ENEM – Exame Nabucodonosor do Ensino Médio

Entra ano, sai ano, e há duas certezas que você ter sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A primeira é a de que você vai poder fazer vídeos constrangedores dos alunos que chegam atrasado. A segunda é a de que a prova será criticada por suas questões com forte viés ideológico. O ENEM 2018 não podia ser diferente.

De todas as polêmicas, a que está causando mais barulho é a que pergunta sobre o “dialeto secreto” dos travestis, o pajubá, que usa termos da língua iorubá. A maneira usada pelo examinador para saber se o aluno sabe o que é um dialeto foi questionada até pelo presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, que considerou a pergunta uma supervalorização da questão LGBT. Por outro lado, há pessoas que consideram exagerada a reação à pergunta. Ela não encorajaria nenhum tipo de engajamento homossexual e tamanha aversão apenas contribuiria para o avanço da homofobia no Brasil.

Quem tem a razão? Antes de responder, gostaria de explorar um outro exame feito na Bíblia. Assim como o Enem, esse exame era um pré-requisito para ascender socialmente, era promovido pelo Estado e tinha objetivos bem específicos.

A escola de Nabucodonosor
A história deste exame está no livro de Daniel. No século VI a.C., o grande imperador da Babilônia, Nabucodonosor, havia acabado de conquistar vários povos, entre eles, os judeus. Como parte de sua política de dominação, os babilônios transportavam as elites dos povos conquistados para a sua capital, de modo a deixar o populacho sem liderança. Mas Nabucodonosor tinha mais um objetivo: ele queria desconstruir a identidade nacional de seus conquistados. E, para isso, ele queria que os jovens dessas elites se tornassem babilônios (também conhecidos como caldeus).

Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus. Determinou-lhes o rei a ração diária, das finas iguarias da mesa real e do vinho que ele bebia, e que assim fossem mantidos por três anos, ao cabo dos quais assistiriam diante do rei. Entre eles, se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias. O chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel, o de Beltessazar; a Hananias, o de Sadraque; a Misael, o de Mesaque; e a Azarias, o de Abede-Nego. (Daniel 1:3-7)

Não adiantava tentar transformar homens adultos em caldeus. Jovens eram mais flexíveis. Afinal, eles não deveriam apenas adquirir o conhecimento técnico necessário para trabalhar para o rei: eles deveriam aprender a cultura e a língua. Seus hábitos alimentares seriam mudados: agora eles comeriam a mesma comida do rei. E ganharam outros nomes, na língua babilônica. Foi isso o que aconteceu com o profeta Daniel e seus amigos Hananias, Misael e Azarias.

Há muitas similaridades entre o método de educação babilônico e a educação considerada ideal no Brasil. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a educação domiciliar.  Em seu voto, o ministro Ricardo Lewandowski enfatizou que o Estado deve participar da educação das crianças. O ministro Luiz Fux lembrou que a lei brasileira determina o acesso e a permanência da criança na escola. No Brasil, o Estado deve interferir na educação.

Além da interferência estatal, um outro ponto de excelência seria a educação integral, onde a criança passa o dia inteiro na escola e só entra em contato com a sua família à noite, quando todos estão cansados. Assim, o Estado não apenas participa, como acaba sendo o protagonista da educação, em se tratando de escolas públicas. Afinal, até a maioria das refeições acaba sendo dada pelo Governo. Acrescente a isso a noção de que o educador ideal forma um cidadão, e você tem a receita babilônica a pleno vapor. As escolas brasileiras não transmitem conhecimentos, elas querem educar, elas querem formar a cultura de seus alunos. Em outras palavras, há uma cultura e até uma “língua” a ser ensinada. Qualquer semelhança com o pajubá é mera coincidência.

Por fim, há a questão do nome. Nos tempos bíblicos, quando pais nomeavam seus filhos, isso era um sinal de autoridade. O nome escolhido transmitia alguma mensagem ou ideia, e era uma espécie de definidor de caráter. Ao mudar o nome de Daniel e seus amigos, a Babilônia estava exercendo essa autoridade em um nível extremamente pessoal. Era um sinal externo de que eles não eram mais judeus, mas caldeus. De certa forma, a educação brasileira quer forjar uma nova identidade. Por isso que ministros como Luiz Fux, consideram a educação domiciliar por motivos religiosos como uma “uma superproteção nociva à criança”.

O exame de Nabucodonosor
Mas, muito antes em se falar em mensuração de resultados, os caldeus já sabiam que era preciso medir a eficácia de sua filosofia educacional. E o examinador era a própria encarnação do Estado da época: o rei Nabucodonosor. Ele faria perguntas sobre matérias de “sabedoria e inteligência” e o resultado seria comparado com o da elite intelectual caldéia: os magos e encantadores. Se aprovados, os estrangeiros seriam parte dessa elite. Se reprovados, até a cabeça dos professores poderia ser cortada. Não há motivador melhor para o ensino do que esse.

Duvida? Basta ver a reação de Aspenaz quando Daniel e seus amigos se recusam a seguir a dieta real:

 Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. Ora, Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos. Disse o chefe dos eunucos a Daniel: Tenho medo do meu senhor, o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida; por que, pois, veria ele o vosso rosto mais abatido do que o dos outros jovens da vossa idade? Assim, poríeis em perigo a minha cabeça para com o rei. (Daniel 1:8-10)

Se Daniel e seus amigos estivessem “fora do padrão”, abatidos, diminuídos em relação aos demais, a vida de Aspenaz estava em risco. Por analogia, talvez Daniel até ficasse vivo, mas seria o fim de qualquer possibilidade de ascensão social, e é quase certo que uma vida de servidão o aguardava. Não havia meio termo: a vida dependia daquele exame.

O Enem está se tornando um exame assim. Há uma pressão para que o exame seja o critério principal e decisivo para ingresso em qualquer estabelecimento de ensino superior. Outras formas de seleção são desencorajadas e mal vistas. Não se faz o mesmo que outros países, como os EUA ou o Canadá, onde há o exame mas pode-se ingressar em uma faculdade pelo currículo, pelo desempenho esportivo ou artístico ou outros fatores que podem ser decisivos. Pior: no Brasil, considera-se que não há possibilidade de sucesso profissional fora das faculdades. Em países realmente desenvolvidos, um emprego de ensino médio pode muito bem te pagar mais do que certas faculdades.

“Se fere minha existência, eu serei resistência”
Aqui já deve estar claro qual o meu posicionamento sobre a pergunta do pajubá. Sim, talvez a resposta da pergunta seja sim algo válido de se aprender. Em se tratando de línguas, é bom que alunos saibam o que é um dialeto. O problema é a fôrma usada para a pergunta. Porque, ao analisarmos o quadro maior da educação brasileira, o que podemos ver é que o Enem é um instrumento de submissão ideológica, como afirma o crítico literário Rodrigo Gurgel:

Como afirmei em 25 de outubro de 2015 — e como muitos amigos estão lembrando aqui e em outras redes sociais —, o ENEM não é um exame, não é uma prova. Não… É um exercício de submissão ideológica. É o primeiro exercício de submissão ideológica antes da entrada na universidade, onde a submissão ideológica se completará. O governo não quer saber a opinião do estudante. Não… Quer apenas que o estudante concorde com a ideologia que o próprio governo defende, ensina e estimula. Se isso não é uma forma de totalitarismo, então o que é?

Há uma pauta política e cultural que justifica o uso dos travestis e de um dialeto derivado de uma língua africana na pergunta. Há método ao destacar um advogado como alguém que conhece o pajubá e o usa em ambientes mais formais. O objetivo está ligado à ideologia de gênero: legitimar o travestimento. Por isso a pergunta em um exame de acesso universitário, a ligação com a cultura africana, o uso de um advogado e o ambiente formal: tudo para dar legitimidade a um comportamento que não é bem visto por toda a sociedade. Isso explica também porque a imprensa está querendo eleger “Pablo Vittar como mulher mais sexy do Brasil” e Thammy como “homem mais sexy do Brasil”. Os fatos estão ligados. É essa a língua e a cultura que está se querendo ensinar.

E aí é que entra a lição que a Bíblia nos dá diante de um quadro educacional assim: resistir. Capitular pode não ser o fim da existência física, mas é o fim da existência identitária. Daniel não teve como escapar do exame, nem mesmo como evitar o aprendizado da língua e da cultura dos caldeus. Mas ele nunca capitulou diante de Nabucodonosor. Ele resistiu dentro do cabível, rejeitando as iguarias do rei e preservando a dieta prescrita na Lei de Moisés. Daniel e seus amigos se mantiveram como uma microcomunidade judia na corte babilônica. Preservaram sua fé, seus valores e sua consciência. E porque resistiram, o nome deles foi escrito na Bíblia e perdura até hoje.

Posteriormente, Daniel e seus amigos foram examinados por Nabucodonosor e aprovados. Eles entraram para o serviço público da Babilônia. E aí agiram como “sal na terra”, influenciando por dentro a máquina imperial, de modo que até o próprio Nabucodonosor reconheceu a superioridade do Deus de Daniel:

 Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Daniel 4:34-35)

O nosso papel no Brasil do século XXI é imitar a Daniel e a seus amigos. Como eles confiaram em Deus, devemos confiar em Jesus, que é Soberano sobre Nabucodonosor e sobre toda a máquina ideológica do Estado brasileiro. Devemos resistir, cada um em sua esfera.

Se alunos, façamos as provas e aprendamos os conteúdos, mas que a nossa comida verdadeira seja a Palavra de Deus, e não o alimento imundo da ideologia de gênero e do marxismo cultural. Se somos professores, servidores públicos, escritores, pais ou até presidentes, precisamos desmontar essa máquina e influenciar do lado de dentro. Como? Tendo uma conduta profissional irrepreensivel, colocando Deus no nosso trabalho, orando e falando o que é correto. Se até Nabucodonosor se curvou, por que não os discípulos de Gramsci e Marx?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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Um alerta aos cristãos Josafás

Uma das pretensões de qualquer religião é ditar princípios que norteiam a vida de seus seguidores. Por causa disso, muitas vezes pensamos que os adeptos de uma dada religião são parecidos em suas crenças e opiniões, mas não é o que acontece. E isso pode ser visto no Brasil. Há cristãos conservadores e progressistas, puritanos e libertinos, comedores de carne e veganos.

Essa diversidade é um problema? Depende do assunto. A religião cristã é uma cosmovisão, uma forma de estruturar o modo como os cristãos deveriam viver e ver o mundo. Ela alcança todas as áreas da vida, desde o nosso leito conjugal até as responsabilidades esperadas de um Estado soberano. Há alguma liberdade? Continuar a ler