O relacionamento entre a Bíblia e a Igreja

Talvez o maior diferencial entre católicos e protestantes seja o relacionamento entre a Bíblia e a Tradição da Igreja. Em termos de autoridade, os protestantes costumam afirmar que a Bíblia é a nossa “única regra de fé e prática”, ao passo que os católicos consideram que “a Tradição precede a Escritura”, como fala o Pe. Paulo Ricardo.

A questão é muito mais importante do que parece. Uma vez que um dos lados está errado quanto às fontes de sua doutrina, o resto do edifício teológico cai junto. Por isso, resolvi usar o vídeo do Pe. Paulo Ricardo como um ponto de partida para tratar sobre a minha visão sobre o assunto. Não pretendo aqui responder ponto por ponto ou defender uma visão denominacional sobre o princípio do Sola Scriptura (Somente a Escritura). Repito: trata-se da minha visão particular sobre esse debate.

Entendendo melhor o que é o Sola Scriptura
Inicialmente, é preciso esclarecer o que se quer dizer quando os protestantes afirmam Sola Scriptura. É um espantalho a ideia de que a “única” regra de fé e prática dos protestantes seja a Bíblia. Existem diferentes tradicões teológicas dentro do protestantismo, como a luterana, a reformada e a pentecostal. As diferentes confissões de fé, como a Confissão de Fé de Westminster ou a Confissão Batista de 1689, são um retrato claro disso. Há um magistério, formado por pastores e teólogos que, com seus artigos e opiniões, formam posições que serão seguidas pelas denominações. Isso é fácil de se ver quando tratamos de novos assuntos, como a questão da reprodução humana assistida, por exemplo. Logo, assim como os católicos, a Tradição e o Magistério são fontes de autoridade.

O que diferencia católicos e protestantes é o relacionamento entre essas diferentes fontes de autoridade. Para os protestantes, a Bíblia está acima da Tradição, do Magistério e até mesmo de supostas revelações do Espírito Santo. Por quê? Seria por que os protestantes crêem que Deus fala somente através da Escritura? Claro que não! Mesmo em seminários cessacionistas, aprendemos que a criação é a revelação geral de Deus, ou seja, ela proclama a glória de Deus e o Senhor fala por meio dela. Também acreditamos, pela própria Bíblia, que Deus também fala e age por meio da Igreja, que é o Corpo de Cristo.

O que o Sola Scriptura diz, porém, que apenas a Bíblia pode ser considerada, de modo confiável, a palavra de Deus. Apenas quando lemos as Escrituras Sagradas temos a certeza de que estamos lendo as instruções de Deus para nós. Por este motivo, todas as outras fontes de autoridade devem ser medidas pela Bíblia. E, nesse sentido, a Bíblia se torna a “única” regra de fé e prática, porque apenas ela pode obrigar a consciência dos homens. É nisso que acredita, por exemplo, a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Pessoas há que estranham adotar a Igreja Presbiteriana uma Confissão de Fé e Catecismo como regra de fé, quando sustenta sempre ser a Escritura Sagrada sua única regra de fé e de prática. A incoerência é apenas aparente. A Igreja Presbiteriana coloca a Bíblia em primeiro lugar. É ela só que deve obrigar a consciência. É também princípio fundamental da Igreja Presbiteriana que toda autoridade eclesiástica é ministerial e declarativa; que todas as decisões dos concílios devem harmonizar-se com a revelação divina. A consciência não se deve sujeitar a essas decisões se forem contrárias à Palavra de Deus.

Na verdade, isso faz muito sentido, para aqueles que têm fé. As supostas revelações do Espírito Santo por meio dos profetas podem ser apenas um subjetivismo pessoal, ou até um embuste. A Tradição também pode ser discordante, mesmo dentro de uma mesma corrente religiosa. Não é segredo para ninguém que os papas Bento XVI e Francisco possuem visões diferentes sobre a Teologia da Libertação, por exemplo. Ou que a Renovação Carismática Católica não é aprovada por católicos que reprovam o Concílio Vaticano II, para ficar em casos mais recentes. O Magistério também diverge, e todas as polêmicas envolvendo a exortação apostólica Amoris Laetitia, do papa Francisco, mostram isso. Afinal, cardeais também são mestres da Igreja Católica. Por esses motivos, os protestantes recusam-se a entender que a Igreja é infalível, seja por meio da Tradição, do Magistério ou do papado. Nem mesmo os concílios protestantes são considerados infalíveis, como afirma a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Ainda outro princípio da mesma Igreja é que os concílios, sendo compostos de homens falíveis, podem errar, e muitas vezes têm errado. Suas decisões, portanto, não podem ser recebidas como regra absoluta e primária de fé e prática; servem somente para ajudar na crença ou na conduta que se deve adotar. O supremo juiz de todas as controvérsias, em matéria religiosa, é o Espírito Santo falando na e pela Escritura. Por esta, pois, devem-se julgar toda e qualquer decisão dos concílios e toda e qualquer doutrina ensinada por homens.

Assim sendo, ao contrário do que sugere o Pe. Paulo Ricardo, os protestantes não dizem com o Sola Scriptura, que sem Escrituras não existe Igreja. Nem tampouco negamos que exista Tradição e Magistério. Contudo, apenas a Bíblia pode ser apontada, em toda a sua extensão, como sendo uma revelação divina, algo que não pode ser atribuído com 100% de certeza a outras autoridades. Uma vez que ela é confiável, ela torna-se a régua com a qual se mede todas as outras coisas. Essencialmente, isso é o que significa Sola Scriptura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO que é a Igreja?
Antes de tratar da questão da natureza da Bíblia em si, é preciso esclarecer como protestantes e católicos vêem a palavra “Igreja” de modo diferente. Um erro cometido pelo Pe. Paulo Ricardo e por católicos de modo geral, é o de confundir o Corpo de Cristo com a instituição “Igreja Católica Apostólica Romana” (ICAR), como se Igreja e ICAR fossem idênticos, e qualquer outro uso seja impróprio. O Corpo de Cristo, ou seja, o grupo de pessoas que verdadeiramente adora a Cristo Jesus, é maior que o catolicismo ou o protestantismo.  Mas, se os protestantes são seitas, lembro que as igrejas ortodoxas são tão antigas quanto as igrejas romanas. O Grande Cisma ocorreu, em parte, devido à insistência do bispo de Roma em ter a primazia sobre os demais patriarcas cristãos da Igreja Oriental. Com todo o respeito à igreja romana, é óbvio que as igrejas mais antigas são as orientais, uma vez que o Evangelho saiu da Palestina para a Síria, e dali para o resto do mundo.

Logo, protestantes e católicos possuem um framework diferente para a discussão “Bíblia e Igreja”. No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo diz que Cristo prometeu estar com a Igreja, e que a Igreja é o Corpo de Cristo, logo Cristo fala por meio da Igreja. O problema é que ele iguala “Igreja” à ICAR, enquanto protestantes, ortodoxos e outras correntes do cristianismo aplicam esses ensinos bíblicos à totalidade dos verdadeiros discípulos de Cristo, sem qualquer vinculação institucional. Conferindo o que a Bíblia diz:

Então, Jesus aproximou-se deles e disse: Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mateus 28:18-20)

 

Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito.(…)Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo. (1 Coríntios 12:12-13, 27)

Cada pessoa batizada no Espírito Santo é membro do Corpo de Cristo, o que inclui um conjunto maior que a ICAR. Isso é institucionalmente reconhecido, uma vez que o papa Francisco reconhece a salvação dos protestantes e até pediu perdão a eles, chegando a elogiar Martinho Lutero. Com esses gestos de comunhão, fica claro que, mesmo dentro de uma ótica católica, a “Igreja” é maior que a ICAR. Nesse sentido, Jesus não fala apenas pela ICAR. Ele fala pela “Igreja”.

É a Igreja infalível?
Mas, uma vez que a “Igreja” é o Corpo de Cristo, isso significa que a Igreja seja infalível? De modo algum. Ou então, por que o papa Francisco pediria perdão aos protestantes por 500 anos de perseguições? Ou então pedir perdão pelos erros cometidos durante o genocídio de Ruanda? Isso sem falar nos fartamente documentados casos em que a ICAR protegeu por décadas a sacerdotes pedófilos, o que já é de amplo conhecimento da sociedade. E, veja bem, o papa Francisco não fala apenas de pecados de membros da Igreja, mas de “pecados e faltas da Igreja”.

Ah, mas a infalibilidade seria doutrinária, assim como a papal, quando o papa fala ex cathedra. Mas a própria Bíblia mostra igrejas que precisaram de exortações apostólicas e do próprio Jesus por abrigarem erros e heresias em seu meio. As sete cartas do Apocalipse ilustram bem isso. Vejam o que Jesus diz sobre a igreja em Pérgamo:

No entanto, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, que ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas. Portanto, arrependa-se! Se não, virei em breve até você e lutarei contra eles com a espada da minha boca. (Apocalipse 2:14-16)

Isso sem falar em todos os erros que surgiram nas igrejas que receberam cartas do apóstolo Paulo, onde os pastores (bispos para a ICAR) permitiram que fosse pregado desde uma volta à Lei de Moisés até um tipo de protognosticismo, onde se pregava que não havia problemas em viver na libertinagem sexual. É até possível falar-se na infalibilidade apostólica quanto às doutrinas. Creio que nenhum protestante se oporia a isso. Contudo, o que temos hoje não são apóstolos, mas bispos. E, atendendo ao que a própria Bíblia ensina, eles estão sim sujeitos a falhas doutrinárias.

papafranciscoO início da Igreja
Uma outra diferença clara é sobre a diferente visão que certos grupos do protestantismo tem sobre o início da “Igreja”. O Pe. Paulo Ricardo, assim como os dispensacionalistas, acredita que a Igreja iniciou-se no Pentecostes, descrito em Atos 2. Contudo, os protestantes adeptos da Teologia do Pacto, como eu, entendem que a Igreja é a continuação do Israel bíblico. Esse entendimento era o mesmo dos apóstolos:

Destina-se esta felicidade apenas aos circuncisos ou também aos incircuncisos? Já dissemos que, no caso de Abraão, a fé lhe foi creditada como justiça. Sob quais circunstâncias? Antes ou depois de ter sido circuncidado? Não foi depois, mas antes!
Assim ele recebeu a circuncisão como sinal, como selo da justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. Portanto, ele é o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados, a fim de que a justiça fosse creditada também a eles; e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão. (Romanos 4:9-12)
Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: “Por meio de Isaque a sua descendência será considerada”. Noutras palavras, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão. Pois foi assim que a promessa foi feita: “No tempo devido virei novamente, e Sara terá um filho” (Romanos 9:6-9).
Se é santa a parte da massa que é oferecida como primeiros frutos, toda a massa também o é; se a raiz é santa, os ramos também o serão. Se alguns ramos foram cortados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado entre os outros e agora participa da seiva que vem da raiz da oliveira cultivada, não se glorie contra esses ramos. Se o fizer, saiba que não é você quem sustenta a raiz, mas a raiz a você. (Romanos 11:16-18)
E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. (Gálatas 3:29)

Por que isso importa? Ora, o Pe. Paulo Ricardo afirma que a Igreja precede a Bíblia. Bom, de qual igreja ele fala? Certamente, não pode ser da ICAR, pois as Escrituras do Antigo Testamento estavam escritas e eram lidas antes do Pentecostes. Ele diz que a época de ouro da Igreja, a era dos mártires, foi uma época em que o Novo Testamento não estava sendo lido ou ensinado nas igrejas cristãs. Sim, o Novo Testamento não fora amplamente divulgado em sua completude, mas as Escrituras do Antigo Testamento estavam lá, o tempo todo, guiando as igrejas cristãs e alimentando-as espiritualmente. A Escritura precede a Igreja neotestamentária pelo simples fato de que ela já existia antes mesmo da encarnação de Jesus.

Porém, a verdadeira Igreja (que não é a instituição ICAR) começou antes de Moisés escrever o Gênesis, e essa Igreja é anterior à redação da Bíblia. Logo, sim, o padre acerta quando mostra que é possível haver salvação, fé e fiéis saudáveis sem as Escrituras. Deus, por si só, é capaz de produzir isso. Enoque, Noé, Abraão e José não tinham Bíblia alguma pra ler. Mas tinham a Palavra de Deus, porque Deus se relacionava com eles, e falava com eles e os nutria espiritualmente sem nada escrito. Nenhum protestante nega que o relacionamento com Deus, no Espírito Santo e por meio de Jesus, seja dispensável. A melhor Bíblia sem um relacionamento com Deus não salva ninguém. Contudo, não era esse o caso da igreja primitiva, porque ela tinha as Escrituras do Antigo Testamento, além do Espírito Santo para ser espiritualmente alimentada.

Jesus e a Tradição
Se entendermos que a Igreja é a continuação de Israel, também fica fácil entender porque as Escrituras precedem a Tradição ou o Magistério. Qualquer leitura do Antigo Testamento mostra claramente que reis e até os sacerdotes fizeram acréscimos indevidos à Lei. Em essência, a mensagem de todos os profetas era a de que o povo deveria abandonar qualquer mudança na Lei ou no culto prescritos por Deus, e voltar às Escrituras.

Isso é visto de modo mais marcante e extremo no tenso relacionamento entre Jesus e os fariseus. Assim como os católicos de hoje, os fariseus também construíram uma série de crenças e práticas alheias à Escritura. Curiosamente, Jesus não endossou essa postura:

Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. (Marcos 7:6-9)

Jesus claramente via uma diferença entre o mandamento de Deus e a tradição dos homens. O que Ele condenou foram os ensinos e práticas que os homens acrescentaram ao que Deus já havia revelado. Quando levamos a sério a advertência de Jesus, nosso cuidado em evitar criar doutrinas que sejam “preceitos de homens” seria o maior possível. Mas, ao reproduzir o mesmo método usado pelos fariseus, validando uma tradição humana e colocando-a como algo vindo de Deus, a ICAR faz uma opção muito mais arriscada.

Jesus, a Bíblia e a Palavra de Deus
Creio já ter explicado de modo satisfatório porque não é nenhum absurdo usar o Sola Scriptura. Mas há mais um ponto que precisa ser explorado. Se Jesus é o Logos (Palavra) de Deus, como escrito em João 1:1, como a Bíblia pode ser chamada pelos protestantes de “Palavra de Deus”? No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo declara que “A Palavra de Deus é Jesus. A Sagrada Escritura é um instrumento pelo qual podemos ter acesso a Jesus.” Segundo ele, “a Bíblia é preciosa, mas é apenas um instrumento”. E o que a Igreja precisa é da Palavra de Deus (Jesus).

Bem, é claro que não se deve adorar a Bíblia. A Bíblia não é a Segunda Pessoa da Trindade. Vários povos indígenas adoram a Jesus tendo apenas poucas porções traduzidas da Bíblia ou apenas pelo testemunho oral de missionários, isto é, pode sim ter igreja sem Bíblia, mas não sem Jesus. Com tudo isso eu concordo.

Contudo, a Bíblia não é apenas um instrumento. A Bíblia não é a Palavra de Deus em seu sentido máximo, o Logos Divino, por meio do qual todas as coisas foram feitas e que é a luz que ilumina a todo homem. Mas ela é a Palavra de Deus, porque é o Espírito Santo quem fala por meio dos autores humanos que escreveram os livros da Bíblia.

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16-17)
Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:19-21)

Ou seja, o Espírito Santo é o Autor da Bíblia! E de toda a Bíblia, incluindo o Antigo Testamento, já que “toda a Escritura” é inspirada (soprada) por Deus. Nela, é Deus quem fala. E não, não é exatamente a ICAR quem define e institui o que é o que não é a palavra de Deus, assim como não é você, leitor(a), quem define o que eu falei ou não. A Igreja não define o que Deus falou, ela reconhece. O processo de seleção dos livros que fariam parte do Novo Testamento é um processo de reconhecimento, de discernimento do que Deus falou, do que é sagrado e do que não é.

Logo, a autoridade não vem da Igreja, mas sim do reconhecimento dado por ela de que a Bíblia é uma obra divina. Não é como se a Igreja tivesse a liberdade de definir de modo irrestrito o que é o que não é sagrado. Não, o que acontece é que ela reconhece os sinais que mostram se um determinado livro é ou não sagrado. Há uma diferença enorme entre definir e reconhecer.

E que sinais seriam esses? Bom, se a Bíblia for um simples instrumento, como diz o padre, então fica até difícil dizer no que ela se distingue de outros livros. Mas a Bíblia é viva e eficaz:

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. (Hebreus 4:12)

A Bíblia é o único livro que pode tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Timóteo 3:17). A fé só é produzida pela pregação das Escrituras:

Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Romanos 10:11-17)

Destaquei a fala de Isaías, para mostrar que a pregação ali não é apenas sobre Cristo, mas é a pregação das Escrituras. Logo, embora as Escrituras não sejam a Palavra de Deus no sentido em que Jesus o é, ainda assim elas são “vivas”, “geram fé” e aperfeiçoam os homens. E muito mais poderia ser dito. Basta ler o Salmo 119 para enumerar muitas outras características que ajudaram a Igreja a reconhecer o que é e o que não é Palavra de Deus e parte da Bíblia.

Se a Igreja usasse sua autoridade para autenticar um livro que não viesse de Deus, isso não faria do livro algo sagrado. Tampouco daria ao tal livro todas as qualidades descritas acima.

Uma palavra final
Encerro por aqui, reconhecendo que há muito mais a ser estudado sobre o assunto. Aos protestantes que estejam flertando com o catolicismo, e questionando a solidez do Sola Scriptura, lembro que há livros que tratam do assunto com uma profundidade muito maior do que eu poderia fazer em um blog. Lembro que o posicionamento errado quanto à questão da autoridade pode ter implicações espirituais profundas, logo, não é o tipo de coisa para se decidir apenas por um texto de Internet ou um vídeo no YouTube.

Entristece-me saber que há protestantes que se debruçaram sobre as opiniões teológicas e filosóficas de autores católicos, mas não tiveram o mesmo empenho e curiosidade em estudar o que a melhor teologia protestante ensina sobre isso. Entristece-me ainda mais quando vejo que a maioria dos protestantes sequer leu a Bíblia toda e é incapaz de comparar os ensinos bíblicos com as tradições religiosas do cristianismo.

No mais, eu não acredito em uma tradição que se desvie de seus princípios fundamentais. A Igreja está construída sobre a pessoa de Cristo, Ele é a pedra angular. Mas o que vem acima disso é o fundamento dos apóstolos e profetas, ou seja, o ensino registrado nas Escrituras, na Bíblia. E um edifício que não se assenta sobre o seu fundamento está condenado a cair:

Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Efésios 2:19-22)

Sola Scriptura!

Solus Christus!

Sola Gratia!

Sola Fide!

Soli Deo Gloria!

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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A criminalização da blasfêmia

Começo o post pedindo perdão aos que não são evangélicos e se deram ao trabalho de clicar neste texto. Afinal, quando pensamos no atentado terrorista ao jornal Charlie Hebdo, imaginamos que o assunto mais importante a ser discutido é o combate ao terrorismo religioso. Contudo, entre os evangélicos o assunto que realmente fez sucesso foram as charges blasfemas publicadas pelo periódico francês contra o Deus dos cristãos.

As reações nas redes sociais foram muitas. Muitos disseram, por exemplo, que deveria existir algum tipo de proibição para a publicação de charges desrespeitosas à religião cristã. O sacrilégio não deve ser perdoado, embora o assassinato fosse uma medida exagerada. O direito à liberdade de expressão não é absoluto, e o respeito às religiões seria um limite a ser observado. Houve quem dissesse, em alto e bom som, que Deus estava apenas usando os terroristas como uma forma de julgar as blasfêmias publicadas pelos jornalistas franceses.

Diante de tais questionamentos, vem a pergunta: a blasfêmia deve ser criminalizada? Os cristãos devem exigir leis que proíbam a publicação de charges e piadas que sejam blasfemas contra Deus ou desrespeitem a nossa fé?

censurado

O pior pecado

A primeira coisa que precisa ser considerada é que, espiritualmente, nenhum pecado é pior que a blasfêmia contra o Espírito Santo. Quem ensina isso é o próprio Jesus, ao colocar este pecado como sendo o único que não é perdoável:

Por isso, vos declaro: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém proferir alguma palavra contra o Filho do Homem, ser-lhe-á isso perdoado; mas, se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será isso perdoado, nem neste mundo nem no porvir. (Mateus 12:31-32)

Jesus abre a possibilidade de qualquer pecado ser perdoado. Isso inclui até coisas que a sociedade permissiva do século XXI não perdoaria: pedofilia, estupros, genocídios, palavras de ódio, entre outros. Alguém poderia torturar e assassinar milhões de pessoas e, ainda assim, receberia perdão. Entretanto, se esta pessoa falar contra o Espírito Santo, ela não teria qualquer possibilidade de salvação, está condenada ao inferno.

Entretanto, repare que a condenação eterna é apenas para uma blasfêmia específica. O próprio Jesus começa afirmando a possibilidade de qualquer pecado e blasfêmia serem perdoados. Vale destacar também que o entendimento de algunsteólogos é o de que a blasfêmia contra o Espírito não seria, exatamente, o fazer uma charge blasfema contra Ele, mas sim a recusa obstinada em se render ao senhorio de Cristo ou a apostasia.

Deus e o Estado

Uma segunda coisa a ser considerada é que, biblicamente falando, os Estados devem sim se submeter a Deus. O reino de Deus abrange todas as coisas, e os reis e nações não estão excluídos deste domínio:

Pois do SENHOR é o reino, é ele quem governa as nações. (Salmo 22:28)

Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. (Salmo 24:1)

O Novo Testamento confirma este ensino ao dizer que as autoridades são instituídas por Deus e são ministras (servas) d’Ele:

Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas.(…) visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. (Romanos 13:1,4)

A coisa é tão séria que as autoridades que promulgarem leis injustas sofrerão a condenação divina:

Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão,  para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos! (Isaías 10:1-2)
E aí, isso significa que devemos rasgar a Constituição e adotar a Bíblia como a lei máxima do Brasil? Não necessariamente, por três motivos. O primeiro deles é o de que o próprio Jesus reconhece haver uma diferença entre o reino de Deus e o reino deste mundo:
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 19:36)

Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. (Lucas 20:25)

Biblicamente, qual é o papel do Estado? Enquanto o reino de Israel existia, o Estado hebreu deveria seguir a Lei de Moisés, em uma teocracia. Por causa do pecado dos israelitas, porém, Jerusalém foi destruída e Israel deixou de existir como nação. Apesar do período macabeu, o final do Antigo Testamento mostra que Israel teria que aprender a conviver debaixo de impérios que não seguiriam a Lei de Moisés. Já no Antigo Testamento não vemos nenhuma ordem para que Israel lutasse para que os impérios babilônico ou persa se tornassem teocracias judaicas. Mesmo a luta dos macabeus foi uma luta de independência, motivada pela perseguição religiosa dos sucessores de Alexandre Magno.
O Triunfo de Judas Macabeu
O Triunfo de Judas Macabeu
No Novo Testamento, Jesus não pede que seus discípulos lutem para tornar Roma uma teocracia. Nem Ele e nem os apóstolos lutam para que Roma aprove leis que sejam bíblicas. Não há nenhum apelo para que os cristãos façam uma guerra de independência e criem um país onde, finalmente, as leis da Bíblia sejam a norma da sociedade. A Igreja poderia florescer, normalmente, debaixo de um império pagão e corrupto, orando pelas autoridades romanas e até pagando imposto a elas. Afinal, o Reino de Jesus não é terreno. Ainda.

O papel do Estado

Qual é, pois, o papel atual do Estado? Se a teocracia ficou no Antigo Testamento como um símbolo do reino de Cristo a ser inaugurado no final dos tempos…mas as autoridades continuam sendo servas de Deus, que reina sobre tudo…o que devemos esperar do Estado?
A resposta está em Romanos 13:
Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência. Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. (Romanos 13:3-6)
Ou seja, o Estado deve louvar os que fazem o bem e castigar os que praticam o mal. O Estado deve aprovar leis e aplicá-las de modo a premiar os bons cidadãos e usar até mesmo do poder letal (espada) para punir quem faz o mal.

A tábua do próximo

Mas, então…o Estado deveria premiar os que adoram ao Deus verdadeiro (fazer o bem) e punir quem é blasfemo (faz o mal), certo? Er, errado. Após a ressurreição de Jesus, a fé não é mais um assunto de Estado. Nos dias de Jesus, os judeus esperavam um Messias político, e Jesus sempre recusou esse papel. O silêncio e a omissão apostólica sobre assuntos políticos nos sinalizam que a responsabilidade quanto a fé e a adoração são individuais, e não mais governamentais.
A Igreja queria apenas a liberdade para pregar sem ser perseguida pelas autoridades. Lendo o livro de Atos e as cartas de Paulo, verificamos que, em momento algum, eles pressionam por leis que protejam o culto cristão de blasfêmias ou que tornem o Império Romano um império cristão. Tudo o que eles queriam era a liberdade de pregarem sem serem mortos ou agredidos por causa disso. A causa da Igreja era a liberdade religiosa, ou seja, a liberdade para pregar a fé cristã.
Se a fé não é mais assunto de Estado, significa que a tábua de Deus, ou seja, aquela parte dos Dez Mandamentos que fala sobre o nosso amor a Deus, não é mais assunto do Estado. Se temos outros deuses, fazemos ídolos e os adoramos, falamos o nome do Senhor em vão ou deixamos de guardar o “sábado”, isso não é do interesse das autoridades. O que elas precisam fiscalizar é a tábua do próximo, ou seja, a parte dos Dez Mandamentos que trata das relações entre os seres humanos. Biblicamente, se eu mato, roubo ou adultero, aí sim o Estado tem algo a fazer.

A liberdade religiosa

O que nos leva à conclusão de que o cristianismo deve defender a mesma coisa que nossos pais defendiam no começo da Igreja: a liberdade religiosa. O Estado deve nos garantir o direito de pregar a nossa fé e de sermos fisicamente protegidos dos que tentam impedir essa pregação por meio de ameaças, atentados e agressões.  O final do livro de Atos mostra Paulo apelando as autoridades romanas para que estas o protejam de ser assassinado pelos judeus que queria matá-lo. Eis aí a base bíblica do meu posicionamento.
Por outro lado, se:
– O Estado não interfere mais na “tábua de Deus” e isso se torna uma decisão individual;
– O próprio Jesus reconhece uma distinção entre o reino d’Ele e os reinos deste mundo, entre Deus e César;
– Jesus omitiu-se de qualquer tipo de luta pelo poder político, bem como os apóstolos;
– Os apóstolos queriam a liberdade para pregar e não que o Estado oprimisse outros cultos ou punisse quem espalhava mentiras e ofensas contra Jesus e o cristianismo…
Então, isso nos leva a conclusão de que devemos defender um Estado plural, que proteja o nosso direito de culto, mas que também faça o mesmo para outras religiões. O Estado deve garantir a liberdade religiosa, e não ser um Estado confessional, que possui uma religião oficial. Quanto às blasfêmias, uma simples leitura de Atos dos Apóstolos e dos Evangelhos mostra que Jesus foi chamado até de diabo e que muitas mentiras e calúnias eram lançadas contra os apóstolos e a Igreja. Contudo, em momento algum apela-se ao Estado para proibir isso. A proteção que se pedia era física.

Conclusão

A aplicação para nós é óbvia. Nós deveríamos estar preocupados é com a violência dos terroristas e de outros grupos que estão ameaçando fisicamente igrejas e missionários cristãos ao redor do mundo, e não com as charges blasfemas do Charlie Hebdo ou com os vídeos blasfemos do Porta dos Fundos. Preocupar-se com essas coisas é esquecer que o verdadeiro inimigo é o terrorismo islâmico ou o totalitarismo anticristão. De certa forma, cabe a crítica: é muito mais fácil bater em jornalistas que só ferem com a pena do que arriscar-se a lutar contra quem derrama o sangue de nossos irmãos pelo mundo.
A blasfêmia é um grave pecado, mas que será resolvido pelo Senhor. Uma vez compreendido qual o papel do Estado à luz da Bíblia, não é difícil entender porque o pior pecado não deve ser criminalizado. Ou mesmo o porquê de cada cristão lutar para que jornalistas e chargistas tenham o direito civil de cometer o pecado da blasfêmia, uma consequência lógica da liberdade religiosa.
Se continuarmos a lutar a luta errada, perderemos o que os apóstolos lutaram para conseguir e não viveram para desfrutar: a nossa liberdade de culto. Se, em nome da fé, impormos limites aos outros, tenha a certeza de que serão aprovadas leis que nos impedirão de pregar a verdade e de dizer, clara e abertamente, o que a Bíblia ensina. Que Deus tenha misericórdia de nós e nos dê sabedoria para lutarmos o bom combate.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro