Abuso sexual entre evangélicos

20 anos, 700 pessoas abusadas, 380 abusadores.

Minha experiência diz que ninguém gosta de falar no assunto. Ninguém curte, compartilha, poucos lêem. Talvez por achar que falar do assunto apenas afasta as pessoas de Cristo e traz manchas desnecessárias à Igreja. Mas precisamos admitir: existe abuso sexual dentro das igrejas evangélicas, e precisamos definir o que fazer quando tais casos ocorrerem. Veja bem, não é “se”. É “quando”.

Neste domingo, o jornal “Houston Chronicle” publicou uma reportagem sobre casos de abuso sexual dentro da Convenção Batista do Sul, a maior denominação evangélica americana. Pastores, pastores de jovens, diáconos, voluntários, professores de EBD: o abuso foi cometido por todos os tipos de líderes. Você pode ler a reportagem neste link.

Se pensamos que no Brasil é diferente, estamos enganados. Quem é evangélico sabe: qualquer um pode servir no Ministério Infantil. Adolescentes que não sabem nada de Bíblia são recrutados como voluntários. Pais recém-chegados, dos quais pouco se sabe. Não há preocupação com quem serve ali. Já ouvi relatos de professores assediando alunas em seminários, de pastores cometendo adultério e até de estupro cometido contra uma criança em uma igreja. Uma das grandes marcas do “Encontro Com Deus” do G-12 era o fato de pregações dirigidas a mulheres falarem pela primeira vez em “cura” para mulheres traumatizadas pelo abuso sexual.

Infelizmente, quando o estado espiritual de nossas igrejas não é o melhor, e a sociedade é cada vez mais erotizada, o abuso sexual precisa ser uma preocupação no radar de qualquer pastor, de qualquer pai, em qualquer igreja. Igrejas e denominações precisam ter um protocolo claro sobre como lidar com o assunto. Quem diz isso não sou eu: é Russell Moore, presidente da Comissão de Ética e Liberdade Religiosa da Convenção Batista do Sul. Leia o artigo aqui.

É tempo de fazer documentos para que Presbitérios, Sínodos e Assembleias Gerais determinem como lidar quando os casos de abuso forem denunciados e como tratar dos abusados. Bispos deveriam se reunir para fazer o mesmo. Igrejas congregacionais deveriam fazer encontros de líderes para tomarem medidas.

E você, leigo(a), leitor(a), pode ajudar curtindo, compartilhando este post e levando o assunto para o seu pequeno grupo, para o seu pastor, para os seus amigos.

Jesus não acobertou o pecado quando foi cometido em sua presença, no templo. Ele trouxe tudo o que estava escondido à luz. Nós deveríamos fazer o mesmo. Quando nós diminuímos ou acobertamos o que aconteceu em nome de Jesus para aqueles que Ele ema, nós não estamos ‘protegendo’ a reputação de Jesus. Ao contrário, estamos lutando contra o próprio Jesus. (Russell Moore)

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Você quer mesmo um país puro ou uma igreja pura?

Começamos mais um governo. Após ser eleito com um forte discurso de honestidade e combate à corrupção, o governo Bolsonaro começou decepcionando vários de seus seguidores. Um ministro com honestidade discutida, o motorista do filho com dinheiro no banco mal explicado, acordo do Partido Social Liberal (PSL) com Rodrigo Maia na Câmara e, tudo isso, em 18 dias de mandato. Desde já, os pragmáticos e os idealistas se dividem em suas reações.
 
Trazendo para a esfera religiosa, pragmáticos e idealistas também se dividem quando o assunto é Igreja. Como presbiteriano, digo que os idealistas bem podem ser chamados de puritanos. O puritanismo foi um movimento reformado que produziu gigantes como John Owen ou John Bunyan. Eles desejavam uma igreja pura, firmemente enraizada na Bíblia e livre de qualquer ranço trazido pela Tradição que não fosse fundamentado nas Escrituras. Puritanos disciplinavam os membros e excluíam da Igreja aqueles que não mostravam frutos de sua conversão. Apesar de seu vigor, eles foram combatidos por muitos pragmáticos, que preferiam manter mais membros, ter menos conflitos com o poder político e não se incomodavam com a manutenção de certas tradições.
 
Mas, o que diferencia mesmo pragmáticos e puritanos? Por que eles optam por caminhos diferentes? Ao meu ver, a resposta é simples: os puritanos entendem que não há pureza sem sacrifícios, sem limpeza. As palavras “purgar” e “expurgo” são meros sinônimos de purificar. Para que o ouro seja puro, é preciso passá-lo pelo fogo, separar os metais de menor valor e retirá-los, de modo que apenas o precioso metal esteja presente. E a mesma verdade vale para instituições, inclusive a Igreja.
 
Isso é ilustrado de modo dramático na escolha dos levitas para servirem a Deus. Por que Deus escolheu apenas a tribo de Levi para servir no tabernáculo? A resposta está em Êxodo 32:25-28:
 
Vendo Moisés que o povo estava desenfreado, pois Arão o deixara à solta para vergonha no meio dos seus inimigos, pôs-se em pé à entrada do arraial e disse: Quem é do SENHOR venha até mim. Então, se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi, aos quais disse: Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Cada um cinja a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, cada um, a seu amigo, e cada um, a seu vizinho. E fizeram os filhos de Levi segundo a palavra de Moisés; e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens.
Quando o povo de Israel fez o bezerro de ouro, ele ficou fora de controle. Moisés não estava conseguindo impedir a adoração pagã, a bebedeira e a licenciosidade que estavam acontecendo. Tudo parou quando os levitas cingiram a espada e mataram irmãos, amigos e vizinhos que estavam em idolatria. Apenas aí o povo parou.
 
Calma, não estou defendendo que matemos os impuros por aí. Mas não se faz um Brasil puro sem retirar os corruptos do meio, sejam eles filhos, amigos ou vizinhos. Da mesma maneira, não se faz uma igreja pura sem disciplinar e até excluir parentes, amigos e vizinhos. A pureza exige sacrifício.
 
E não adianta apelar para Jesus, porque Ele também purifica o mundo por meio do fogo do juízo. Aqueles que, como os levitas, se ajuntarem ao lado de Jesus, são perdoados e permanecem. Mas, o que vai acontecer com aqueles que permanecerem em adoração idólatra? Serão lançados no inferno pelo próprio Senhor.
 
Eu quero um país puro, uma igreja pura e uma vida pura. A pureza não é uma opção, é um dever para os cristãos. Mas eu entendo que há um preço alto a ser pago por ela. E você: entende isso? Quer pureza para você, sua igreja e seu país? Se sim, junte-se a Jesus. Creia em Jesus. Abra a Bíblia e tire da sua vida o que Jesus quiser remover.
 
Graça e paz do Senhor,
 
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Em 2018, você lutou por seu país. Em 2019, lute por sua Igreja!

“Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram (João 9:34)”

Uma das lições que aprendi com as eleições brasileiras de 2018 é a de que a participação popular só é aprovada pela elite se o povo concordar com quem manda. Lembro-me de todas as eleições presidenciais pós-redemocratização, e nunca vi tamanho envolvimento popular nas discussões sobre quem votar. Muitos cidadãos comuns ousaram erguer a voz e discutiram nas redes sociais sobre o futuro do Brasil. Gente comum ousou questionar o que professores universitários, jornalistas e artistas ensinavam. O senso comum foi usado como arma e venceu os sofisticados argumentos da elite marxista cultural brasileira.

Obviamente, a elite não reagiu bem a essa “desobediência” popular. Abra qualquer grande jornal e não será difícil ler acusações de que o povo é ignorante e manipulado. Intelectuais não têm receio de insinuar que o povo não tem o conhecimento necessário para discutir temas importantes como o feminismo, a ideologia de gênero ou a arte de uma criança tocar um homem pelado em um museu. Mas, quando o povo votava no mesmo partido das elites, o povo estava finalmente se libertando.

A dinâmica religiosa
Infelizmente, essa dinâmica não é exclusiva da política. Também dentro das instituições religiosas, a elite (clero) não gosta de ver o povo (membresia, leigos) discutir teologia. A membresia é livre para concordar passivamente e acolher o que o clero ensina. Mas, quando membros não se sentem confortáveis com alguma postura ou ensino dos sacerdotes, a ordem é calar a boca e se submeter.

Em João 9, foi exatamente isso o que aconteceu. Jesus curou um cego no sábado, desobedecendo uma tradição religiosa dos fariseus e escribas. Não havia nada na Bíblia que proibisse curar no sábado, mas a interpretação judaica daquele tempo criou essa restrição. Por esse motivo, os fariseus interrogaram o cego sobre a cura. Quando o cego começou a defender a Jesus e a questionar os fariseus, esses o expulsaram, desqualificando-o como alguém “nascido todo em pecados”, indigno de ensiná-los.

O silêncio no século XXI
A maneira como os fariseus trataram o cego curado é a mesma adotada por vários pastores evangélicos quando lidam com seus membros. Darei um exemplo da minha denominação. Vários pastores presbiterianos cortam discussões teológicas com o argumento de que apenas concílios podem discutir tais assuntos. O leigo não foi ordenado ou licenciado para pregar ou ensinar. Em plena era da informação, onde qualquer movimento religioso divulga livremente suas ideias na Internet, os membros são desencorajados a vocalizar dúvidas e discordâncias em blogs, comunidades ou grupos virtuais. Veja bem: não falo de decisões. Essas devem sim ser tomadas em concílios. Mas a divergência é considerada um ato de rebeldia, por menor que seja.

Não se trata, porém, de exclusividade presbiteriana. Nos EUA, é comum existirem sites que fazem uma cobertura jornalística do que acontece nas grandes religiões, promovendo debates e fazendo reportagens sobre escândalos financeiros ou sexuais. Como são vistos? Bom, quando sites católicos americanos questionam o celibato dos padres ou a postura diante de casos de pedofilia, o papa os desqualifica como sendo instrumentos de escândalo e divisão. Normalmente, a mesma resposta acusatória surge quando sites relatam casos como as acusações de abuso sexual contra Bill Hybels ou dentro da Sovereign Grace Ministries. Pergunto: se casos mais leves de discordância doutrinária não podem e devem ser discutidos, o que os pastores dirão se sites e blogs de leigos evangélicos começarem a trazer casos graves de crimes, pecados e desvios de conduta?

Um chamado ao envolvimento leigo
E eu respondo: se os leigos aceitarem a repreensão farisaica e não exigirem que líderes prestem contas de sua doutrina, de suas ações e da maneira como governam suas igrejas, as igrejas afundarão como o Brasil vinha afundando nos anos petistas. Se a membresia confiar tudo ao clero e se calar, por submissão, os maus pastores continuarão a roubar dinheiro, ensinar heresias, distorcer as Escrituras e abusar sexualmente de fiéis. Já os bons pastores não deveriam temer nem restringir a discussão e o escrutínio públicos. Ao contrário, deveriam se engajar nele.

A Igreja deve ser transparente. Como presbiteriano, concordo com a Bíblia que a decisão é conciliar. Mas o debate, o questionamento e as discussões devem ser públicas. Em sua maioria, as cartas de Paulo eram endereçadas à igreja toda. Jesus debatia publicamente, na rua, com os fariseus e com leigos. O que os pastores do século XXI têm a esconder? Qual o medo?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Hora de sair da IPB? Perguntas de um presbiteriano carismático

Uma das perguntas que não protestantes fazem é por que surgiram tantas igrejas diferentes da Reforma Protestante? Uma das respostas está no princípio do livre exame da Bíblia. Livre exame não significa livre interpretação, mas dá a cada protestante o direito de examinar a interpretação de seus líderes, para verificar se ela está correta ou não. De certa maneira, foi o que Martinho Lutero fez, ao questionar se o catolicismo romano estava ou não em acordo com a Bíblia. Ao fazer isso, querendo ou não, Lutero examinou e julgou todo o Magistério e a Tradição católicas até então. A esperança do reformador não era criar uma outra igreja, mas sim mudar o catolicismo. Mas, qo ser pressionado entre submeter-se a Roma ou arcar com as consequências, a consciência de Lutero o obrigou a se submeter a Deus, antes de se submeter à Igreja. E assim começou o luteranismo, e o protestantismo.

De modo análogo, o livre exame e o dever de consciência também explicam porque o protestantismo já nasceu fragmentado. A questão do significado da Santa Ceia dividiu os seguidores de Lutero, Calvino e de Zwinglio. E, assim, vertentes diferentes do protestantismo surgiram, porque a discordância doutrinária, embora não fosse tão central quanto a da autoridade da Bíblia, ainda era importante o suficiente para não permitir que pontos de vista tão diferentes como a consubstanciação e o simbolismo da Ceia pudessem coexistir na mesma igreja.

Esse mesmo tipo de dilema se repetiu, em questões mais ou menos importantes, ao longo de toda a História da Igreja. Antes de falar do meu dilema pessoal, lembro-me de como presbiterianos deixaram a Presbyterian Church of the United States of America (PCUSA) por rejeitarem o liberalismo teológico adotado pela PCUSA. Isso não ocorreu no século XVI, mas em pleno século XX ainda ocorreram divisões por esse motivo.

No Brasil, há dois grupos em um dilema parecido: os batistas calvinistas e a Convenção Batista Brasileira (CBB) e os presbiterianos não cessacionistas na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Submeter-se ao resto da denominação e calar-se sobre as convicções pessoais ou seguir a consciência e sair da denominação? No caso batista, pelo governo congregacional, o problema é até mais fácil de ser equacionado. Mas, para verdadeiros presbiterianos, como eu, a solução não é tão simples.

Como o próprio nome do meu blog denuncia, creio na doutrina reformada, mas também sou carismático quanto aos dons espirituais. Sou um dos poucos que resolveu assumir os dois lados como uma bandeira de fé. Mas, eventualmente, recebo perguntas de leigos, seminaristas e pastores sobre o mesmo dilema: é hora de sair da IPB? Fico e me submeto, tento mudar ou saio? Mas, se sair, para onde ir? Não há uma denominação brasileira de alcance nacional que realmente abrace tanto a doutrina reformada como a contemporaneidade de dons como profecia, línguas, curas, milagres e discernimento de espíritos. Essa opção pode até existir, localmente, mas não para a esmagadora maioria dos que conheço.

Como resolver? Não é um problema simples, e, por isso, esse texto não tem como ser curto. Escrevo aqui principalmente para pastores e seminaristas. Há várias coisas que precisamos considerar.

A discordância justifica sair?
A primeira pergunta que precisamos nos fazer é: eu considero a contemporaneidade dos dons carismáticos um ponto tão importante, a ponto de entender que as igrejas não podem viver de modo saudável sem o exercício desses dons? Se eu não considero um ponto tão importante assim, então não há motivos para sair. O melhor seria se submeter. Agora, se eu considero que as igrejas perdem algo importante sem a crença e o exercício desses dons, então o caminho é influenciar a IPB ou sair.

Reparem que não falei apenas de crença, mas de exercício dos dons. Se nossa crença nos dons extraordinários é forte e incomoda a consciência, mas não há disposição para praticar esses dons no dia-a-dia da Igreja, é melhor ficar onde está. Muitos que dizem crer nos dons vivem em um cessacionismo prático. Se há medo de mudar isso ou se o cessacionismo prático é confortável, então é melhor calar a boca e se submeter.

Você consegue fundamentar a sua crença?
Uma segunda pergunta é se conseguimos fundamentar, na Bíblia, não apenas porque os dons extraordinários não cessaram, mas também porque a Igreja perde muito ao não exercê-los. Vou além: caso eles devam ser exercidos, precisamos ter de modo bem claro quais são os princípios bíblicos que vão limitar e orientar a prática dos dons.

No meu caso pessoal, há vários textos aqui no blog que explicam porque creio na contemporaneidade dos dons extraordinários e até alguns limites sobre como esses dons devem ser exercidos. Há bons livros que tratam do assunto. Entre eles, fui influenciado pela Teologia Sistemática de Wayne Grudem, pelo livro “O Dom da Profecia“, também de Wayne Grudem, e os livros “Surpreendido Pelo Espírito Santo” (CPAD) e “Surpreendido Pela Voz de Deus” (Vida), de Jack Deere (ambos fora de catálogo no Brasil). O livro “Cessaram os Dons Espirituais”, que traz diferentes pontos de vista sobre o assunto, também foi de grande utilidade. Infelizmente, também está fora de catálogo.

Não sei que fundamento você usa (ou não) para justificar o lado carismático de sua fé. Para não deixar completamente em branco qual o meu posicionamento, eu vou deixar apenas um texto bíblico aqui:

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão (Atos 2:17-18)

Os últimos dias são o período que começou com a vinda de Jesus Cristo e dura até o retorno dele no fim dos tempos. A marca desse período é o derramar do Espírito Santo e a manifestação do dom da profecia. Ao limitar a manifestação da profecia de Joel apenas ao período apostólico, entendo que a IPB erra e abre mão de uma grande promessa dada por Deus para esse momento da História. Só o Senhor sabe a falta que as visões dos jovens, os sonhos dos velhos e a profecia de filhos e filhas tem feito ao crescimento qualitativo e quantitativo de nossas igrejas.

Não sei qual a sua resposta. Mas a minha é: os dons ditos extraordinários deveriam estar sendo praticados. Ao optar por não fazê-lo e ensinar que eles cessaram, a IPB peca e perde muito por isso. Entendo que não apenas devo ensinar que os dons ainda existem, mas que devo buscar o exercício deles em meu ministério.

Reforma ou Carisma?
Uma terceira pergunta que precisamos nos fazer é: se for preciso escolher, fico com Reforma ou com Carisma? É preciso sermos realistas. Nem todos os pastores vão ter dons ou perfil para começar uma nova igreja. Alguns não vão ter recursos financeiros ou tempo para se dedicarem à plantação. E aí é preciso saber para qual lado pende o seu coração.

Há pastores presbiterianos que consideram o “Carisma” mais importante. Entre eles, coloco aqueles pastores que já não ensinam mais nada de reformado em suas igrejas, mas embarcaram em modas como o G-12. Pastores que não são carismáticos por causa de uma teologia sólida, mas porque querem imitar as igrejas “que crescem” e desfiguraram suas congregações de tal maneira que elas não parecem mais reformadas. Igrejas com cultos de cura, de libertação espiritual, que ensinam sobre demônios territoriais, onde pastores não querem mais governar com presbíteros e invejam os bispos e “apóstolos” de outras denominações. Esses eu nem os considero reformados. Deveriam ser honestos, sair e irem a denominações neopentecostais ou abrirem igrejas onde eles podem governar de modo déspota.

Eu considero a “Reforma” mais importante. Por mais que valorize os dons carismáticos a ponto de expor o meu nome por causa deles, jamais os trocaria pelo ensino reformado da centralidade e suficiência da Escritura, da soberania e da providência de Deus e da glória de Deus como objetivo maior de todo ser humano. Mesmo os simples cinco pontos do calvinismo valem mais do que a prática da profecia. Prefiro dez mil vezes estar em uma igreja onde não possa falar contra o cessacionismo, mas ouça sermões sobre a soberania de Deus, do que estar em uma igreja onde possa exercer qualquer dom, mas não possa ensinar o calvinismo.

E é por isso que considero difícil a um verdadeiro presbiteriano simplesmente sair e abrir um trabalho. Eu creio que o governo da Igreja deve ser feito de modo conciliar. Jesus não entregou a chefia dos apóstolos a nenhum deles. Desde o início, o cristianismo teve uma liderança plural. As igrejas não decidiam sozinhas suas questões doutrinárias, como bem mostra Atos 15 e o Concílio de Jerusalém, o texto áureo do governo presbiteriano. Sair para começar algo novo pode significar uma ruptura com esse tipo de governo para começar algo de modo episcopal, onde o pastor governa a Igreja. E esse não é um modelo que eu considere bíblico. Por todos esses motivos, eu ainda não saí da IPB.

Não saí também porque, ao meu ver, os concílios existem para arbitrar questões. Isso pressupõe que haverá diferentes partidos dentro da denominação em relação a algumas questões. Uma igreja conciliar que proíbe seus pastores de questionar a biblicidade de alguma regra já não é mais conciliar. Se o debate é proibido, já não há mais porque haver concílios que se reúnem com regularidade. E eu entendo que a IPB ainda não debateu devidamente essa questão.

O que quer a IPB?
E aqui vem uma pergunta que a denominação como um todo não quer responder de modo claro. A IPB quer pastores carismáticos em seu meio? Se sim, então essa diferença de opinião precisa ser tolerada. Não há porque perseguir e fazer campanhas difamatórias contra pastores não cessacionistas. Eles deveriam ser tratados com respeito e terem liberdade para, em algum grau, praticarem o que crêem. Se não, a denominação também precisa dizer isso claramente. Mais do que isso: ela não pode mais tolerar que pastores desfigurem suas igrejas como tem acontecido em várias cidades do Brasil, com todo tipo de mau pentecostalismo. Ela não pode mais ordenar pastores que sejam carismáticos. O que está escrito precisa ser cumprido, ainda que isso signifique perder pastores e até igrejas no processo.

A indefinição é que não traz paz verdadeira para a denominação. Se o confessionalismo estrito é a norma, amém! Mas que se tirem os pastores que vivem em desacordo. Alguns deles até ganham destaque denominacional, em vários níveis. Enquanto isso existir, a norma escrita sempre será desafiada. Agora, se a contemporaneidade dos dons é um assunto menor, onde pode existir liberdade de divergência, então que a liberdade seja real. Em outras denominações reformadas, é possível apresentar algumas divergências em relação aos Símbolos de Fé de Westminster. O pastor apresenta as suas divergências e o Presbitério julga se o ministro pode ou não ser recebido, se as divergências são menores ou se são significativas. E, caso o ministro seja aprovado, não há colegas de ministério acusando-os ou perseguindo-os, como acontece no Brasil.

Se a IPB responder, de modo enfático, a resposta para muitos como eu seria mais fácil. Hoje eu não sou administrativamente um pastor. Estou há mais de dois anos no exterior, sem campo na IPB, e estou como membro de uma igreja presbiteriana em Brasília. Devo voltar ao Brasil em 2020 (Deus sabe se sim ou se não), mas eu mesmo não sei se persigo uma reintegração ao ministério pastoral ou se busco exercer o pastorado fora da IPB. Peço até que você ore por isso. Mas, da minha parte, confesso que estou disposto a buscar viver de modo integral tanto Reforma como Carisma. Amo a IPB, gostaria muito que fosse lá. Mas, se não for possível, que Deus me mostre o que fazer.

Não tenho uma resposta para quem me pergunta. Mas espero que esse texto ajude outros colegas reformados e carismáticos a tomarem uma decisão. E espero que esse texto motive pastores e presbíteros da IPB a buscarem um posicionamento mais firme e consistente da denominação sobre essa questão.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Uma igreja megalomaníaca

Corretamente, o triunfalismo é um dos grandes perigos que ameaçam as igrejas evangélicas no século XXI. Esse triunfalismo aparece bastante na pregação da Teologia da Prosperidade, nos decretos e profetadas (eu decreto que) e na confissão positiva (as palavras têm poder). Mas ele também aparece nas igrejas que se preocupam com os pobres, que se envolvem com as questões sociais e que são profundamente envolvidas com a Teologia da Missão Integral (TMI). E, talvez, a megalomania dessas últimas seja ainda maior que no caso da Teologia da Prosperidade.

Para provar o meu ponto, vamos começar com um texto da Bíblia:

Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo.
Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava.
 Jesus, entretanto, disse: “Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.” (João 12:1-8)

A missão principal da Igreja
É muito popular a ideia de que a missão principal da Igreja é cuidar dos pobres. Há, inclusive, muitos que sugerem que o dízimo não deveria ser dado a nenhuma igreja local, mas apenas distribuído aos pobres, de acordo com o desejo do dizimista. Qualquer investimento que não seja voltado para a caridade é considerado um desvio de recursos financeiros.

Contudo, o texto acima nos mostra uma outra prioridade: a adoração a Jesus. No dia anterior, Jesus havia ressuscitado a Lázaro. Maria queria agradecer a Cristo por esse grande milagre. O discurso “piedoso” do século XXI diria que ela deveria ter dado dinheiro aos pobres, mas ela preferiu um ato extravagante de adoração: pegou um perfume que custava quase um ano de trabalho (trezentos dias de trabalho) e derramou-o inteiro aos pés de Jesus! A casa inteira ficou com o cheiro do perfume! Ela ainda usou seus cabelos pra enxugar os pés, um ato que denotava humildade, mas também uma intimidade que fosse até indevida.

Judas censurou a mulher pela sua escolha de gratidão. Não precisamos entrar no mérito do caráter de Judas agora: a Bíblia fala que outros discípulos também fizeram a mesma censura (Marcos 14:4). Eles estavam indignados com a atitude, como muitos hoje ficariam. Afinal, o que pode ser mais piedoso e agradável a Deus do que servir ao pobre?

Jesus responde: adorar a Deus é muito mais importante. Maria não deveria ser perturbada. Os pobres sempre poderiam receber o cuidado da Igreja, mas o Cristo na Terra estava prestes a desaparecer. Nenhuma homenagem a Ele era exagerada demais ou mal empregada, porque adorar a Deus é algo que traz honra ao adorador. Por esse motivo, em todo o mundo deve-se contar o que foi feito por ela:

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.  (Marcos 14:6-9)

A Igreja que censura a adoração a Cristo em nome dos pobres é uma Igreja megalomaníaca e idólatra, que dá ao homem aquilo que deve ser dado a Deus.

Mary Magdalen anointing Christâ??s feet - Stained Glass
Catedral de St. Vitus, Praga, Rep. Tcheca

O problema insolúvel
Além do problema da definição da prioridade da Igreja, um outro problema da Igreja megalomaníaca é que ela quer resolver um problema que Jesus disse que nunca seria resolvido. Erradicar a pobreza é uma meta tão impossível como erradicar as doenças. Não é uma tarefa que uma pessoa, as universidades, o Estado e até mesmo a ONU possam atingir. Será uma meta deste milênio e de todos os outros. E nem mesmo o Corpo de Cristo conseguirá erradicá-la.

Por quê? A resposta é bem simples: porque, para acabar com a pobreza, seria preciso acabar com o pecado no mundo. Em última análise, todas as formas de pobreza são consequências do pecado original. Podemos empobrecer porque fomos vagabundos, porque um desastre natural destruiu o que temos, porque uma guerra ou outra catástrofe nos atingiu e até porque o “sistema” impede nossa ascensão social. Tudo isso ou é pecado ou é uma consequência da maldição que Deus lançou sobre a terra por causa do pecado de Adão e Eva no Éden.

Apenas uma pessoa tem o poder de acabar com o pecado, e as doenças, e a pobreza: Cristo Jesus. Apenas Ele é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Por meio do seu sacrifício na cruz, Jesus morre no lugar dos pecadores e o pecado da Igreja é morto com Ele. Por meio de Sua ressurreição, Jesus nos dá uma nova vida, e a Igreja ressuscita com Ele. É assim, morrendo e ressuscitando por nós, que Cristo dará fim ao pecado, à pobreza e às nossas enfermidades e deficiências.

Por isso, precisamos ser razoáveis sobre a nossa capacidade e a nossa missão. Jesus quer que a Igreja seja sal da terra (Mateus 5:13), e não que ela transforme a terra velha em terra nova. Quando a Igreja assume sobre si a tarefa de erradicar a pobreza, ela está assumindo uma tarefa que vai esgotar todas as suas forças e que está além de sua capacidade.  O nosso papel é o de minorar a pobreza, o de socorrer os que estão ao nosso alcance, e não o de transformar o mundo inteiro de modo que o mal desapareça! O pregador que lança um fardo assim sobre a sua igreja local está sendo injusto e megalomaníaco.

Amor aos pobres ou a si mesmo?
Por fim, não podemos deixar de apontar para o fato de que, nem sempre, quem cuida dos pobres está realmente interessado neles. Muitos fizeram da pobreza o seu ganha pão. Porque eles cuidam dos pobres, recebem ofertas e verbas, da Igreja, do Estado e de pessoas comuns. Se a pobreza acabar, a ONG fecha e o dinheiro some. Esses são verdadeiros Judas, falsos apóstolos de Cristo usando o pobre em benefício próprio.

Mas há uma forma mais sutil de cair no mesmo erro de Judas. Cuidar dos pobres é uma forma de ser bem visto pelo mundo. É uma boa obra que acalma a nossa consciência e que parece tão poderosa que chega a cobrir nossos pecados. Vejo isso em Nova Iorque, onde moro. Se você faz voluntariado e dá dinheiro a uma causa social, você pode ser sexualmente imoral, abandonar sua família e até abortar. A caridade cobre todos os seus pecados e faz de você alguém que pode exigir reconhecimento. É a boa obra que salva.

Seja por interesse financeiro, seja por interesse espiritual ou emocional, esse tipo de cuidado com os pobres é idólatra e megalomaníaco. Se for feito dentro da Igreja, isso é usar o nome de Deus para colher benefícios indevidos. É tentar um caminho fora da cruz para achar perdão para os seus pecados e para viver segundo a lei do coração, ao invés de se submeter à Lei de Deus.

Conclusão
O cuidado com os pobres não deve ser um fim em si mesmo. O cristão verdadeiro só possui um fim em sua vida: glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre. A prática da caridade só é legítima se for um desdobramento de nossa adoração a Deus. Se fixarmos os nossos olhos na riqueza ou na pobreza, estamos sendo idólatras da mesma maneira.

E aqui é preciso ter fé. É preciso muita fé para acreditar que, quando derramamos perfume sobre os pés de Cristo e os enxugamos com os nossos cabelos, fazemos um bem maior do que dando tudo o que temos aos pobres. É preciso fé para acreditar que, por meio da adoração a Deus, fazemos um bem maior ao mundo do que gastando toda a nossa energia na caridade.

Contudo, Cristo veio nos salvar do pecado para a adoração. Quando adoramos a Cristo, a nossa salvação é evidenciada. E, quando Cristo é adorado, também pregamos o Evangelho com nossos perfumes e cabelos, e é apenas o Evangelho que pode nos livrar do pecado, que é a raiz de todo o mal do mundo. Dos pobres podemos cuidar em todo o tempo, e devemos fazê-lo. Mas cuidado para não deixar de derramar o bálsamo do melhor da sua vida aos pés de Cristo Jesus.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Como matar um cristão de sede?

Qualquer pessoa que tenha lido a Bíblia com um mínimo de seriedade já lutou contra algum texto que lhe parecia muito difícil…de entender ou de viver. Na verdade, isso é esperado de um livro sagrado: se ele fosse fácil como um livro de auto-ajuda, ele não poderia ter uma origem divina. Mas é frustrante quando algumas passagens continuam enigmáticas ao longo dos anos, por mais que você leia e releia, ore e converse com outras pessoas. Com certeza, há algumas que nunca entenderemos nessa vida.

É o que acontece comigo e um trecho muito conhecido do Evangelho de João:

Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. (João 4:13-14)

Quando li a primeira vez, imaginava que, como um cristão, não sentiria falta de coisa alguma. Não teria dentro de mim nenhum vazio ou frustração. Haveria sempre um certo contentamento que me satisfaria em qualquer circunstância. Bom, aqui estou eu, mais de 20 anos após a minha conversão…e quem me conhece sabe que carrego frustrações, vazios, arrependimentos…sinto uma sede indefinida que parece nunca ser saciada e que, por vezes, parece me sufocar. Começa então uma verdadeira batalha interior: mas será que essa palavra de Jesus é verdadeira? Por que então a sede? Mas o Espírito Santo não deveria jorrar para sempre em meu interior?

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Creio que não estou sozinho. Deve haver outros, como eu, que leram o Evangelho de João, olharam para a própria vida e também vivem uma luta visceral com essa fala de Jesus. Não que eu tenha encontrado a resposta. Mas, recentemente, o Senhor me deu um vislumbre do início da resposta.

Leia a passagem com atenção
Aprendi nos seminários que 90% do trabalho do estudioso da Bíblia é a observação. E, ao ouvir um sermão de Tim Keller sobre amor e luxúria (está na lista do podcast dele), ele chamou a minha atenção para algo que nunca havia percebido. Se você não conhece a história da mulher samaritana, leia todo o capítulo 4 do Evangelho de João. Aqui eu só vou destacar alguns versículos:

Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.

Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)?

Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.

Respondeu-lhe ela: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu, porventura, maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e, bem assim, seus filhos, e seu gado?

Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.

Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.

Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e vem cá; ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido.

Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. (João 4:7-18)

Ora, mas que coisa estranha! Reparem: Jesus fala da água viva, a água que mata a sede para sempre. Ele diz à samaritana que ela pode pedir essa água. Ela vai e pede…e Jesus a manda chamar o marido!

Na verdade, Jesus estava começando a dar a ela a água viva, a água que mata a sede! Ele começou a fazer isso apontando o pecado da samaritana. Ele começou a fazer isso quando a confrontou sobre a legitimidade do seu relacionamento romântico, quando apontou como aquela mulher havia fracassado em cinco casamentos e havia escolhido viver em um relacionamento fora da vontade de Deus. Não é possível ter o Espírito Santo fluindo em nossa vida e saciando a nossa profunda sede existencial enquanto o nosso pecado não for tratado!

Se continuarmos lendo João 4, veremos que a confrontação do pecado levou a mulher a reconhecer seu erro e a começar a enxergar a autoridade de Jesus. Ela se interessa por adoração, mostra desejo de conhecer o Messias, aquele que explicaria todas as coisas, e aí ela tem a revelação de que Jesus é o Messias, o Ungido, o Salvador prometido no Antigo Testamento. Todo esse processo de iluminação e de revelação sobre quem é Jesus começou quando o Senhor apontou o pecado que precisava ser tratado e tocou naquela área de sua vida em que ela não tinha mais esperanças ou que ninguém achava que pudesse ser consertada.

A seguir, ela vai e testemunha de Jesus a toda a sua cidade. Quando os habitantes de Sicar saem e questionam a Jesus, todos são iluminados e transformados. A fonte encheu o coração da samaritana e transbordou para alcançar os seus vizinhos.

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Matando de sede
E daí eu encontro uma resposta para os vazios que ainda carrego comigo. Se quero matar minha sede, devo ir até Jesus e dizer “onde estão meus maridos”. Devo admitir o meu pecado. Devo deixar que o Senhor me questione e que Ele me fale a verdade, ainda que seja doloroso ouvi-la. Mesmo sendo pastor, não posso mentir: há vários pecados e quartos escuros na minha vida que não foram expostos e tratados. E, enquanto isso não acontecer, a fonte será apenas um fio d’água a correr.

Creio que isso acontece com muitos outros, por dois motivos básicos. Comecemos pelo motivo mais “piedoso”. As igrejas não sabem lidar com o pecado de seus fiéis. Quando as pessoas realmente nos contam sobre sua ira que não passa, sobre suas dificuldades sexuais e afetivas, sobre a tristeza mórbida que sentem e cultivam…raramente vamos além de uma breve oração sobre o assunto. Não temos conselheiros sábios e pacientes em quantidade suficiente para conversar conosco, assim como Jesus conversou com a samaritana, e tratar dos nossos pecados. Falando como pastor, admito que é muito mais fácil organizar uma conferência de 10 dias sobre um tema doutrinário difícil do que aconselhar um único adolescente que não consegue parar de se masturbar e ver pornografia na Internet. Organizar dois acampamentos de Carnaval, ao mesmo tempo, é infinitamente mais fácil do que dar um conselho útil a um casal que está passando por uma crise conjugal. É preferível escrever uma monografia sobre a carta aos Romanos do que ajudar uma vítima de abuso sexual a superar o que houve e se relacionar afetivamente com alguém.

Mas há um motivo bem menos “piedoso” para matar os cristãos de sede: o medo deles fugirem e esvaziarem a Igreja. Minha leitura pode até estar errada, mas todos estão muito mais preocupados em ter uma igreja cheia do que em ter uma igreja saudável. A maioria dos pastores e presbíteros prefere uma igreja cheia de cristãos que vivem no pecado e estão espiritualmente sedentos do que uma igreja pequena e vazia de cristãos que estão sendo confrontados e tratados a deixarem o pecado. Temos medo de “dar nome aos bois” e ver as ovelhas abandonando a Igreja porque estão ofendidas com a confrontação. Amamos mais a quantidade do que qualidade. Preferimos ministrar a grandes auditórios do que perder horas e horas, por meses a fio, com uma única pessoa em luta contra a pornografia ou a compulsão por comida. Nos tornamos uma igreja industrial.

Se queremos mudar, é preciso que todos façam uma reflexão. Se você é uma “ovelha” em luta contra o pecado, precisa entender que o seu pecado deve ser nomeado, apontado, exposto e tratado pelo Senhor. Deve orar pedindo ao Senhor que mande alguém ajudá-lo (ou ajudá-la) a desobstruir o caminho que a fonte do Espírito fará em sua vida. Deve se dispor a isso.

Se você é um(a) líder, seja pastor, presbítero, diácono, presidente de mocidade ou o que quer que seja…é preciso entender que Jesus nos chama para conduzir os cristãos a uma vida plena. E não basta apenas pregar sobre isso, dizer que Deus tem um plano maravilhoso para a vida das pessoas e que Ele tem uma abundância espiritual e existencial a nos oferecer. É preciso ir do evangelismo para a verdadeira comunhão. É preciso conhecer as pessoas a ponto de saber qual o pecado delas e de orientá-las. É preciso perder o medo de desagradar as pessoas e se lembrar que os verdadeiros filhos de Deus querem ser tratados, e não fugirão! E, se nos falta conhecimento, devemos humildemente orar, estudar e pedir ajuda de outros líderes…até que saibamos o que fazer quando pecadores pedem a nossa ajuda para que a fonte do Espírito Santo jorre, de uma vez para sempre, em seus corações.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro