O relacionamento entre a Bíblia e a Igreja

Talvez o maior diferencial entre católicos e protestantes seja o relacionamento entre a Bíblia e a Tradição da Igreja. Em termos de autoridade, os protestantes costumam afirmar que a Bíblia é a nossa “única regra de fé e prática”, ao passo que os católicos consideram que “a Tradição precede a Escritura”, como fala o Pe. Paulo Ricardo.

A questão é muito mais importante do que parece. Uma vez que um dos lados está errado quanto às fontes de sua doutrina, o resto do edifício teológico cai junto. Por isso, resolvi usar o vídeo do Pe. Paulo Ricardo como um ponto de partida para tratar sobre a minha visão sobre o assunto. Não pretendo aqui responder ponto por ponto ou defender uma visão denominacional sobre o princípio do Sola Scriptura (Somente a Escritura). Repito: trata-se da minha visão particular sobre esse debate.

Entendendo melhor o que é o Sola Scriptura
Inicialmente, é preciso esclarecer o que se quer dizer quando os protestantes afirmam Sola Scriptura. É um espantalho a ideia de que a “única” regra de fé e prática dos protestantes seja a Bíblia. Existem diferentes tradicões teológicas dentro do protestantismo, como a luterana, a reformada e a pentecostal. As diferentes confissões de fé, como a Confissão de Fé de Westminster ou a Confissão Batista de 1689, são um retrato claro disso. Há um magistério, formado por pastores e teólogos que, com seus artigos e opiniões, formam posições que serão seguidas pelas denominações. Isso é fácil de se ver quando tratamos de novos assuntos, como a questão da reprodução humana assistida, por exemplo. Logo, assim como os católicos, a Tradição e o Magistério são fontes de autoridade.

O que diferencia católicos e protestantes é o relacionamento entre essas diferentes fontes de autoridade. Para os protestantes, a Bíblia está acima da Tradição, do Magistério e até mesmo de supostas revelações do Espírito Santo. Por quê? Seria por que os protestantes crêem que Deus fala somente através da Escritura? Claro que não! Mesmo em seminários cessacionistas, aprendemos que a criação é a revelação geral de Deus, ou seja, ela proclama a glória de Deus e o Senhor fala por meio dela. Também acreditamos, pela própria Bíblia, que Deus também fala e age por meio da Igreja, que é o Corpo de Cristo.

O que o Sola Scriptura diz, porém, que apenas a Bíblia pode ser considerada, de modo confiável, a palavra de Deus. Apenas quando lemos as Escrituras Sagradas temos a certeza de que estamos lendo as instruções de Deus para nós. Por este motivo, todas as outras fontes de autoridade devem ser medidas pela Bíblia. E, nesse sentido, a Bíblia se torna a “única” regra de fé e prática, porque apenas ela pode obrigar a consciência dos homens. É nisso que acredita, por exemplo, a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Pessoas há que estranham adotar a Igreja Presbiteriana uma Confissão de Fé e Catecismo como regra de fé, quando sustenta sempre ser a Escritura Sagrada sua única regra de fé e de prática. A incoerência é apenas aparente. A Igreja Presbiteriana coloca a Bíblia em primeiro lugar. É ela só que deve obrigar a consciência. É também princípio fundamental da Igreja Presbiteriana que toda autoridade eclesiástica é ministerial e declarativa; que todas as decisões dos concílios devem harmonizar-se com a revelação divina. A consciência não se deve sujeitar a essas decisões se forem contrárias à Palavra de Deus.

Na verdade, isso faz muito sentido, para aqueles que têm fé. As supostas revelações do Espírito Santo por meio dos profetas podem ser apenas um subjetivismo pessoal, ou até um embuste. A Tradição também pode ser discordante, mesmo dentro de uma mesma corrente religiosa. Não é segredo para ninguém que os papas Bento XVI e Francisco possuem visões diferentes sobre a Teologia da Libertação, por exemplo. Ou que a Renovação Carismática Católica não é aprovada por católicos que reprovam o Concílio Vaticano II, para ficar em casos mais recentes. O Magistério também diverge, e todas as polêmicas envolvendo a exortação apostólica Amoris Laetitia, do papa Francisco, mostram isso. Afinal, cardeais também são mestres da Igreja Católica. Por esses motivos, os protestantes recusam-se a entender que a Igreja é infalível, seja por meio da Tradição, do Magistério ou do papado. Nem mesmo os concílios protestantes são considerados infalíveis, como afirma a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Ainda outro princípio da mesma Igreja é que os concílios, sendo compostos de homens falíveis, podem errar, e muitas vezes têm errado. Suas decisões, portanto, não podem ser recebidas como regra absoluta e primária de fé e prática; servem somente para ajudar na crença ou na conduta que se deve adotar. O supremo juiz de todas as controvérsias, em matéria religiosa, é o Espírito Santo falando na e pela Escritura. Por esta, pois, devem-se julgar toda e qualquer decisão dos concílios e toda e qualquer doutrina ensinada por homens.

Assim sendo, ao contrário do que sugere o Pe. Paulo Ricardo, os protestantes não dizem com o Sola Scriptura, que sem Escrituras não existe Igreja. Nem tampouco negamos que exista Tradição e Magistério. Contudo, apenas a Bíblia pode ser apontada, em toda a sua extensão, como sendo uma revelação divina, algo que não pode ser atribuído com 100% de certeza a outras autoridades. Uma vez que ela é confiável, ela torna-se a régua com a qual se mede todas as outras coisas. Essencialmente, isso é o que significa Sola Scriptura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO que é a Igreja?
Antes de tratar da questão da natureza da Bíblia em si, é preciso esclarecer como protestantes e católicos vêem a palavra “Igreja” de modo diferente. Um erro cometido pelo Pe. Paulo Ricardo e por católicos de modo geral, é o de confundir o Corpo de Cristo com a instituição “Igreja Católica Apostólica Romana” (ICAR), como se Igreja e ICAR fossem idênticos, e qualquer outro uso seja impróprio. O Corpo de Cristo, ou seja, o grupo de pessoas que verdadeiramente adora a Cristo Jesus, é maior que o catolicismo ou o protestantismo.  Mas, se os protestantes são seitas, lembro que as igrejas ortodoxas são tão antigas quanto as igrejas romanas. O Grande Cisma ocorreu, em parte, devido à insistência do bispo de Roma em ter a primazia sobre os demais patriarcas cristãos da Igreja Oriental. Com todo o respeito à igreja romana, é óbvio que as igrejas mais antigas são as orientais, uma vez que o Evangelho saiu da Palestina para a Síria, e dali para o resto do mundo.

Logo, protestantes e católicos possuem um framework diferente para a discussão “Bíblia e Igreja”. No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo diz que Cristo prometeu estar com a Igreja, e que a Igreja é o Corpo de Cristo, logo Cristo fala por meio da Igreja. O problema é que ele iguala “Igreja” à ICAR, enquanto protestantes, ortodoxos e outras correntes do cristianismo aplicam esses ensinos bíblicos à totalidade dos verdadeiros discípulos de Cristo, sem qualquer vinculação institucional. Conferindo o que a Bíblia diz:

Então, Jesus aproximou-se deles e disse: Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mateus 28:18-20)

 

Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito.(…)Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo. (1 Coríntios 12:12-13, 27)

Cada pessoa batizada no Espírito Santo é membro do Corpo de Cristo, o que inclui um conjunto maior que a ICAR. Isso é institucionalmente reconhecido, uma vez que o papa Francisco reconhece a salvação dos protestantes e até pediu perdão a eles, chegando a elogiar Martinho Lutero. Com esses gestos de comunhão, fica claro que, mesmo dentro de uma ótica católica, a “Igreja” é maior que a ICAR. Nesse sentido, Jesus não fala apenas pela ICAR. Ele fala pela “Igreja”.

É a Igreja infalível?
Mas, uma vez que a “Igreja” é o Corpo de Cristo, isso significa que a Igreja seja infalível? De modo algum. Ou então, por que o papa Francisco pediria perdão aos protestantes por 500 anos de perseguições? Ou então pedir perdão pelos erros cometidos durante o genocídio de Ruanda? Isso sem falar nos fartamente documentados casos em que a ICAR protegeu por décadas a sacerdotes pedófilos, o que já é de amplo conhecimento da sociedade. E, veja bem, o papa Francisco não fala apenas de pecados de membros da Igreja, mas de “pecados e faltas da Igreja”.

Ah, mas a infalibilidade seria doutrinária, assim como a papal, quando o papa fala ex cathedra. Mas a própria Bíblia mostra igrejas que precisaram de exortações apostólicas e do próprio Jesus por abrigarem erros e heresias em seu meio. As sete cartas do Apocalipse ilustram bem isso. Vejam o que Jesus diz sobre a igreja em Pérgamo:

No entanto, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, que ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas. Portanto, arrependa-se! Se não, virei em breve até você e lutarei contra eles com a espada da minha boca. (Apocalipse 2:14-16)

Isso sem falar em todos os erros que surgiram nas igrejas que receberam cartas do apóstolo Paulo, onde os pastores (bispos para a ICAR) permitiram que fosse pregado desde uma volta à Lei de Moisés até um tipo de protognosticismo, onde se pregava que não havia problemas em viver na libertinagem sexual. É até possível falar-se na infalibilidade apostólica quanto às doutrinas. Creio que nenhum protestante se oporia a isso. Contudo, o que temos hoje não são apóstolos, mas bispos. E, atendendo ao que a própria Bíblia ensina, eles estão sim sujeitos a falhas doutrinárias.

papafranciscoO início da Igreja
Uma outra diferença clara é sobre a diferente visão que certos grupos do protestantismo tem sobre o início da “Igreja”. O Pe. Paulo Ricardo, assim como os dispensacionalistas, acredita que a Igreja iniciou-se no Pentecostes, descrito em Atos 2. Contudo, os protestantes adeptos da Teologia do Pacto, como eu, entendem que a Igreja é a continuação do Israel bíblico. Esse entendimento era o mesmo dos apóstolos:

Destina-se esta felicidade apenas aos circuncisos ou também aos incircuncisos? Já dissemos que, no caso de Abraão, a fé lhe foi creditada como justiça. Sob quais circunstâncias? Antes ou depois de ter sido circuncidado? Não foi depois, mas antes!
Assim ele recebeu a circuncisão como sinal, como selo da justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. Portanto, ele é o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados, a fim de que a justiça fosse creditada também a eles; e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão. (Romanos 4:9-12)
Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: “Por meio de Isaque a sua descendência será considerada”. Noutras palavras, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão. Pois foi assim que a promessa foi feita: “No tempo devido virei novamente, e Sara terá um filho” (Romanos 9:6-9).
Se é santa a parte da massa que é oferecida como primeiros frutos, toda a massa também o é; se a raiz é santa, os ramos também o serão. Se alguns ramos foram cortados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado entre os outros e agora participa da seiva que vem da raiz da oliveira cultivada, não se glorie contra esses ramos. Se o fizer, saiba que não é você quem sustenta a raiz, mas a raiz a você. (Romanos 11:16-18)
E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. (Gálatas 3:29)

Por que isso importa? Ora, o Pe. Paulo Ricardo afirma que a Igreja precede a Bíblia. Bom, de qual igreja ele fala? Certamente, não pode ser da ICAR, pois as Escrituras do Antigo Testamento estavam escritas e eram lidas antes do Pentecostes. Ele diz que a época de ouro da Igreja, a era dos mártires, foi uma época em que o Novo Testamento não estava sendo lido ou ensinado nas igrejas cristãs. Sim, o Novo Testamento não fora amplamente divulgado em sua completude, mas as Escrituras do Antigo Testamento estavam lá, o tempo todo, guiando as igrejas cristãs e alimentando-as espiritualmente. A Escritura precede a Igreja neotestamentária pelo simples fato de que ela já existia antes mesmo da encarnação de Jesus.

Porém, a verdadeira Igreja (que não é a instituição ICAR) começou antes de Moisés escrever o Gênesis, e essa Igreja é anterior à redação da Bíblia. Logo, sim, o padre acerta quando mostra que é possível haver salvação, fé e fiéis saudáveis sem as Escrituras. Deus, por si só, é capaz de produzir isso. Enoque, Noé, Abraão e José não tinham Bíblia alguma pra ler. Mas tinham a Palavra de Deus, porque Deus se relacionava com eles, e falava com eles e os nutria espiritualmente sem nada escrito. Nenhum protestante nega que o relacionamento com Deus, no Espírito Santo e por meio de Jesus, seja dispensável. A melhor Bíblia sem um relacionamento com Deus não salva ninguém. Contudo, não era esse o caso da igreja primitiva, porque ela tinha as Escrituras do Antigo Testamento, além do Espírito Santo para ser espiritualmente alimentada.

Jesus e a Tradição
Se entendermos que a Igreja é a continuação de Israel, também fica fácil entender porque as Escrituras precedem a Tradição ou o Magistério. Qualquer leitura do Antigo Testamento mostra claramente que reis e até os sacerdotes fizeram acréscimos indevidos à Lei. Em essência, a mensagem de todos os profetas era a de que o povo deveria abandonar qualquer mudança na Lei ou no culto prescritos por Deus, e voltar às Escrituras.

Isso é visto de modo mais marcante e extremo no tenso relacionamento entre Jesus e os fariseus. Assim como os católicos de hoje, os fariseus também construíram uma série de crenças e práticas alheias à Escritura. Curiosamente, Jesus não endossou essa postura:

Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. (Marcos 7:6-9)

Jesus claramente via uma diferença entre o mandamento de Deus e a tradição dos homens. O que Ele condenou foram os ensinos e práticas que os homens acrescentaram ao que Deus já havia revelado. Quando levamos a sério a advertência de Jesus, nosso cuidado em evitar criar doutrinas que sejam “preceitos de homens” seria o maior possível. Mas, ao reproduzir o mesmo método usado pelos fariseus, validando uma tradição humana e colocando-a como algo vindo de Deus, a ICAR faz uma opção muito mais arriscada.

Jesus, a Bíblia e a Palavra de Deus
Creio já ter explicado de modo satisfatório porque não é nenhum absurdo usar o Sola Scriptura. Mas há mais um ponto que precisa ser explorado. Se Jesus é o Logos (Palavra) de Deus, como escrito em João 1:1, como a Bíblia pode ser chamada pelos protestantes de “Palavra de Deus”? No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo declara que “A Palavra de Deus é Jesus. A Sagrada Escritura é um instrumento pelo qual podemos ter acesso a Jesus.” Segundo ele, “a Bíblia é preciosa, mas é apenas um instrumento”. E o que a Igreja precisa é da Palavra de Deus (Jesus).

Bem, é claro que não se deve adorar a Bíblia. A Bíblia não é a Segunda Pessoa da Trindade. Vários povos indígenas adoram a Jesus tendo apenas poucas porções traduzidas da Bíblia ou apenas pelo testemunho oral de missionários, isto é, pode sim ter igreja sem Bíblia, mas não sem Jesus. Com tudo isso eu concordo.

Contudo, a Bíblia não é apenas um instrumento. A Bíblia não é a Palavra de Deus em seu sentido máximo, o Logos Divino, por meio do qual todas as coisas foram feitas e que é a luz que ilumina a todo homem. Mas ela é a Palavra de Deus, porque é o Espírito Santo quem fala por meio dos autores humanos que escreveram os livros da Bíblia.

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16-17)
Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:19-21)

Ou seja, o Espírito Santo é o Autor da Bíblia! E de toda a Bíblia, incluindo o Antigo Testamento, já que “toda a Escritura” é inspirada (soprada) por Deus. Nela, é Deus quem fala. E não, não é exatamente a ICAR quem define e institui o que é o que não é a palavra de Deus, assim como não é você, leitor(a), quem define o que eu falei ou não. A Igreja não define o que Deus falou, ela reconhece. O processo de seleção dos livros que fariam parte do Novo Testamento é um processo de reconhecimento, de discernimento do que Deus falou, do que é sagrado e do que não é.

Logo, a autoridade não vem da Igreja, mas sim do reconhecimento dado por ela de que a Bíblia é uma obra divina. Não é como se a Igreja tivesse a liberdade de definir de modo irrestrito o que é o que não é sagrado. Não, o que acontece é que ela reconhece os sinais que mostram se um determinado livro é ou não sagrado. Há uma diferença enorme entre definir e reconhecer.

E que sinais seriam esses? Bom, se a Bíblia for um simples instrumento, como diz o padre, então fica até difícil dizer no que ela se distingue de outros livros. Mas a Bíblia é viva e eficaz:

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. (Hebreus 4:12)

A Bíblia é o único livro que pode tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Timóteo 3:17). A fé só é produzida pela pregação das Escrituras:

Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Romanos 10:11-17)

Destaquei a fala de Isaías, para mostrar que a pregação ali não é apenas sobre Cristo, mas é a pregação das Escrituras. Logo, embora as Escrituras não sejam a Palavra de Deus no sentido em que Jesus o é, ainda assim elas são “vivas”, “geram fé” e aperfeiçoam os homens. E muito mais poderia ser dito. Basta ler o Salmo 119 para enumerar muitas outras características que ajudaram a Igreja a reconhecer o que é e o que não é Palavra de Deus e parte da Bíblia.

Se a Igreja usasse sua autoridade para autenticar um livro que não viesse de Deus, isso não faria do livro algo sagrado. Tampouco daria ao tal livro todas as qualidades descritas acima.

Uma palavra final
Encerro por aqui, reconhecendo que há muito mais a ser estudado sobre o assunto. Aos protestantes que estejam flertando com o catolicismo, e questionando a solidez do Sola Scriptura, lembro que há livros que tratam do assunto com uma profundidade muito maior do que eu poderia fazer em um blog. Lembro que o posicionamento errado quanto à questão da autoridade pode ter implicações espirituais profundas, logo, não é o tipo de coisa para se decidir apenas por um texto de Internet ou um vídeo no YouTube.

Entristece-me saber que há protestantes que se debruçaram sobre as opiniões teológicas e filosóficas de autores católicos, mas não tiveram o mesmo empenho e curiosidade em estudar o que a melhor teologia protestante ensina sobre isso. Entristece-me ainda mais quando vejo que a maioria dos protestantes sequer leu a Bíblia toda e é incapaz de comparar os ensinos bíblicos com as tradições religiosas do cristianismo.

No mais, eu não acredito em uma tradição que se desvie de seus princípios fundamentais. A Igreja está construída sobre a pessoa de Cristo, Ele é a pedra angular. Mas o que vem acima disso é o fundamento dos apóstolos e profetas, ou seja, o ensino registrado nas Escrituras, na Bíblia. E um edifício que não se assenta sobre o seu fundamento está condenado a cair:

Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Efésios 2:19-22)

Sola Scriptura!

Solus Christus!

Sola Gratia!

Sola Fide!

Soli Deo Gloria!

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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Aos cristãos em tempos de juízo

Quem não sonha com um futuro melhor? De todos os motivos que fazem as pessoas se levantarem da cama todos os dias, com certeza, esse é um dos mais comuns. Dias melhores também são um dos motivos mais poderosos para levar pessoas às igrejas. Muitos buscam a Deus porque cansaram de sofrer e precisam de esperança para continuarem lutando. A recompensa da fé e da obediência seria uma vida mais segura e feliz, com a bênção do Senhor.

Mas, o que fazer quando o futuro não será melhor que o presente ou o passado? Como acordar para viver quando há o risco real de perder o emprego, gerar um filho doente e ser assaltado por bandidos? Exagero? De modo algum. Essa é a realidade que o Brasil enfrenta hoje:

  • Uma grave crise econômica, que se estenderá por 2016…e talvez mais;
  • Mais de 1.700 casos de bebês com microcefalia por causa do vírus zika;
  • No ano passado, o Brasil foi o país do mundo com maior número de  homicídios: mais de 60 mil;
  • O vale do Rio Doce devastado pelo maior desastre ambiental de nossa História;
  • O maior escândalo de corrupção da nossa História.

“Ah, mas isso vai passar”. A questão é que não sabemos quando. Muitos brasileiros apostavam no impeachment da presidente Dilma Rousseff como um alívio para estes problemas. Trocar de presidente poderia ajudar a economia e provocar alguma pequena melhora no nosso quadro atual. Mas essa esperança tem se revelado cada vez mais frustrante.

É razoável imaginar que continuaremos com o mesmo governo…e os mesmos problemas. E os cristãos não escaparão ilesos. Mesmo buscando ao Senhor, haverá quem perderá o emprego, ganhará menos, sofrerá com a violência, enfrentará problemas de saúde e será vítima dos erros de outros.

Nesses momentos, precisamos nos lembrar que Deus é o Senhor de todas as coisas e possui um propósito em tudo o que faz. Em tempos de juízo, há lições a serem aprendidas, e elas são para o nosso bem. Como está escrito:

Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.
Romanos 8:28

tristeza

1) Deus reina e julga as nações

 Por que uma nação é elevada e outra tratada com severidade? Humanamente, nós pensamos que isso ocorre porque um povo se esforçou mais que o outro. Tinha valores melhores, uma educação superior ou um mercado mais livre.  Temos a ilusão de que nós somos senhores de nosso destino.
Contudo, a Bíblia ensina que Deus é quem governa e preside as nações. E Ele também as julga com justiça:
Todos os confins da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor, e todas as famílias das nações se prostrarão diante dele, pois do Senhor é o reino; ele governa as nações.
Salmos 22:27,28
Digam entre as nações: “O Senhor reina! ” Por isso firme está o mundo, e não se abalará, e ele julgará os povos com justiça.
Salmos 96:10
No último dia, o Senhor julgará (e reprovará) todas as nações da Terra. Mas isso não quer dizer que Ele não faz nada até lá. Ao contrário, assim como nos dias do Antigo Testamento, Deus continua, até hoje, elevando e derrubando países. O Senhor julga os povos e prova o coração dos países e de seus governantes. O Brasil não é exceção.
O que precisamos fazer é aceitar isso e analisar porque o Senhor tem julgado o Brasil dessa maneira. Há muitos pecados, dentro e fora da Igreja, e eles não são tratados. Pior: tornam-se a norma que é ensinada nas escolas e universidades, como aconteceu com as questões sexuais e familiares. De igual modo, escolhemos corruptos para serem nossos príncipes. Certamente, parte da resposta passa por essa reflexão.

2) Toda autoridade procede de Deus

Recordemos: Deus é quem controla todas as coisas, inclusive quem terá autoridade sobre um determinado país. As eleições ou mecanismos de punição, como o impeachment, são apenas meios pelos quais Deus realiza a Sua obra. Falando de modo específico sobre o Governo, a Bíblia é claríssima:

Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas.
Romanos 13:1

Toda autoridade vem de Deus e é por Ele estabelecida. Mesmo quando a Bíblia falava de reis extremamente maus e cruéis, como Acabe ou Manassés, foi o Senhor quem os colocou como governantes. Isso precisa ser aceito por todos os cristãos. Se a presidente permanece no poder, é porque Deus a estabelece lá. E cabe a nós o dever de nos sujeitarmos a ela, dentro dos limites estabelecidos pela Palavra.

Sujeitar-se não significa, porém, que não podemos criticá-la. Na Bíblia, os profetas de Deus criticaram até mesmo reis bondosos e muito fiéis, como Davi. Também não significa que ordens contrárias à lei do Senhor devam ser obedecidas, como bem mostra o livro do profeta Daniel, por exemplo. Contudo, o dever de se submeter e obedecer continua em pé.

Eu mesmo prego e ensino que a autoridade deve ser respeitada, mesmo quando ela é má. Um mau pai ainda é pai e deve ser respeitado, assim como um mau pastor ou uma má mãe ou um mau marido. O mesmo também é verdadeiro sobre a má presidente ou o mau governador. Até Jesus se submeteu enquanto viveu, embora criticasse o comportamento dos sacerdotes. Nós precisamos fazer o mesmo, até para que sintamos compaixão quando vemos outras pessoas sofrendo debaixo da autoridade de maus chefes, maus pais, maus cônjuges…

dilma

3) Ore: pelas autoridades e pelo Brasil

É preciso reconhecer que Deus está no controle de tudo, inclusive do que acontece de mau em nossa nação. Contudo, o Senhor não nos chama para termos uma atitude meramente conformista. Se Deus é quem governa e estabelece, é a Ele que devemos recorrer nos momentos difíceis. Nós temos este dever:

Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.
1 Timóteo 2:1,2

A Igreja precisa orar pelos seus governantes e por todo o povo! Se queremos uma vida tranqüila e pacífica, é preciso por os joelhos no chão e clamar…pelos outros! No Brasil, é muito comum que as pessoas se envolvam para orar por si mesmas ou por missões. Nesses momentos, clamamos e jejuamos. Mas não há o costume de orar pelas autoridades e pela nação.

Aqui eu gostaria de contar uma experiência pessoal que tenho tido na Redeemer Presbyterian Church. Todo culto há o que eles chamam de “Prayers of the People” ou “Orações do Povo”. Nesses momentos, a igreja ora pela cidade de Nova Iorque, pelos Estados Unidos e por outras nações. Quando há um grande crime ou ocorre um fato grave, a Igreja ora também. Nós oramos por Paris após o atentado. Ora-se constamente sobre a Síria. Em Washington, na Capitol Hill Baptist Church, também vi várias vezes o pastor orar e pedir pelos Estados Unidos.

A História mostra que igrejas também se envolveram com questões políticas e até com protestos, como ocorreu nos próprios Estados Unidos em relação ao racismo, e nos países do Leste Europeu quando deixaram o comunismo. Mas, antes disso, elas oravam. Elas faziam missas e cultos pela pátria. E isso as igrejas brasileiras não fazem.

oração

4) Arrependa-se

Por fim, é preciso olhar para a nossa própria maldade, antes de apontarmos o dedo para a maldade de nosso país e de nossos governantes. Sim: ANTES! O próprio Jesus nos ensina que primeiro devemos tirar a trave de madeira dos nossos olhos, para depois tentarmos tirar o cisco do olho de outros:

“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.
Mateus 7:3-5

E há tantas traves e vigas em nossos olhos! As igrejas perderam o discernimento. Muitos falsos profetas, com heresias destruidoras, são aclamados como homens de Deus ou grandes sábios, enquanto ensinam a Teologia da Prosperidade e/ou transformam a graça de Deus em libertinagem. Os pecados não são confrontados por nossos sermões açucarados e pelo nosso medo de esvaziarmos nossos templos se pregarmos a verdade.

As famílias estão se esfacelando. Homens que se recusam a ser maridos e pais, e mulheres que não aceitam os mandamentos bíblicos para esposas e mães. Filhos que não são educados pelos pais e que vêem modelos invertidos de masculinidade e feminilidade. A promiscuidade sexual chega ao ponto de adolescentes das igrejas fazerem sexting, mandando fotos nuas a outros, agindo do mesmo modo que os adolescentes que não estão na igreja.

Orar apenas não basta: é preciso confessar e mudar! Como diz um texto bem famoso da Bíblia:

“Se eu fechar o céu para que não chova ou mandar que os gafanhotos devorem o país ou sobre o meu povo enviar uma praga, se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra.
2 Crônicas 7:13,14

A mudança do Brasil depende da purificação dos que se chamam de cristãos. É preciso que nos humilhemos diante do Senhor e confessemos o nosso pecado. É preciso orar e buscar a face de Deus. Temos que admitir o nosso fracasso e pedir que Jesus tome sobre si o nosso pecado e o pecado de nosso país.

Mas também é preciso se afastar dos maus caminhos. E isso é se arrepender, é mudar de vida. É o adúltero deixar as amantes e confessar seu pecado ao cônjuge. É o pai omisso encher-se de coragem e começar a falar e a ensinar sua casa, mesmo que ele seja ridicularizado pelos filhos no começo. É o marido insensível começar a fazer atos concretos de amor pela esposa, mesmo que ele não queira lavar a louça ou abrir mão do futebol para ouvir o que sua esposa tem a dizer.

E essa é uma obra de Jesus. Nós precisamos do Evangelho, para ressuscitarmos com Jesus e vermos o Espírito Santo formando o próprio Cristo em nós e nos fazendo mudar. Para isso, precisamos orar, ler a Bíblia, permitir a confrontação de amigos cristãos, buscar aconselhamento, nos tornarmos vulneráveis, chorar…mas o resultado é vida. É comunhão com Deus e paz de espírito, mesmo em meio ao sofrimento. É saber que o Justo Juiz está conosco, mesmo no meio de uma sociedade má e impura. E é ver isso transbordar e abençoar o nosso Brasil.

Que eu e você nos coloquemos nas mãos do Senhor, para sermos meios de graça para o nosso Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Emigrar não é pecado

Durante as eleições presidenciais de 2014, o cantor Lobão havia dito que, se a candidata Dilma Rousseff fosse reeleita, ele deixaria o Brasil. Ele não foi o único: várias pessoas da classe média diziam que, se fosse possível, deixariam o Brasil e tentariam emigrar para outros países. Após o resultado das eleições, vários eleitores da presidente cobraram que Lobão cumprisse a promessa e deixasse o país. Ele resolveu ficar. Mas muitos dos outros brasileiros resolveram cumprir a promessa adiante. Não é à toa que sites como o Canadá Para Brasileiros cresceram, a ponto de se oferecerem intercâmbios, cursos, podcasts e serviços pagos.

Embora o brasileiro não goste de usar a bandeira do Brasil fora da Copa do Mundo e não demonstre um grande patriotismo, nessas horas parece que o amor à Pátria renasce. Quem emigra é criticado. Alguns repetem o slogan da ditadura militar: “Brasil, ame-o ou deixe-o!“. Quem opta pela emigração é visto como alguém que não ama o Brasil, um brasileiro de segunda categoria, e é bom que tais brasileiros saiam logo mesmo! Se o emigrante for cristão então, piorou! Quem sai do país sem ser por um motivo missionário, acaba com a seguinte dúvida no coração: “Será que estou em pecado?” Se o motivo da emigração for a desesperança quanto ao futuro do Brasil e a decepção com o Governo atual…aí as tentativas de lançar culpa sobre o “antipatriota” aumentam exponencialmente.

Condenando nossos pais?
Esse argumento já é fácil de derrubar com um simples olhar para o nosso passado. Tirando os índios (que já estavam aqui) e os negros descendentes de escravos (que não tiveram escolha), quem está no Brasil descende de pessoas que deixaram seus países de origem, muitas vezes em busca de uma vida melhor. É o meu caso, que descendo de japoneses que deixaram o Japão, porque estavam morrendo de fome e havia comida no Brasil. No caso dos meus avós, eles nunca puderam voltar ao Japão, nem mesmo como turistas. É o caso também de descendentes de alemães, de italianos e até de portugueses que buscaram uma vida melhor aqui no Brasil. Como podemos condenar aqueles que estão, simplesmente, seguindo os passos de nossos pais?

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Bom, talvez os indígenas que me leem ou os descendentes de escravos pensem que eles podem condenar os que saem. Bom, não se eles forem monoteístas. Basta lembrar que a história do monoteísmo começa com uma ordem de Deus para que Abraão, nosso pai espiritual, deixe o seu país de origem e vá para outra terra:

Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei (Gênesis 12:1)

Isso mostra, claramente, que as migrações não são, em si mesmas, atos condenáveis. Nem mesmo quando elas implicam em uma reprovação de seu país de origem.

Abandonando um barco furado
Uma história que ilustra bem isso é a migração de vários israelitas do Norte para o reino de Judá, na época do rei Roboão, filho de Salomão. Quando Roboão assumiu o reino, Israel era um único país, dividido em doze tribos. Por causa da decisão do rei em ameaçar aumentar impostos que já eram altos, o país se dividiu. Dez tribos, ao Norte, formaram o reino de Israel e duas tribos, ao Sul, ficaram com Roboão e formaram o reino de Judá.

Dura resposta lhes deu o rei, porque o rei Roboão desprezara o conselho dos anciãos; e lhes falou segundo o conselho dos jovens, dizendo: Meu pai fez pesado o vosso jugo, porém eu ainda o agravarei; meu pai vos castigou com açoites, eu, porém, vos castigarei com escorpiões. O rei, pois, não deu ouvidos ao povo, porque isto vinha de Deus, para que o SENHOR confirmasse a palavra que tinha dito por intermédio de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate. Vendo, pois, todo o Israel que o rei não lhe dava ouvidos, reagiu, dizendo: Que parte temos nós com Davi? Não há para nós herança no filho de Jessé! Cada homem à sua tenda, ó Israel! Cuida, agora, da tua casa, ó Davi! Então, Israel se foi às suas tendas. Quanto aos filhos de Israel, porém, que habitavam nas cidades de Judá, sobre eles reinou Roboão. Então, o rei Roboão enviou a Adorão, superintendente dos que trabalhavam forçados, porém os filhos de Israel o apedrejaram, e morreu. Mas o rei Roboão conseguiu tomar o seu carro e fugir para Jerusalém. Assim, Israel se mantém rebelado contra a casa de Davi até ao dia de hoje. (2 Crônicas 10:13-19)

Contudo, logo alguns se arrependeram de haverem deixado a casa de Davi. Quando as tribos do Norte se separaram e formaram o reino de Israel, Jeroboão foi eleito rei. Assim que ele assumiu o reino, ele abandonou o culto ao Senhor e fez dois bezerros de ouro para serem os novos deuses israelitas. Despediu os sacerdotes e abandonou a Lei de Moisés.

O que fazer em um cenário assim? Quando um país abandona as leis de Deus e começa a trilhar um caminho que o levará a ruína, os filhos de Deus devem permanecer ali e sofrer junto? Bom, alguns ficaram. O Senhor conservou em Israel pessoas que permaneceram fiéis a Ele e se opuseram ao rei Jeroboão. Esses fiéis foram um testemunho de Deus enquanto o reino de Israel durou, mas nunca ocuparam o poder. Elas nunca viram o reino do Norte voltar-se para o Senhor. Nunca as tribos do Norte deixaram os ídolos que Jeroboão fez. Deus foi glorificado pelo testemunho, mas não pela mudança cultural e religiosa do país.

Por outro lado, muitos saíram. Quando os israelitas piedosos viram que não havia mais espaço para cultuar ao Senhor no Norte, eles deixaram o seu país de origem, se arrependeram de terem rompido com Roboão e…emigraram!

Também os sacerdotes e os levitas que havia em todo o Israel recorreram a Roboão de todos os seus limites, porque os levitas deixaram os arredores das suas cidades e as suas possessões e vieram para Judá e para Jerusalém, porque Jeroboão e seus filhos os lançaram fora, para que não ministrassem ao SENHOR. Jeroboão constituiu os seus próprios sacerdotes, para os altos, para os sátiros e para os bezerros que fizera. Além destes, também de todas as tribos de Israel os que de coração resolveram buscar o SENHOR, Deus de Israel, foram a Jerusalém, para oferecerem sacrifícios ao SENHOR, Deus de seus pais. Assim, fortaleceram o reino de Judá e corroboraram com Roboão, filho de Salomão, por três anos; porque três anos andaram no caminho de Davi e Salomão. (2 Crônicas 11:13-17)

Não é pecado deixar um barco que vai afundar e ir para outro, que vai pelo caminho certo. Assim como não é errado permanecer em um barco que está afundando e pregar o Evangelho aos que continuam ali. Se há nobreza no último ato, permita-me dizer que há nobreza também em fortalecer a nação que busca andar nos caminhos de Deus!

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Judá se desviou depois? Sim: os judeus também falharam, assim como os cristãos falham hoje. Mas Roboão se arrepende depois, mais uma vez. Judá teve bons reis, que seguiram ao Senhor. No final do Antigo Testamento, é o povo que habitava no Sul, em Judá, que permaneceu vivo. Os descendentes do reino do Norte desaparecem. Ou se mesclaram com outros povos, ou foram mortos e alguns continuaram abandonando o Norte para viver no Sul ao longo da História. Mas o fato é que somente os que emigraram tiveram seus descendentes preservados nos dias de Jesus como povo da aliança, como Israel. As duas tribos tornaram-se o berço onde os fiéis das outras dez se abrigaram. Judá tornou-se o novo Israel.

A nossa pátria é o céu
Emigrar não é pecado porque a nossa verdadeira pátria não é o Brasil ou os Estados Unidos ou qualquer outra nação da terra. Antes de sermos fiéis ao nosso país terreno, precisamos entender que a nossa fidelidade maior é com o Senhor. O nosso país é o céu, e é a ele que devemos nossa lealdade. Como está escrito:

Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se, na verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade. (Hebreus 11:13-16)

Os filhos de Deus são estrangeiros neste mundo. Eu sou brasileiro, mas, espiritualmente, sou um estrangeiro que mora no Brasil. Assim como os patriarcas da fé, também eu estou “procurando uma pátria” e aspiro por uma pátria superior, a celestial. Nessa terra, sou um peregrino. Mesmo que eu nunca deixe o país, o Brasil não é o meu local definitivo de residência. Estou aqui de passagem. E isso é válido para todos aqueles que são filhos de Deus, ou seja, os que possuem a mesma fé que tiveram Abraão, Isaque e Jacó.

Quando entendemos isso, outras histórias complicadas da Bíblia perdem a complicação. No livro de Josué, a prostituta Raabe trai o seu povo, acolhe os espiões israelitas e deserta para o lado de Israel. Muitos, erroneamente, dizem que isso mostra um ponto fraco de Raabe, um sinal de que ela não era patriota. Errado: isso salvou a vida de Raabe! Ela ansiou por uma pátria melhor, confessou que o Deus de Israel era o Senhor, amou mais a Ele que o seu povo, e isso a salvou!

Antes que os espias se deitassem, foi ela ter com eles ao eirado e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes. Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra. Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo SENHOR que, assim como usei de misericórdia para convosco, também dela usareis para com a casa de meu pai; e que me dareis um sinal certo de que conservareis a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas irmãs, com tudo o que têm, e de que livrareis a nossa vida da morte. (Josué 2:8-13)

Tradicionalmente, o livro de Rute pode ser entendido como uma advertência contra a emigração. O livro começa com uma família que abandona a sua herança em Israel e vai para Moabe, um país pagão. Lá, os irmãos israelitas Quiliom e Malom se casam com moabitas, mas acabam morrendo, e a família se vê em grande dificuldade financeira por causa disso. Embora Quiliom, Malom e Elimeleque (o pai deles) possam ser reprovados por terem emigrado sem consultar o Senhor, o livro fala que a moabita Rute renegou o seu povo e os seus deuses, e tomou a Israel como o seu novo país. Ela resolveu acompanhar a sua sogra Noemi e emigrou. Trocou a sua pátria de nascimento pela pátria do Deus vivo.

Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. (Rute 1:16)

Para os moabitas, Rute pode até ser uma traidora e desleal, uma fraca! Mas, para o Senhor, Rute é uma mulher virtuosa, que aspirou por um país superior, e o encontrou.

Ilustração de Rute e Noemi
Ilustração de Rute e Noemi

Consulte o Rei
O que podemos dizer, particularmente no contexto atual? O Brasil vive um momento muito delicado. Conseguimos reunir os erros dos reinos do Norte e do Sul ao mesmo tempo. A alta carga de impostos dividiu Israel em dois reinos, e vemos que o Governo continua insaciável em sua fome por mais dinheiro. Ainda temos liberdade para cultuar ao Senhor, mas as leis defendidas pelo Governo são cada vez mais distantes dos padrões bíblicos e há uma hostilidade crescente contra o verdadeiro Evangelho e contra Jesus. Há um esforço enorme para legalizar o aborto, impedir pregações contra o pecado do homossexualismo e domesticar os sermões para que sigam a cartilha do politicamente correto. Na economia e no tratamento dos criminosos, vai-se na direção contrária daquela preceituada na Bíblia. O desprezo contra o Senhor é cada vez maior.

Os cristãos devem fugir ou ficar? A melhor resposta é: ore e pergunte ao Senhor. Deus é quem sabe quem deve ficar e dar testemunho, ser sal da terra no nosso país e lutar para que os brasileiros se arrependam. Grandes homens de Deus, como Elias e Eliseu, viveram e profetizaram no reino do Norte. Por outro lado, Deus também sabe quem ele quer retirar do Brasil para serem forasteiros em outros países. Nem todos serão missionários, a maioria será formada por emigrantes mesmo. Não há nada de errado nisso. A profetisa Ana, por exemplo, que falou a respeito de Jesus em Lucas 2, era descendente de pessoas da tribo de Aser que fugiram do reino do Norte e foram para o reino do Sul. Que um não jogue pedra no outro.

O que todos devem entender é que, antes de sermos brasileiros ou japoneses ou o que seja, somos cristãos. Antes de jurar fidelidade à bandeira do meu país, minha fidelidade é com o Senhor. O país onde nascemos e residimos é apenas a nossa residência temporária. Somos todos estrangeiros e peregrinos. E um irmão de fé é mais próximo de nós do que um compatriota que não sirva ao mesmo Deus a quem servimos.

E, como somos fiéis ao Rei dos Reis, pediremos que Ele nos guie sobre onde devemos morar. Confiaremos em sua decisão, seja ela qual for.

E, antes que me perguntem, sim…acho que o raciocínio deste texto pode ser aplicado aos cristãos que frequentam igrejas que têm se desviado do ensino correto da Bíblia e estão abandonando ao Senhor.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro