Gibeá é aqui

No Brasil, a quantidade de crimes chocantes é tão alta, que já se criou uma espécie de insensibilidade em relação à violência. Embora a imagem dos brasileiros seja a de um povo tranquilo, e até devoto, a verdade é que os níveis de pecado e de iniquidade são tão altos, que chegam a superar sociedades que foram destruídas na Bíblia por sua maldade. E isso fica claro quando ficamos sabendo de uma menina de 16 anos que foi estuprada por cerca de 30 traficantes de droga no “Morro da Barão”, no Rio de Janeiro.

Não, isso não aconteceu em lugares distantes e exóticos, como a Índia ou o Afeganistão. Aconteceu no Rio, e os estupradores ainda postaram fotos e vídeos gabando-se do que fizeram. Como é possível que um estupro coletivo seja comemorado e compartilhado em redes sociais? A que ponto chegamos?

Histórias assim nos lembram porque a Bíblia conta histórias igualmente escabrosas, como o estupro e assassinato da mulher do levita, narrado nos três últimos capítulos do livro de Juízes. Infelizmente, o retrato da sociedade brasileira lembra muito a Israel daqueles dias tão conturbados.

Desrespeito à mulher

Uma primeira caracteristica comum que podemos encontrar nos dois episódios é o desrespeito à mulher. Tanto lá como cá, ainda há pessoas que vêem as mulheres como seres inferiores aos homens, que acham que podem tratá-las como se fossem objetos, bens, uma espécie de posse. Apesar de separados por milênios, as duas histórias mostram uma inversão de papéis entre o homem e a mulher. A Bíblia ensina que a mulher deve ser protegida pelo homem. Mas, nos dois casos, a mulher é atacada por eles.

A história de Juízes começa com uma briga conjugal entre um homem da tribo de Levi e sua concubina. Esse status já a coloca em uma situação inferior, porque ela era mulher do levita, mas não tinha todos os direitos e honras devidos a uma esposa. Por algum motivo, a concubina deixa o levita e retorna à casa de seu pai. O levita vai atrás dela e consegue se reconciliar, e os dois voltam pra casa.

No caminho, eles precisam pernoitar em alguma cidade. O servo do levita sugere que eles parem em Jebus, uma cidade cananéia. Os cananeus eram conhecidos por sua pecaminosidade, como bem ilustra a Bíblia:

Depois que o Senhor, o seu Deus, os tiver expulsado da presença de você, não diga a si mesmo: “O Senhor me trouxe aqui para tomar posse desta terra por causa da minha justiça”. Não! É devido à impiedade destas nações que o Senhor vai expulsá-las da presença de você. Não é por causa de sua justiça ou de sua retidão que você conquistará a terra delas. Mas é por causa da maldade destas nações que o Senhor, o seu Deus, as expulsará de diante de você, para cumprir a palavra que o Senhor prometeu, sob juramento, aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó. (Deuteronômio 9:4-5)

O levita prefere evitar o perigo, e diz que eles irão andar até uma cidade de Israel. Em tese, o que se esperava é que os israelitas fossem mais piedosos do que os cananeus. Chegando na cidade de Gibeá, da tribo de Benjamim, eles são acolhidos por um senhor. E aí acontece um fato escabroso: o estupro e o assassinato da concubina:

Enquanto eles se alegravam, eis que os homens daquela cidade, filhos de Belial, cercaram a casa, batendo à porta; e falaram ao velho, senhor da casa, dizendo: Traze para fora o homem que entrou em tua casa, para que abusemos dele. O senhor da casa saiu a ter com eles e lhes disse: Não, irmãos meus, não façais semelhante mal; já que o homem está em minha casa, não façais tal loucura. Minha filha virgem e a concubina dele trarei para fora; humilhai-as e fazei delas o que melhor vos agrade; porém a este homem não façais semelhante loucura. Porém aqueles homens não o quiseram ouvir; então, ele pegou da concubina do levita e entregou a eles fora, e eles a forçaram e abusaram dela toda a noite até pela manhã; e, subindo a alva, a deixaram. Ao romper da manhã, vindo a mulher, caiu à porta da casa do homem, onde estava o seu senhor, e ali ficou até que se fez dia claro. (Juízes 19:22-26)
É claro que é difícil se colocar no lugar do homem velho. O que fazer quando dezenas de homens, mais novos do que você, se juntam e querem estuprar o seu hóspede? Talvez ele não pudesse evitar um grande ato de violência. Em seu desespero, ele considera a filha e a concubina como uma saída, e as oferece aos estupradores. Mais do que isso: ele mesmo entra em casa, pegou a mulher do levita e a entregou, do lado de fora, na mão dos estupradores. Aquele que se ofereceu para acolher e proteger, foi quem entregou a mulher aos seus abusadores.
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Igualmente chocante é a omissão do marido no meio de tudo isso. Ele poderia ter ido e morrido para salvar a sua mulher e o velho. Se tivesse feito isso, ele cumpriria com o seu chamado de marido, como a Bíblia deixa explícito séculos depois, em Efésios 5:25:
Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela
Esse “entregar” foi, literalmente, morrer. Jesus foi para a cruz morrer pela sua Noiva, a Igreja, para evitar que ela sofresse o juízo divino e fosse liberta do poder de Satanás, o Abusador-Mor dos seres humanos. Conscientemente, Jesus enfrentou torturas físicas e uma morte dolorosa, para nos poupar. É isso o que maridos devem fazer por suas esposas.
Porém, quando um homem é incapaz de assumir um relacionamento, a ponto de dar a ele a dignidade de um casamento, é difícil pensar que ele seja capaz de tal sacrifício. O levita não tentou impedir o velho. Ele não tentou negociar com ninguém. Ele ficou dentro de casa, sabendo que sua mulher estava sendo violentada. Ele esperou até o dia amanhecer para sair e ver a sua esposa. Ele deveria morrer por ela, mas ela morreu para salvar a vida dele.
O mesmo desprezo ocorreu no Morro da Barão. Homens que traficam drogas mostram que não se importam muito com a dignidade humana. São violentos. Usam armas para enfrentar as autoridades, dominam sobre uma comunidade como se fossem o Estado ali. Não é de se espantar que eles resolvam estuprar uma mulher. Felizmente, no caso brasileiro, a menina sobreviveu. Mas poderia ter morrido, como muitas outras que são vítimas de estupros e violências de todo tipo. Aliás, figuradamente, o que não faltam são mulheres que “morrem” para proteger, salvar ou confortar homens.
A proteção dos maus
Por si sós, os relatos são malignos o suficiente. Mas a maldade humana sempre pode descer mais alguns degraus. É o que acontece, de modo geral, no Brasil e naquele caso particular, retratado em Juízes.
Primeiro, vamos à Bíblia. Após a morte da sua mulher, o levita esquarteja seu corpo e o envia para as doze tribos de Israel. Elas se reúnem e o levita conta o que aconteceu. Os demais israelitas querem justiça. Mas, quando eles pediram que Gibeá lhes entregasse os malfeitores, o que aconteceu é estarrecedor:
As tribos de Israel enviaram homens por toda a tribo de Benjamim, para lhe dizerem: Que maldade é essa que se fez entre vós? Dai-nos, agora, os homens, filhos de Belial, que estão em Gibeá, para que os matemos e tiremos de Israel o mal; porém Benjamim não quis ouvir a voz de seus irmãos, os filhos de Israel. Antes, os filhos de Benjamim se ajuntaram, vindos das cidades em Gibeá, para saírem a pelejar contra os filhos de Israel. (Juízes 20:12-14)
A tribo de Benjamim se uniu para proteger os assassinos! Mais do que isso: os benjamitas pegaram em armas para lutar contra Israel! A atitude parece-se muito com a que certos setores da sociedade brasileira adotam em relação aos criminosos. Se um menor comete um crime bárbaro como esse (lembra do Champinha?), há quem defenda o estuprador e assassino. Se falamos em pena de morte, ou em prisão perpétua, há escritores, personalidades e até autoridades que se levantam para combater os que querem justiça. Quando um político é preso ou gravado por causa de crime, os companheiros do partido se levantam para condenar os policiais e juízes, e até fazem vaquinha para pagar multa aplicada a um ladrão.
Isso é muito grave aos olhos de Deus:
Ora, conhecendo eles a sentença de Deus, de que são passíveis de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que assim procedem. (Romanos 1:32)
Ali, Paulo descreve vários pecados cometidos em seu tempo. Entre eles, homicídios, imoralidades sexuais, contendas e a ausência de afeição natural e misericórdia. Só isso já seria grave. É óbvio que os que cometem tais crimes sabem da condenação divina: a sua consciência os acusa. Contudo, eles não apenas abafam a consciência, como chegam a aprovar os que procedem dessa maneira. Assim, cristalizam o pecado na sociedade.
Isso é mais comum do que parece. Os benjamitas protegeram os assassinos porque eles eram parentes, parte da mesma tribo. Não são só políticos que agem assim. Pais impedem que seus filhos sejam disciplinados quando erram porque…são seus filhos! Familiares de criminosos ocultam o parente e o ajudam a fugir da polícia. Mães de traficantes se calam e não entregam seus filhos, mesmo sabendo que eles estão se tornando cada vez mais violentos.
Jesus foi amigo de pecadores e deu a vida para salvá-los. Mas Jesus não morreu para que os pecadores simplesmente escapassem impunes da ira divina. Jesus não foi como os benjamitas, ele não lutou contra o Pai para evitar que a justiça divina nos alcance. Ao contrário, Jesus morreu para nos livrar do pecado de uma maneira que satisfizesse a justiça divina:
Deus o (Jesus) ofereceu como sacrifício para propiciação mediante a fé, pelo seu sangue, demonstrando a sua justiça. Em sua tolerância, havia deixado impunes os pecados anteriormente cometidos; mas, no presente, demonstrou a sua justiça, a fim de ser justo e justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:25-26 NVI)
O pecado cometido precisa ser pago por alguém. Para que o perdão aconteça, alguém precisa absorver o dano. Jesus fez isso no lugar dos que crêem n’Ele. No último dia, se alguém perguntar quem vai pagar pelo estupro que sofreu, pelo roubo que foi cometido contra você ou por qualquer outro mal perpetrado pela Igreja, a resposta será: Jesus pagou. E isso não é injusto, porque, aos olhos de Deus, todos nós merecemos o inferno. O mesmo perdão dado a quem nos fez o mal também é oferecido a nós. A morte de Cristo é a demonstração da justiça de Deus para o nosso tempo.
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A impunidade mata
Mas, o que acontece quando o pecador é protegido da justiça? A resposta é: mais males vão acontecer. Ao contrário da crença comum do Ocidente contemporâneo, a ausência de confrontação e castigo do mal não põe fim ao ciclo de violência. A impunidade apenas traz mais mortes.
No livro de Juízes, as demais tribos de Israel lutaram, de fato, contra os benjamitas. Dezenas de milhares de pessoas perderam suas vidas, de ambos os lados. Benjamim foi quase que inteiramente destruída. Tivesse Benjamim entregue os estupradores e assassinos, apenas eles morreriam. A dor de todos os que realmente amavam a mulher não acabaria. Mas, quando um grupo protege um dos seus da justiça, o que acontece é que essa dor se espalha muito mais.
Ressalte-se que, quanto a isso, Israel não errou. Se o mal não for punido, ele será cometido novamente, e outros se sentirão motivados a praticá-lo. A punição evita que os simples se voltem para a maldade. O tema é recorrente no livro de Provérbios:
Homem de grande ira tem de sofrer o dano; porque, se tu o livrares, virás ainda a fazê-lo de novo. (Provérbios 19:19)
Quando o escarnecedor é castigado, o simples se torna sábio; e, quando o sábio é instruído, recebe o conhecimento. (Provérbios 21:11)
O mau, é evidente, não ficará sem castigo, mas a geração dos justos é livre. (Provérbios 11:21)
Quando o dano não é feito, quando o escarnecedor não é castigado, o resultado é um castigo ainda maior. Deus promete: “o mau não ficará sem castigo”. Se os homens se recusam a aplicar a justiça, Deus a aplicará, como ensina o próprio Novo Testamento:
é porque o Senhor sabe livrar da provação os piedosos e reservar, sob castigo, os injustos para o Dia de Juízo, especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam em imundas paixões e menosprezam qualquer governo. Atrevidos, arrogantes, não temem difamar autoridades superiores, ao passo que anjos, embora maiores em força e poder, não proferem contra elas juízo infamante na presença do Senhor. (1 Pedro 2:9-11)
O que acontece hoje, no Brasil, é o mesmo que aconteceu com Benjamim. Porque nós nos recusamos a fazer o que Deus quer, a morte se alastra. Mais de 50 mil assassinatos por ano, sabe-se lá quantos estupros, latrocínios, quantas crianças sendo abusadas fisicamente, quantas mulheres sendo espancadas…e nos perguntamos por que a violência não para. A resposta é simples: somos desobedientes à Deus. Não estamos dispostos a enfrentar os maus e a arriscar nossas vidas para que a justiça seja feita. Somos o país da impunidade.
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Espera-se que a Polícia consiga identificar e prender os estupradores. Com certeza, vários deles já devem ter tido passagens pela polícia e foram soltos em algum momento, como aconteceu com vários outros. No Brasil, as vítimas sofrem uma vida inteira as suas perdas, enquanto os maus são protegidos por uma lei benévola. A impunidade é quase uma certeza.
Uma esperança
Mas, há alguma esperança para o Brasil? Sim, há uma: Jesus. Nele não apenas encontramos perdão para os nossos pecados e omissões, mas uma nova vida:
Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? Não vos enganeis: nem impuros, nem idólatras, nem adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrões, nem avarentos, nem bêbados, nem maldizentes, nem roubadores herdarão o reino de Deus. Tais fostes alguns de vós; mas vós vos lavastes, mas fostes santificados, mas fostes justificados em o nome do Senhor Jesus Cristo e no Espírito do nosso Deus. (1 Coríntios 6:9-11)
Pois o amor de Cristo nos constrange, julgando nós isto: um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou. Assim que, nós, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne; e, se antes conhecemos Cristo segundo a carne, já agora não o conhecemos deste modo. E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5:14-17)
Se Jesus é, de fato, o nosso Deus, então há perdão e há mudança para nós. Basta crer e se submeter a Ele. Ainda há tempo para os criminosos se humilharem diante de Deus, e escaparem do inferno, embora tenham que sofrer a justiça humana. Ainda há tempo do Brasil se arrepender, e voltar à lei de Deus, e pagar o preço que a justiça exige de nós. Em Cristo, há tempo.
Para refletir
1) Tenho tratado bem a todas as pessoas ou as tenho “matado” pelo meu bem-estar? Sou alguém que protege e está disposto a se sacrificar, ou alguém predisposto a exigir sacrifícios dos outros, para poupar-me?
2) Que perigos me levariam a colocar outras pessoas em risco? Tenho coragem para enfrentar os perigos que nos cercam?
3) Como tenho tratado meu cônjuge (ou namorada, ou namorado)? Dou a ele a honra que lhe é devida ou o trato como se fosse um concubino ou concubina?
4) Como tenho me posicionado diante da impiedade no nosso país? Sou alguém que busca a Justiça ou alguém que a evita?
5) No que as minhas atitudes tem refletido o posicionamento de Cristo quanto à violência contra a mulher e à impunidade?
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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