Lembrem-se dos pobres

Quando o mundo pensa em pobreza, o Brasil não aparece mais no imaginário coletivo. Ao contrário de muitos países africanos e asiáticos, o Brasil é visto como uma “potência emergente”, uma terra cheia de oportunidades e riquezas. Para haitianos, nigerianos e estrangeiros de outras nacionalidades, o Brasil é atrativo o suficiente para valer o risco de se contratar “coiotes” para tentar viver aqui. Não somos mais vistos como um país “coitado” que deve ser visto com leniência, e sim como um país pronto a assumir mais responsabilidades e gerar riquezas.

Contudo, apesar de todo o progresso material acontecido no Brasil, ainda temos 16 milhões de pessoas vivendo na pobreza, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). É muita gente, cerca de 8,5% da população do país. O assunto é tão valorizado no Brasil que não é exagero dizer que o Bolsa Família, um programa governamental de combate à pobreza, decidiu as eleições presidenciais de 2014. Apesar de todos os escândalos de corrupção e dos problemas econômicos tratados na campanha eleitoral, o Bolsa Família foi decisivo porque 1 em cada 4 brasileiros depende do benefício, mais de 45 milhões de pessoas.

Se formos pensar em quantos brasileiros são dependentes de outros benefícios do Governo, como o seguro-desemprego, é inevitável perguntar: quantos pobres existem no Brasil? Aliás, o que é ser pobre? É apenas uma questão de renda ou envolve, por exemplo, a capacidade de conseguir se sustentar sem depender da ajuda de outros ou do Governo? Porque, se a pobreza e a dependência estão relacionadas, o Brasil é um país profundamente pobre, onde talvez um terço ou mais das pessoas dependa de outros para o seu sustento.

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A pobreza é um assunto extremamente relevante no Brasil, muito mais do que parece. Temos que começar discutindo o que é pobreza e como quantificá-la, com honestidade. Pra mim é óbvio, mas é preciso mostrar à sociedade que tornar um número tão grande de pessoas dependentes do Governo não é um caminho que elimina a pobreza, mas que a preserva. Temos que pensar em formas de reduzir essa dependência. Ignorar esse assunto é ser cego ao fato de que, para o brasileiro, a pobreza é um problema mais sério que a corrupção e a criminalidade. Se fosse diferente, outro candidato teria vencido as eleições de 2014.

Mas as igrejas protestantes insistem em subdimensionar essa questão.

Jogando o problema para outros
Quando falamos em pobreza, basicamente a resposta dos protestantes é a de passar o problema adiante, como se fosse uma batata quente em nossas mãos. A postura política explica pra quem jogamos a batata.

Os que estão mais à esquerda querem que o Estado resolva o assunto. Querem mais programas sociais do Governo e profissionais contratados pelo Estado para cuidarem do problema. Defendem que os necessitados devem procurar a Igreja e serem encaminhados para algum programa governamental. Simples assim, sem muito envolvimento. Quando a igreja tem algum trabalho social, logo procuram uma parceria com o Estado para receber recursos financeiros do Governo e livrar os fiéis da responsabilidade de financiar a caridade. Não importa se, para isso, é preciso desvincular o trabalho social da igreja, se é preciso esconder qualquer referência a Cristo…escondemos a Deus e a Igreja para termos o dinheiro do Governo.

Os que estão mais à direita jogam a batata no colo do pobre. Eles defendem, corretamente, que o dever do Estado é o de promover uma sociedade onde cada um tenha a liberdade de fazer a própria vida e receba, de volta, o resultado de seu esforço individual. Mas negligenciam que há um dever cristão, que o Senhor exige de todos os seres humanos, de amar ao nosso próximo.

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)

E o que é amar? Amar é abrir o coração (e o bolso) e socorrer aos que estão necessitados:

Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. (1 João 3:17-18)

Mais do que isso. A fé que salva é uma fé que faz obras. Biblicamente, as obras são maiores do que a caridade, pois envolvem todos os atos de obediência ao Senhor. Contudo, é inegável que a caridade é mostrada, claramente, como um exemplo de boas obras! Uma fé insensível aos pobres não tem utilidade e não é a fé que nos salva.

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (Tiago 2:14-17)

Vejam bem, os versículos acima são um lembrete a todos, à esquerda e à direita, que a caridade é um dever de todos, mas principalmente dos que são cristãos. Essa batata quente é nossa. É uma responsabilidade individual. Não pode ser delegada ao Estado ou ao pobre! E não deve ser negligenciada.

O lugar da caridade na missão
O meio bíblico de lidar com o problema da pobreza é a caridade (falo mais sobre isso aqui). Ser caridoso é um dos traços do amor e da fé verdadeiros. Com toca a certeza, é uma das questões que merecem a nossa atenção. Mas não é a questão mais séria que deve ocupar a Igreja. E quem ensina isso é o próprio Jesus, quando Maria, a irmã de Lázaro, derrama um perfume caro sobre Ele. Jesus nos ensina que adorá-Lo tem prioridade sobre o cuidado com os pobres.

Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. Jesus, entretanto, disse: Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes. (João 12:3-8)

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua. (Marcos 14:6-9)

Também é verdade que a principal ocupação dos apóstolos era a oração e o ensino da Palavra de Deus. Por analogia, os pastores também devem ocupar-se principalmente com tais deveres. Orar e ministrar a Bíblia tem precedência sobre o “servir as mesas”, que é a prática da caridade dentro da Igreja. Porém…e esse porém é muito importante…o cuidado com os pobres era tão importante que pessoas honestas deveriam ser eleitas pela Igreja para este fim!

Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. (Atos 6:2-4)

E aqui é preciso corrigir um erro grosseiro de interpretação. “Piedosamente”, muitos pastores e presbíteros esquivam-se de um envolvimento maior com a caridade porque essa não seria a função deles. “Há diáconos eleitos para isso”, dizem. Contudo, quando lemos outros textos, vemos que os apóstolos também faziam caridade. A fala de Judas Iscariotes em João 12 não mostra apenas que ele era desonesto, mas mostra que era comum que se usasse parte do dinheiro dado a Jesus para ajudar os necessitados. E um apóstolo cuidava disso. Quando Paulo foi até Jerusalém apresentar seu trabalho apostólico aos Doze, recebeu uma recomendação bem específica:

e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2:9-10)

Assim como hoje há “pastores-mestres” (mais dedicados ao ensino), “pastores-conselheiros” (especialistas em aconselhamento) e até “pastores-administradores” (uma função mais típica de presbíteros regentes), por que não “pastores-diáconos” ou “presbíteros-diáconos”? A liderança da Igreja também precisa se envolver!

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Aplicações
Vamos recordar alguns pontos:

– A caridade é uma marca do amor verdadeiro e da fé que salva;
– A caridade é uma responsabilidade individual, de todos, e não pode ser simplesmente transferida a outros;
– A caridade é tão importante que a Igreja deve eleger homens que se dedicarão, especialmente, a isso;
– A caridade não é o dever principal de um pastor, mas ele deve se lembrar dos pobres em seu ministério.

Isso tudo mostra que a pobreza não é o problema mais grave do Universo, a ponto de ignorarmos todo o resto (como parece ser o ponto de vista dos brasileiros), mas não é uma questão marginal ou secundária para os cristãos. Entretanto, há pouco destaque ao assunto no protestantismo. Vemos isso de várias maneiras:

– Poucas igrejas possuem ministérios dedicados à caridade abertos à participação de leigos;
– Pouquíssimos cristãos estão dispostos a se voluntariar e assumir um compromisso de longo prazo com esses ministérios;
– Os díaconos são mais conhecidos por cuidar do templo e gastam mais tempo com questões administrativas do que no cuidado com os mais pobres;
– Poucos membros se oferecem como voluntários para participar de ministérios de caridade;
– Pouco dinheiro é investido pelas igrejas protestantes em caridade, e há uma pressão muito grande para se buscar financiamento governamental…o que não deixa de ser uma forma de se fazer caridade com o dinheiro dos outros;
– Quase não se prega sobre caridade. Quando pregamos, falamos genericamente em missão integral, mas pouco se diz sobre a necessidade de envolvimento individual e pastoral no combate à pobreza;
– Projetos de plantação de igrejas não começam destinando recursos ou pensando em ministérios de socorro aos necessitados;
– Quantas escolas, creches, hospitais e centros de recuperação protestantes, sustentados pelas igrejas protestantes, vemos hoje?
– Prega-se mais sobre prosperidade e riqueza do que sobre caridade e pobreza.

Creio que é preciso ir além. Quem já foi em países desenvolvidos sabe que o argumento mais forte para justificar eticamente o catolicismo romano é a caridade. Em debates apologéticos, é cada vez mais comum que o apologista católico aponte, com razão, para o grande número de pessoas assistidas em seus sofrimentos por meio do trabalho de católicos. Milhares de sacerdotes ordenados e leigos dedicam a sua vida à caridade dentro do catolicismo. Dedicam à vida, não dez minutos dos seus dias. E os protestantes brasileiros estão muito atrás.

Assim como Judas, hoje há muitos políticos que usam os pobres como meio de desviar dinheiro. Querem um Estado cada vez mais gigante e inchado para poderem encher seus bolsos e usam os pobres como desculpa. O país inteiro sofre com isso. Mas só denunciar a Judas não basta. É preciso seguir o exemplo de Jesus na cruz, e dar a vida pelos outros. É preciso seguir o conselho de Pedro, Tiago e João e nos lembrar dos pobres. É preciso seguir o exemplo de Paulo e nos esforçarmos nisso. É preciso lembrar o que a Bíblia ensina sobre uma fé sem obras e um amor que não se compadece de quem é necessitado.

Precisamos nos arrepender do nosso pecado e nos lembrar dos pobres. Para a graça de Deus. E você pode começar a fazer isso agora.

Um projeto que você deveria conhecer é o Projeto Santa Luz, da Child Fund, apoiado pela Igreja Presbiteriana Nacional. Se outras igrejas se mobilizassem para fazer ações similares, estamos fazendo algo concreto pelo país. Um outro projeto é a Missão Vida, de recuperação de moradores de rua. Ambos os projetos necessitam de orações, recursos e envolvimento.

Mas faça algo onde você está, na sua comunidade. A responsabilidade é minha, sua…de todos. E seremos cobrados, individualmente, no Dia do Juízo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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O amor ao próximo, o egocentrismo e o Estado

Com o fim da Guerra Fria nos anos 90 (como estamos velhos!), costuma-se dizer que a dicotomia esquerda vs. direita está ultrapassada. Não há mais uma escolha a ser feita entre o capitalismo e o socialismo, logo, podemos “virar a página” e passar para as próximas discussões. Entretanto, assim como a História é dinâmica, as escolas de pensamento também o são, e novos temas surgem, marcando novos pontos de debate.

Surpreendentemente, porém, os velhos temas que julgamos enterrados continuam vivos, mesmo quando nos recusamos a perceber o óbvio. Um bom exemplo pode ser visto na teologia. Certamente, o catolicismo e o protestantismo do século XXI já não são mais os mesmos do século XVI. Novos temas entraram na discussão teológica, como a ordenação de mulheres e o ecumenismo. Engana-se, porém, quem pensa que os velhos debates teológicos que causaram a Reforma Protestante estão superados. Basta ouvir um podcast protestante e um vídeo católico para ver como isso é verdade. A polarização ainda existe.

A superpolarização
O interessante é que, ao invés de enfraquecer, certas polarizações que parecem restritas a um determinado campo, crescem e influenciam outras áreas do conhecimento. Inclusive a espiritualidade. Um bom exemplo é a questão do amor ao próximo. Dependendo da sua visão política, você entenderá que o amor ao próximo implica em um “Estado babá” (esquerda) ou no reconhecimento do direito do outro fazer suas escolhas (direita). Você pode entender que amar aos pobres é criar uma rede estatal de proteção, mesmo que isso signifique impostos altos (esquerda) ou que amar aos pobres é tirar menos dinheiro do povo, para que mais empregos possam ser criados e reduzir a pobreza (direita).

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Alguns dirão que é a fé quem os leva a assumir um posicionamento político “x” ou “y”. Consinto que isso pode ser verdadeiro no caso de alguns. Mas, na maioria das vezes, o que ocorre é o contrário. A formação política tem determinado, para muitos, o que é virtude e o que é pecado. E não pense que eu vá culpar alguém por isso! Trata-se de um processo normal de formação do conhecimento. A questão é que a maturidade intelectual exigirá que, em algum momento, percebamos esse intercâmbio de ideias e procuremos fazer uma harmonização consciente entre a nossa fé e as outras áreas da vida. Isso implica não apenas no discernimento da origem de nossas opiniões, mas também em uma hierarquização adequada dos valores que irão nortear nossos posicionamentos.

No caso de cristãos que realmente vivem a sua fé e confessam a Jesus como o Senhor de suas vidas, a Bíblia deve ser o parâmetro pelo qual tudo o mais será julgado. Inclusive as diferentes visões políticas sobre o Estado. E o termômetro que devemos escolher é o do amor.

A tábua do próximo
Por que o amor? Será que não devemos nos guiar pelos resultados? Bom, para Jesus, o coração é mais importante do que as mãos. Se a vida do cristão deve ser guiada pela Bíblia, então o amor deve ser preponderante, pois é a base de toda a Palavra de Deus.

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)

Reparem que o amor não é apenas uma base intelectual, é um mandamento. A prática dos dois grandes mandamentos é a essência da Bíblia. Sem amor, tudo é inútil, inclusive grandes atos de “justiça social”, como a distribuição de bens aos pobres.

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará. (1 Coríntios 13:1-3)

E aí surge a questão: o que é amar? Um sentimento piedoso de gostar das pessoas é suficiente? Na verdade, não. Quando Jesus fala do amor a Deus e do amor ao próximo, Ele responde a uma pergunta sobre qual o grande mandamento da Lei de Moisés. A resposta de Jesus remete, na verdade, aos Dez Mandamentos. O Decálogo é, na verdade, uma explicação do que significa amar a Deus e amar ao próximo. O livro de Romanos explicita essa ligação. Quem ama, cumpre a Lei e os Dez Mandamentos.

A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei. Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. (Romanos 13:8-9)

Amar é respeitar
E o que vemos quando analisamos os mandamentos que falam do amor ao próximo? Vemos que o respeito aos direitos do outro são a essência do amor ao próximo. Com exceção do quinto mandamento (honrar pai e mãe), todos os outros nos ensinam isso:

Honra teu pai e tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR, teu Deus, te dá.
Não matarás.
Não adulterarás.
Não furtarás.
Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.
(Êxodo 20:12-17)

Talvez uma breve “reescrita” dos Dez Mandamentos mostre isso claramente:

V – A família é a base da organização social. Deve ser resguardada acima de qualquer outro direito humano. Vem antes do direito à vida. Por analogia, respeite as autoridades que foram constituídas sobre você. Não usurpe o direito de seus superiores, obedeça-os. Isso é a garantia de todos os demais direitos. Por isso, existe um Estado, assim como há pais que encarnam a autoridade na família.

VI – Respeite o direito do seu próximo de viver. Não acabe com a vida dele, não o agrida, a existência do seu próximo não pertence a você.

VII – Respeite a mulher ou o homem do seu próximo. Honre a aliança conjugal que você assumiu. Reconheça os direitos do marido ou da esposa da pessoa que você deseja sexualmente e se afaste. Seja fiel ao outro, respeite os direitos afetivos do seu cônjuge e não os usurpe;

VIII – Respeite o direito à propriedade do seu próximo. Não tome, sob nenhum pretexto, as suas posses e os seus bens. Não estrague o que é dos outros. Não traga prejuízos materiais ao próximo.

IX – Respeite a honra e a reputação do seu próximo. Respeite a sua integridade. Não temos o direito de usar a nossa língua para mentir e prejudicar outras pessoas.

X – Respeite tudo que é do seu próximo, em seu coração. Um respeito formal e exterior é insuficiente. Nossa reverência com o nosso próximo deve ser tão grande que, mesmo que eu não tenha nada, e ele tenha tudo, não posso sequer desejar tomar para mim qualquer coisa que seja dele. Nem cônjuge, nem bens, nem honra, nem reputação, nem capacidades, nada! Devo respeitá-lo no mais alto grau, no espaço mais íntimo do meu ser, que é o meu coração.

dezmandamentos

O oposto do egocentrismo
Tudo na Bíblia tem a sua razão de ser. Há uma motivo muito forte pelo qual a maioria dos mandamentos referentes ao próximo começa com um “não”. Cada “não” dos Dez Mandamentos é um não ao nosso egocentrismo, ou seja, a tendência de colocarmos o nosso ego no centro do mundo.

Mesmo quando o “não” está ausente, o egocentrismo recebe o seu “não” divino. Honrar os pais e as autoridades é reconhecer que nós não somos os senhores, as autoridades máximas e que há poderes superiores a nós! É reconhecer que a vida do outro vale tanto quanto a minha e que eu não posso eliminar os outros para satisfazer o meu senso de justiça ou aplacar a minha ira, seja ela justa ou não. É reconhecer que os meus desejos sexuais e afetivos não são tão grandes a ponto de ferir os compromissos e direitos de outras pessoas. Que as minhas carências materiais não justificam que eu me aproprie do que pertence a outros. O meu interesse pessoal, ou até a minha pele, não justificam que eu minta para me dar bem ou desviar a minha culpa para outras pessoas. Devo lutar contra todo desejo interior de querer ser maior do que sou e diminuir o meu irmão!

Limitar o meu direito e respeitar os direitos do próximo é um dos elementos definidores do amor. Amar é restringir-me, é sacrificar-me, tendo em vista o outro. E isso possui uma implicação política clara e óbvia. Porque o amor é um sacrifício autoimposto, e não algo que você impõe aos outros. A única limitação a esse princípio é o amor a Deus, que impede que o amor ao próximo se degenere em pecados grosseiros e idolatria. E isso nos mostra um desagrado aos dois extremos políticos sobre o Estado.

Eu posso até estar certo e ter a receita que fará do mundo um lugar de riqueza e prosperidade sem fim. “Se todos me ouvissem, tudo seria melhor. Logo, se o mundo não me ouve, posso, pela força, impor o bem a todos, certo? Isso seria amar ao próximo!” Errado! Muito errado! Biblicamente, eu não tenho o direito de impor isso aos outros. Nem Deus faz isso conosco, e Ele é amor. O Senhor definiu consequências para nossos pecados, para nossas más escolhas e ações. Mas Ele respeita a nossa liberdade de escolha. Tanto que Ele nos responsabiliza por elas.

Do mesmo modo, a liberdade de escolha do meu próximo deve ser respeitada. Quando eu tento regular demais a vida do meu vizinho, eu estou sendo egocêntrico. Estou impondo ao mundo a minha lei. Eu estou querendo agir como um deus. Até mesmo os pais devem agir dentro dos limites de autoridade traçados pelo Senhor. Um filho não deve obediência cega aos seus pais em todas as coisas. Nenhum rei aprovado pelo Senhor era livre para fazer o que bem entendesse, ele deveria respeitar a Deus e ao seu povo. Ele não podia, por exemplo, simplesmente confiscar os bens de seus súditos. Até Davi comprou, pelo seu devido preço, a propriedade onde o templo de Jerusalém seria construído. E isso é um golpe em todos os projetos de Estado à esquerda, que defendem uma certa restrição dos direitos das pessoas (como desapropriações e impostos elevados), em nome de um bem coletivo maior.

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Por outro lado, o extremo liberal da inexistência de um Governo também não é bíblico. O amor exige leis e autoridade. O amor exige limites à liberdade e autoridades humanas que zelem pelo respeito a esses limites. Honrar pai e mãe é a base da tábua do próximo, e isso tem precedência sobre o direito à vida. Assim como filhos não podem fazer o que querem e os pais devem ser obedecidos, tendo o direito e o dever de castigá-los para educá-los, o mesmo ocorre com as autoridades governamentais. A liberdade sem limites leva à destruição e não é amor. Mas, havendo limites e autoridade, nossos dias sobre a terra se prolongam e somos abençoados.

Sim, caros libertários, as autoridades possuem limites, assim como os pais! Essa é uma sábia lembrança: autoridade não é sinônimo de tirania. E, assim como pais não podem salvar os seus filhos do inferno, o Governo também não pode salvar seus cidadãos de fazerem escolhas ruins. Mas a autoridade é necessária. Assim como as leis que honram a Deus.

O que os homens não veem
Contudo, há uma ressalva que precisa ser feita aqui. Sim, concordo que a visão de Estado que mais se aproxima do mandamento do amor ao próximo é mais à direita. É um Estado preocupado em garantir a liberdade e o direito de cada cidadão, com limites razoáveis e ponderados. Concordo que há um grande espaço para discutir, de modo prático, até onde iriam esses limites. Reprovo, claramente, as visões que necessitam de um Estado que force, de alguma maneira, uma igualdade que não é real. Os que se acham certos não podem usar o Estado como meio de impor o certo aos demais, e isso fere as visões à esquerda, porque elas precisam de um Estado forte para fazer valer seus ideais. Mas…

Mas é perfeitamente possível defender o Estado correto por egoísmo. O coração vale mais do que as mãos. E não duvido que Deus reprove muitos que defendem um Estado biblicamente correto, mas que, na verdade, querem é a liberdade de poderem viver egocentricamente, sem dar satisfações a Deus e ignorando, completamente, o próximo. E esses são condenáveis aos olhos do Senhor. Seus esforços políticos de nada valem para o Senhor, são completamente inúteis. Por outro lado, muitos podem defender o Estado errado tendo o coração correto, mas uma mente não tão bem orientada. Querem a glória de Deus, buscam o bem do próximo, mas por ignorância, por condicionamento intelectual ou até por ingenuidade, não discernem o melhor modelo.

Que o Senhor nos lembre de que o amor é necessário em todos os nossos esforços, inclusive na política e na economia. Que Ele nos recorde da verdade que o amor a Ele é maior que o amor ao próximo. Que Ele nos livre de todo egoncentrismo e do desejo de usarmos a política como uma forma de sermos ídolos para nós mesmos e para outras pessoas. E que saibamos olhar para a cruz de Cristo e reconhecer que somente quando Ele vier, em glória, reinar visivelmente sobre tudo, é que a perfeição atingirá a nossa sociedade.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Desigualdade, cobiça e comunismo

Segundo os jornalistas econômicos, o maior problema que enfrentamos hoje no mundo (depois do aquecimento global) é a desigualdade. Em 2016, a riqueza de 1% das pessoas mais ricas do planeta irá ultrapassar a dos 99% restantes, segundo a ONG Oxfam. Pode parecer que estamos falando apenas de multimilionários, mas basta acumular um patrimônio de 798 mil dólares (2,1 milhões de reais) para fazer parte do clube.

O que dizer de tamanha concentração de riqueza? Para os que se identificam com ideologias de esquerda, o mundo nunca foi tão perverso economicamente como nos dias atuais. Uma mudança no capitalismo seria uma necessidade moral. Afinal, a igualdade material é um valor a ser perseguido. Para os que se identificam com ideologias mais à direita, a igualdade material é uma utopia e a desigualdade não é, necessariamente, maligna. Se, de forma geral, a riqueza de todos aumenta, a desigualdade não é um grande problema. A origem da desigualdade seria fruto de interferências excessivas do Governo na economia para outros. O vídeo abaixo, de Rodrigo Constantino, explica esse ponto de vista:

Contudo, a desigualdade não é apenas uma questão econômica. Trata-se de uma questão moral e de implicações religiosas. Por exemplo, o papa Francisco denuncia, constantemente, os males da desigualdade. Movimentos religiosos, como a Teologia da Libertação, entendem que a luta por uma sociedade materialmente mais igualitária é um dever de cada cristão. Por outro lado, a desigualdade parece estar na raiz de outros movimentos, como da Teologia da Prosperidade, onde a riqueza é sinal de bênção divina aos fiéis e a pobreza seria um sinal da maldição de Deus ou um castigo pelo envolvimento com demônios.

Nessas horas, é preciso analisar o que a Bíblia ensina sobre o assunto.

Um problema?
De fato, a Bíblia traz várias advertências sobre a riqueza e o acúmulo de propriedades. Em Isaías, há uma condenação aos que concentram a propriedade de imóveis. Em 1 Timóteo, é dito claramente que o desejo de enriquecer é pecaminoso e que o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males, o que inclui mentiras, adultérios, assassinatos, entre outros.

Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra! A meus ouvidos disse o SENHOR dos Exércitos: Em verdade, muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas, sem moradores. (Isaías 5:8)

Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, e cilada, e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores. (1 Timóteo 6:9-10)

Tiago é ainda mais duro. Ele anuncia juízo sobre os ricos. Afirma que as riquezas são corruptas, ou seja, elas podem ser destruídas com o passar do tempo, não são eternas. Mas há um detalhe: Tiago denuncia a riqueza adquirida de forma injusta, por meio de fraude, da retenção indevida do salário de trabalhadores e do uso da força para matar e condenar justos…por causa de dinheiro.

Atendei, agora, ricos, chorai lamentando, por causa das vossas desventuras, que vos sobrevirão. As vossas riquezas estão corruptas, e as vossas roupagens, comidas de traça; o vosso ouro e a vossa prata foram gastos de ferrugens, e a sua ferrugem há de ser por testemunho contra vós mesmos e há de devorar, como fogo, as vossas carnes. Tesouros acumulastes nos últimos dias. Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Tendes vivido regaladamente sobre a terra; tendes vivido nos prazeres; tendes engordado o vosso coração, em dia de matança; tendes condenado e matado o justo, sem que ele vos faça resistência. (Tiago 5:1-6)

E essa é uma distinção importante. É paradoxal, mas a riqueza, em si, não é pecado. O pecado ocorre quando ela é adquirida às custas da exploração de outros, ou por meio da injustiça. Mesmo no caso de Isaías 5:8, o contexto mostra que a ira divina é porque o acúmulo de casas acontecia por meio da injustiça, da quebra da Lei de Deus e porque os ricos deleitavam-se em prazeres enquanto os pobres clamavam ao Senhor.

Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do SENHOR; este desejou que exercessem juízo, e eis aí quebrantamento da lei; justiça, e eis aí clamor. Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra! A meus ouvidos disse o SENHOR dos Exércitos: Em verdade, muitas casas ficarão desertas, até as grandes e belas, sem moradores. E dez jeiras de vinha não darão mais do que um bato, e um ômer cheio de semente não dará mais do que um efa. Ai dos que se levantam pela manhã e seguem a bebedice e continuam até alta noite, até que o vinho os esquenta! Liras e harpas, tamboris e flautas e vinho há nos seus banquetes; porém não consideram os feitos do SENHOR, nem olham para as obras das suas mãos. Portanto, o meu povo será levado cativo, por falta de entendimento; os seus nobres terão fome, e a sua multidão se secará de sede. Por isso, a cova aumentou o seu apetite, abriu a sua boca desmesuradamente; para lá desce a glória de Jerusalém, e o seu tumulto, e o seu ruído, e quem nesse meio folgava. Então, a gente se abate, e o homem se avilta; e os olhos dos altivos são humilhados. (Isaías 5:7-15)

desigualdade

Mas alguns podem insinuar que toda a riqueza do mundo é de origem pecaminosa. Apenas enriquece quem explorou indevidamente o trabalho de outros e agiu com injustiça. Isso não é verdade. Em primeiro lugar, porque a Bíblia mostra que a riqueza pode sim ser uma bênção que Deus dá a alguns de Seus filhos. Aliás, há ricos entre os melhores servos que Deus já possuiu.

Eu, a sabedoria, habito com a prudência, e acho o conhecimento dos conselhos. O temor do Senhor é odiar o mal; a soberba e a arrogância, o mau caminho e a boca perversa, eu odeio.(…) Riquezas e honra estão comigo; assim como os bens duráveis e a justiça. (Provérbios 5:12,18)

Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção. E a todo o homem, a quem Deus deu riquezas e bens, e lhe deu poder para delas comer e tomar a sua porção, e gozar do seu trabalho, isto é dom de Deus. Porque não se lembrará muito dos dias da sua vida; porquanto Deus lhe enche de alegria o seu coração. (Eclesiastes 5:18-20)

Havia um homem na terra de Uz, cujo nome era Jó; homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desviava do mal. Nasceram-lhe sete filhos e três filhas. Possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois e quinhentas jumentas; era também mui numeroso o pessoal ao seu serviço, de maneira que este homem era o maior de todos os do Oriente. (Jó 1:1-3)

Semeou Isaque naquela terra e, no mesmo ano, recolheu cento por um, porque o SENHOR o abençoava. Enriqueceu-se o homem, prosperou, ficou riquíssimo; possuía ovelhas e bois e grande número de servos, de maneira que os filisteus lhe tinham inveja. (Gênesis 26:12-14)

Contudo, ser rico não é sinal certo de favor divino. Assim como ser pobre não é sinal certo de maldição divina. O próprio Jesus viveu como pobre e disse que os pobres eram bem-aventurados.

Mas Jesus lhe respondeu: As raposas têm seus covis, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça. (Lucas 9:58)

Não vos falo na forma de mandamento, mas para provar, pela diligência de outros, a sinceridade do vosso amor; pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos. (2 Coríntios 8:8-9)

Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, os que agora tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, os que agora chorais, porque haveis de rir.(…) Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação. Ai de vós, os que estais agora fartos! Porque vireis a ter fome. Ai de vós, os que agora rides! Porque haveis de lamentar e chorar. (Lucas 6:20-21, 24-25)

É chocante, mas do ponto de vista bíblico, podemos estar com Cristo sendo ricos ou pobres. Do ponto de vista espiritual, considerando que este mundo é passageiro e que a eternidade é muito maior que nossa vida terrena, ricos e pobres possuem oportunidades para louvar a Deus e fazer o bem. Ambos enfrentam perigos diferentes que podem levá-los ao inferno. A suma de tudo pode ser encontrada em Provérbios:

O rico e o pobre se encontram; a um e a outro faz o SENHOR. (Provérbios 22:2)

Jesus e a desigualdade
Fica claro, portanto, que a pobreza e a riqueza não são, em si, pecados. Jesus é retratado na Bíblia tanto como homem rico como homem pobre. De certa maneira, a Bíblia pronuncia bem-aventuranças e bênçãos tanto para ricos como a pobres. Ambos foram feitos por Deus e estão debaixo do controle do Senhor. O que é condenável é a riqueza construída em cima de pecados, de amor ao dinheiro, de assassinatos, de escravidão, daquilo que é mau e contrário às leis de Deus. Igualmente condenável é a pobreza causada pelo pecado do coração humano, como mostra Provérbios:

Quem ama os prazeres empobrecerá, quem ama o vinho e o azeite jamais enriquecerá. (Provérbios 21:17)

E isso é refletido no ensino de Jesus. O Senhor condena a riqueza iníqua e abençoa os que são pobres, mas Ele não ensina que o reino dos céus é um reino de igualdade absoluta. Ao contrário, em várias parábolas Jesus nos mostra que, mesmo no céu, as recompensas não serão as mesmas para todos:

Quando ele voltou, depois de haver tomado posse do reino, mandou chamar os servos a quem dera o dinheiro, a fim de saber que negócio cada um teria conseguido. Compareceu o primeiro e disse: Senhor, a tua mina rendeu dez. Respondeu-lhe o senhor: Muito bem, servo bom; porque foste fiel no pouco, terás autoridade sobre dez cidades. Veio o segundo, dizendo: Senhor, a tua mina rendeu cinco. A este disse: Terás autoridade sobre cinco cidades. Veio, então, outro, dizendo: Eis aqui, senhor, a tua mina, que eu guardei embrulhada num lenço. Pois tive medo de ti, que és homem rigoroso; tiras o que não puseste e ceifas o que não semeaste. Respondeu-lhe: Servo mau, por tua própria boca te condenarei. Sabias que eu sou homem rigoroso, que tiro o que não pus e ceifo o que não semeei; por que não puseste o meu dinheiro no banco? E, então, na minha vinda, o receberia com juros. E disse aos que o assistiam: Tirai-lhe a mina e dai-a ao que tem as dez. Eles ponderaram: Senhor, ele já tem dez. Pois eu vos declaro: a todo o que tem dar-se-lhe-á; mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado. (Lucas 19:15-26)

Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro, dois e a outro, um, a cada um segundo a sua própria capacidade; e, então, partiu.(…) Chegando, por fim, o que recebera um talento, disse: Senhor, sabendo que és homem severo, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste, receoso, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu. Respondeu-lhe, porém, o senhor: Servo mau e negligente, sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei? Cumpria, portanto, que entregasses o meu dinheiro aos banqueiros, e eu, ao voltar, receberia com juros o que é meu. Tirai-lhe, pois, o talento e dai-o ao que tem dez. Porque a todo o que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.(Mateus 25:14-15, 25-29)

E aqui há um fato incômodo para muitos: em si mesma, a desigualdade não é um problema para Deus. Mesmo quando falamos das coisas espirituais, as recompensas são dadas segundo o fruto do trabalho de cada um. Sim, no céu todos terão o suficiente para a sua felicidade eterna. Mas alguns receberão uma recompensa maior do que outros.

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A lição das parábolas das minas e dos talentos é a de que não importa o ponto de partida inicial. Uns largam na frente (dez talentos), outros mais atrás (um ou dois). O que importa é o que cada um fará com o que recebeu. Pessoas na mesma condição podem produzir mais ou menos (uma mina pode virar dez, cinco ou continuar uma). O julgamento não é feito com base em números absolutos. Claro que o ensino é, principalmente, espiritual. Mas é aplicável a outras áreas da vida.

A solução bíblica
Isso não quer dizer, porém, que a Bíblia não tenha nada a falar sobre a desigualdade na distribuição dos bens. O Antigo Testamento possuía mecanismos de proteção ao pobre e de redistribuição de renda. Claro, temos que tomar dois cuidados ao aplicar esses mecanismos. O primeiro é o de que o verdadeiro significado é sempre espiritual, em primeiro lugar. O segundo é o de que a lei civil de Israel não é mais regra para os dias atuais, embora seus princípios permaneçam.

Em regra, a rede de proteção do Antigo Testamento era a família e o jubileu. Se alguém empobrecesse, cabia a um parente próximo, o “goel”, o resgatador, o papel de ajudar aquela pessoa a se reerguer. O casamento com as viúvas da família e mesmo o pagamento de dívidas deveria ser feito pelo resgatador para ajudar os que empobreciam. O mesmo princípio permanece em pé no Novo Testamento. Se alguém empobreceu, os mais ricos da família devem ajudar essa pessoa a se reerguer:

Se teu irmão empobrecer e vender alguma parte das suas possessões, então, virá o seu resgatador, seu parente, e resgatará o que seu irmão vendeu. (Levítico 25:25)

Se teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então, sustentá-lo-ás. Como estrangeiro e peregrino ele viverá contigo. Não receberás dele juros nem ganho; teme, porém, ao teu Deus, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com juros, nem lhe darás o teu mantimento por causa de lucro. (Levítico 25:35-37)

Mas, se alguma viúva tem filhos ou netos, que estes aprendam primeiro a exercer piedade para com a própria casa e a recompensar a seus progenitores; pois isto é aceitável diante de Deus.(…) Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente. (1 Timóteo 5:4,8)

O segundo mecanismo de proteção era o Jubileu. Uma vez a cada 50 anos, era proclamado o Ano do Jubileu em Israel. Nesse ano, todas as dívidas eram perdoadas e os que tinham vendido terras as recuperavam. Os hebreus que estavam como escravos eram libertos. Era, de fato, uma redistribuição de renda. O que não contam é que havia, porém, um mecanismo de proteção da renda…dos credores! Deus não se preocupa apenas com os pobres e endividados, Ele também regula o direito de quem compra.

Santificareis o ano qüinquagésimo e proclamareis liberdade na terra a todos os seus moradores; ano de jubileu vos será, e tornareis, cada um à sua possessão, e cada um à sua família. O ano qüinquagésimo vos será jubileu; não semeareis, nem segareis o que nele nascer de si mesmo, nem nele colhereis as uvas das vinhas não podadas. Porque é jubileu, santo será para vós outros; o produto do campo comereis. Neste Ano do Jubileu, tornareis cada um à sua possessão. Quando venderes alguma coisa ao teu próximo ou a comprares da mão do teu próximo, não oprimas teu irmão. Segundo o número dos anos desde o Jubileu, comprarás de teu próximo; e, segundo o número dos anos das messes, ele venderá a ti. Sendo muitos os anos, aumentarás o preço e, sendo poucos, abaixarás o preço; porque ele te vende o número das messes. Não oprimais ao vosso próximo; cada um, porém, tema a seu Deus; porque eu sou o SENHOR, vosso Deus. (Levítico 25:10-17)

De modo diferente, porém, o Jubileu não é mais aplicável nos dias de hoje, como era em Levítico. Se a cada 50 anos as terras devem ser redistribuídas, então a coerência exige que nos abstenhamos de fazer plantios e colheitas em tais anos. Não há ordens para que o Estado faça reformas agrárias forçadas periodicamente no Novo Testamento. O verdadeiro sentido do Jubileu é de que, em Jesus, nossas dívidas com Deus e nossos pecados são perdoados e temos a chance de recomeçar.

Mas há um princípio espiritual no Jubileu que se aplica aos dias de hoje. Ele vive por meio da caridade. Quando perdoamos, voluntariamente, as dívidas de outros, então levamos algo do jubileu até elas. Quando indivíduos partilham os seus bens com outros para suprir a necessidade dos mais pobres, estamos vivendo o jubileu. Quando comunidades em fartura enviam ajuda financeira a comunidades em dificuldades, o jubileu adquire vida em pleno século XXI.

e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; (Mateus 6:12)

Então, as multidões o interrogavam, dizendo: Que havemos, pois, de fazer? Respondeu-lhes: Quem tiver duas túnicas, reparta com quem não tem; e quem tiver comida, faça o mesmo. (Lucas 3:10-11)

dá a todo o que te pede; e, se alguém levar o que é teu, não entres em demanda. Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles. (Lucas 6:30-31)

Porque, se há boa vontade, será aceita conforme o que o homem tem e não segundo o que ele não tem. Porque não é para que os outros tenham alívio, e vós, sobrecarga; mas para que haja igualdade, suprindo a vossa abundância, no presente, a falta daqueles, de modo que a abundância daqueles venha a suprir a vossa falta, e, assim, haja igualdade, como está escrito: O que muito colheu não teve demais; e o que pouco, não teve falta. (2 Coríntios 8:12-15)

Exorta aos ricos do presente século que não sejam orgulhosos, nem depositem a sua esperança na instabilidade da riqueza, mas em Deus, que tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento; que pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir; que acumulem para si mesmos tesouros, sólido fundamento para o futuro, a fim de se apoderarem da verdadeira vida. (1 Timóteo 6:17-19)

Não precisamos mais de uma lei que nos obrigue a viver o jubileu a cada 50 anos. Podemos vivê-lo todos os dias. Basta praticar a caridade.

A solução comunista
Mas cabe aqui uma última palavra. As soluções bíblicas para a desigualdade material são mandamentos divinos dados a indivíduos. Devemos socorrer os nossos parentes e praticar a caridade com os demais. Os que têm posses podem repartir, voluntariamente, o que tem com os outros. As ofertas devem ser feitas de boa vontade. E cada um responderá, diante de Deus, pela obediência ou desobediência a tais mandamentos.

Contudo, ninguém é obrigado, dentro ou fora da Igreja, a dividir nada! Não há ordens para que o Estado faça, por meio da força, uma partilha involuntária de bens. Aliás…fazer caridade com falsidade é pior do que não fazer, como bem mostra a história de Ananias e Safira, em Atos 5.

Então, disse Pedro: Ananias, por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo, reservando parte do valor do campo? Conservando-o, porventura, não seria teu? E, vendido, não estaria em teu poder? Como, pois, assentaste no coração este desígnio? Não mentiste aos homens, mas a Deus. (Atos 5:3-4)

E aí vemos que não é possível sustentar que o comunismo, que as desapropriações forçadas ou outras medidas de força são respostas biblicamente aceitáveis para diminuir a desigualdade. Se eu me preocupo com a pobreza, cabe a mim lançar mão dos meus bens e fazer o que está ao meu alcance para minorar a miséria de outros. Mas eu não tenho o direito bíblico de lançar mão do que pertence a outro para fazer isso. Não se deve fazer caridade com o chapéu alheio! Isso é roubar!

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Mas o comunismo não viola apenas o oitavo mandamento. Um dos argumentos morais contra a desigualdade é que não é justo que uma pessoa use tênis de marca e outra ande descalça. Que um mal tenha o que comer e outro tenha caviar. Que uma pessoa use calça jeans comprada na feira e outra gaste milhares de dólares em uma calça Diesel. Alguns chegam a legitimar o roubo com base na desigualdade:

Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada. Tantas pessoas que conheceu que trabalharam a vida inteira sendo babá de meninos mimados, fazendo a comida deles, cuidando da segurança e limpeza deles e, no final, ficaram velhas, morreram e nunca puderam fazer o mesmo por seus filhos! Estava decidido, iria vender o relógio e ficaria de boa talvez por alguns meses. O cara pra quem venderia poderia usar o relógio e se sentir como o apresentador feliz que sempre está cercado de mulheres seminuas em seu programa. Se o assalto não desse certo, talvez cadeira de rodas, prisão ou caixão, não teria como recorrer ao seguro nem teria segunda chance. O correria decidiu agir. Passou, parou, intimou, levou. No final das contas, todos saíram ganhando, o assaltado ficou com o que tinha de mais valioso, que é sua vida, e o correria ficou com o relógio. Não vejo motivo pra reclamação, afinal, num mundo indefensável, até que o rolo foi justo pra ambas as partes. (Férrez, na Folha de São Paulo)

O problema é que a cobiça também é pecado, independente da circunstância. Ainda que um rico use uma jóia que valha por cem casas minhas, ainda que um homem tenha dez esposas deslumbrantes e apaixonadas e eu não tenha ninguém…nada justifica a cobiça e ela não justifica o roubo. Como está escrito:

Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Êxodo 20:17)

O que fazer, então, se um pobre não consegue meios de sobreviver e o rico, próximo a ele, não divide nada? A resposta é chocante, mas é santa: é melhor morrer sem ter roubado nada do rico e herdar o céu do que ir até lá e roubar, movido pela cobiça. Neste mundo, não há recompensa alguma. Mas, na eternidade, há as recompensas que são prometidas ao mendigo Lázaro na parábola contada por Jesus:

Ora, havia certo homem rico que se vestia de púrpura e de linho finíssimo e que, todos os dias, se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que jazia à porta daquele; e desejava alimentar-se das migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Aconteceu morrer o mendigo e ser levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico e foi sepultado. No inferno, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe a Abraão e Lázaro no seu seio. Então, clamando, disse: Pai Abraão, tem misericórdia de mim! E manda a Lázaro que molhe em água a ponta do dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Disse, porém, Abraão: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida, e Lázaro igualmente, os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em tormentos. (Lucas 16:19-25)

Você é rico? Ajude seus parentes necessitados e divida suas riquezas com outros. Leve, voluntariamente, o perdão de Jesus aos que estão endividados e carentes. Se não fizer isso, lembre-se que ser condenado por Deus é pior que qualquer tribunal revolucionário marxista. Você é pobre? Espere em Deus e conserve a sua integridade. Ainda há filhos de Deus caridosos neste mundo. E, se tudo falhar, é melhor morrer de fome do que cobiçar e roubar o que é do próximo. Ande com Cristo, e no céu você terá uma eternidade de riquezas.

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Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro