Lembrem-se dos pobres

Quando o mundo pensa em pobreza, o Brasil não aparece mais no imaginário coletivo. Ao contrário de muitos países africanos e asiáticos, o Brasil é visto como uma “potência emergente”, uma terra cheia de oportunidades e riquezas. Para haitianos, nigerianos e estrangeiros de outras nacionalidades, o Brasil é atrativo o suficiente para valer o risco de se contratar “coiotes” para tentar viver aqui. Não somos mais vistos como um país “coitado” que deve ser visto com leniência, e sim como um país pronto a assumir mais responsabilidades e gerar riquezas.

Contudo, apesar de todo o progresso material acontecido no Brasil, ainda temos 16 milhões de pessoas vivendo na pobreza, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). É muita gente, cerca de 8,5% da população do país. O assunto é tão valorizado no Brasil que não é exagero dizer que o Bolsa Família, um programa governamental de combate à pobreza, decidiu as eleições presidenciais de 2014. Apesar de todos os escândalos de corrupção e dos problemas econômicos tratados na campanha eleitoral, o Bolsa Família foi decisivo porque 1 em cada 4 brasileiros depende do benefício, mais de 45 milhões de pessoas.

Se formos pensar em quantos brasileiros são dependentes de outros benefícios do Governo, como o seguro-desemprego, é inevitável perguntar: quantos pobres existem no Brasil? Aliás, o que é ser pobre? É apenas uma questão de renda ou envolve, por exemplo, a capacidade de conseguir se sustentar sem depender da ajuda de outros ou do Governo? Porque, se a pobreza e a dependência estão relacionadas, o Brasil é um país profundamente pobre, onde talvez um terço ou mais das pessoas dependa de outros para o seu sustento.

favelajacarta

A pobreza é um assunto extremamente relevante no Brasil, muito mais do que parece. Temos que começar discutindo o que é pobreza e como quantificá-la, com honestidade. Pra mim é óbvio, mas é preciso mostrar à sociedade que tornar um número tão grande de pessoas dependentes do Governo não é um caminho que elimina a pobreza, mas que a preserva. Temos que pensar em formas de reduzir essa dependência. Ignorar esse assunto é ser cego ao fato de que, para o brasileiro, a pobreza é um problema mais sério que a corrupção e a criminalidade. Se fosse diferente, outro candidato teria vencido as eleições de 2014.

Mas as igrejas protestantes insistem em subdimensionar essa questão.

Jogando o problema para outros
Quando falamos em pobreza, basicamente a resposta dos protestantes é a de passar o problema adiante, como se fosse uma batata quente em nossas mãos. A postura política explica pra quem jogamos a batata.

Os que estão mais à esquerda querem que o Estado resolva o assunto. Querem mais programas sociais do Governo e profissionais contratados pelo Estado para cuidarem do problema. Defendem que os necessitados devem procurar a Igreja e serem encaminhados para algum programa governamental. Simples assim, sem muito envolvimento. Quando a igreja tem algum trabalho social, logo procuram uma parceria com o Estado para receber recursos financeiros do Governo e livrar os fiéis da responsabilidade de financiar a caridade. Não importa se, para isso, é preciso desvincular o trabalho social da igreja, se é preciso esconder qualquer referência a Cristo…escondemos a Deus e a Igreja para termos o dinheiro do Governo.

Os que estão mais à direita jogam a batata no colo do pobre. Eles defendem, corretamente, que o dever do Estado é o de promover uma sociedade onde cada um tenha a liberdade de fazer a própria vida e receba, de volta, o resultado de seu esforço individual. Mas negligenciam que há um dever cristão, que o Senhor exige de todos os seres humanos, de amar ao nosso próximo.

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)

E o que é amar? Amar é abrir o coração (e o bolso) e socorrer aos que estão necessitados:

Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. (1 João 3:17-18)

Mais do que isso. A fé que salva é uma fé que faz obras. Biblicamente, as obras são maiores do que a caridade, pois envolvem todos os atos de obediência ao Senhor. Contudo, é inegável que a caridade é mostrada, claramente, como um exemplo de boas obras! Uma fé insensível aos pobres não tem utilidade e não é a fé que nos salva.

Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante fé salvá-lo? Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta. (Tiago 2:14-17)

Vejam bem, os versículos acima são um lembrete a todos, à esquerda e à direita, que a caridade é um dever de todos, mas principalmente dos que são cristãos. Essa batata quente é nossa. É uma responsabilidade individual. Não pode ser delegada ao Estado ou ao pobre! E não deve ser negligenciada.

O lugar da caridade na missão
O meio bíblico de lidar com o problema da pobreza é a caridade (falo mais sobre isso aqui). Ser caridoso é um dos traços do amor e da fé verdadeiros. Com toca a certeza, é uma das questões que merecem a nossa atenção. Mas não é a questão mais séria que deve ocupar a Igreja. E quem ensina isso é o próprio Jesus, quando Maria, a irmã de Lázaro, derrama um perfume caro sobre Ele. Jesus nos ensina que adorá-Lo tem prioridade sobre o cuidado com os pobres.

Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo. Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres? Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava. Jesus, entretanto, disse: Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes. (João 12:3-8)

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua. (Marcos 14:6-9)

Também é verdade que a principal ocupação dos apóstolos era a oração e o ensino da Palavra de Deus. Por analogia, os pastores também devem ocupar-se principalmente com tais deveres. Orar e ministrar a Bíblia tem precedência sobre o “servir as mesas”, que é a prática da caridade dentro da Igreja. Porém…e esse porém é muito importante…o cuidado com os pobres era tão importante que pessoas honestas deveriam ser eleitas pela Igreja para este fim!

Então, os doze convocaram a comunidade dos discípulos e disseram: Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir às mesas. Mas, irmãos, escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. (Atos 6:2-4)

E aqui é preciso corrigir um erro grosseiro de interpretação. “Piedosamente”, muitos pastores e presbíteros esquivam-se de um envolvimento maior com a caridade porque essa não seria a função deles. “Há diáconos eleitos para isso”, dizem. Contudo, quando lemos outros textos, vemos que os apóstolos também faziam caridade. A fala de Judas Iscariotes em João 12 não mostra apenas que ele era desonesto, mas mostra que era comum que se usasse parte do dinheiro dado a Jesus para ajudar os necessitados. E um apóstolo cuidava disso. Quando Paulo foi até Jerusalém apresentar seu trabalho apostólico aos Doze, recebeu uma recomendação bem específica:

e, quando conheceram a graça que me foi dada, Tiago, Cefas e João, que eram reputados colunas, me estenderam, a mim e a Barnabé, a destra de comunhão, a fim de que nós fôssemos para os gentios, e eles, para a circuncisão; recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos pobres, o que também me esforcei por fazer. (Gálatas 2:9-10)

Assim como hoje há “pastores-mestres” (mais dedicados ao ensino), “pastores-conselheiros” (especialistas em aconselhamento) e até “pastores-administradores” (uma função mais típica de presbíteros regentes), por que não “pastores-diáconos” ou “presbíteros-diáconos”? A liderança da Igreja também precisa se envolver!

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Aplicações
Vamos recordar alguns pontos:

– A caridade é uma marca do amor verdadeiro e da fé que salva;
– A caridade é uma responsabilidade individual, de todos, e não pode ser simplesmente transferida a outros;
– A caridade é tão importante que a Igreja deve eleger homens que se dedicarão, especialmente, a isso;
– A caridade não é o dever principal de um pastor, mas ele deve se lembrar dos pobres em seu ministério.

Isso tudo mostra que a pobreza não é o problema mais grave do Universo, a ponto de ignorarmos todo o resto (como parece ser o ponto de vista dos brasileiros), mas não é uma questão marginal ou secundária para os cristãos. Entretanto, há pouco destaque ao assunto no protestantismo. Vemos isso de várias maneiras:

– Poucas igrejas possuem ministérios dedicados à caridade abertos à participação de leigos;
– Pouquíssimos cristãos estão dispostos a se voluntariar e assumir um compromisso de longo prazo com esses ministérios;
– Os díaconos são mais conhecidos por cuidar do templo e gastam mais tempo com questões administrativas do que no cuidado com os mais pobres;
– Poucos membros se oferecem como voluntários para participar de ministérios de caridade;
– Pouco dinheiro é investido pelas igrejas protestantes em caridade, e há uma pressão muito grande para se buscar financiamento governamental…o que não deixa de ser uma forma de se fazer caridade com o dinheiro dos outros;
– Quase não se prega sobre caridade. Quando pregamos, falamos genericamente em missão integral, mas pouco se diz sobre a necessidade de envolvimento individual e pastoral no combate à pobreza;
– Projetos de plantação de igrejas não começam destinando recursos ou pensando em ministérios de socorro aos necessitados;
– Quantas escolas, creches, hospitais e centros de recuperação protestantes, sustentados pelas igrejas protestantes, vemos hoje?
– Prega-se mais sobre prosperidade e riqueza do que sobre caridade e pobreza.

Creio que é preciso ir além. Quem já foi em países desenvolvidos sabe que o argumento mais forte para justificar eticamente o catolicismo romano é a caridade. Em debates apologéticos, é cada vez mais comum que o apologista católico aponte, com razão, para o grande número de pessoas assistidas em seus sofrimentos por meio do trabalho de católicos. Milhares de sacerdotes ordenados e leigos dedicam a sua vida à caridade dentro do catolicismo. Dedicam à vida, não dez minutos dos seus dias. E os protestantes brasileiros estão muito atrás.

Assim como Judas, hoje há muitos políticos que usam os pobres como meio de desviar dinheiro. Querem um Estado cada vez mais gigante e inchado para poderem encher seus bolsos e usam os pobres como desculpa. O país inteiro sofre com isso. Mas só denunciar a Judas não basta. É preciso seguir o exemplo de Jesus na cruz, e dar a vida pelos outros. É preciso seguir o conselho de Pedro, Tiago e João e nos lembrar dos pobres. É preciso seguir o exemplo de Paulo e nos esforçarmos nisso. É preciso lembrar o que a Bíblia ensina sobre uma fé sem obras e um amor que não se compadece de quem é necessitado.

Precisamos nos arrepender do nosso pecado e nos lembrar dos pobres. Para a graça de Deus. E você pode começar a fazer isso agora.

Um projeto que você deveria conhecer é o Projeto Santa Luz, da Child Fund, apoiado pela Igreja Presbiteriana Nacional. Se outras igrejas se mobilizassem para fazer ações similares, estamos fazendo algo concreto pelo país. Um outro projeto é a Missão Vida, de recuperação de moradores de rua. Ambos os projetos necessitam de orações, recursos e envolvimento.

Mas faça algo onde você está, na sua comunidade. A responsabilidade é minha, sua…de todos. E seremos cobrados, individualmente, no Dia do Juízo.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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3 thoughts on “Lembrem-se dos pobres

  1. Não há como discordar de um texto tão claro e fundamentado! Mas, puxando a sardinha para o que sei fazer (já que escolhi ser psicóloga), ao lê-lo fiquei pensando: o que leva as pessoas a agirem com desamor e ignorarem os pobres? Ou pior, o que leva as pessoas a se contradizerem, dizendo-se cristãos mas não agindo como tais?

    Sabe aquele ditado: “é o sujo falando do mal-lavado” ? Talvez se encaixe nessa situação. Enquanto uns são pobres por falta de dinheiro, outros são pobres por falta de valores. A pobreza ética e moral da igreja amplia-se a cada dia, cada ano… E não poderia deixar de terminar em uma igreja inócua e ineficiente frente à sociedade! Então, temos uma geração de “cristãos” incapazes de perceber suas falhas, pois sua pobreza de coração e valores é tanta que os torna cegos ao Evangelho do partir do pão, do suportai-vos uns aos outros em amor e, quanto mais, do entregar a sua vida pelo próximo!

    Deus nos capacite a amar verdadeiramente e praticar a verdadeira caridade, com corações renovados e purificados nEle!

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  2. Só não esqueçamos da hierarquia da caridade: família/res, domésticos da fé (cristãos) e só então os ‘outros’. Abraços

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