações como as de Carolina Pimentel são questionadas, pois usariam o foro privilegiado como uma maneira de escapar de investigações e pedidos de prisão. O caso mais notório é o do ex-presidente Lula, que foi nomeado ministro de Estado, supostamente para escapar de investigações da Operação Lava-Jato. No caso, a nomeação está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal.

Não é à toa que o instituto do foro privilegiado está sendo questionado no Brasil. E o cristão, como deve se posicionar? A questão é mais complexa do que parece, e não pretendo dar um parecer definitivo e bem fundamentado aqui. Entretanto, creio que a Bíblia traz alguns princípios espirituais que ajudam nossa análise. Qual o ensino bíblico sobre o julgamento de líderes? Vamos usar 1 Timóteo 5 como nosso texto-base:

Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade. (1 Timóteo 5:17-21, grifos meus)

O princípio da honra

Presbíteros são os líderes da Igreja do século I. O termo significa “ancião” e também é usado para descrever os pastores. O primeiro ensino do texto é o de que os presbíteros que presidem bem devem ser merecedores de “dobrados honorários”. A palavra “honorários” pode ser traduzida como “avaliação pela qual o preço ‘fixado”, mas também tem o sentido de “honra, reverência, deferência”.

O princípio é o de que líderes devem ser honrados, principalmente quando executam bem a sua função e se ocupam de tarefas mais importantes. No caso de presbíteros, isso se aplica àqueles que são bons líderes e se dedicam à pregação e ao ensino da Bíblia. Essa honra se manifesta por meio do pagamento do salário, como um reconhecimento do trabalho feito por eles, e por meio do respeito e reverência que devemos a eles.

De modo análogo, as autoridades civis também têm o direito de serem remuneradas, por meio dos impostos. O trabalho delas é reconhecido pelo Senhor, que também exige de nós que lhes demos a honra que lhes é devida.

Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Romanos 13:6-7)
O princípio do julgamento justo
A honra não livra as autoridades espirituais de responderem pelos seus atos. Presbíteros são líderes espirituais, mas que podem ser denunciados quando erram. A condição exigida no Novo Testamento é o de que mais de uma pessoa tenha testemunhado o fato.
Em princípio, isso parece ser uma espécie de “foro privilegiado”, mas o princípio das duas testemunhas é aplicado a todos os casos de disciplina bíblica, seja no Antigo ou no Novo Testamento:
Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniqüidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato. (Deuteronômio 19:15)
Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. (Mateus 18:15-16)
Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida. (2 Coríntios 13:1)
A exigência das duas testemunhas é uma forma de garantir um julgamento justo, e se aplica tanto a pessoas comuns (irmão), como a autoridades. É a regra geral para qualquer pecado cometido, como forma de se estabelecer um fato.
As autoridades civis também têm direito a um julgamento justo. Biblicamente, porém, esse direito é o mesmo dado a pessoas comuns.
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O princípio do exemplo
Líderes são exemplos para seus liderados. Se um líder não é punido quando comete uma falta grave, os liderados perdem o temor e começam a pecar. É exatamente o que acontece hoje no Brasil. Uma vez que as autoridades raramente são punidas, o brasileiro comum deixa de ver problema em cometer pequenos atos de corrupção. Ou pior: muitos partem mesmo para o crime. Não há meio mais eficaz de liderar do que o exemplo.
Por isso, quando os presbíteros “vivem no pecado”, a Bíblia ensina que eles devem ser repreendidos na frente de todos. É uma sentença mais rigorosa do que a de um cristão comum, que seria repreendido privadamente. Todavia, uma vez que o presbítero ocupa uma função pública e deve ser um referencial para a Igreja, ele é julgado com um rigor maior, “para que também os demais temam”. Quanto maior o conhecimento, ou a autoridade, mais rigoroso é o juízo:
Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. (Tiago 3:1)
As autoridades civis também respondem por seus atos e são julgadas quando erram. Não é porque Deus as constituiu que elas podem fazer o que quiserem. O Salmo 82 é uma grande prova dessa verdade:
1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.
2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?
3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado.
4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.
5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra.
6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.
7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.
8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações. (Salmo 82)
O princípio da imparcialidade
Um último princípio a ser analisado é o da imparcialidade. No texto-base, Paulo encerra suas recomendações a Timóteo sobre presbíteros, dizendo que ele não deveria fazer nada com parcialidade. Os conselhos que ele dá sobre as lideranças deve ser guardado sem prevenção, ou seja, sem reservas ou receio de se cometer algum erro.
Secularmente, a autoridade goza da presunção da honestidade. Presume-se que ela não errou, a não ser que exista prova em contrário. Nem sempre o cidadão comum é tratado assim, e precisa provar a sua inocência em alguns casos, além de ser julgado com maior rigor em certas situações. Na Igreja também somos tentados a tratar pastores e presbíteros da mesma maneira: a posição pressupõe um certo nível de integridade. Infelizmente, os cristãos “comuns” não gozam da mesma presunção, embora também se espere deles um certo nível de integridade.
Autoridades e pessoas comuns devem ser julgados imparcialmente, sem qualquer tipo de favorecimento. Se, por exemplo, a lei brasileira dá privilégios a autoridades e a pessoas com curso superior, a Bíblia não adota esse padrão em seus julgamentos.
Cristo: nosso modelo de líder
Parece-me claro que os princípios bíblicos parecem não validar o foro privilegiado. Entretanto, o argumento mais forte que encontro para me opor ao privilégio não está nos princípios acima, mas em Cristo Jesus.
Cada líder tem a missão de representar a Cristo dentro de sua esfera de poder. Isso vai desde o irmão mais velho cuidando dos menores até os reis e presidentes. Quando honramos os pais, por exemplo, isso nos lembra que devemos honrar muito mais a Deus e ao seu Filho. Jesus é aquele que julga com justiça. Ele é o exemplo perfeito de como devemos viver. E Ele é imparcial em seus julgamentos.
No entanto, o próprio Cristo foi julgado e condenado injustamente, apesar de sua perfeição! Se Cristo fosse uma autoridade do mundo, certamente ele teria tentado obter algum tipo de “foro privilegiado” para escapar. Jesus tinha o direito de fazê-lo, como Filho de Deus. Porém, Ele preferiu não usar seu privilégio:
Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?  Naquele momento, disse Jesus às multidões: Saístes com espadas e porretes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias, no templo, eu me assentava [convosco] ensinando, e não me prendestes. Tudo isto, porém, aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram. (Mateus 26:53-56)
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)
Por amor aos seus liderados, Cristo não recorreu a anjos ou ministros. Ele aceitou ser julgado e até condenado em um julgamento injusto. Ele mostrou que o verdadeiro líder deve estar disposto até a morrer pelos seus! Na verdade, a condenação de Jesus é o motivo pelo qual nós somos salvos:
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1 Pedro 3:18)
Pense em como isso é diferente dos líderes que usam o foro pivilegiado para se protegerem, ainda que prejudicando a sociedade! As autoridades desse mundo querem usar o seu poder para se protegerem do povo. Cristo faz o oposto. Ele aceita sofrer o mais injusto dos julgamentos, com o maior rigor possível, para que nós fôssemos salvos.
Porque Ele sofreu e ressuscitou, líderes e liderados que erram e vivem no pecado podem ter esperança. Sim, até mesmo os políticos e magistrados brasileiros. Basta que se rendam ao Líder Supremo, à Autoridade Suprema, que é Jesus Cristo.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Quando perdemos Jesus

Em vários momentos da nossa vida, parece que Jesus não está mais presente em nossas vidas. Isso é fácil de perceber quando estamos longe da Igreja, com a Bíblia acumulando poeira na estante e nós nem nos lembramos mais como orar. Mas, mesmo quando estamos comparecendo aos cultos e atividades da igreja, temos a sensação de que perdemos algo.

É uma sensação diferente do silêncio de Deus. Tudo está “normal”, mas não há mais a consciência de que o Senhor está presente. Acordamos, trabalhamos, até fazemos deveres religiosos, mas sem que reflitamos sobre o Senhor, sem que O amemos e o desejemos, sem que Ele ocupe os nossos pensamentos. Imaginamos que o Senhor está por perto, mas, na verdade, Ele tomou outro caminho e nós nem percebemos. Foi o que aconteceu com José e Maria, na história que podemos ler em Lucas 2:41-52.

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Não tire os olhos de Jesus

Era a época da Páscoa e José e Maria estavam voltando de uma viagem que eles faziam todos os anos. Jesus já tinha uma certa idade e seus pais humanos relaxaram e o perderam de vista. Imaginaram que Jesus estava com outras pessoas na caravana que voltava de Jerusalém para Nazaré. E continuaram vivendo normalmente. O engano só foi percebido no dia seguinte.

Hoje, é possível cometer o mesmo erro, e ir fazendo as mesmas coisas, sem perceber o sumiço de Jesus. Por exemplo: quantos pais não se surpreendem quando descobrem que seus filhos já não amam mais o Senhor há muitos anos? Pais que vão à igreja e oram, mas que relaxam e não percebem o mau testemunho dentro de casa, a frieza com que se falou de Deus, a negligência com o Senhor na hora de tomar decisões, a amizade com o pecado…mas sempre imaginando que Jesus estava em casa.

Felizmente, José e Maria perceberam isso no dia seguinte. Eles poderiam ter se dado conta somente quando chegassem a Nazaré. É importante que, todos os dias, nos examinemos e vejamos se o Senhor tem estado conosco. Se temos sido frios espiritualmente, se temos sido incrédulos, se temos amado pequenos pecados e nos recusado a lutar contra eles…precisamos, diariamente, verificar o nosso estado espiritual para corrigir, o quanto antes, aquilo que está errado.

Onde achar Jesus?

E corrigir não significa melhorar os nossos esforços humanos. A verdadeira correção acontece é quando voltamos para Jesus. José e Maria pensavam que lideravam a Cristo, que Cristo os seguiria. Nessa história, o Senhor está relembrando-os de que Jesus não é apenas “filho de Maria”, Ele é “Filho de Deus”, maior que José e Maria, e Ele é quem deve ser seguido.

Nós também achamos que é Jesus quem nos segue. Se vamos para a igreja, para o trabalho ou para a balada, é óbvio que Jesus precisa estar ali! Bom, como Deus Onipresente, Cristo está em todos os lugares. Mas a presença abençoadora d’Ele não. Quando isso acontece, somos nós que precisamos voltar para Jesus!

E onde podemos encontrá-lo? O próprio Jesus nos responde:

Ele perguntou: Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que eu devia estar na casa de meu Pai? (Lucas 2:49 – NVI)

Jesus pode ser encontrado na casa do Pai. O templo de Jerusalém simbolizava essa “casa”. Mas, após a morte e ressurreição de Cristo, a Igreja toma o lugar do templo:

Mas, se tardar, para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade. (1 Timóteo 3:15)

Porque nós somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus. (…)Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus, que sois vós, é santo. (1 Coríntios 3:9, 16-17)

Quando perdemos a Cristo, é na Igreja que iremos encontrá-lo! Não me refiro, com isso, ao prédio que chamamos de igreja, mas sim às pessoas salvas pelo Senhor que são, de fato, a sua Igreja. É no meio dos irmãos que o Senhor está.

O que Jesus faz?

Mas, encontrar a Jesus na Igreja é mais do que estar simplesmente lá. É mais do que sair com gente que se diz cristã para comer uma pizza ou cantar violão na praça em um fim de semana. É perfeitamente possível fazer todas essas coisas e, ainda assim, perder a Jesus.

Como encontrá-lo? Repare no que Jesus estava fazendo.

E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os. E todos os que o ouviam admiravam a sua inteligência e respostas. (Lucas 2:46-47)

Jesus conversava com os doutores sobre a Lei, sobre o Antigo Testamento, sobre a parte da Bíblia que eles tinham até aquele instante. Jesus ouvia e interrogava. Havia um diálogo entre o Senhor e os doutores.

Quando a Igreja se reúne para aprender sobre a Palavra, Jesus ouve nossas orações e questionamentos e também nos questiona de volta. De fato, nos Evangelhos, é fácil perceber que a atividade preferida de Jesus no Templo de Jerusalém era o ensino.

Cristo sempre nos liderará para a Palavra e para a Igreja. Os cultos, os cursos e até mesmo o momento da pizza são oportunidades que o Senhor usará para nos interrogar sobre a Sua Palavra e moldar os nossos corações.

José e Maria estavam surpresos quando acharam ali a Jesus. Contudo, Ele nos diz, com naturalidade, que ali deveria ser o primeiro lugar. Muitos há que procuram um Jesus perdido em livros, peregrinações, obras de caridade…mas se recusam a ir até a Igreja e aprender a Palavra com os irmãos. A Igreja é imunda, hipócrita, falsa, dizem. A Bíblia é um livro ultrapassado. Contudo, é na Igreja e na Palavra que Ele está. É somente ali que aprenderemos quem é Jesus e o que Ele veio fazer: morrer na cruz pelos nossos pecados, no nosso lugar, e ressuscitar para que possamos ressurgir com Ele para uma nova vida.

Um bônus

Por fim, há uma bênção quando nos reencontramos com o Senhor. Ele desce conosco para “Nazaré”, Ele vem conosco para o nosso trabalho, nossos estudos, nosso casamento. Soberanamente, Ele vai crescendo em nossos corações. E a graça d’Ele vai crescendo também em nós.

Jesus nunca será sujeito a nós, como ele foi a José e a Maria, enquanto criança. Mas o exemplo de vida d’Ele (no caso, a submissão) estará sempre conosco. Teremos, assim como José e Maria, o privilégio de conviver com o Filho de Deus.

Que Ele sempre more em nossos corações. E que eu e você possamos encontrá-Lo no lugar certo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Resolve, Daniel! Ou A igreja que não ora pelo Brasil

Sem dúvida alguma, um dos assuntos mais importantes sendo discutidos hoje, em todo o mundo, é o relacionamento entre religião e política. No Oriente Médio, vemos desde a proibição de um partido religioso no Egito (a Irmandade Muçulmana) até os conflitos com o Estado Islâmico, que impõe uma versão radical da sharia em seus territórios. No Ocidente, assuntos como o casamento homoafetivo, o aborto, a educação de filhos e a imigração geram intensos debates sobre a liberdade religiosa e a laicidade do Estado. Nas ditaduras, procura-se controlar rigorosamente qualquer tipo de manifestação religiosa, para evitar a queda de regimes, como aconteceu no Leste Europeu, onde os cristãos ajudaram a derrubar o comunismo. Basta lembrar o papel do papa João Paulo II na luta contra o comunismo polonês.

No Brasil, não é diferente…mas, como sempre, tem a sua particularidade. Por um lado, as bancadas católica e evangélica são atuantes e recebem várias críticas nos assuntos comportamentais, como aqueles ligados ao aborto e ao homossexualismo. Contudo, a atuação morre aí. Enquanto o Brasil assiste a uma grave crise política, com denúncias de corrupção, pedidos de impeachment da presidente e manifestações que levam milhares de pessoas às ruas, os políticos e as igrejas evangélicas permanecem em silêncio. Nenhuma palavra, seja em uma direção, seja em outra, é dita. É como se o Evangelho não tivesse nenhuma resposta ou orientação para a realidade do nosso país.

Manifestação do dia 12 de abril em Brasília (DF)
Manifestação do dia 12 de abril em Brasília (DF)

Um silêncio inexplicável
Contudo, esse silêncio é, no mínimo, incoerente, em qualquer grande segmento do cristianismo. Os católicos sempre influenciaram a política, tanto que até hoje o papa se pronuncia regularmente sobre a política internacional. Já a Reforma Protestante desconectou o poder dos reis da Igreja Católica, trouxe guerras e revoluções políticas e ajudou a acabar com o absolutismo medieval. Várias experiências políticas surgiram do protestantismo, como a famosa Genebra de João Calvino.

Como já dissemos, Genebra era uma cidade governada por concílios. Antes de Calvino não havia uma normatização legislativa organizada e explicitada para todos. Movido pelo seu zelo de sempre ser fiel ao ensino moral da Bíblia, e ajudado por seu conhecimento jurídico, ele foi o agente e mentor de várias mudanças políticas. É bem verdade que Calvino só foi chamado para se envolver ajudando na confecção do corpo de leis para a cidade, posteriormente à sua intensa atividade na reformulação da vida religiosa. Aqui destacamos dois pontos, por considerá-los de maior grandeza, a relação entre a igreja e estado, e o governo com a participação popular. (Rev. Sérgio Paulo Ribeiro Lyra)

Mesmo entre os pentecostais, o simples fato deles se engajarem para eleger uma numerosa bancada evangélica já mostra que há o entendimento de que eles devem influenciar a política. Até grupos cristãos historicamente mais enfáticos na separação entre a Igreja e o Estado, como é o caso dos batistas, possuem um Martin Luther King Jr que mudou a história dos Estados Unidos.

Historicamente, a omissão dos protestantes e evangélicos brasileiros é inexplicável. A história, a teologia e a prática da maioria desses grupos mostra que eles não consideram que a Igreja deva permanecer alheia aos debates políticos. O passado e o presente mostram que eles não consideram que a Igreja deva cuidar somente de assuntos espirituais. No caso específico dos seguidores de João Calvino é ainda pior, já que eles seguem o ensino de que não há uma separação entre o sagrado e o secular e que tudo é sagrado.

Argumentos como “devemos nos preocupar com a evangelização” ou de que apenas assuntos ligados à fé devem ser falados nos púlpitos e nos palanques mostram-se hipócritas quando há um empenho para eleger deputados ou se celebra a vida e a morte de cristãos que atuaram politicamente, como Dietrich Bonhoeffer, que foi executado por sua luta contra o nazismo.

Dietrich Bonhoeffer
Dietrich Bonhoeffer

O silêncio pecaminoso dos líderes
Mas pior do que a incoerência histórica é o pecado de omissão que se esconde por trás desse silêncio. Sim, é verdade que nem Jesus e nem os discípulos se engajaram para derrubar o Império Romano ou para implementar um reino de Deus terreno. Sim, é verdade que Jesus ensinou que devemos dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Contudo, isso não implica que o Novo Testamento silencie sobre os pecados e deformidades da política. Além do exemplo claro de João Batista, há várias condenações mais discretas (porém claras) presentes no texto neotestamentário.

Assim, pois, com muitas outras exortações anunciava o evangelho ao povo; mas Herodes, o tetrarca, sendo repreendido por ele, por causa de Herodias, mulher de seu irmão, e por todas as maldades que o mesmo Herodes havia feito,acrescentou ainda sobre todas a de lançar João no cárcere. (Lucas 3:18-20)

Naquela mesma hora, alguns fariseus vieram para dizer-lhe: Retira-te e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te. Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia, terminarei. (Lucas 13:31-32)

Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores. Mas vós não sois assim; pelo contrário, o maior entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve. (Lucas 22:25-26)

Ouvindo isto, unânimes, levantaram a voz a Deus e disseram: Tu, Soberano Senhor, que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca de Davi, nosso pai, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos imaginaram coisas vãs? Levantaram-se os reis da terra, e as autoridades ajuntaram-se à uma contra o Senhor e contra o seu Ungido; porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios e gente de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito predeterminaram; agora, Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que anunciem com toda a intrepidez a tua palavra, enquanto estendes a mão para fazer curas, sinais e prodígios por intermédio do nome do teu santo Servo Jesus. (Atos 4:24-30)

Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prostituíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria. (Apocalipse 18:2-3)

Seja por meio da pregação (João Batista), do ensino (Jesus), das orações (os apóstolos em Atos) ou da profecia (o anúncio do julgamento divino no Apocalipse), a Igreja neotestamentária denunciou o pecado dos governantes seculares. O simples fato de tais relatos serem registrados por escrito e lidos nas igrejas já era uma forma de pregar contra o pecado. O Novo Testamento não é o fim da vigorosa atuação política profética que existia no Antigo Testamento. A ênfase é outra (a teocracia judaica acabou), mas a pregação continua viva.

O que não se pode aceitar é que os pastores e líderes cristãos fiquem em silêncio diante do que acontece no Brasil. Que não exista uma voz de destaque que se levante para despertar a Igreja e mobilizá-la diante da grave situação de crise que enfrentamos. Sem pregações e ensinos da liderança, a Igreja apenas assiste ao que está acontecendo e é levada pelo rumo dos acontecimentos.

Martin Luther King Jr em Selma
Martin Luther King Jr em Selma

O silêncio pecaminoso dos fiéis

O silêncio nos púlpitos e no ensino da Igreja é culpa dos pastores e líderes. Mas os liderados não podem se omitir da culpa pela ausência de orações em favor do Brasil. Hoje não há um único movimento nacional de orações pelo país e por nossas autoridades. Quebramos assim o mandamento bíblico que nos mostra como podemos ter uma vida tranquila e mansa.

Antes de tudo, pois, exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranqüila e mansa, com toda piedade e respeito. (1 Timóteo 2:1-2)

Por que o Brasil vive uma onda de violência tão grande, a ponto de morrerem mais pessoas aqui do que em guerras sangrentas em outros países? Por que não temos tranquilidade para investir e prosperar economicamente? Por que a piedade e o respeito se tornaram raros, enquanto o país mergulha na sensualidade de prazeres carnais e na irreverência desmedida com tudo e com todos? A culpa é de quem? Do Governo? Antes de culparmos os outros, assumamos que a culpa é minha e é sua, de todos os cristãos filhos de Deus que oram e suplicam pouco pelo país e por nossas autoridades. Quando fazemos isso, não é mesmo?

Apenas colhemos o que plantamos. A Bíblia nos mostra o caminho para a transformação da sociedade. Mas o silêncio dos púlpitos acaba produzindo o silêncio dos fiéis em seus quartos e cultos. Como nunca se prega sobre o país, tendemos a pensar que esse tipo de assunto não faz parte da vida cristã. De modo bem torto, concordamos com todos os militantes ateus que falam que a fé deve ser completamente excluída da política.

Nas poucas vezes que pude visitar igrejas norte-americanas, pude ver que lá não é assim. Vi pastores comentando sobre política durante os cultos e fazendo orações pelas autoridades nacionais e municipais. Vi orações serem feitas sobre assuntos debatidos no Congresso americano e até sobre protestos em países islâmicos. E tudo isso no culto dominical: era um momento de oração rotineiro. Se um fiel de lá quiser orar pelo país na vida diária, ele saberá pelo que orar. E no Brasil?

Resolve, Daniel!

Como resolver isso? Talvez um movimento de oração, o Desperta Débora, tenha uma resposta. Nos anos 90, mães começaram a se encontrar para interceder a Deus pela vida dos seus filhos. Baseados no exemplo bíblico de Débora, elas foram “despertas” e começaram a orar. Tenho certeza que as mães que foram fiéis em oração terão muitas histórias maravilhosas para contar sobre como Jesus salvou e preservou seus filhos ao longo desses últimos 20 anos.

Hoje é preciso que nos inspiremos em outra figura bíblica, e sugiro o profeta Daniel. Nele vejo o que falta a líderes e a fiéis. Como profeta, ele não teve receio de apontar o pecado e aconselhar reis poderosos.

Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniqüidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranqüilidade. (Daniel 4:27)

Tu, Belsazar, que és seu filho, não humilhaste o teu coração, ainda que sabias tudo isto. E te levantaste contra o Senhor do céu, pois foram trazidos os utensílios da casa dele perante ti, e tu, e os teus grandes, e as tuas mulheres, e as tuas concubinas bebestes vinho neles; além disso, deste louvores aos deuses de prata, de ouro, de bronze, de ferro, de madeira e de pedra, que não vêem, não ouvem, nem sabem; mas a Deus, em cuja mão está a tua vida e todos os teus caminhos, a ele não glorificaste. (Daniel 5:22-23)

Daniel não foi somente um profeta e um confrontador ousado. Ele foi também um homem que orava intensamente pelo seu povo.

Falava eu ainda, e orava, e confessava o meu pecado e o pecado do meu povo de Israel, e lançava a minha súplica perante a face do SENHOR, meu Deus, pelo monte santo do meu Deus (Daniel 9:10)

O que nos falta é isso. Precisamos nos reunir para orar pelo país. Para confessar o nosso pecado individual e os pecados do nosso povo. Para suplicar, ou seja, orar intensamente, pedir intensamente pela transformação do Brasil. Sem isso, que mudança podemos esperar?

O que nos falta é resolvermos fazer isso. No momento em que tomarmos uma decisão, aí sim começaremos a fazer.

Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. (Daniel 1:8)

Resolve, “Daniel”! Aí sim o Senhor vai nos usar para mudar o Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

O problema não é o PT, o PSDB ou o PMDB

Em 2013, parecia que o Brasil iria mudar. Tudo começou com uma manifestação promovida pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra um reajuste nas passagens de ônibus em São Paulo, que subiram 20 centavos. De repente, os protestos se espalharam pelo país e abrigaram uma série de outras questões, como os gastos com a Copa do Mundo, a saúde pública e a educação. No ápice, mais de 1 milhão de brasileiros protestaram. Em uma cena emblemática, os manifestantes ocuparam a rampa do Congresso Nacional. Parecia que, finalmente, o Brasil estava dando um basta à corrupção e à má gestão dos serviços públicos. Vários jornalistas e analistas “profetizavam” uma mudança na História do Brasil.

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Nada como a realidade para desmascarar os falsos profetas. E, em 2015, o Brasil parece cada vez mais…o Brasil que sempre foi! Como se não bastassem todos os problemas que já existiam em 2013, diretores de empreiteiras e a elite política do Brasil aparecem envolvidas nas investigações da Operação Lava-Jato, e a presidente atual e o último presidente podem estar no esquema. As investigações sugerem que dinheiro de empresas estatais era desviado para pagar parlamentares da base de sustentação do Governo. A maior empresa brasileira, a Petrobrás, está perdendo valor por causa dos escândalos de corrupção.  O preço da gasolina subiu e as previsões são de crescimento econômico em baixa e inflação em alta. Pra piorar, há uma crise no abastecimento de água e no fornecimento de energia elétrica. E aí, vem a pergunta: onde está o povo?

Se, em 2013, a situação estava tão ruim, agora que as coisas estão piores, o povo deveria estar ainda mais indignado, certo? Errado. Os governantes são os mesmos. As forças políticas que controlam o Congresso Nacional são as mesmas. Nada mudou. Nem mesmo a reação política do brasileiro comum: de indiferença e apatia. Continuamos com a reação clássica de reclamar, dizendo que está tudo ruim, e de não fazer nada para mudar. Votamos nos mesmos candidatos, insistimos nas mesmas ideias, temos o mesmo envolvimento de sempre…e achamos que colheremos um resultado diferente.

A culpa também é do povo
E de quem é a culpa? Dos governantes, diz logo o brasileiro comum. Sim, diria eu. Mas não apenas deles. Biblicamente, os líderes quase nunca caem sozinhos. Eles são um reflexo do povo. Vale lembrar que, no nosso sistema de governo, quem elege os representantes somos nós! E, quando o povo se cala, é porque ele é tão culpado quanto os seus príncipes.

A Bíblia mostra claramente isso quando lemos os profetas. No século VI antes de Cristo, perto da destruição de Jerusalém, o reino de Judá sofria com reis terríveis. À exceção do reinado de Josias, os últimos reis de Judá encheram a Jerusalém com sangue, idolatria e corrupção. E a resposta de Deus era a de que toda a sociedade havia apodrecido, inclusive o povo.

Eis que os príncipes de Israel, cada um segundo o seu poder, nada mais intentam, senão derramar sangue. No meio de ti, desprezam o pai e a mãe, praticam extorsões contra o estrangeiro e são injustos para com o órfão e a viúva. Desprezaste as minhas coisas santas e profanaste os meus sábados. Homens caluniadores se acham no meio de ti, para derramarem sangue; no meio de ti, comem carne sacrificada nos montes e cometem perversidade. No teu meio, descobrem a vergonha de seu pai e abusam da mulher no prazo da sua menstruação. Um comete abominação com a mulher do seu próximo, outro contamina torpemente a sua nora, e outro humilha no meio de ti a sua irmã, filha de seu pai. No meio de ti, aceitam subornos para se derramar sangue; usura e lucros tomaste, extorquindo-o; exploraste o teu próximo com extorsão; mas de mim te esqueceste, diz o SENHOR Deus. (Ezequiel 22:6-12)

Filho do homem, a casa de Israel se tornou para mim em escória; todos eles são cobre, estanho, ferro e chumbo no meio do forno; em escória de prata se tornaram. (Ezequiel 22:18)

O profeta Jeremias era contemporâneo de Ezequiel e dizia a mesma coisa, mas de modo oposto. Quando o pecado permeia a sociedade, o nível de educação não importa: todos são insensatos, o povo e a elite.

Mas eu pensei: são apenas os pobres que são insensatos, pois não sabem o caminho do SENHOR, o direito do seu Deus. Irei aos grandes e falarei com eles; porque eles sabem o caminho do SENHOR, o direito do seu Deus; mas estes, de comum acordo, quebraram o jugo e romperam as algemas. (Jeremias 5:4-5)

No final do livro de Jeremias isso fica claro. Jerusalém foi destruída. Os judeus foram julgados pelo Senhor por causa da idolatria, da violência, da imoralidade sexual e da corrupção que marcaram a sociedade do século VI antes de Cristo. A elite havia sido punida: ou foram mortos pelos babilônios ou estavam no exílio. O profeta Jeremias pregava aos sobreviventes que eles deveriam se voltar para o Senhor. Mas, qual foi a resposta do povo?

Então, responderam a Jeremias todos os homens que sabiam que suas mulheres queimavam incenso a outros deuses e todas as mulheres que se achavam ali em pé, grande multidão, como também todo o povo que habitava na terra do Egito, em Patros, dizendo: Quanto à palavra que nos anunciaste em nome do SENHOR, não te obedeceremos a ti; antes, certamente, toda a palavra que saiu da nossa boca, isto é, queimaremos incenso à Rainha dos Céus e lhe ofereceremos libações, como nós, nossos pais, nossos reis e nossos príncipes temos feito, nas cidades de Judá e nas ruas de Jerusalém; tínhamos fartura de pão, prosperávamos e não víamos mal algum. Mas, desde que cessamos de queimar incenso à Rainha dos Céus e de lhe oferecer libações, tivemos falta de tudo e fomos consumidos pela espada e pela fome. Quando queimávamos incenso à Rainha dos Céus e lhe oferecíamos libações, acaso, lhe fizemos bolos que a retratavam e lhe oferecemos libações, sem nossos maridos?(Jeremias 44:15-18)

O povo não apenas era conivente com o pecado, como o aprovava! A cegueira era tanta que, para o povo, a prosperidade acontecia era quando eles viviam no pecado! Não dá pra dizer que Jerusalém foi destruída porque as elites conduziram mal o povo, porque os reis eram perversos e o povo, tadinho…aqueles inocentes pagaram pelo erro de seus líderes! Não!!!! O povo era co-responsável! O coração dos líderes era como o coração do povo! Assim como os reis e príncipes de Judá se regozijavam com o pecado, o povo também gostava!

carnaval

O que o Brasil vive hoje é muito parecido. Das 50 cidades mais violentas do mundo, 19 são brasileiras. A imoralidade sexual é uma marca registrada do país: até nas igrejas cristãs, o sexo fora do casamento é comum e a sensualidade é valorizada na hora de se escolher um cônjuge. O brasileiro venera santos, dá ofertas a orixás, lê livros espíritas mas não abre a Bíblia. Mesmo os que se dizem cristãos não hesitam em trazer ofertas a estátuas de santos ou em pregar um Evangelho que não é o bíblico. Os políticos evangélicos são figuras frequentes em escândalos ou denúncias de corrupção. E a culpa é dos políticos?

Não, meus caros: a culpa é nossa! A culpa é do povo, que é tão impuro hoje como os judeus do século VI antes de Cristo! E o que Deus dizia de Judá aplica-se ao Brasil de hoje também! Nós também somos todos como a escória! Somos tão corruptos e culpados como os políticos que nós elegemos para nos representar…e eles, de fato, nos representam!

A culpa é da Igreja
Que os “profetas” do mundo responsabilizem apenas um ou dois partidos pelo caos em que o Brasil se encontra, é compreensível. Mas que os profetas do Altíssimo entreguem uma mensagem parcial e incompleta, isso não é aceitável. É preciso que o pecado do povo seja denunciado profeticamente! Os pecados precisam ser anunciados pelo nome, o juízo de Deus precisa ser claramente declarado e a linguagem deve ser forte!

Só que não é isso o que acontece. Pelo que eu tenho visto e ouvido pessoalmente, as igrejas estão mais preocupadas em crescer numericamente do que em proclamar a Palavra de Deus. E isso significa uma grande preocupação em agradar as pessoas. A conclusão é que raramente o pecado é apontado e confrontado diretamente nos púlpitos. Prefere-se uma abordagem mais light, tentando mostrar que o Evangelho é mais atraente que o pecado. Ou então retratamos o pecado como um fracasso pessoal, em uma linguagem onde nós somos pintados como vítimas, e não como réus. Evita-se, ao máximo, responsabilizar individualmente uma pessoa e foge-se de textos que dizem, por exemplo, que somos como a escória.

Isso quando não ocultamos pecados porque, bem, ele pode comprometer a Igreja diante da comunidade. Vou dar o exemplo de Brasília. Bairros inteiros, como Arniqueira, Cidade Estrutural, Itapoã e vários condomínios de classe média no Jardim Botânico, por exemplo, começaram com invasões de terra pública, até mesmo de áreas de preservação ambiental. Onde estão os pastores que pregam, nos púlpitos, que os invasores pecaram? Que as invasões em áreas ambientais são as responsáveis pela falta d’água no futuro? Ninguém fala, nós queremos que eles se tornem cristãos. E assim o pecado não é denunciado.

macacomudo

Muitos pastores e fiéis acham que isso é amar as pessoas. Se não confrontamos esses pecados centrais, que amarraram economicamente os pecadores, então eles vão ouvir o Evangelho, se arrepender e herdarão a vida eterna! Mas esse “amor” é apenas rejeição da Bíblia e produz a condenação do nosso país.

Ouvi a palavra do SENHOR, vós, filhos de Israel, porque o SENHOR tem uma contenda com os habitantes da terra, porque nela não há verdade, nem amor, nem conhecimento de Deus. O que só prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios. Por isso, a terra está de luto, e todo o que mora nela desfalece, com os animais do campo e com as aves do céu; e até os peixes do mar perecem. Todavia, ninguém contenda, ninguém repreenda; porque o teu povo é como os sacerdotes aos quais acusa. Por isso, tropeçarás de dia, e o profeta contigo tropeçará de noite; e destruirei a tua mãe. O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos. (Oséias 4:1-6)

Esse Evangelho light, embalado em uma abordagem moderna e acolhedora, que evita ao máximo dizer o pecado com todas as letras e que não joga sobre nós, pecadores, o peso de nossas ações, esse Evangelho que ignora a Lei e não clama por verdadeiro arrependimento, ele é que mata o Brasil! Precisamos entender que, enquanto o pecado é tolerado, a terra toda sofre. Enquanto o brasileiro não conhecer a Bíblia, ele perecerá!

E essa falta de conhecimento também mata os que seguem pastores legalistas, que se preocupam com coisas que não são pecado e ignoram o verdadeiro pecado da nossa nação. Temos quem pregue contra a televisão, a maquiagem e a calça comprida, mas que não pregam contra a avareza, a violência doméstica, o desejo de violência e de vingança, entre outros problemas do coração do brasileiro.

Precisamos de menos legalistas e de menos pregadores de voz agradável, e de mais profetas que anunciem o verdadeiro pecado do Brasil!

Jesus leva a culpa sobre si
Tampouco adianta, porém, apenas denunciar o pecado vigorosamente e lançar a culpa sobre as pessoas. O profeta leva o povo a se entristecer e a se envergonhar de seus pecados. O profeta leva o povo a se colocar no seu devido lugar e a entender que o pecado é nosso, e não apenas dos nossos representantes. Mas ele também oferece salvação aos que o ouvem.

Naquele dia, diz o SENHOR, ela me chamará: Meu marido e já não me chamará: Meu Baal. Da sua boca tirarei os nomes dos baalins, e não mais se lembrará desses nomes. Naquele dia, farei a favor dela aliança com as bestas-feras do campo, e com as aves do céu, e com os répteis da terra; e tirarei desta o arco, e a espada, e a guerra e farei o meu povo repousar em segurança. Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao SENHOR. Naquele dia, eu serei obsequioso, diz o SENHOR, obsequioso aos céus, e estes, à terra; a terra, obsequiosa ao trigo, e ao vinho, e ao óleo; e estes, a Jezreel.Semearei Israel para mim na terra e compadecer-me-ei da Desfavorecida; e a Não-Meu-Povo direi: Tu és o meu povo! Ele dirá: Tu és o meu Deus! (Oséias 2:16-23)

Porque esta é a aliança que firmarei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o SENHOR: Na mente, lhes imprimirei as minhas leis, também no coração lhas inscreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Não ensinará jamais cada um ao seu próximo, nem cada um ao seu irmão, dizendo: Conhece ao SENHOR, porque todos me conhecerão, desde o menor até ao maior deles, diz o SENHOR. Pois perdoarei as suas iniqüidades e dos seus pecados jamais me lembrarei. (Jeremias 31:33-34)

Então, me disse: Filho do homem, estes ossos são toda a casa de Israel. Eis que dizem: Os nossos ossos se secaram, e pereceu a nossa esperança; estamos de todo exterminados. Portanto, profetiza e dize-lhes: Assim diz o SENHOR Deus: Eis que abrirei a vossa sepultura, e vos farei sair dela, ó povo meu, e vos trarei à terra de Israel. Sabereis que eu sou o SENHOR, quando eu abrir a vossa sepultura e vos fizer sair dela, ó povo meu. Porei em vós o meu Espírito, e vivereis, e vos estabelecerei na vossa própria terra. Então, sabereis que eu, o SENHOR, disse isto e o fiz, diz o SENHOR. (Ezequiel 37:11-14)

O mesmo pode acontecer com o Brasil. Entendam: não há ressurreição sem morte. Por isso, quando os que conhecem a Deus pararem de tentar esconder a verdade, e os brasileiros entenderem claramente que estão mortos e que precisam se arrepender e mudar…quando isso acontecer, o coração dos brasileiros estará aberto para acolher a verdadeira mensagem do Evangelho. Aí sim estaremos prontos para confiar em Jesus como Aquele que leva sobre si os nossos pecados e estaremos dispostos a deixar que Ele viva por meio de nós. Aí nós podemos começar a sonhar com um Brasil melhor.

Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, – pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. (Efésios 2:4-7)

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro