A geração que fracassou

Lembro-me que, quando era adolescente, havia uma grande expectativa sobre o que a minha geração poderia fazer para o Senhor. A Mocidade Para Cristo fez o desafio da Geração Compromisso, que se consagraria ao Senhor para a obra missionária. Eu imaginava que a minha geração seria um marco na História da Igreja brasileira, uma espécie de antes e depois, que teria o poder de transformar o Brasil em um país verdadeiramente evangélico. Seríamos a geração que superou os debates entre o pentecostalismo e o tradicionalismo, que incorporou uma linguagem contemporânea à comunicação do Evangelho, educados e com acesso às elites do país e com o ardor de coração necessário para trazer o avivamento ao Brasil.

Hoje, quase vinte anos depois, não há um marco visível do que a “Geração Compromisso” tenha produzido. A divisão entre tradicionais e pentecostais recrudesceu, agora no debate cessacionistas vs. carismáticos ou reformados e arminianos. O neopentecostalismo e a Teologia da Prosperidade continuam sendo os motores da igreja evangélica e aparecem no noticiário político, envolvidos nos escândalos de corrupção que envolvem o presidente da Câmara. É alarmante constatar o número de pessoas com idade entre 30 e 45 anos (minha geração) que passaram por divórcios. A maioria possui uma visão de mundo muito mais influenciada pela esquerda do que pelo Evangelho…e o resultado é que os ídolos da Geração Compromisso são Caio Fábio, Ricardo Gondim e Ed René Kivitz, cuja teologia aproxima-se da neo-ortodoxia, do liberalismo teológico e comportamental e pregam uma visão alternativa da Igreja. Aliás, a Geração Compromisso é desencantada tanto com a Igreja como com a Bíblia. Busca tanto uma igreja não institucional como uma interpretação mais livre das Escrituras.

O que aconteceu? Talvez a resposta esteja nos dois primeiros capítulos do livro de Juízes, que você pode ler aqui.

geracaocompromisso

A miscigenação ideológica no passado

Quando o povo de Israel saiu do Egito e foi para Canaã, a “Terra Prometida”, Deus deu ordem para que os israelitas não se aliassem aos cananeus e os destruíssem da terra. Embora pareça uma ordem dura, os cananeus eram violentos, queimavam os filhos a ídolos (consagrar a Moloque) e cometiam imoralidades sexuais que fariam um pedófilo corar de vergonha, a tal ponto que a Bíblia diz que a terra vomitava os cananeus.
O motivo era simples: se os cananeus convivessem com Israel, os hebreus aprenderiam os costumes de Canaã e os seguiriam. Entretanto, ao invés de obedecer, o que fez Israel?
Porém os filhos de Benjamim não expulsaram os jebuseus que habitavam em Jerusalém; antes, os jebuseus habitam com os filhos de Benjamim em Jerusalém, até ao dia de hoje. (Juízes 1:21)

Manassés não expulsou os habitantes de Bete-Seã, nem os de Taanaque, nem os de Dor, nem os de Ibleão, nem os de Megido, todas com suas respectivas aldeias; pelo que os cananeus lograram permanecer na mesma terra. Quando, porém, Israel se tornou mais forte, sujeitou os cananeus a trabalhos forçados e não os expulsou de todo. Efraim não expulsou os cananeus, habitantes de Gezer; antes, continuaram com ele em Gezer.

Zebulom não expulsou os habitantes de Quitrom, nem os de Naalol; porém os cananeus continuaram com ele, sujeitos a trabalhos forçados. Aser não expulsou os habitantes de Aco, nem os de Sidom, os de Alabe, os de Aczibe, os de Helba, os de Afeca e os de Reobe; porém os aseritas continuaram no meio dos cananeus que habitavam na terra, porquanto os não expulsaram. Naftali não expulsou os habitantes de Bete-Semes, nem os de Bete-Anate; mas continuou no meio dos cananeus que habitavam na terra; porém os de Bete-Semes e Bete-Anate lhe foram sujeitos a trabalhos forçados. Os amorreus arredaram os filhos de Dã até às montanhas e não os deixavam descer ao vale. Porém os amorreus lograram habitar nas montanhas de Heres, em Aijalom e em Saalabim; contudo, a mão da casa de José prevaleceu, e foram sujeitos a trabalhos forçados. (Juízes 1:27-35)
Reparem nas diferentes situações:
– Trabalhos forçados: os cananeus não foram destruídos, mas se tornaram escravos de Israel. A convivência continuava;
– Coexistência: nos casos das tribos de Manassés e Efraim, os cananeus continuaram em sua terra, junto com os hebreus. Cada um em seu território, mas como inimigos de força semelhante;
– Minoria: algumas tribos continuavam “no meio”. Os cananeus eram dominantes.
– Opressão: no caso de Dã, os israelitas foram oprimidos e confinados nas montanhas. Os cananeus dominavam e oprimiam.
Tudo isso aconteceu porque o povo de Israel desobedeceu a ordem divina. De perto, os cananeus não pareciam tão horríveis assim. Israel amou a Canaã e não quis destruí-la. No máximo, eles poderiam sobreviver como escravos.  Após algum tempo, o Senhor desistiu de destruir os cananeus. Israel falhou em sua missão:
Subiu o Anjo do SENHOR de Gilgal a Boquim e disse: Do Egito vos fiz subir e vos trouxe à terra que, sob juramento, havia prometido a vossos pais. Eu disse: nunca invalidarei a minha aliança convosco. Vós, porém, não fareis aliança com os moradores desta terra; antes, derribareis os seus altares; contudo, não obedecestes à minha voz. Que é isso que fizestes? Pelo que também eu disse: não os expulsarei de diante de vós; antes, vos serão por adversários, e os seus deuses vos serão laços. Sucedeu que, falando o Anjo do SENHOR estas palavras a todos os filhos de Israel, levantou o povo a sua voz e chorou. (Juízes 2:1-4)
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“Mulher Chorando”, de Pablo Picasso

A miscigenação ideológica do presente

No Novo Testamento, não há mais uma ordem para que a Igreja destrúa os que não acreditam em Cristo. Os cristãos devem viver no que a Bíblia chama de “mundo”, pregando o Evangelho e vivendo segundo Cristo, de modo a trazer outras pessoas para Jesus. Todavia, isso não significa que a separação tenha deixado de existir.
Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia. Lembrai-vos da palavra que eu vos disse: não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros; se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. (João 15:18-20)
Reparem no que diz Jesus: os discípulos d’Ele não pertencem mais ao mundo! Estamos vivendo no meio do mundo, mas não somos mais dele. Na verdade, os cristãos são odiados.
A Bíblia volta a reforçar isso em 1 João, de modo inverso. Os cristãos devem amar as pessoas que não são cristãs. Mas eles não devem amar aquilo que a Bíblia chama de “mundo”:
Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente. (1 João 2:15-17)
Os cananeus do Antigo Testamento são um tipo do mundo do Novo Testamento. Assim como os cananeus deveriam “passar”, o mundo passará. Como era impossível obedecer a Deus e conviver com os cananeus, também não há como amar o Pai e o mundo ao mesmo tempo.
Por que a “Geração Compromisso” fracassou em sua missão de mudar a Igreja no Brasil? Pelo mesmo motivo que os israelitas fracassaram nos dias dos juízes: amamos e preservamos os “cananeus”.
Amamos a Deus, mas também amamos o mundo. Não consideramos que a Bíblia ou o Evangelho são suficientes. Nós os complementamos com o mundo e sua sabedoria. Trouxemos a psicologia, a sociologia, o marketing, a filosofia e outras coisas para dentro da Igreja, do culto e até do discipulado. Na hora de educar os filhos, o Espírito Santo precisou disputar espaço com os valores pregados pelos educadores da televisão e o ensino guiado pelo Estado. A Bíblia não é suficiente, ela precisa da validação de algum erudito secular para ser aceita em seus termos.
Trocamos o amor sacrificial da Bíblia pela visão de amor das novelas, dos filmes, das séries…e, pior, dos sites de pornografia. Abandonamos o ensino bíblico sobre marido e mulher, sobre pais e filhos e fizemos pior do que nossos pais, que tanto condenávamos! Há mais efeminação, má educação e egoísmo em nossos filhos do que havia antes. E muito mais poderia ser dito sobre dinheiro, trabalho, sexualidade, relacionamentos…o amor ao mundo está impregnado em cada centímetro da nossa vida.

A solução: o libertador

A “Geração Compromisso” merece o juízo de Deus tanto como os hebreus que preservaram os cananeus. Merecemos a confusão, a crise existencial, a falta de bênçãos em nossas famílias, a desolação do Brasil…assim como eles. Mas, felizmente, Deus é bom e misericordioso.
Nos dias dos Juízes, após os cananeus se levantarem contra Israel e oprimirem os israelitas, Deus levantava juízes para livrar o Seu povo:
Quando o SENHOR lhes suscitava juízes, o SENHOR era com o juiz e os livrava da mão dos seus inimigos, todos os dias daquele juiz; porquanto o SENHOR se compadecia deles ante os seus gemidos, por causa dos que os apertavam e oprimiam. (Juízes 2:18)
Isso nos ensina que o poder de se livrar de nossos próprios erros não está em nós, mas no Senhor. Dependemos que Ele levante alguém para nos salvar. A “Geração Compromisso” precisa entender que ela não pode se resgatar de seus erros e fracassos. Contudo, nem mesmo juízes comuns eram capazes de manter Israel fiel ao Senhor:
Sucedia, porém, que, falecendo o juiz, reincidiam e se tornavam piores do que seus pais, seguindo após outros deuses, servindo-os e adorando-os eles; nada deixavam das suas obras, nem da obstinação dos seus caminhos. (Juízes 2:19)

Precisamos de um novo juiz. Um que viva para sempre e cujos dias nunca tenham fim. Um que seja Eterno e Perfeito. Um que possa nos livrar não apenas de inimigos externos, mas dos nossos próprios afetos e sentimentos enganosos e do nosso amor desesperado pelo mundo e suas coisas. Precisamos de Jesus:

A este ressuscitou Deus no terceiro dia e concedeu que fosse manifesto, não a todo o povo, mas às testemunhas que foram anteriormente escolhidas por Deus, isto é, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressurgiu dentre os mortos; e nos mandou pregar ao povo e testificar que ele é quem foi constituído por Deus Juiz de vivos e de mortos. Dele todos os profetas dão testemunho de que, por meio de seu nome, todo aquele que nele crê recebe remissão de pecados. (Atos 10:40-43)
Pense bem: onde está o seu coração? O que vale mais: ser feliz em relacionamentos românticos condenados pelo Senhor ou desfrutar do amor do Pai? Prosperar como funcionário público e medir sua felicidade pelo sucesso material atingido ou prosperar espiritualmente, gastando tempo com Jesus e crescendo em santificação? Ser aprovado pelos colegas do trabalho e pelos amigos que vieram da época do colégio ou por Cristo?
Não espero que eu e a minha geração mudem coisa alguma na história da Igreja brasileira. Apenas suplico que nós, eu e eles, nos voltemos para os apóstolos que testemunharam na Bíblia sobre Jesus, que creiamos neles e nos profetas, e sejamos todos resgatados (redimidos) de nossos pecados por meio de Cristo Jesus.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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