Como matar um cristão de sede?

Qualquer pessoa que tenha lido a Bíblia com um mínimo de seriedade já lutou contra algum texto que lhe parecia muito difícil…de entender ou de viver. Na verdade, isso é esperado de um livro sagrado: se ele fosse fácil como um livro de auto-ajuda, ele não poderia ter uma origem divina. Mas é frustrante quando algumas passagens continuam enigmáticas ao longo dos anos, por mais que você leia e releia, ore e converse com outras pessoas. Com certeza, há algumas que nunca entenderemos nessa vida.

É o que acontece comigo e um trecho muito conhecido do Evangelho de João:

Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna. (João 4:13-14)

Quando li a primeira vez, imaginava que, como um cristão, não sentiria falta de coisa alguma. Não teria dentro de mim nenhum vazio ou frustração. Haveria sempre um certo contentamento que me satisfaria em qualquer circunstância. Bom, aqui estou eu, mais de 20 anos após a minha conversão…e quem me conhece sabe que carrego frustrações, vazios, arrependimentos…sinto uma sede indefinida que parece nunca ser saciada e que, por vezes, parece me sufocar. Começa então uma verdadeira batalha interior: mas será que essa palavra de Jesus é verdadeira? Por que então a sede? Mas o Espírito Santo não deveria jorrar para sempre em meu interior?

seca

Creio que não estou sozinho. Deve haver outros, como eu, que leram o Evangelho de João, olharam para a própria vida e também vivem uma luta visceral com essa fala de Jesus. Não que eu tenha encontrado a resposta. Mas, recentemente, o Senhor me deu um vislumbre do início da resposta.

Leia a passagem com atenção
Aprendi nos seminários que 90% do trabalho do estudioso da Bíblia é a observação. E, ao ouvir um sermão de Tim Keller sobre amor e luxúria (está na lista do podcast dele), ele chamou a minha atenção para algo que nunca havia percebido. Se você não conhece a história da mulher samaritana, leia todo o capítulo 4 do Evangelho de João. Aqui eu só vou destacar alguns versículos:

Nisto, veio uma mulher samaritana tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Pois seus discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos.

Então, lhe disse a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana (porque os judeus não se dão com os samaritanos)?

Replicou-lhe Jesus: Se conheceras o dom de Deus e quem é o que te pede: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva.

Respondeu-lhe ela: Senhor, tu não tens com que a tirar, e o poço é fundo; onde, pois, tens a água viva? És tu, porventura, maior do que Jacó, o nosso pai, que nos deu o poço, do qual ele mesmo bebeu, e, bem assim, seus filhos, e seu gado?

Afirmou-lhe Jesus: Quem beber desta água tornará a ter sede; aquele, porém, que beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede; pelo contrário, a água que eu lhe der será nele uma fonte a jorrar para a vida eterna.

Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.

Disse-lhe Jesus: Vai, chama teu marido e vem cá; ao que lhe respondeu a mulher: Não tenho marido.

Replicou-lhe Jesus: Bem disseste, não tenho marido; porque cinco maridos já tiveste, e esse que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. (João 4:7-18)

Ora, mas que coisa estranha! Reparem: Jesus fala da água viva, a água que mata a sede para sempre. Ele diz à samaritana que ela pode pedir essa água. Ela vai e pede…e Jesus a manda chamar o marido!

Na verdade, Jesus estava começando a dar a ela a água viva, a água que mata a sede! Ele começou a fazer isso apontando o pecado da samaritana. Ele começou a fazer isso quando a confrontou sobre a legitimidade do seu relacionamento romântico, quando apontou como aquela mulher havia fracassado em cinco casamentos e havia escolhido viver em um relacionamento fora da vontade de Deus. Não é possível ter o Espírito Santo fluindo em nossa vida e saciando a nossa profunda sede existencial enquanto o nosso pecado não for tratado!

Se continuarmos lendo João 4, veremos que a confrontação do pecado levou a mulher a reconhecer seu erro e a começar a enxergar a autoridade de Jesus. Ela se interessa por adoração, mostra desejo de conhecer o Messias, aquele que explicaria todas as coisas, e aí ela tem a revelação de que Jesus é o Messias, o Ungido, o Salvador prometido no Antigo Testamento. Todo esse processo de iluminação e de revelação sobre quem é Jesus começou quando o Senhor apontou o pecado que precisava ser tratado e tocou naquela área de sua vida em que ela não tinha mais esperanças ou que ninguém achava que pudesse ser consertada.

A seguir, ela vai e testemunha de Jesus a toda a sua cidade. Quando os habitantes de Sicar saem e questionam a Jesus, todos são iluminados e transformados. A fonte encheu o coração da samaritana e transbordou para alcançar os seus vizinhos.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Matando de sede
E daí eu encontro uma resposta para os vazios que ainda carrego comigo. Se quero matar minha sede, devo ir até Jesus e dizer “onde estão meus maridos”. Devo admitir o meu pecado. Devo deixar que o Senhor me questione e que Ele me fale a verdade, ainda que seja doloroso ouvi-la. Mesmo sendo pastor, não posso mentir: há vários pecados e quartos escuros na minha vida que não foram expostos e tratados. E, enquanto isso não acontecer, a fonte será apenas um fio d’água a correr.

Creio que isso acontece com muitos outros, por dois motivos básicos. Comecemos pelo motivo mais “piedoso”. As igrejas não sabem lidar com o pecado de seus fiéis. Quando as pessoas realmente nos contam sobre sua ira que não passa, sobre suas dificuldades sexuais e afetivas, sobre a tristeza mórbida que sentem e cultivam…raramente vamos além de uma breve oração sobre o assunto. Não temos conselheiros sábios e pacientes em quantidade suficiente para conversar conosco, assim como Jesus conversou com a samaritana, e tratar dos nossos pecados. Falando como pastor, admito que é muito mais fácil organizar uma conferência de 10 dias sobre um tema doutrinário difícil do que aconselhar um único adolescente que não consegue parar de se masturbar e ver pornografia na Internet. Organizar dois acampamentos de Carnaval, ao mesmo tempo, é infinitamente mais fácil do que dar um conselho útil a um casal que está passando por uma crise conjugal. É preferível escrever uma monografia sobre a carta aos Romanos do que ajudar uma vítima de abuso sexual a superar o que houve e se relacionar afetivamente com alguém.

Mas há um motivo bem menos “piedoso” para matar os cristãos de sede: o medo deles fugirem e esvaziarem a Igreja. Minha leitura pode até estar errada, mas todos estão muito mais preocupados em ter uma igreja cheia do que em ter uma igreja saudável. A maioria dos pastores e presbíteros prefere uma igreja cheia de cristãos que vivem no pecado e estão espiritualmente sedentos do que uma igreja pequena e vazia de cristãos que estão sendo confrontados e tratados a deixarem o pecado. Temos medo de “dar nome aos bois” e ver as ovelhas abandonando a Igreja porque estão ofendidas com a confrontação. Amamos mais a quantidade do que qualidade. Preferimos ministrar a grandes auditórios do que perder horas e horas, por meses a fio, com uma única pessoa em luta contra a pornografia ou a compulsão por comida. Nos tornamos uma igreja industrial.

Se queremos mudar, é preciso que todos façam uma reflexão. Se você é uma “ovelha” em luta contra o pecado, precisa entender que o seu pecado deve ser nomeado, apontado, exposto e tratado pelo Senhor. Deve orar pedindo ao Senhor que mande alguém ajudá-lo (ou ajudá-la) a desobstruir o caminho que a fonte do Espírito fará em sua vida. Deve se dispor a isso.

Se você é um(a) líder, seja pastor, presbítero, diácono, presidente de mocidade ou o que quer que seja…é preciso entender que Jesus nos chama para conduzir os cristãos a uma vida plena. E não basta apenas pregar sobre isso, dizer que Deus tem um plano maravilhoso para a vida das pessoas e que Ele tem uma abundância espiritual e existencial a nos oferecer. É preciso ir do evangelismo para a verdadeira comunhão. É preciso conhecer as pessoas a ponto de saber qual o pecado delas e de orientá-las. É preciso perder o medo de desagradar as pessoas e se lembrar que os verdadeiros filhos de Deus querem ser tratados, e não fugirão! E, se nos falta conhecimento, devemos humildemente orar, estudar e pedir ajuda de outros líderes…até que saibamos o que fazer quando pecadores pedem a nossa ajuda para que a fonte do Espírito Santo jorre, de uma vez para sempre, em seus corações.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Anúncios

One thought on “Como matar um cristão de sede?

  1. Realmente, desse texto eu gostei muito! Muito mesmo!! Especialmente por ver o reflexo cristalino dessa água que mata toda a sede e conduz à vida eterna brilhar em você!

    Você comentou que permanecemos sedentos porque as igrejas não sabem (motivo piedoso) ou não querem (motivo não piedoso) oferecer a água, auxiliando na identificação de pecados, restaurando fiéis e curando o Corpo de Cristo. Entretanto, eu creio que talvez exista um terceiro motivo… ou pelo menos um desdobramento do seu motivo piedoso. Muitos pastores e líderes não saciam seus fieis porque eles mesmos não conheceram a plenitude da satisfação que há em Cristo Jesus. E não podemos oferecer nada que não temos! Analogamente, é como querer tirar R$ 50,00 para serem ofertados, mas de uma carteira vazia! Impossível!

    A Bíblia nos ensina que a boca fala do que está cheio o coração. Então, quem ainda não encontrou confronto, perdão e cura para si, não tem como oferecer tais maravilhas a ninguém! E não é esse o cenário da igreja de hoje?! Uma igreja que tanto busca se inserir no mundo, que termina a se parecer com ele. Se vivemos numa sociedade que mata sua sede pelo consumo de bens e serviços, a igreja busca saciar-se também no consumo, mas de pecados!

    Outro ponto que me chamou atenção em seu texto está relacionado a nossa emblemática diferença! hehe Será que o confronto e a correção têm necessariamente que gerar desagrado? Concordo integralmente que “o pecado deve ser nomeado, apontado, exposto e tratado pelo Senhor”, como disse. Entretanto, não é daí que vem a água que nunca mais nos permite ter sede? E a nossa saciedade não é consequência do grande amor de Deus por nós?

    É claro que, na maior parte das vezes, aquele que é “pego no pecado” ou “tem suas intimidades expostas”, de alguma forma e em algum nível, tende a não gostar, espernear e até querer se afastar. Entretanto, mais do que coragem para apontar os pecados, creio que nos falta (a Igreja – pastores, líderes, todos nós) é amor suficiente pelas pessoas, ao ponto de desejarmos ardentemente sua cura e restauração! Ao ponto de passarmos nossos braços ao redor da criança esperneando até que ela pare e sinta apenas o aconchego do abraço! Ao ponto de nós mesmos olharmos para nosso interior e verdadeiramente refletirmos quanto de água viva já corre em nossos corações, ou se nossos “maridos” ainda estão a consumir a pouca água que buscamos!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s