O relacionamento entre a Bíblia e a Igreja

Talvez o maior diferencial entre católicos e protestantes seja o relacionamento entre a Bíblia e a Tradição da Igreja. Em termos de autoridade, os protestantes costumam afirmar que a Bíblia é a nossa “única regra de fé e prática”, ao passo que os católicos consideram que “a Tradição precede a Escritura”, como fala o Pe. Paulo Ricardo.

A questão é muito mais importante do que parece. Uma vez que um dos lados está errado quanto às fontes de sua doutrina, o resto do edifício teológico cai junto. Por isso, resolvi usar o vídeo do Pe. Paulo Ricardo como um ponto de partida para tratar sobre a minha visão sobre o assunto. Não pretendo aqui responder ponto por ponto ou defender uma visão denominacional sobre o princípio do Sola Scriptura (Somente a Escritura). Repito: trata-se da minha visão particular sobre esse debate.

Entendendo melhor o que é o Sola Scriptura
Inicialmente, é preciso esclarecer o que se quer dizer quando os protestantes afirmam Sola Scriptura. É um espantalho a ideia de que a “única” regra de fé e prática dos protestantes seja a Bíblia. Existem diferentes tradicões teológicas dentro do protestantismo, como a luterana, a reformada e a pentecostal. As diferentes confissões de fé, como a Confissão de Fé de Westminster ou a Confissão Batista de 1689, são um retrato claro disso. Há um magistério, formado por pastores e teólogos que, com seus artigos e opiniões, formam posições que serão seguidas pelas denominações. Isso é fácil de se ver quando tratamos de novos assuntos, como a questão da reprodução humana assistida, por exemplo. Logo, assim como os católicos, a Tradição e o Magistério são fontes de autoridade.

O que diferencia católicos e protestantes é o relacionamento entre essas diferentes fontes de autoridade. Para os protestantes, a Bíblia está acima da Tradição, do Magistério e até mesmo de supostas revelações do Espírito Santo. Por quê? Seria por que os protestantes crêem que Deus fala somente através da Escritura? Claro que não! Mesmo em seminários cessacionistas, aprendemos que a criação é a revelação geral de Deus, ou seja, ela proclama a glória de Deus e o Senhor fala por meio dela. Também acreditamos, pela própria Bíblia, que Deus também fala e age por meio da Igreja, que é o Corpo de Cristo.

O que o Sola Scriptura diz, porém, que apenas a Bíblia pode ser considerada, de modo confiável, a palavra de Deus. Apenas quando lemos as Escrituras Sagradas temos a certeza de que estamos lendo as instruções de Deus para nós. Por este motivo, todas as outras fontes de autoridade devem ser medidas pela Bíblia. E, nesse sentido, a Bíblia se torna a “única” regra de fé e prática, porque apenas ela pode obrigar a consciência dos homens. É nisso que acredita, por exemplo, a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Pessoas há que estranham adotar a Igreja Presbiteriana uma Confissão de Fé e Catecismo como regra de fé, quando sustenta sempre ser a Escritura Sagrada sua única regra de fé e de prática. A incoerência é apenas aparente. A Igreja Presbiteriana coloca a Bíblia em primeiro lugar. É ela só que deve obrigar a consciência. É também princípio fundamental da Igreja Presbiteriana que toda autoridade eclesiástica é ministerial e declarativa; que todas as decisões dos concílios devem harmonizar-se com a revelação divina. A consciência não se deve sujeitar a essas decisões se forem contrárias à Palavra de Deus.

Na verdade, isso faz muito sentido, para aqueles que têm fé. As supostas revelações do Espírito Santo por meio dos profetas podem ser apenas um subjetivismo pessoal, ou até um embuste. A Tradição também pode ser discordante, mesmo dentro de uma mesma corrente religiosa. Não é segredo para ninguém que os papas Bento XVI e Francisco possuem visões diferentes sobre a Teologia da Libertação, por exemplo. Ou que a Renovação Carismática Católica não é aprovada por católicos que reprovam o Concílio Vaticano II, para ficar em casos mais recentes. O Magistério também diverge, e todas as polêmicas envolvendo a exortação apostólica Amoris Laetitia, do papa Francisco, mostram isso. Afinal, cardeais também são mestres da Igreja Católica. Por esses motivos, os protestantes recusam-se a entender que a Igreja é infalível, seja por meio da Tradição, do Magistério ou do papado. Nem mesmo os concílios protestantes são considerados infalíveis, como afirma a Igreja Presbiteriana do Brasil:

Ainda outro princípio da mesma Igreja é que os concílios, sendo compostos de homens falíveis, podem errar, e muitas vezes têm errado. Suas decisões, portanto, não podem ser recebidas como regra absoluta e primária de fé e prática; servem somente para ajudar na crença ou na conduta que se deve adotar. O supremo juiz de todas as controvérsias, em matéria religiosa, é o Espírito Santo falando na e pela Escritura. Por esta, pois, devem-se julgar toda e qualquer decisão dos concílios e toda e qualquer doutrina ensinada por homens.

Assim sendo, ao contrário do que sugere o Pe. Paulo Ricardo, os protestantes não dizem com o Sola Scriptura, que sem Escrituras não existe Igreja. Nem tampouco negamos que exista Tradição e Magistério. Contudo, apenas a Bíblia pode ser apontada, em toda a sua extensão, como sendo uma revelação divina, algo que não pode ser atribuído com 100% de certeza a outras autoridades. Uma vez que ela é confiável, ela torna-se a régua com a qual se mede todas as outras coisas. Essencialmente, isso é o que significa Sola Scriptura.

OLYMPUS DIGITAL CAMERAO que é a Igreja?
Antes de tratar da questão da natureza da Bíblia em si, é preciso esclarecer como protestantes e católicos vêem a palavra “Igreja” de modo diferente. Um erro cometido pelo Pe. Paulo Ricardo e por católicos de modo geral, é o de confundir o Corpo de Cristo com a instituição “Igreja Católica Apostólica Romana” (ICAR), como se Igreja e ICAR fossem idênticos, e qualquer outro uso seja impróprio. O Corpo de Cristo, ou seja, o grupo de pessoas que verdadeiramente adora a Cristo Jesus, é maior que o catolicismo ou o protestantismo.  Mas, se os protestantes são seitas, lembro que as igrejas ortodoxas são tão antigas quanto as igrejas romanas. O Grande Cisma ocorreu, em parte, devido à insistência do bispo de Roma em ter a primazia sobre os demais patriarcas cristãos da Igreja Oriental. Com todo o respeito à igreja romana, é óbvio que as igrejas mais antigas são as orientais, uma vez que o Evangelho saiu da Palestina para a Síria, e dali para o resto do mundo.

Logo, protestantes e católicos possuem um framework diferente para a discussão “Bíblia e Igreja”. No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo diz que Cristo prometeu estar com a Igreja, e que a Igreja é o Corpo de Cristo, logo Cristo fala por meio da Igreja. O problema é que ele iguala “Igreja” à ICAR, enquanto protestantes, ortodoxos e outras correntes do cristianismo aplicam esses ensinos bíblicos à totalidade dos verdadeiros discípulos de Cristo, sem qualquer vinculação institucional. Conferindo o que a Bíblia diz:

Então, Jesus aproximou-se deles e disse: Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei. E eu estarei sempre com vocês, até o fim dos tempos. (Mateus 28:18-20)

 

Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito.(…)Ora, vocês são o corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo. (1 Coríntios 12:12-13, 27)

Cada pessoa batizada no Espírito Santo é membro do Corpo de Cristo, o que inclui um conjunto maior que a ICAR. Isso é institucionalmente reconhecido, uma vez que o papa Francisco reconhece a salvação dos protestantes e até pediu perdão a eles, chegando a elogiar Martinho Lutero. Com esses gestos de comunhão, fica claro que, mesmo dentro de uma ótica católica, a “Igreja” é maior que a ICAR. Nesse sentido, Jesus não fala apenas pela ICAR. Ele fala pela “Igreja”.

É a Igreja infalível?
Mas, uma vez que a “Igreja” é o Corpo de Cristo, isso significa que a Igreja seja infalível? De modo algum. Ou então, por que o papa Francisco pediria perdão aos protestantes por 500 anos de perseguições? Ou então pedir perdão pelos erros cometidos durante o genocídio de Ruanda? Isso sem falar nos fartamente documentados casos em que a ICAR protegeu por décadas a sacerdotes pedófilos, o que já é de amplo conhecimento da sociedade. E, veja bem, o papa Francisco não fala apenas de pecados de membros da Igreja, mas de “pecados e faltas da Igreja”.

Ah, mas a infalibilidade seria doutrinária, assim como a papal, quando o papa fala ex cathedra. Mas a própria Bíblia mostra igrejas que precisaram de exortações apostólicas e do próprio Jesus por abrigarem erros e heresias em seu meio. As sete cartas do Apocalipse ilustram bem isso. Vejam o que Jesus diz sobre a igreja em Pérgamo:

No entanto, tenho contra você algumas coisas: você tem aí pessoas que se apegam aos ensinos de Balaão, que ensinou Balaque a armar ciladas contra os israelitas, induzindo-os a comer alimentos sacrificados a ídolos e a praticar imoralidade sexual. De igual modo você tem também os que se apegam aos ensinos dos nicolaítas. Portanto, arrependa-se! Se não, virei em breve até você e lutarei contra eles com a espada da minha boca. (Apocalipse 2:14-16)

Isso sem falar em todos os erros que surgiram nas igrejas que receberam cartas do apóstolo Paulo, onde os pastores (bispos para a ICAR) permitiram que fosse pregado desde uma volta à Lei de Moisés até um tipo de protognosticismo, onde se pregava que não havia problemas em viver na libertinagem sexual. É até possível falar-se na infalibilidade apostólica quanto às doutrinas. Creio que nenhum protestante se oporia a isso. Contudo, o que temos hoje não são apóstolos, mas bispos. E, atendendo ao que a própria Bíblia ensina, eles estão sim sujeitos a falhas doutrinárias.

papafranciscoO início da Igreja
Uma outra diferença clara é sobre a diferente visão que certos grupos do protestantismo tem sobre o início da “Igreja”. O Pe. Paulo Ricardo, assim como os dispensacionalistas, acredita que a Igreja iniciou-se no Pentecostes, descrito em Atos 2. Contudo, os protestantes adeptos da Teologia do Pacto, como eu, entendem que a Igreja é a continuação do Israel bíblico. Esse entendimento era o mesmo dos apóstolos:

Destina-se esta felicidade apenas aos circuncisos ou também aos incircuncisos? Já dissemos que, no caso de Abraão, a fé lhe foi creditada como justiça. Sob quais circunstâncias? Antes ou depois de ter sido circuncidado? Não foi depois, mas antes!
Assim ele recebeu a circuncisão como sinal, como selo da justiça que ele tinha pela fé, quando ainda não fora circuncidado. Portanto, ele é o pai de todos os que crêem, sem terem sido circuncidados, a fim de que a justiça fosse creditada também a eles; e é igualmente o pai dos circuncisos que não somente são circuncisos, mas também andam nos passos da fé que teve nosso pai Abraão antes de passar pela circuncisão. (Romanos 4:9-12)
Não pensemos que a palavra de Deus falhou. Pois nem todos os descendentes de Israel são Israel. Nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão. Ao contrário: “Por meio de Isaque a sua descendência será considerada”. Noutras palavras, não são os filhos naturais que são filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que são considerados descendência de Abraão. Pois foi assim que a promessa foi feita: “No tempo devido virei novamente, e Sara terá um filho” (Romanos 9:6-9).
Se é santa a parte da massa que é oferecida como primeiros frutos, toda a massa também o é; se a raiz é santa, os ramos também o serão. Se alguns ramos foram cortados, e você, sendo oliveira brava, foi enxertado entre os outros e agora participa da seiva que vem da raiz da oliveira cultivada, não se glorie contra esses ramos. Se o fizer, saiba que não é você quem sustenta a raiz, mas a raiz a você. (Romanos 11:16-18)
E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa. (Gálatas 3:29)

Por que isso importa? Ora, o Pe. Paulo Ricardo afirma que a Igreja precede a Bíblia. Bom, de qual igreja ele fala? Certamente, não pode ser da ICAR, pois as Escrituras do Antigo Testamento estavam escritas e eram lidas antes do Pentecostes. Ele diz que a época de ouro da Igreja, a era dos mártires, foi uma época em que o Novo Testamento não estava sendo lido ou ensinado nas igrejas cristãs. Sim, o Novo Testamento não fora amplamente divulgado em sua completude, mas as Escrituras do Antigo Testamento estavam lá, o tempo todo, guiando as igrejas cristãs e alimentando-as espiritualmente. A Escritura precede a Igreja neotestamentária pelo simples fato de que ela já existia antes mesmo da encarnação de Jesus.

Porém, a verdadeira Igreja (que não é a instituição ICAR) começou antes de Moisés escrever o Gênesis, e essa Igreja é anterior à redação da Bíblia. Logo, sim, o padre acerta quando mostra que é possível haver salvação, fé e fiéis saudáveis sem as Escrituras. Deus, por si só, é capaz de produzir isso. Enoque, Noé, Abraão e José não tinham Bíblia alguma pra ler. Mas tinham a Palavra de Deus, porque Deus se relacionava com eles, e falava com eles e os nutria espiritualmente sem nada escrito. Nenhum protestante nega que o relacionamento com Deus, no Espírito Santo e por meio de Jesus, seja dispensável. A melhor Bíblia sem um relacionamento com Deus não salva ninguém. Contudo, não era esse o caso da igreja primitiva, porque ela tinha as Escrituras do Antigo Testamento, além do Espírito Santo para ser espiritualmente alimentada.

Jesus e a Tradição
Se entendermos que a Igreja é a continuação de Israel, também fica fácil entender porque as Escrituras precedem a Tradição ou o Magistério. Qualquer leitura do Antigo Testamento mostra claramente que reis e até os sacerdotes fizeram acréscimos indevidos à Lei. Em essência, a mensagem de todos os profetas era a de que o povo deveria abandonar qualquer mudança na Lei ou no culto prescritos por Deus, e voltar às Escrituras.

Isso é visto de modo mais marcante e extremo no tenso relacionamento entre Jesus e os fariseus. Assim como os católicos de hoje, os fariseus também construíram uma série de crenças e práticas alheias à Escritura. Curiosamente, Jesus não endossou essa postura:

Respondeu-lhes: Bem profetizou Isaías a respeito de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. E em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homens. Negligenciando o mandamento de Deus, guardais a tradição dos homens. E disse-lhes ainda: Jeitosamente rejeitais o preceito de Deus para guardardes a vossa própria tradição. (Marcos 7:6-9)

Jesus claramente via uma diferença entre o mandamento de Deus e a tradição dos homens. O que Ele condenou foram os ensinos e práticas que os homens acrescentaram ao que Deus já havia revelado. Quando levamos a sério a advertência de Jesus, nosso cuidado em evitar criar doutrinas que sejam “preceitos de homens” seria o maior possível. Mas, ao reproduzir o mesmo método usado pelos fariseus, validando uma tradição humana e colocando-a como algo vindo de Deus, a ICAR faz uma opção muito mais arriscada.

Jesus, a Bíblia e a Palavra de Deus
Creio já ter explicado de modo satisfatório porque não é nenhum absurdo usar o Sola Scriptura. Mas há mais um ponto que precisa ser explorado. Se Jesus é o Logos (Palavra) de Deus, como escrito em João 1:1, como a Bíblia pode ser chamada pelos protestantes de “Palavra de Deus”? No vídeo, o Pe. Paulo Ricardo declara que “A Palavra de Deus é Jesus. A Sagrada Escritura é um instrumento pelo qual podemos ter acesso a Jesus.” Segundo ele, “a Bíblia é preciosa, mas é apenas um instrumento”. E o que a Igreja precisa é da Palavra de Deus (Jesus).

Bem, é claro que não se deve adorar a Bíblia. A Bíblia não é a Segunda Pessoa da Trindade. Vários povos indígenas adoram a Jesus tendo apenas poucas porções traduzidas da Bíblia ou apenas pelo testemunho oral de missionários, isto é, pode sim ter igreja sem Bíblia, mas não sem Jesus. Com tudo isso eu concordo.

Contudo, a Bíblia não é apenas um instrumento. A Bíblia não é a Palavra de Deus em seu sentido máximo, o Logos Divino, por meio do qual todas as coisas foram feitas e que é a luz que ilumina a todo homem. Mas ela é a Palavra de Deus, porque é o Espírito Santo quem fala por meio dos autores humanos que escreveram os livros da Bíblia.

Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. (2 Timóteo 3:16-17)
Temos, assim, tanto mais confirmada a palavra profética, e fazeis bem em atendê-la, como a uma candeia que brilha em lugar tenebroso, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça em vosso coração, sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo. (2 Pedro 1:19-21)

Ou seja, o Espírito Santo é o Autor da Bíblia! E de toda a Bíblia, incluindo o Antigo Testamento, já que “toda a Escritura” é inspirada (soprada) por Deus. Nela, é Deus quem fala. E não, não é exatamente a ICAR quem define e institui o que é o que não é a palavra de Deus, assim como não é você, leitor(a), quem define o que eu falei ou não. A Igreja não define o que Deus falou, ela reconhece. O processo de seleção dos livros que fariam parte do Novo Testamento é um processo de reconhecimento, de discernimento do que Deus falou, do que é sagrado e do que não é.

Logo, a autoridade não vem da Igreja, mas sim do reconhecimento dado por ela de que a Bíblia é uma obra divina. Não é como se a Igreja tivesse a liberdade de definir de modo irrestrito o que é o que não é sagrado. Não, o que acontece é que ela reconhece os sinais que mostram se um determinado livro é ou não sagrado. Há uma diferença enorme entre definir e reconhecer.

E que sinais seriam esses? Bom, se a Bíblia for um simples instrumento, como diz o padre, então fica até difícil dizer no que ela se distingue de outros livros. Mas a Bíblia é viva e eficaz:

Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. (Hebreus 4:12)

A Bíblia é o único livro que pode tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2 Timóteo 3:17). A fé só é produzida pela pregação das Escrituras:

Porquanto a Escritura diz: Todo aquele que nele crê não será confundido. Pois não há distinção entre judeu e grego, uma vez que o mesmo é o Senhor de todos, rico para com todos os que o invocam. Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois Isaías diz: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo. (Romanos 10:11-17)

Destaquei a fala de Isaías, para mostrar que a pregação ali não é apenas sobre Cristo, mas é a pregação das Escrituras. Logo, embora as Escrituras não sejam a Palavra de Deus no sentido em que Jesus o é, ainda assim elas são “vivas”, “geram fé” e aperfeiçoam os homens. E muito mais poderia ser dito. Basta ler o Salmo 119 para enumerar muitas outras características que ajudaram a Igreja a reconhecer o que é e o que não é Palavra de Deus e parte da Bíblia.

Se a Igreja usasse sua autoridade para autenticar um livro que não viesse de Deus, isso não faria do livro algo sagrado. Tampouco daria ao tal livro todas as qualidades descritas acima.

Uma palavra final
Encerro por aqui, reconhecendo que há muito mais a ser estudado sobre o assunto. Aos protestantes que estejam flertando com o catolicismo, e questionando a solidez do Sola Scriptura, lembro que há livros que tratam do assunto com uma profundidade muito maior do que eu poderia fazer em um blog. Lembro que o posicionamento errado quanto à questão da autoridade pode ter implicações espirituais profundas, logo, não é o tipo de coisa para se decidir apenas por um texto de Internet ou um vídeo no YouTube.

Entristece-me saber que há protestantes que se debruçaram sobre as opiniões teológicas e filosóficas de autores católicos, mas não tiveram o mesmo empenho e curiosidade em estudar o que a melhor teologia protestante ensina sobre isso. Entristece-me ainda mais quando vejo que a maioria dos protestantes sequer leu a Bíblia toda e é incapaz de comparar os ensinos bíblicos com as tradições religiosas do cristianismo.

No mais, eu não acredito em uma tradição que se desvie de seus princípios fundamentais. A Igreja está construída sobre a pessoa de Cristo, Ele é a pedra angular. Mas o que vem acima disso é o fundamento dos apóstolos e profetas, ou seja, o ensino registrado nas Escrituras, na Bíblia. E um edifício que não se assenta sobre o seu fundamento está condenado a cair:

Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito. (Efésios 2:19-22)

Sola Scriptura!

Solus Christus!

Sola Gratia!

Sola Fide!

Soli Deo Gloria!

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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Um alerta aos cristãos Josafás

Uma das pretensões de qualquer religião é ditar princípios que norteiam a vida de seus seguidores. Por causa disso, muitas vezes pensamos que os adeptos de uma dada religião são parecidos em suas crenças e opiniões, mas não é o que acontece. E isso pode ser visto no Brasil. Há cristãos conservadores e progressistas, puritanos e libertinos, comedores de carne e veganos.

Essa diversidade é um problema? Depende do assunto. A religião cristã é uma cosmovisão, uma forma de estruturar o modo como os cristãos deveriam viver e ver o mundo. Ela alcança todas as áreas da vida, desde o nosso leito conjugal até as responsabilidades esperadas de um Estado soberano. Há alguma liberdade? Continuar a ler

Brasil: pior do que Corinto

Nos Estados Unidos, os brasileiros são conhecidos por algumas características. As mulheres são muito desejadas (as mulheres mais bonitas do mundo, dizem). Já os homens têm uma fama bem ruim: infiéis, mulherengos e enganadores. Em geral, diz-se que o Brasil é um país de corpos bonitos, e as pessoas que vão ao Brasil e conhecem a realidade, voltam meio decepcionadas quando não encontram toda a beleza e a sensualidade que esperavam.

Na verdade, o brasileiro se orgulha disso. No país da malandragem, a sexualidade não poderia deixar de ser contaminada. Pureza, modéstia e simplicidade são defeitos. Os homens gostam da fama de terem muitas mulheres ou de atraírem o desejo de várias. Muitas mulheres também gostam de colocar fotos provocativas e de ganhar curtidas de homens nas redes sociais. Até na hora de escolher um cônjuge, muitos cristãos preferem a sensualidade à seriedade e à responsabilidade.

Inofensivo, certo? Pelo menos aqui não explodimos ninguém por causa da fé ou não vemos atiradores em escolas. Melhor ser sensual e alegre do que triste e depressivo, não é mesmo? Mas todo pecado leva à morte, como Paulo ensina em Romanos 3:23

porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.

E morte é exatamente o que encontramos quando vivemos uma sociedade onde o estupro coletivo parece tr se banalizado. Como se não bastasse o choque de uma adolescente ser estuprada por cerca de 30 pessoas, agora há a notícia de uma menina de 11 anos de idade que foi dopada e estuprada em uma festa junina de igreja católica! Pior: ela foi abusada por outros menores de idade.

O que produz isso? Creio que parte da resposta pode ser achada na primeira carta do apóstolo Paulo aos coríntios. O nosso texto-base segue abaixo:

Geralmente, se ouve que há entre vós imoralidade e imoralidade tal, como nem mesmo entre os gentios, isto é, haver quem se atreva a possuir a mulher de seu próprio pai. E, contudo, andais vós ensoberbecidos e não chegastes a lamentar, para que fosse tirado do vosso meio quem tamanho ultraje praticou?
Eu, na verdade, ainda que ausente em pessoa, mas presente em espírito, já sentenciei, como se estivesse presente, que o autor de tal infâmia seja,
em nome do Senhor Jesus, reunidos vós e o meu espírito, com o poder de Jesus, nosso Senhor, entregue a Satanás para a destruição da carne, a fim de que o espírito seja salvo no Dia do Senhor Jesus.
Não é boa a vossa jactância. Não sabeis que um pouco de fermento leveda a massa toda? Lançai fora o velho fermento, para que sejais nova massa, como sois, de fato, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento da maldade e da malícia, e sim com os asmos da sinceridade e da verdade. (1 Coríntios 5:1-8)

Quando a Igreja é pior que o mundo

Espera-se de uma igreja que, apesar de suas falhas, tenha um padrão de conduta superior ao da sociedade ao redor. Isso não deveria ser difícil no caso da cidade de Corinto. Lá ficava um grande templo dedicado à deusa Afrodite, e muitas sacerdotisas se prostituíam com os adoradores, como uma forma de culto. A cidade também era um porto, local de passagem de vários marinheiros que estavam longe da vista de suas esposas e entediados depois de semanas ou meses no mar. Em Corinto, o sexo estava no ar da cidade e intoxicava quem passava por lá.

Seria possível que alguma coisa pudesse chocar os coríntios? Sim. Na igreja de Corinto acontecia uma imoralidade sexual que não era tolerada nem mesmo entre os pagãos. Um homem da Igreja possuía a mulher do pai, provavelmente a madrasta. O fato estava na boca do povo e até Paulo, que nem estava na cidade, soube do escândalo.

Contudo, a Igreja não se lamentou e andava ensoberbecida, orgulhosa de si mesma e de sua suposta santidade. Enquanto uma família desmoronava sob o peso do escândalo, eles discutiam se os cristãos que oravam em línguas eram ou não mais espirituais qe os outros. O pecador não era constrangido. Ele não foi tirado do meio da Igreja. O seu pecado era conhecido e tolerado. E assim a Igreja tornava-se mais imoral que os pagãos.

threemonkeysÉ algo assim que faz do Brasil um país onde crianças são estupradas em uma festa de igreja. Mesmo na imoral Corinto havia limites. Certas práticas sexuais eram condenadas e reprimidas pela sociedade. O respeito pelo próprio pai era um desses limites. No Brasil, porém, o povo canta músicas que fazem apologia ao estupro. A nossa festa máxima é marcada pelos corpos nus e seminus expostos ao público, e por uma promiscuidade sexual que é elogiada pelos jornalistas. E o brasileiro se orgulha de ser quem é. “O melhor do Brasil é o brasileiro”, diz o ditado. Andamos ensoberbecidos e não afastamos os imorais do nosso meio.

Gostaria de dizer que os cristãos são diferentes, mas não parece ser o caso. Volta e meia descobrimos casos de adultério, abuso sexual e violência sexual mesmo em meio aos líderes. Há oficiais da Igreja que adulteram, a Igreja sabe, e eles não são confrontados. O menino “pegador” não é recriminado, nem pelos pais e nem pelos seus líderes. Falar da decência no vestir-se é pedir para ser chamado de fariseu.

A necessidade da disciplina

Entretanto, por mais difícil que seja confrontar alguém por causa de um pecado sexual tão escandaloso, essa confrontação é necessária. Omitir-se é pecado. Pior, é o pecado que permite que o mal crie raízes, seja repetido e aprofundado.

No caso da Igreja, a Bíblia é clara. Os irmãos que se envolvem em imoralidades sexuais tão graves devem ser retirados da comunhão. Tais pessoas devem ter suas carnes “entregues a Satanás”, na esperança de que a disciplina produza arrependimento e o espírito seja salvo no dia de Jesus. A restauração não pode acontecer se a justiça não for feita.

A Bíblia usa ainda uma outra figura: a do fermento. Não é preciso muito fermento para levedar toda a massa do pão. O que isso significa? É simples: quando toleramos um pouco de pecado, e não o confrontamos, não pregamos contra, não alertamos as pessoas sobre ele, esse pecado passa a fazer parte da cultura da Igreja. Ele se torna algo normal, um desvio que qualquer um pode cometer. E o mesmo vale para qualquer sociedade.

Na hipótese mais branda, os estupradores deveriam receber uma punição equivalente ao dano que eles provocaram. Mas isso não é suficiente. O velho fermento precisa ser jogado fora. O brasileiro tolera a sensualidade, o adultério, a prostituição e a promiscuiade como algo saudável e normal. Sim, até o adultério…quem nunca ouviu (e se calou) diante de um colega de trabalho que falou abertamente sobre as vezes em que traiu a esposa? Se não há nenhuma repreensão ou choque diante desses relatos, é porque o adultério já levedou também.

É preciso jogar fora a cultura da imoralidade, da sensualidade, da pornografia, do ficar, do baile funk e do sertanejo universitário, da arte que glorifica e exalta a imoralidade e é cantada e celebrada pelo povo como cultura. É preciso rejeitar esse vínculo identitário do brasileiro com a imoralidade. Isso não faz parte da nossa identidade, da nossa essência, do que somos. E confrontar e disciplinar adequadamente os imorais é uma ótima forma de começar isso.

Sinceridade e verdade

Mas apenas disciplinar não resgatará uma igreja ou um país de uma cultura de pecado. É preciso substituir um amor pelo outro. No caso, o amor pela maldade e pela malícia deve dar lugar ao nosso amor pela sinceridade e pela verdade. E isso só pode ser feito por meio de Jesus Cristo.

No texto que lemos, a Bíblia nos diz que precisamos ser “uma nova massa”. Depois que uma massa de pão fermenta, não há mais como retirar o fermento. É preciso fazer outra massa. Da mesma forma, uma vez que o pecado entra em nós, não há mais como redimir o nosso velho ego. Uma nova identidade, uma nova natureza, uma nova criação precisa ser feita. E apenas Jesus pode fazer isso.

Não há como rejeitar o estupro e tolerar a pornografia ou mesmo a música que canta um estupro. Não há como rejeitar a imoralidade sexual sem rejeitar também a maldade, a malícia, a mentira, a desonestidade e tudo o que compõe o nosso ego atual. É preciso jogar a massa fora, jogar a nossa identidade fora, negar radicalmente o que somos. E, então, permitir que Cristo faça de nós uma nova massa, marcada pela sinceridade e pela verdade.

Shmura_MatzoPor que a Bíblia fala dos pães asmos (sem fermento) aqui? A referência é ao sacrifício da Páscoa, quando os judeus imolavam um cordeiro e comiam pães asmos para relembrar o dia em que saíram do Egito, deixaram de ser escravos e se tornaram livres. Porque Cristo foi imolado na cruz, como o nosso Cordeiro Pascal, nós também podemos ser libertos da nossa escravidão ao pecado.

Se Cristo nos criar, nossos relacionamentos serão marcados pela sinceridade. Jogos românticos, estratégias para enganar, a busca de oportunidades para abusar do nosso próximo, nada disso terá lugar. Falsas promessas de amor não serão feitas. Pessoas que não estão prontas para assumir um relacionamento não poderão esconder isso de ninguém. A sinceridade não convive com disfarces.

A verdade não deixará lugar para a falsidade e a mentira. O amor não será fingido, mas verdadeiro. Não haverá motivos para a desconfiança. Quando o erro acontecer, ele será confessado. E nós poderemos perdoar, porque as intenções da confissão são verdadeiras.

Para refletir

Talvez você esteja pensando o quão distantes nós estamos de atingir esse padrão. De fato, somente Jesus pode amar e se relacionar assim. Mas, se Cristo é o nosso Cordeiro Pascal, o nosso Deus, e se nos alimentamos d’Ele, Ele fará de nós uma nova massa. Não importa o quão levedados pelo pecado nós somos, que coisas horríveis estão no nosso passado. Para vítimas e para criminosos, para todos nós, há a esperança de sermos uma nova massa. Cristo tem esse poder.

Enquanto isso, podemos refletir em algumas perguntas:

1) Que brechas tenho aberto para a sensualidade na minha vida pessoal? Tenho conversas ou ouço músicas que me ensinam a me relacionar de modo imoral? Vejo sites, programas de TV, filmes ou jogos que ensinam a imoralidade como algo normal?

2) Qual a gravidade que atribuo aos meus pecados sexuais? Será que os considero como algo inofensivo e que não pode crescer? Ou tenho dado a eles o peso que a Bíblia lhes dá?

3) Acredito mesmo no poder de Jesus para renovar todo o meu ser? Tenho buscado ler a Bíblia, orar e ter conversas que me ajudam a confiar n’Ele e renovar a minha mente?

4) O que desejo promover em meus relacionamentos: maldade e malícia ou sinceridade e verdade? Minhas ações e a forma como gasto meu tempo mostram que tenho promovido o quê?

5) Como minha igreja e minha comunidade tem tratado dos graves pecados que ocorrem em seu meio? O que posso fazer para ajudar a atingirmos o padrão bíblico sobre como lidar com graves pecados?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Gibeá é aqui

No Brasil, a quantidade de crimes chocantes é tão alta, que já se criou uma espécie de insensibilidade em relação à violência. Embora a imagem dos brasileiros seja a de um povo tranquilo, e até devoto, a verdade é que os níveis de pecado e de iniquidade são tão altos, que chegam a superar sociedades que foram destruídas na Bíblia por sua maldade. E isso fica claro quando ficamos sabendo de uma menina de 16 anos que foi estuprada por cerca de 30 traficantes de droga no “Morro da Barão”, no Rio de Janeiro.

Não, isso não aconteceu em lugares distantes e exóticos, como a Índia ou o Afeganistão. Aconteceu no Rio, e os estupradores ainda postaram fotos e vídeos gabando-se do que fizeram. Como é possível que um estupro coletivo seja comemorado e compartilhado em redes sociais? A que ponto chegamos?

Histórias assim nos lembram porque a Bíblia conta histórias igualmente escabrosas, como o estupro e assassinato da mulher do levita, narrado nos três últimos capítulos do livro de Juízes. Infelizmente, o retrato da sociedade brasileira lembra muito a Israel daqueles dias tão conturbados.

Desrespeito à mulher

Uma primeira caracteristica comum que podemos encontrar nos dois episódios é o desrespeito à mulher. Tanto lá como cá, ainda há pessoas que vêem as mulheres como seres inferiores aos homens, que acham que podem tratá-las como se fossem objetos, bens, uma espécie de posse. Apesar de separados por milênios, as duas histórias mostram uma inversão de papéis entre o homem e a mulher. A Bíblia ensina que a mulher deve ser protegida pelo homem. Mas, nos dois casos, a mulher é atacada por eles.

A história de Juízes começa com uma briga conjugal entre um homem da tribo de Levi e sua concubina. Esse status já a coloca em uma situação inferior, porque ela era mulher do levita, mas não tinha todos os direitos e honras devidos a uma esposa. Por algum motivo, a concubina deixa o levita e retorna à casa de seu pai. O levita vai atrás dela e consegue se reconciliar, e os dois voltam pra casa.

No caminho, eles precisam pernoitar em alguma cidade. O servo do levita sugere que eles parem em Jebus, uma cidade cananéia. Os cananeus eram conhecidos por sua pecaminosidade, como bem ilustra a Bíblia:

Depois que o Senhor, o seu Deus, os tiver expulsado da presença de você, não diga a si mesmo: “O Senhor me trouxe aqui para tomar posse desta terra por causa da minha justiça”. Não! É devido à impiedade destas nações que o Senhor vai expulsá-las da presença de você. Não é por causa de sua justiça ou de sua retidão que você conquistará a terra delas. Mas é por causa da maldade destas nações que o Senhor, o seu Deus, as expulsará de diante de você, para cumprir a palavra que o Senhor prometeu, sob juramento, aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó. (Deuteronômio 9:4-5)

O levita prefere evitar o perigo, e diz que eles irão andar até uma cidade de Israel. Em tese, o que se esperava é que os israelitas fossem mais piedosos do que os cananeus. Chegando na cidade de Gibeá, da tribo de Benjamim, eles são acolhidos por um senhor. E aí acontece um fato escabroso: o estupro e o assassinato da concubina:

Enquanto eles se alegravam, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, batendo à porta; e falaram ao velho, senhor da casa, dizendo: Traze para fora o homem que entrou em tua casa, para que abusemos dele. O senhor da casa saiu a ter com eles e lhes disse: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura. Porém aqueles homens não o quiseram ouvir; então, ele pegou da concubina do levita e entregou a eles fora, e eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e, subindo a alva, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro. (Juízes 19:22-26)
É claro que é difícil se colocar no lugar do homem velho. O que fazer quando dezenas de homens, mais novos do que você, se juntam e querem estuprar o seu hóspede? Talvez ele não pudesse evitar um grande ato de violência. Em seu desespero, ele considera a filha e a concubina como uma saída, e as oferece aos estupradores. Mais do que isso: ele mesmo entra em casa, pegou a mulher do levita e a entregou, do lado de fora, na mão dos estupradores. Aquele que se ofereceu para acolher e proteger, foi quem entregou a mulher aos seus abusadores.
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Igualmente chocante é a omissão do marido no meio de tudo isso. Ele poderia ter ido e morrido para salvar a sua mulher e o velho. Se tivesse feito isso, ele cumpriria com o seu chamado de marido, como a Bíblia deixa explícito séculos depois, em Efésios 5:25:
Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela
Esse “entregar” foi, literalmente, morrer. Jesus foi para a cruz morrer pela sua Noiva, a Igreja, para evitar que ela sofresse o juízo divino e fosse liberta do poder de Satanás, o Abusador-Mor dos seres humanos. Conscientemente, Jesus enfrentou torturas físicas e uma morte dolorosa, para nos poupar. É isso o que maridos devem fazer por suas esposas.
Porém, quando um homem é incapaz de assumir um relacionamento, a ponto de dar a ele a dignidade de um casamento, é difícil pensar que ele seja capaz de tal sacrifício. O levita não tentou impedir o velho. Ele não tentou negociar com ninguém. Ele ficou dentro de casa, sabendo que sua mulher estava sendo violentada. Ele esperou até o dia amanhecer para sair e ver a sua esposa. Ele deveria morrer por ela, mas ela morreu para salvar a vida dele.
O mesmo desprezo ocorreu no Morro da Barão. Homens que traficam drogas mostram que não se importam muito com a dignidade humana. São violentos. Usam armas para enfrentar as autoridades, dominam sobre uma comunidade como se fossem o Estado ali. Não é de se espantar que eles resolvam estuprar uma mulher. Felizmente, no caso brasileiro, a menina sobreviveu. Mas poderia ter morrido, como muitas outras que são vítimas de estupros e violências de todo tipo. Aliás, figuradamente, o que não faltam são mulheres que “morrem” para proteger, salvar ou confortar homens.
A proteção dos maus
Por si sós, os relatos são malignos o suficiente. Mas a maldade humana sempre pode descer mais alguns degraus. É o que acontece, de modo geral, no Brasil e naquele caso particular, retratado em Juízes.
Primeiro, vamos à Bíblia. Após a morte da sua mulher, o levita esquarteja seu corpo e o envia para as doze tribos de Israel. Elas se reúnem e o levita conta o que aconteceu. Os demais israelitas querem justiça. Mas, quando eles pediram que Gibeá lhes entregasse os malfeitores, o que aconteceu é estarrecedor:
As tribos de Israel enviaram homens por toda a tribo de Benjamim, para lhe dizerem: Que maldade é essa que se fez entre vós? Dai-nos, agora, os homens, filhos de Belial, que estão em Gibeá, para que os matemos e tiremos de Israel o mal; porém Benjamim não quis ouvir a voz de seus irmãos, os filhos de Israel. Antes, os filhos de Benjamim se ajuntaram, vindos das cidades em Gibeá, para saírem a pelejar contra os filhos de Israel. (Juízes 20:12-14)
A tribo de Benjamim se uniu para proteger os assassinos! Mais do que isso: os benjamitas pegaram em armas para lutar contra Israel! A atitude parece-se muito com a que certos setores da sociedade brasileira adotam em relação aos criminosos. Se um menor comete um crime bárbaro como esse (lembra do Champinha?), há quem defenda o estuprador e assassino. Se falamos em pena de morte, ou em prisão perpétua, há escritores, personalidades e até autoridades que se levantam para combater os que querem justiça. Quando um político é preso ou gravado por causa de crime, os companheiros do partido se levantam para condenar os policiais e juízes, e até fazem vaquinha para pagar multa aplicada a um ladrão.
Isso é muito grave aos olhos de Deus:
Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem. (Romanos 1:32)
Ali, Paulo descreve vários pecados cometidos em seu tempo. Entre eles, homicídios, imoralidades sexuais, contendas e a ausência de afeição natural e misericórdia. Só isso já seria grave. É óbvio que os que cometem tais crimes sabem da condenação divina: a sua consciência os acusa. Contudo, eles não apenas abafam a consciência, como chegam a aprovar os que procedem dessa maneira. Assim, cristalizam o pecado na sociedade.
Isso é mais comum do que parece. Os benjamitas protegeram os assassinos porque eles eram parentes, parte da mesma tribo. Não são só políticos que agem assim. Pais impedem que seus filhos sejam disciplinados quando erram porque…são seus filhos! Familiares de criminosos ocultam o parente e o ajudam a fugir da polícia. Mães de traficantes se calam e não entregam seus filhos, mesmo sabendo que eles estão se tornando cada vez mais violentos.
Jesus foi amigo de pecadores e deu a vida para salvá-los. Mas Jesus não morreu para que os pecadores simplesmente escapassem impunes da ira divina. Jesus não foi como os benjamitas, ele não lutou contra o Pai para evitar que a justiça divina nos alcance. Ao contrário, Jesus morreu para nos livrar do pecado de uma maneira que satisfizesse a justiça divina:
Deus o (Jesus) ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:25-26 NVI)
O pecado cometido precisa ser pago por alguém. Para que o perdão aconteça, alguém precisa absorver o dano. Jesus fez isso no lugar dos que crêem n’Ele. No último dia, se alguém perguntar quem vai pagar pelo estupro que sofreu, pelo roubo que foi cometido contra você ou por qualquer outro mal perpetrado pela Igreja, a resposta será: Jesus pagou. E isso não é injusto, porque, aos olhos de Deus, todos nós merecemos o inferno. O mesmo perdão dado a quem nos fez o mal também é oferecido a nós. A morte de Cristo é a demonstração da justiça de Deus para o nosso tempo.
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A impunidade mata
Mas, o que acontece quando o pecador é protegido da justiça? A resposta é: mais males vão acontecer. Ao contrário da crença comum do Ocidente contemporâneo, a ausência de confrontação e castigo do mal não põe fim ao ciclo de violência. A impunidade apenas traz mais mortes.
No livro de Juízes, as demais tribos de Israel lutaram, de fato, contra os benjamitas. Dezenas de milhares de pessoas perderam suas vidas, de ambos os lados. Benjamim foi quase que inteiramente destruída. Tivesse Benjamim entregue os estupradores e assassinos, apenas eles morreriam. A dor de todos os que realmente amavam a mulher não acabaria. Mas, quando um grupo protege um dos seus da justiça, o que acontece é que essa dor se espalha muito mais.
Ressalte-se que, quanto a isso, Israel não errou. Se o mal não for punido, ele será cometido novamente, e outros se sentirão motivados a praticá-lo. A punição evita que os simples se voltem para a maldade. O tema é recorrente no livro de Provérbios:
Homem de grande ira tem de sofrer o dano; porque, se tu o livrares, virás ainda a fazê-lo de novo. (Provérbios 19:19)
Quando o escarnecedor é castigado, o simples se torna sábio; e, quando o sábio é instruído, recebe o conhecimento. (Provérbios 21:11)
O mau, é evidente, não ficará sem castigo, mas a geração dos justos é livre. (Provérbios 11:21)
Quando o dano não é feito, quando o escarnecedor não é castigado, o resultado é um castigo ainda maior. Deus promete: “o mau não ficará sem castigo”. Se os homens se recusam a aplicar a justiça, Deus a aplicará, como ensina o próprio Novo Testamento:
é porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo, especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. (1 Pedro 2:9-11)
O que acontece hoje, no Brasil, é o mesmo que aconteceu com Benjamim. Porque nós nos recusamos a fazer o que Deus quer, a morte se alastra. Mais de 50 mil assassinatos por ano, sabe-se lá quantos estupros, latrocínios, quantas crianças sendo abusadas fisicamente, quantas mulheres sendo espancadas…e nos perguntamos por que a violência não para. A resposta é simples: somos desobedientes à Deus. Não estamos dispostos a enfrentar os maus e a arriscar nossas vidas para que a justiça seja feita. Somos o país da impunidade.
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Espera-se que a Polícia consiga identificar e prender os estupradores. Com certeza, vários deles já devem ter tido passagens pela polícia e foram soltos em algum momento, como aconteceu com vários outros. No Brasil, as vítimas sofrem uma vida inteira as suas perdas, enquanto os maus são protegidos por uma lei benévola. A impunidade é quase uma certeza.
Uma esperança
Mas, há alguma esperança para o Brasil? Sim, há uma: Jesus. Nele não apenas encontramos perdão para os nossos pecados e omissões, mas uma nova vida:
Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus. (1 Coríntios 6:9-11)
Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5:14-17)
Se Jesus é, de fato, o nosso Deus, então há perdão e há mudança para nós. Basta crer e se submeter a Ele. Ainda há tempo para os criminosos se humilharem diante de Deus, e escaparem do inferno, embora tenham que sofrer a justiça humana. Ainda há tempo do Brasil se arrepender, e voltar à lei de Deus, e pagar o preço que a justiça exige de nós. Em Cristo, há tempo.
Para refletir
1) Tenho tratado bem a todas as pessoas ou as tenho “matado” pelo meu bem-estar? Sou alguém que protege e está disposto a se sacrificar, ou alguém predisposto a exigir sacrifícios dos outros, para poupar-me?
2) Que perigos me levariam a colocar outras pessoas em risco? Tenho coragem para enfrentar os perigos que nos cercam?
3) Como tenho tratado meu cônjuge (ou namorada, ou namorado)? Dou a ele a honra que lhe é devida ou o trato como se fosse um concubino ou concubina?
4) Como tenho me posicionado diante da impiedade no nosso país? Sou alguém que busca a Justiça ou alguém que a evita?
5) No que as minhas atitudes tem refletido o posicionamento de Cristo quanto à violência contra a mulher e à impunidade?
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Foro privilegiado e o julgamento de líderes: uma reflexão bíblica

“Todos são iguais perante a Lei”, diz a Constituição do Brasil. Contudo, na prática, as coisas não parecem ser assim. Enquanto pessoas comuns são julgadas por juízes de primeira instância, as autoridades têm direito ao “foro privilegiado”. Dependendo do cargo que ocupam, as autoridades são julgadas por tribunais de instâncias superiores. Em princípio, esse privilégio visa defender o interesse público e não é algo pessoal, pois liga-se somente ao cargo, e não à pessoa que o ocupa.

Contudo, o foro privilegiado pode ser desvirtuado, como bem mostra a política brasileira atual. Nomeações como as de Carolina Pimentel são questionadas, pois usariam o foro privilegiado como uma maneira de escapar de investigações e pedidos de prisão. O caso mais notório é o do ex-presidente Lula, que foi nomeado ministro de Estado, supostamente para escapar de investigações da Operação Lava-Jato. No caso, a nomeação está sendo questionada no Supremo Tribunal Federal.

Não é à toa que o instituto do foro privilegiado está sendo questionado no Brasil. E o cristão, como deve se posicionar? A questão é mais complexa do que parece, e não pretendo dar um parecer definitivo e bem fundamentado aqui. Entretanto, creio que a Bíblia traz alguns princípios espirituais que ajudam nossa análise. Qual o ensino bíblico sobre o julgamento de líderes? Vamos usar 1 Timóteo 5 como nosso texto-base:

Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino. Pois a Escritura declara: Não amordaces o boi, quando pisa o trigo. E ainda: O trabalhador é digno do seu salário. Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam. Conjuro-te, perante Deus, e Cristo Jesus, e os anjos eleitos, que guardes estes conselhos, sem prevenção, nada fazendo com parcialidade. (1 Timóteo 5:17-21, grifos meus)

O princípio da honra

Presbíteros são os líderes da Igreja do século I. O termo significa “ancião” e também é usado para descrever os pastores. O primeiro ensino do texto é o de que os presbíteros que presidem bem devem ser merecedores de “dobrados honorários”. A palavra “honorários” pode ser traduzida como “avaliação pela qual o preço ‘fixado”, mas também tem o sentido de “honra, reverência, deferência”.

O princípio é o de que líderes devem ser honrados, principalmente quando executam bem a sua função e se ocupam de tarefas mais importantes. No caso de presbíteros, isso se aplica àqueles que são bons líderes e se dedicam à pregação e ao ensino da Bíblia. Essa honra se manifesta por meio do pagamento do salário, como um reconhecimento do trabalho feito por eles, e por meio do respeito e reverência que devemos a eles.

De modo análogo, as autoridades civis também têm o direito de serem remuneradas, por meio dos impostos. O trabalho delas é reconhecido pelo Senhor, que também exige de nós que lhes demos a honra que lhes é devida.

Por esse motivo, também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo, constantemente, a este serviço. Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. (Romanos 13:6-7)
O princípio do julgamento justo
A honra não livra as autoridades espirituais de responderem pelos seus atos. Presbíteros são líderes espirituais, mas que podem ser denunciados quando erram. A condição exigida no Novo Testamento é o de que mais de uma pessoa tenha testemunhado o fato.
Em princípio, isso parece ser uma espécie de “foro privilegiado”, mas o princípio das duas testemunhas é aplicado a todos os casos de disciplina bíblica, seja no Antigo ou no Novo Testamento:
Uma só testemunha não se levantará contra alguém por qualquer iniqüidade ou por qualquer pecado, seja qual for que cometer; pelo depoimento de duas ou três testemunhas, se estabelecerá o fato. (Deuteronômio 19:15)
Se teu irmão pecar contra ti, vai argüi-lo entre ti e ele só. Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão. Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas, para que, pelo depoimento de duas ou três testemunhas, toda palavra se estabeleça. (Mateus 18:15-16)
Esta é a terceira vez que vou ter convosco. Por boca de duas ou três testemunhas, toda questão será decidida. (2 Coríntios 13:1)
A exigência das duas testemunhas é uma forma de garantir um julgamento justo, e se aplica tanto a pessoas comuns (irmão), como a autoridades. É a regra geral para qualquer pecado cometido, como forma de se estabelecer um fato.
As autoridades civis também têm direito a um julgamento justo. Biblicamente, porém, esse direito é o mesmo dado a pessoas comuns.
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O princípio do exemplo
Líderes são exemplos para seus liderados. Se um líder não é punido quando comete uma falta grave, os liderados perdem o temor e começam a pecar. É exatamente o que acontece hoje no Brasil. Uma vez que as autoridades raramente são punidas, o brasileiro comum deixa de ver problema em cometer pequenos atos de corrupção. Ou pior: muitos partem mesmo para o crime. Não há meio mais eficaz de liderar do que o exemplo.
Por isso, quando os presbíteros “vivem no pecado”, a Bíblia ensina que eles devem ser repreendidos na frente de todos. É uma sentença mais rigorosa do que a de um cristão comum, que seria repreendido privadamente. Todavia, uma vez que o presbítero ocupa uma função pública e deve ser um referencial para a Igreja, ele é julgado com um rigor maior, “para que também os demais temam”. Quanto maior o conhecimento, ou a autoridade, mais rigoroso é o juízo:
Meus irmãos, não vos torneis, muitos de vós, mestres, sabendo que havemos de receber maior juízo. (Tiago 3:1)
As autoridades civis também respondem por seus atos e são julgadas quando erram. Não é porque Deus as constituiu que elas podem fazer o que quiserem. O Salmo 82 é uma grande prova dessa verdade:
1 Deus assiste na congregação divina; no meio dos deuses, estabelece o seu julgamento.
2 Até quando julgareis injustamente e tomareis partido pela causa dos ímpios?
3 Fazei justiça ao fraco e ao órfão, procedei retamente para com o aflito e o desamparado.
4 Socorrei o fraco e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios.
5 Eles nada sabem, nem entendem; vagueiam em trevas; vacilam todos os fundamentos da terra.
6 Eu disse: sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo.
7 Todavia, como homens, morrereis e, como qualquer dos príncipes, haveis de sucumbir.
8 Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações. (Salmo 82)
O princípio da imparcialidade
Um último princípio a ser analisado é o da imparcialidade. No texto-base, Paulo encerra suas recomendações a Timóteo sobre presbíteros, dizendo que ele não deveria fazer nada com parcialidade. Os conselhos que ele dá sobre as lideranças deve ser guardado sem prevenção, ou seja, sem reservas ou receio de se cometer algum erro.
Secularmente, a autoridade goza da presunção da honestidade. Presume-se que ela não errou, a não ser que exista prova em contrário. Nem sempre o cidadão comum é tratado assim, e precisa provar a sua inocência em alguns casos, além de ser julgado com maior rigor em certas situações. Na Igreja também somos tentados a tratar pastores e presbíteros da mesma maneira: a posição pressupõe um certo nível de integridade. Infelizmente, os cristãos “comuns” não gozam da mesma presunção, embora também se espere deles um certo nível de integridade.
Autoridades e pessoas comuns devem ser julgados imparcialmente, sem qualquer tipo de favorecimento. Se, por exemplo, a lei brasileira dá privilégios a autoridades e a pessoas com curso superior, a Bíblia não adota esse padrão em seus julgamentos.
Cristo: nosso modelo de líder
Parece-me claro que os princípios bíblicos parecem não validar o foro privilegiado. Entretanto, o argumento mais forte que encontro para me opor ao privilégio não está nos princípios acima, mas em Cristo Jesus.
Cada líder tem a missão de representar a Cristo dentro de sua esfera de poder. Isso vai desde o irmão mais velho cuidando dos menores até os reis e presidentes. Quando honramos os pais, por exemplo, isso nos lembra que devemos honrar muito mais a Deus e ao seu Filho. Jesus é aquele que julga com justiça. Ele é o exemplo perfeito de como devemos viver. E Ele é imparcial em seus julgamentos.
No entanto, o próprio Cristo foi julgado e condenado injustamente, apesar de sua perfeição! Se Cristo fosse uma autoridade do mundo, certamente ele teria tentado obter algum tipo de “foro privilegiado” para escapar. Jesus tinha o direito de fazê-lo, como Filho de Deus. Porém, Ele preferiu não usar seu privilégio:
Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos? Como, pois, se cumpririam as Escrituras, segundo as quais assim deve suceder?  Naquele momento, disse Jesus às multidões: Saístes com espadas e porretes para prender-me, como a um salteador? Todos os dias, no templo, eu me assentava [convosco] ensinando, e não me prendestes. Tudo isto, porém, aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas. Então, os discípulos todos, deixando-o, fugiram. (Mateus 26:53-56)
Respondeu Jesus: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui. (João 18:36)
Por amor aos seus liderados, Cristo não recorreu a anjos ou ministros. Ele aceitou ser julgado e até condenado em um julgamento injusto. Ele mostrou que o verdadeiro líder deve estar disposto até a morrer pelos seus! Na verdade, a condenação de Jesus é o motivo pelo qual nós somos salvos:
Pois também Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus; morto, sim, na carne, mas vivificado no espírito (1 Pedro 3:18)
Pense em como isso é diferente dos líderes que usam o foro pivilegiado para se protegerem, ainda que prejudicando a sociedade! As autoridades desse mundo querem usar o seu poder para se protegerem do povo. Cristo faz o oposto. Ele aceita sofrer o mais injusto dos julgamentos, com o maior rigor possível, para que nós fôssemos salvos.
Porque Ele sofreu e ressuscitou, líderes e liderados que erram e vivem no pecado podem ter esperança. Sim, até mesmo os políticos e magistrados brasileiros. Basta que se rendam ao Líder Supremo, à Autoridade Suprema, que é Jesus Cristo.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Aos cristãos em tempos de juízo

Quem não sonha com um futuro melhor? De todos os motivos que fazem as pessoas se levantarem da cama todos os dias, com certeza, esse é um dos mais comuns. Dias melhores também são um dos motivos mais poderosos para levar pessoas às igrejas. Muitos buscam a Deus porque cansaram de sofrer e precisam de esperança para continuarem lutando. A recompensa da fé e da obediência seria uma vida mais segura e feliz, com a bênção do Senhor.

Mas, o que fazer quando o futuro não será melhor que o presente ou o passado? Como acordar para viver quando há o risco real de perder o emprego, gerar um filho doente e ser assaltado por bandidos? Exagero? De modo algum. Essa é a realidade que o Brasil enfrenta hoje:

  • Uma grave crise econômica, que se estenderá por 2016…e talvez mais;
  • Mais de 1.700 casos de bebês com microcefalia por causa do vírus zika;
  • No ano passado, o Brasil foi o país do mundo com maior número de  homicídios: mais de 60 mil;
  • O vale do Rio Doce devastado pelo maior desastre ambiental de nossa História;
  • O maior escândalo de corrupção da nossa História.

“Ah, mas isso vai passar”. A questão é que não sabemos quando. Muitos brasileiros apostavam no impeachment da presidente Dilma Rousseff como um alívio para estes problemas. Trocar de presidente poderia ajudar a economia e provocar alguma pequena melhora no nosso quadro atual. Mas essa esperança tem se revelado cada vez mais frustrante.

É razoável imaginar que continuaremos com o mesmo governo…e os mesmos problemas. E os cristãos não escaparão ilesos. Mesmo buscando ao Senhor, haverá quem perderá o emprego, ganhará menos, sofrerá com a violência, enfrentará problemas de saúde e será vítima dos erros de outros.

Nesses momentos, precisamos nos lembrar que Deus é o Senhor de todas as coisas e possui um propósito em tudo o que faz. Em tempos de juízo, há lições a serem aprendidas, e elas são para o nosso bem. Como está escrito:

Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito.
Romanos 8:28

tristeza

1) Deus reina e julga as nações

 Por que uma nação é elevada e outra tratada com severidade? Humanamente, nós pensamos que isso ocorre porque um povo se esforçou mais que o outro. Tinha valores melhores, uma educação superior ou um mercado mais livre.  Temos a ilusão de que nós somos senhores de nosso destino.
Contudo, a Bíblia ensina que Deus é quem governa e preside as nações. E Ele também as julga com justiça:
Todos os confins da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor, e todas as famílias das nações se prostrarão diante dele, pois do Senhor é o reino; ele governa as nações.
Salmos 22:27,28
Digam entre as nações: “O Senhor reina! ” Por isso firme está o mundo, e não se abalará, e ele julgará os povos com justiça.
Salmos 96:10
No último dia, o Senhor julgará (e reprovará) todas as nações da Terra. Mas isso não quer dizer que Ele não faz nada até lá. Ao contrário, assim como nos dias do Antigo Testamento, Deus continua, até hoje, elevando e derrubando países. O Senhor julga os povos e prova o coração dos países e de seus governantes. O Brasil não é exceção.
O que precisamos fazer é aceitar isso e analisar porque o Senhor tem julgado o Brasil dessa maneira. Há muitos pecados, dentro e fora da Igreja, e eles não são tratados. Pior: tornam-se a norma que é ensinada nas escolas e universidades, como aconteceu com as questões sexuais e familiares. De igual modo, escolhemos corruptos para serem nossos príncipes. Certamente, parte da resposta passa por essa reflexão.

2) Toda autoridade procede de Deus

Recordemos: Deus é quem controla todas as coisas, inclusive quem terá autoridade sobre um determinado país. As eleições ou mecanismos de punição, como o impeachment, são apenas meios pelos quais Deus realiza a Sua obra. Falando de modo específico sobre o Governo, a Bíblia é claríssima:

Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas.
Romanos 13:1

Toda autoridade vem de Deus e é por Ele estabelecida. Mesmo quando a Bíblia falava de reis extremamente maus e cruéis, como Acabe ou Manassés, foi o Senhor quem os colocou como governantes. Isso precisa ser aceito por todos os cristãos. Se a presidente permanece no poder, é porque Deus a estabelece lá. E cabe a nós o dever de nos sujeitarmos a ela, dentro dos limites estabelecidos pela Palavra.

Sujeitar-se não significa, porém, que não podemos criticá-la. Na Bíblia, os profetas de Deus criticaram até mesmo reis bondosos e muito fiéis, como Davi. Também não significa que ordens contrárias à lei do Senhor devam ser obedecidas, como bem mostra o livro do profeta Daniel, por exemplo. Contudo, o dever de se submeter e obedecer continua em pé.

Eu mesmo prego e ensino que a autoridade deve ser respeitada, mesmo quando ela é má. Um mau pai ainda é pai e deve ser respeitado, assim como um mau pastor ou uma má mãe ou um mau marido. O mesmo também é verdadeiro sobre a má presidente ou o mau governador. Até Jesus se submeteu enquanto viveu, embora criticasse o comportamento dos sacerdotes. Nós precisamos fazer o mesmo, até para que sintamos compaixão quando vemos outras pessoas sofrendo debaixo da autoridade de maus chefes, maus pais, maus cônjuges…

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3) Ore: pelas autoridades e pelo Brasil

É preciso reconhecer que Deus está no controle de tudo, inclusive do que acontece de mau em nossa nação. Contudo, o Senhor não nos chama para termos uma atitude meramente conformista. Se Deus é quem governa e estabelece, é a Ele que devemos recorrer nos momentos difíceis. Nós temos este dever:

Antes de tudo, recomendo que se façam súplicas, orações, intercessões e ação de graças por todos os homens; pelos reis e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e pacífica, com toda a piedade e dignidade.
1 Timóteo 2:1,2

A Igreja precisa orar pelos seus governantes e por todo o povo! Se queremos uma vida tranqüila e pacífica, é preciso por os joelhos no chão e clamar…pelos outros! No Brasil, é muito comum que as pessoas se envolvam para orar por si mesmas ou por missões. Nesses momentos, clamamos e jejuamos. Mas não há o costume de orar pelas autoridades e pela nação.

Aqui eu gostaria de contar uma experiência pessoal que tenho tido na Redeemer Presbyterian Church. Todo culto há o que eles chamam de “Prayers of the People” ou “Orações do Povo”. Nesses momentos, a igreja ora pela cidade de Nova Iorque, pelos Estados Unidos e por outras nações. Quando há um grande crime ou ocorre um fato grave, a Igreja ora também. Nós oramos por Paris após o atentado. Ora-se constamente sobre a Síria. Em Washington, na Capitol Hill Baptist Church, também vi várias vezes o pastor orar e pedir pelos Estados Unidos.

A História mostra que igrejas também se envolveram com questões políticas e até com protestos, como ocorreu nos próprios Estados Unidos em relação ao racismo, e nos países do Leste Europeu quando deixaram o comunismo. Mas, antes disso, elas oravam. Elas faziam missas e cultos pela pátria. E isso as igrejas brasileiras não fazem.

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4) Arrependa-se

Por fim, é preciso olhar para a nossa própria maldade, antes de apontarmos o dedo para a maldade de nosso país e de nossos governantes. Sim: ANTES! O próprio Jesus nos ensina que primeiro devemos tirar a trave de madeira dos nossos olhos, para depois tentarmos tirar o cisco do olho de outros:

“Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.
Mateus 7:3-5

E há tantas traves e vigas em nossos olhos! As igrejas perderam o discernimento. Muitos falsos profetas, com heresias destruidoras, são aclamados como homens de Deus ou grandes sábios, enquanto ensinam a Teologia da Prosperidade e/ou transformam a graça de Deus em libertinagem. Os pecados não são confrontados por nossos sermões açucarados e pelo nosso medo de esvaziarmos nossos templos se pregarmos a verdade.

As famílias estão se esfacelando. Homens que se recusam a ser maridos e pais, e mulheres que não aceitam os mandamentos bíblicos para esposas e mães. Filhos que não são educados pelos pais e que vêem modelos invertidos de masculinidade e feminilidade. A promiscuidade sexual chega ao ponto de adolescentes das igrejas fazerem sexting, mandando fotos nuas a outros, agindo do mesmo modo que os adolescentes que não estão na igreja.

Orar apenas não basta: é preciso confessar e mudar! Como diz um texto bem famoso da Bíblia:

“Se eu fechar o céu para que não chova ou mandar que os gafanhotos devorem o país ou sobre o meu povo enviar uma praga, se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar e orar, buscar a minha face e se afastar dos seus maus caminhos, dos céus o ouvirei, perdoarei o seu pecado e curarei a sua terra.
2 Crônicas 7:13,14

A mudança do Brasil depende da purificação dos que se chamam de cristãos. É preciso que nos humilhemos diante do Senhor e confessemos o nosso pecado. É preciso orar e buscar a face de Deus. Temos que admitir o nosso fracasso e pedir que Jesus tome sobre si o nosso pecado e o pecado de nosso país.

Mas também é preciso se afastar dos maus caminhos. E isso é se arrepender, é mudar de vida. É o adúltero deixar as amantes e confessar seu pecado ao cônjuge. É o pai omisso encher-se de coragem e começar a falar e a ensinar sua casa, mesmo que ele seja ridicularizado pelos filhos no começo. É o marido insensível começar a fazer atos concretos de amor pela esposa, mesmo que ele não queira lavar a louça ou abrir mão do futebol para ouvir o que sua esposa tem a dizer.

E essa é uma obra de Jesus. Nós precisamos do Evangelho, para ressuscitarmos com Jesus e vermos o Espírito Santo formando o próprio Cristo em nós e nos fazendo mudar. Para isso, precisamos orar, ler a Bíblia, permitir a confrontação de amigos cristãos, buscar aconselhamento, nos tornarmos vulneráveis, chorar…mas o resultado é vida. É comunhão com Deus e paz de espírito, mesmo em meio ao sofrimento. É saber que o Justo Juiz está conosco, mesmo no meio de uma sociedade má e impura. E é ver isso transbordar e abençoar o nosso Brasil.

Que eu e você nos coloquemos nas mãos do Senhor, para sermos meios de graça para o nosso Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Mudar a presidente não é o suficiente

Escrevo este texto poucas horas depois do anúncio de que o Congresso Nacional acolheu a abertura do pedido de impeachment da presidente do Brasil, Dilma Rousseff. Para muitos, como eu, um eventual impeachment representa um alívio e uma esperança para o país, mergulhado em denúncias de corrupção, rombo nas contas públicas (um Governo que gasta muito mais do que arrecada com impostos) e uma grave crise econômica. Um novo presidente pode significar mudanças positivas que ajudem a reverter esse quadro tão negativo.

Contudo, o maior erro que podemos cometer é achar que o presidente certo será a salvação do Brasil, como se precisásssemos apenas de um novo líder. Mesmo que trocássemos, instantaneamente, todos os integrantes dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, ainda assim o Brasil estaria longe de deixar o seu atraso. Um golpe militar que desse a algum sábio ditador poderes absolutos ainda não seria suficiente para trazer o Brasil para o grupo dos países mais desenvolvidos do mundo.

Um país apodrecido

Nossa situação é muito parecida com aquela vivida pelo reino de Judá, no século VIII antes de Cristo. Veja em Isaías 1 como Deus avaliava o estado de seu povo naqueles dias.

Ai, nação pecadora, povo carregado de iniqüidade, descendência de malfeitores, filhos corruptores; deixaram ao Senhor, blasfemaram o Santo de Israel, voltaram para trás. Por que seríeis ainda castigados, se mais vos rebelaríeis? Toda a cabeça está enferma e todo o coração fraco. Desde a planta do pé até a cabeça não há nele coisa sã, senão feridas, e inchaços, e chagas podres não espremidas, nem ligadas, nem amolecidas com óleo.
Isaías 1:4-6

Demais? Vejamos: por dia, são assassinadas no Brasil mais de 150 pessoas. É mais que o número de mortes do conflito entre israelenses e palestinos. Na última década, o número de divórcios subiu 160%! Mais de 340 mil apenas em 2014. O Vale do Rio Doce e o litoral capixaba sofrem com a maior tragédia ambiental da nossa história. Não se respeita a vida, o casamento e a criação.

Na verdade, é interminável a lista dos graves pecados cometidos diariamente pelo brasileiro. Nosso emprego dos sonhos é o serviço público, porque ganha mais, trabalha menos e ainda tem estabilidade. Dito de outra forma, valorizamos mais a preguiça do que o trabalho. As crianças não respeitam os pais e a violência nas escolas explode. Aliás, os pais querem que as escolas eduquem os filhos, e a educação que o Estado quer oferecer é o marxismo e a ideologia de gênero, desconstruindo o modelo familiar ensinado na Bíblia. Os bandidos são presos e ficam em presídios lotados e imundos, e isso, quando o juiz não manda soltar! Mesmo os policiais são pegos quase todos os dias em casos de abuso de autoridade, execuções informais e até de conluio com o crime organizado.

Faltou tanta coisa ainda! O amor à sensualidade, o desleixo com a saúde pública (basta olhar o surto de bebês com microcefalia), o culto que gira em torno de dinheiro e prosperidade, a impunidade confundida com graça, o jeitinho que nunca segue regras, a glorificação do malandro…não é exagero algum dizer que, da planta do pé ao alto da cabeça, não há nada são no Brasil.

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Um povo apodrecido

No entanto, o brasileiro gosta de pensar que o problema está apenas na cabeça. O povo é bom, honesto e trabalhador. O único problema seria a elite política e empresarial corrupta que governa a Nação. Se os políticos e os empresários fossem trocados por gente do povo, o Brasil seria um país justo e ordeiro.

Outros, mais sofisticados, insistem que o nosso problema é “de cabeça”, de mente, de educação. Estamos presos a ideologias do atraso. Se aprendermos mais sobre política, economia, sociologia e filosofia, mudaríamos nossa forma de ser e agir. O Brasil seria um país de Primeiro Mundo, mas com seu tempero tropical.

Se, porém, levamos o texto bíblico e a realidade a sério, precisamos entender que o nosso problema é de cabeça e de coração. Não é apenas a elite que é corrupta. O povo também rouba. Também trai a mulher e abusa dos enteados. Também mata, estupra e espanca todo mundo em casa. O povo também gosta de sensualidade, drogas e dinheiro fácil. Não é apenas a educação do Brasil que é corrompida, mas também seu coração. Verdade seja dita: eu, você e mais um monte de cristãos amamos e valorizamos a vida fácil e detestamos o trabalho duro! Muitas vezes preferimos pecar e ter dinheiro no bolso do que ser santos e viver na miséria.

O primeiro passo para a mudança não é trocar de presidente: é aceitar o julgamento de Deus a nosso respeito! Precisamos parar de acreditar que somos a Israel fiel dos dias de Josué, de Davi ou de Salomão, que o Senhor gosta tanto de nós que Ele é brasileiro! Não! Somos o doente incurável que está diante do Senhor dos Exércitos.

Uma igreja apodrecida

E os protestantes e evangélicos que não se iludam, achando que todos os males do Brasil são culpa dos que não conhecem a Deus. Também sobre nós se aplica o que o Espírito Santo fala em Isaías 1:

De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios, diz o Senhor? Já estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; nem me agrado de sangue de bezerros, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecer perante mim, quem requereu isto de vossas mãos, que viésseis a pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação, e as luas novas, e os sábados, e a convocação das assembléias; não posso suportar iniqüidade, nem mesmo a reunião solene. As vossas luas novas, e as vossas solenidades, a minha alma as odeia; já me são pesadas; já estou cansado de as sofrer. Por isso, quando estendeis as vossas mãos, escondo de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Isaías 1:11-15

Não faz tanto tempo assim que saí do Brasil. Mas, pelo que me lembro, as igrejas do Brasil estão muito preocupadas com crescimento. De modo geral, todas as denominações desejam isso, o que muda é a receita. Algumas prometem prosperidade, desde que sejam trazidas gordas ofertas e dízimos generosos para o culto. Outros querem uma igreja simpática, que acolhe o pecador…e o pecado. Não disciplinam, não confrontam, não são explícitas quanto ao Evangelho…e o resultado é que o pecado está misturado com o culto solene. Os adoradores continuam com sangue nas mãos…o sangue das vítimas da violência, dos roubos, dos adultérios…e esse sangue nunca é lavado. Não há arrependimento. Apenas tolerância.

Era exatamente assim o culto nos dias do profeta Isaías. Os judeus pensavam que as ofertas cobririam os pecados. Que bastava sacrificar animais gordos e fazer cultos bonitos, que Deus ignoraria o pecado. A preocupação era toda exterior: ninguém examinava seus atos diante de Deus. O resultado: cultos e orações rejeitados por um Deus cansado de sofrer com o pecado de Seu povo.

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A única salvação possível

Humanamente, nem a Israel do século VIII a.C. e nem o Brasil do século XXI possuem esperança. O câncer já se alastrou e a infecção é generalizada. Mas Deus não é homem. Há uma solução:

Lavai-vos, purificai-vos, tirai a maldade de vossos atos de diante dos meus olhos; cessai de fazer mal. Aprendei a fazer bem; procurai o que é justo; ajudai o oprimido; fazei justiça ao órfão; tratai da causa das viúvas. Vinde então, e argüi-me, diz o Senhor: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã. Se quiserdes, e obedecerdes, comereis o bem desta terra. Mas se recusardes, e fordes rebeldes, sereis devorados à espada; porque a boca do Senhor o disse.
Isaías 1:16-20

Se houver mudança, se houver arrependimento, há purificação. Ainda que tenhamos derramado tanto sangue que nossa alma esteja vermelha escarlate, o Senhor nos tornará brancos como a neve. Se houver santidade, o cadáver insepulto reviverá.

Mas essa não é uma obra que eu e você possamos fazer. Para nós, com a nossa força, é impossível lavar-se e purificar-se. Mudar o coração está além de nossa capacidade. Todavia, o mesmo Isaías nos fala quem pode fazer isso por nós:

Verdadeiramente ele tomou sobre si as nossas enfermidades, e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus, e oprimido. Mas ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o Senhor fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. Isaías 53:4-6

Isaías falava a respeito de Jesus, o nosso Salvador, que tomou sobre si as nossas enfermidades, dores e pecados. O castigo por cada homicídio, adultério, idolatria, roubo e transgressão foi lançado sobre Jesus. Todos os que são salvos foram, um dia, ovelhas desgarradas e desviadas, mas Jesus sofreu no nosso lugar para nos trazer salvação.

Todavia, ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando a sua alma se puser por expiação do pecado, verá a sua posteridade, prolongará os seus dias; e o bom prazer do Senhor prosperará na sua mão. Ele verá o fruto do trabalho da sua alma, e ficará satisfeito; com o seu conhecimento o meu servo, o justo, justificará a muitos; porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso lhe darei a parte de muitos, e com os poderosos repartirá ele o despojo; porquanto derramou a sua alma na morte, e foi contado com os transgressores; mas ele levou sobre si o pecado de muitos, e intercedeu pelos transgressores. Isaías 53:10-12

Em Isaías 1:16-20, a Bíblia nos fala que, se quisermos e obedecermos, comeremos o bem desta terra. O que é isso, se não o bom prazer do Senhor? Só entra nesse prazer aqueles que fazem parte da posteridade de Jesus. O sofrimento de Jesus foi expiatório, ou seja, o sofrimento d’Ele aplacou a ira de Deus sobre o nosso pecado e nos tornou propícios a Deus.

Quando depositamos nossa fé em Jesus e aceitamos o Seu conhecimento, ou seja, a Sua Palavra, somos salvos. Jesus nos justifica e nos faz parte de Sua podteridade. Ele leva sobre si o nosso pecado e intercede por nós. E é por meio dessa amizade que somos transformados. É Cristo quem nos leva ao verdadeiro arrependimento e transforma nossas vidas sujas em algo mais branco que a neve.

Bem sei que é apenas no fim dos tempos que todos verão que Jesus é a Verdade. Até lá, os países não aceitarão serem governados por Cristo. Cedo ou tarde, a mesma podridão alcançará o mundo inteiro. Mas, enquanto isso não acontece, os povos que mais ouvem essa mensagem e seguem ao Senhor são mais preservados por Ele. Já os que não lhe dão ouvidos, mesmo que sejam materialmente prósperos, apodrecerão e sofrerão o juízo divino. E isso já está acontecendo.

Até lá, uno-me aos profetas que clamam: “Brasil, olha pra cima!”

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro