Brasil: pior do que Corinto

Nos Estados Unidos, os brasileiros são conhecidos por algumas características. As mulheres são muito desejadas (as mulheres mais bonitas do mundo, dizem). Já os homens têm uma fama bem ruim: infiéis, mulherengos e enganadores. Em geral, diz-se que o Brasil é um país de corpos bonitos, e as pessoas que vão ao Brasil e conhecem a realidade, voltam meio decepcionadas quando não encontram toda a beleza e a sensualidade que esperavam.

Na verdade, o brasileiro se orgulha disso. No país da malandragem, a sexualidade não poderia deixar de ser contaminada. Pureza, modéstia e simplicidade são defeitos. Os homens gostam da fama de terem muitas mulheres ou de atraírem o desejo de várias. Muitas mulheres também gostam de colocar fotos provocativas e de ganhar curtidas de homens nas redes sociais. Até na hora de escolher um cônjuge, muitos cristãos preferem a sensualidade à seriedade e à responsabilidade.

Inofensivo, certo? Pelo menos aqui não explodimos ninguém por causa da fé ou não vemos atiradores em escolas. Melhor ser sensual e alegre do que triste e depressivo, não é mesmo? Mas todo pecado leva à morte, como Paulo ensina em Romanos 3:23

porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.

E morte é exatamente o que encontramos quando vivemos uma sociedade onde o estupro coletivo parece tr se banalizado. Como se não bastasse o choque de uma adolescente ser estuprada por cerca de 30 pessoas, agora há a notícia de uma menina de 11 anos de idade que foi dopada e estuprada em uma festa junina de igreja católica! Pior: ela foi abusada por outros menores de idade.

O que produz isso? Creio que parte da resposta pode ser achada na primeira carta do apóstolo Paulo aos coríntios. O nosso texto-base segue abaixo:

Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou?
Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja,
em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus.
Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade. (1 Coríntios 5:1-8)

Quando a Igreja é pior que o mundo

Espera-se de uma igreja que, apesar de suas falhas, tenha um padrão de conduta superior ao da sociedade ao redor. Isso não deveria ser difícil no caso da cidade de Corinto. Lá ficava um grande templo dedicado à deusa Afrodite, e muitas sacerdotisas se prostituíam com os adoradores, como uma forma de culto. A cidade também era um porto, local de passagem de vários marinheiros que estavam longe da vista de suas esposas e entediados depois de semanas ou meses no mar. Em Corinto, o sexo estava no ar da cidade e intoxicava quem passava por lá.

Seria possível que alguma coisa pudesse chocar os coríntios? Sim. Na igreja de Corinto acontecia uma imoralidade sexual que não era tolerada nem mesmo entre os pagãos. Um homem da Igreja possuía a mulher do pai, provavelmente a madrasta. O fato estava na boca do povo e até Paulo, que nem estava na cidade, soube do escândalo.

Contudo, a Igreja não se lamentou e andava ensoberbecida, orgulhosa de si mesma e de sua suposta santidade. Enquanto uma família desmoronava sob o peso do escândalo, eles discutiam se os cristãos que oravam em línguas eram ou não mais espirituais qe os outros. O pecador não era constrangido. Ele não foi tirado do meio da Igreja. O seu pecado era conhecido e tolerado. E assim a Igreja tornava-se mais imoral que os pagãos.

threemonkeysÉ algo assim que faz do Brasil um país onde crianças são estupradas em uma festa de igreja. Mesmo na imoral Corinto havia limites. Certas práticas sexuais eram condenadas e reprimidas pela sociedade. O respeito pelo próprio pai era um desses limites. No Brasil, porém, o povo canta músicas que fazem apologia ao estupro. A nossa festa máxima é marcada pelos corpos nus e seminus expostos ao público, e por uma promiscuidade sexual que é elogiada pelos jornalistas. E o brasileiro se orgulha de ser quem é. “O melhor do Brasil é o brasileiro”, diz o ditado. Andamos ensoberbecidos e não afastamos os imorais do nosso meio.

Gostaria de dizer que os cristãos são diferentes, mas não parece ser o caso. Volta e meia descobrimos casos de adultério, abuso sexual e violência sexual mesmo em meio aos líderes. Há oficiais da Igreja que adulteram, a Igreja sabe, e eles não são confrontados. O menino “pegador” não é recriminado, nem pelos pais e nem pelos seus líderes. Falar da decência no vestir-se é pedir para ser chamado de fariseu.

A necessidade da disciplina

Entretanto, por mais difícil que seja confrontar alguém por causa de um pecado sexual tão escandaloso, essa confrontação é necessária. Omitir-se é pecado. Pior, é o pecado que permite que o mal crie raízes, seja repetido e aprofundado.

No caso da Igreja, a Bíblia é clara. Os irmãos que se envolvem em imoralidades sexuais tão graves devem ser retirados da comunhão. Tais pessoas devem ter suas carnes “entregues a Satanás”, na esperança de que a disciplina produza arrependimento e o espírito seja salvo no dia de Jesus. A restauração não pode acontecer se a justiça não for feita.

A Bíblia usa ainda uma outra figura: a do fermento. Não é preciso muito fermento para levedar toda a massa do pão. O que isso significa? É simples: quando toleramos um pouco de pecado, e não o confrontamos, não pregamos contra, não alertamos as pessoas sobre ele, esse pecado passa a fazer parte da cultura da Igreja. Ele se torna algo normal, um desvio que qualquer um pode cometer. E o mesmo vale para qualquer sociedade.

Na hipótese mais branda, os estupradores deveriam receber uma punição equivalente ao dano que eles provocaram. Mas isso não é suficiente. O velho fermento precisa ser jogado fora. O brasileiro tolera a sensualidade, o adultério, a prostituição e a promiscuiade como algo saudável e normal. Sim, até o adultério…quem nunca ouviu (e se calou) diante de um colega de trabalho que falou abertamente sobre as vezes em que traiu a esposa? Se não há nenhuma repreensão ou choque diante desses relatos, é porque o adultério já levedou também.

É preciso jogar fora a cultura da imoralidade, da sensualidade, da pornografia, do ficar, do baile funk e do sertanejo universitário, da arte que glorifica e exalta a imoralidade e é cantada e celebrada pelo povo como cultura. É preciso rejeitar esse vínculo identitário do brasileiro com a imoralidade. Isso não faz parte da nossa identidade, da nossa essência, do que somos. E confrontar e disciplinar adequadamente os imorais é uma ótima forma de começar isso.

Sinceridade e verdade

Mas apenas disciplinar não resgatará uma igreja ou um país de uma cultura de pecado. É preciso substituir um amor pelo outro. No caso, o amor pela maldade e pela malícia deve dar lugar ao nosso amor pela sinceridade e pela verdade. E isso só pode ser feito por meio de Jesus Cristo.

No texto que lemos, a Bíblia nos diz que precisamos ser “uma nova massa”. Depois que uma massa de pão fermenta, não há mais como retirar o fermento. É preciso fazer outra massa. Da mesma forma, uma vez que o pecado entra em nós, não há mais como redimir o nosso velho ego. Uma nova identidade, uma nova natureza, uma nova criação precisa ser feita. E apenas Jesus pode fazer isso.

Não há como rejeitar o estupro e tolerar a pornografia ou mesmo a música que canta um estupro. Não há como rejeitar a imoralidade sexual sem rejeitar também a maldade, a malícia, a mentira, a desonestidade e tudo o que compõe o nosso ego atual. É preciso jogar a massa fora, jogar a nossa identidade fora, negar radicalmente o que somos. E, então, permitir que Cristo faça de nós uma nova massa, marcada pela sinceridade e pela verdade.

Shmura_MatzoPor que a Bíblia fala dos pães asmos (sem fermento) aqui? A referência é ao sacrifício da Páscoa, quando os judeus imolavam um cordeiro e comiam pães asmos para relembrar o dia em que saíram do Egito, deixaram de ser escravos e se tornaram livres. Porque Cristo foi imolado na cruz, como o nosso Cordeiro Pascal, nós também podemos ser libertos da nossa escravidão ao pecado.

Se Cristo nos criar, nossos relacionamentos serão marcados pela sinceridade. Jogos românticos, estratégias para enganar, a busca de oportunidades para abusar do nosso próximo, nada disso terá lugar. Falsas promessas de amor não serão feitas. Pessoas que não estão prontas para assumir um relacionamento não poderão esconder isso de ninguém. A sinceridade não convive com disfarces.

A verdade não deixará lugar para a falsidade e a mentira. O amor não será fingido, mas verdadeiro. Não haverá motivos para a desconfiança. Quando o erro acontecer, ele será confessado. E nós poderemos perdoar, porque as intenções da confissão são verdadeiras.

Para refletir

Talvez você esteja pensando o quão distantes nós estamos de atingir esse padrão. De fato, somente Jesus pode amar e se relacionar assim. Mas, se Cristo é o nosso Cordeiro Pascal, o nosso Deus, e se nos alimentamos d’Ele, Ele fará de nós uma nova massa. Não importa o quão levedados pelo pecado nós somos, que coisas horríveis estão no nosso passado. Para vítimas e para criminosos, para todos nós, há a esperança de sermos uma nova massa. Cristo tem esse poder.

Enquanto isso, podemos refletir em algumas perguntas:

1) Que brechas tenho aberto para a sensualidade na minha vida pessoal? Tenho conversas ou ouço músicas que me ensinam a me relacionar de modo imoral? Vejo sites, programas de TV, filmes ou jogos que ensinam a imoralidade como algo normal?

2) Qual a gravidade que atribuo aos meus pecados sexuais? Será que os considero como algo inofensivo e que não pode crescer? Ou tenho dado a eles o peso que a Bíblia lhes dá?

3) Acredito mesmo no poder de Jesus para renovar todo o meu ser? Tenho buscado ler a Bíblia, orar e ter conversas que me ajudam a confiar n’Ele e renovar a minha mente?

4) O que desejo promover em meus relacionamentos: maldade e malícia ou sinceridade e verdade? Minhas ações e a forma como gasto meu tempo mostram que tenho promovido o quê?

5) Como minha igreja e minha comunidade tem tratado dos graves pecados que ocorrem em seu meio? O que posso fazer para ajudar a atingirmos o padrão bíblico sobre como lidar com graves pecados?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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Foro privilegiado e o julgamento de líderes: uma reflexão bíblica

“Todos são iguais perante a Lei”, diz a Constituição do Brasil. Contudo, na prática, as coisas não parecem ser assim. Enquanto pessoas comuns são julgadas por juízes de primeira instância, as autoridades têm direito ao “foro privilegiado”. Dependendo do cargo que ocupam, as autoridades são julgadas por tribunais de instâncias superiores. Em princípio, esse privilégio visa defender o interesse público e não é algo pessoal, pois liga-se somente ao cargo, e não à pessoa que o ocupa.

Contudo, o foro privilegiado pode ser desvirtuado, como bem mostra a política brasileira atual. Nomeações como as de Carolina Pimentel são questionadas, pois usariam o foro privilegiado como uma maneira de escapar de investigações e pedidos de prisão. O caso mais notório é o do ex-presidente Lula, que foi nomeado ministro de Estado, supostamente para escapar de investigações da Operação Lava-Jato. No caso, a nomeação está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal.

Não é à toa que o instituto do foro privilegiado está sendo questionado no Brasil. E o cristão, como deve se posicionar? A questão é mais complexa do que parece, e não pretendo dar um parecer definitivo e bem fundamentado aqui. Entretanto, creio que a Bíblia traz alguns princípios espirituais que ajudam nossa análise. Qual o ensino bíblico sobre o julgamento de líderes? Vamos usar 1 Timóteo 5 como nosso texto-base:

Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade. (1 Timóteo 5:17-21, grifos meus)

O princípio da honra

Presbíteros são os líderes da Igreja do século I. O termo significa “ancião” e também é usado para descrever os pastores. O primeiro ensino do texto é o de que os presbíteros que presidem bem devem ser merecedores de “dobrados honorários”. A palavra “honorários” pode ser traduzida como “avaliação pela qual o preço ‘fixado”, mas também tem o sentido de “honra, reverência, deferência”.

O princípio é o de que líderes devem ser honrados, principalmente quando executam bem a sua função e se ocupam de tarefas mais importantes. No caso de presbíteros, isso se aplica àqueles que são bons líderes e se dedicam à pregação e ao ensino da Bíblia. Essa honra se manifesta por meio do pagamento do salário, como um reconhecimento do trabalho feito por eles, e por meio do respeito e reverência que devemos a eles.

De modo análogo, as autoridades civis também têm o direito de serem remuneradas, por meio dos impostos. O trabalho delas é reconhecido pelo Senhor, que também exige de nós que lhes demos a honra que lhes é devida.

Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Romanos 13:6-7)
O princípio do julgamento justo
A honra não livra as autoridades espirituais de responderem pelos seus atos. Presbíteros são líderes espirituais, mas que podem ser denunciados quando erram. A condição exigida no Novo Testamento é o de que mais de uma pessoa tenha testemunhado o fato.
Em princípio, isso parece ser uma espécie de “foro privilegiado”, mas o princípio das duas testemunhas é aplicado a todos os casos de disciplina bíblica, seja no Antigo ou no Novo Testamento:
Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniqüidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato. (Deuteronômio 19:15)
Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. (Mateus 18:15-16)
Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida. (2 Coríntios 13:1)
A exigência das duas testemunhas é uma forma de garantir um julgamento justo, e se aplica tanto a pessoas comuns (irmão), como a autoridades. É a regra geral para qualquer pecado cometido, como forma de se estabelecer um fato.
As autoridades civis também têm direito a um julgamento justo. Biblicamente, porém, esse direito é o mesmo dado a pessoas comuns.
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O princípio do exemplo
Líderes são exemplos para seus liderados. Se um líder não é punido quando comete uma falta grave, os liderados perdem o temor e começam a pecar. É exatamente o que acontece hoje no Brasil. Uma vez que as autoridades raramente são punidas, o brasileiro comum deixa de ver problema em cometer pequenos atos de corrupção. Ou pior: muitos partem mesmo para o crime. Não há meio mais eficaz de liderar do que o exemplo.
Por isso, quando os presbíteros “vivem no pecado”, a Bíblia ensina que eles devem ser repreendidos na frente de todos. É uma sentença mais rigorosa do que a de um cristão comum, que seria repreendido privadamente. Todavia, uma vez que o presbítero ocupa uma função pública e deve ser um referencial para a Igreja, ele é julgado com um rigor maior, “para que também os demais temam”. Quanto maior o conhecimento, ou a autoridade, mais rigoroso é o juízo:
Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. (Tiago 3:1)
As autoridades civis também respondem por seus atos e são julgadas quando erram. Não é porque Deus as constituiu que elas podem fazer o que quiserem. O Salmo 82 é uma grande prova dessa verdade:
1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.
2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?
3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado.
4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.
5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra.
6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.
7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.
8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações. (Salmo 82)
O princípio da imparcialidade
Um último princípio a ser analisado é o da imparcialidade. No texto-base, Paulo encerra suas recomendações a Timóteo sobre presbíteros, dizendo que ele não deveria fazer nada com parcialidade. Os conselhos que ele dá sobre as lideranças deve ser guardado sem prevenção, ou seja, sem reservas ou receio de se cometer algum erro.
Secularmente, a autoridade goza da presunção da honestidade. Presume-se que ela não errou, a não ser que exista prova em contrário. Nem sempre o cidadão comum é tratado assim, e precisa provar a sua inocência em alguns casos, além de ser julgado com maior rigor em certas situações. Na Igreja também somos tentados a tratar pastores e presbíteros da mesma maneira: a posição pressupõe um certo nível de integridade. Infelizmente, os cristãos “comuns” não gozam da mesma presunção, embora também se espere deles um certo nível de integridade.
Autoridades e pessoas comuns devem ser julgados imparcialmente, sem qualquer tipo de favorecimento. Se, por exemplo, a lei brasileira dá privilégios a autoridades e a pessoas com curso superior, a Bíblia não adota esse padrão em seus julgamentos.
Cristo: nosso modelo de líder
Parece-me claro que os princípios bíblicos parecem não validar o foro privilegiado. Entretanto, o argumento mais forte que encontro para me opor ao privilégio não está nos princípios acima, mas em Cristo Jesus.
Cada líder tem a missão de representar a Cristo dentro de sua esfera de poder. Isso vai desde o irmão mais velho cuidando dos menores até os reis e presidentes. Quando honramos os pais, por exemplo, isso nos lembra que devemos honrar muito mais a Deus e ao seu Filho. Jesus é aquele que julga com justiça. Ele é o exemplo perfeito de como devemos viver. E Ele é imparcial em seus julgamentos.
No entanto, o próprio Cristo foi julgado e condenado injustamente, apesar de sua perfeição! Se Cristo fosse uma autoridade do mundo, certamente ele teria tentado obter algum tipo de “foro privilegiado” para escapar. Jesus tinha o direito de fazê-lo, como Filho de Deus. Porém, Ele preferiu não usar seu privilégio:
Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?  Naquele momento, disse Jesus às multidões: Saístes com espadas e porretes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias, no templo, eu me assentava [convosco] ensinando, e não me prendestes. Tudo isto, porém, aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram. (Mateus 26:53-56)
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)
Por amor aos seus liderados, Cristo não recorreu a anjos ou ministros. Ele aceitou ser julgado e até condenado em um julgamento injusto. Ele mostrou que o verdadeiro líder deve estar disposto até a morrer pelos seus! Na verdade, a condenação de Jesus é o motivo pelo qual nós somos salvos:
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1 Pedro 3:18)
Pense em como isso é diferente dos líderes que usam o foro pivilegiado para se protegerem, ainda que prejudicando a sociedade! As autoridades desse mundo querem usar o seu poder para se protegerem do povo. Cristo faz o oposto. Ele aceita sofrer o mais injusto dos julgamentos, com o maior rigor possível, para que nós fôssemos salvos.
Porque Ele sofreu e ressuscitou, líderes e liderados que erram e vivem no pecado podem ter esperança. Sim, até mesmo os políticos e magistrados brasileiros. Basta que se rendam ao Líder Supremo, à Autoridade Suprema, que é Jesus Cristo.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro