Emigrar não é pecado

Durante as eleições presidenciais de 2014, o cantor Lobão havia dito que, se a candidata Dilma Rousseff fosse reeleita, ele deixaria o Brasil. Ele não foi o único: várias pessoas da classe média diziam que, se fosse possível, deixariam o Brasil e tentariam emigrar para outros países. Após o resultado das eleições, vários eleitores da presidente cobraram que Lobão cumprisse a promessa e deixasse o país. Ele resolveu ficar. Mas muitos dos outros brasileiros resolveram cumprir a promessa adiante. Não é à toa que sites como o Canadá Para Brasileiros cresceram, a ponto de se oferecerem intercâmbios, cursos, podcasts e serviços pagos.

Embora o brasileiro não goste de usar a bandeira do Brasil fora da Copa do Mundo e não demonstre um grande patriotismo, nessas horas parece que o amor à Pátria renasce. Quem emigra é criticado. Alguns repetem o slogan da ditadura militar: “Brasil, ame-o ou deixe-o!“. Quem opta pela emigração é visto como alguém que não ama o Brasil, um brasileiro de segunda categoria, e é bom que tais brasileiros saiam logo mesmo! Se o emigrante for cristão então, piorou! Quem sai do país sem ser por um motivo missionário, acaba com a seguinte dúvida no coração: “Será que estou em pecado?” Se o motivo da emigração for a desesperança quanto ao futuro do Brasil e a decepção com o Governo atual…aí as tentativas de lançar culpa sobre o “antipatriota” aumentam exponencialmente.

Condenando nossos pais?
Esse argumento já é fácil de derrubar com um simples olhar para o nosso passado. Tirando os índios (que já estavam aqui) e os negros descendentes de escravos (que não tiveram escolha), quem está no Brasil descende de pessoas que deixaram seus países de origem, muitas vezes em busca de uma vida melhor. É o meu caso, que descendo de japoneses que deixaram o Japão, porque estavam morrendo de fome e havia comida no Brasil. No caso dos meus avós, eles nunca puderam voltar ao Japão, nem mesmo como turistas. É o caso também de descendentes de alemães, de italianos e até de portugueses que buscaram uma vida melhor aqui no Brasil. Como podemos condenar aqueles que estão, simplesmente, seguindo os passos de nossos pais?

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Bom, talvez os indígenas que me leem ou os descendentes de escravos pensem que eles podem condenar os que saem. Bom, não se eles forem monoteístas. Basta lembrar que a história do monoteísmo começa com uma ordem de Deus para que Abraão, nosso pai espiritual, deixe o seu país de origem e vá para outra terra:

Ora, disse o SENHOR a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei (Gênesis 12:1)

Isso mostra, claramente, que as migrações não são, em si mesmas, atos condenáveis. Nem mesmo quando elas implicam em uma reprovação de seu país de origem.

Abandonando um barco furado
Uma história que ilustra bem isso é a migração de vários israelitas do Norte para o reino de Judá, na época do rei Roboão, filho de Salomão. Quando Roboão assumiu o reino, Israel era um único país, dividido em doze tribos. Por causa da decisão do rei em ameaçar aumentar impostos que já eram altos, o país se dividiu. Dez tribos, ao Norte, formaram o reino de Israel e duas tribos, ao Sul, ficaram com Roboão e formaram o reino de Judá.

Dura resposta lhes deu o rei, porque o rei Roboão desprezara o conselho dos anciãos; e lhes falou segundo o conselho dos jovens, dizendo: Meu pai fez pesado o vosso jugo, porém eu ainda o agravarei; meu pai vos castigou com açoites, eu, porém, vos castigarei com escorpiões. O rei, pois, não deu ouvidos ao povo, porque isto vinha de Deus, para que o SENHOR confirmasse a palavra que tinha dito por intermédio de Aías, o silonita, a Jeroboão, filho de Nebate. Vendo, pois, todo o Israel que o rei não lhe dava ouvidos, reagiu, dizendo: Que parte temos nós com Davi? Não há para nós herança no filho de Jessé! Cada homem à sua tenda, ó Israel! Cuida, agora, da tua casa, ó Davi! Então, Israel se foi às suas tendas. Quanto aos filhos de Israel, porém, que habitavam nas cidades de Judá, sobre eles reinou Roboão. Então, o rei Roboão enviou a Adorão, superintendente dos que trabalhavam forçados, porém os filhos de Israel o apedrejaram, e morreu. Mas o rei Roboão conseguiu tomar o seu carro e fugir para Jerusalém. Assim, Israel se mantém rebelado contra a casa de Davi até ao dia de hoje. (2 Crônicas 10:13-19)

Contudo, logo alguns se arrependeram de haverem deixado a casa de Davi. Quando as tribos do Norte se separaram e formaram o reino de Israel, Jeroboão foi eleito rei. Assim que ele assumiu o reino, ele abandonou o culto ao Senhor e fez dois bezerros de ouro para serem os novos deuses israelitas. Despediu os sacerdotes e abandonou a Lei de Moisés.

O que fazer em um cenário assim? Quando um país abandona as leis de Deus e começa a trilhar um caminho que o levará a ruína, os filhos de Deus devem permanecer ali e sofrer junto? Bom, alguns ficaram. O Senhor conservou em Israel pessoas que permaneceram fiéis a Ele e se opuseram ao rei Jeroboão. Esses fiéis foram um testemunho de Deus enquanto o reino de Israel durou, mas nunca ocuparam o poder. Elas nunca viram o reino do Norte voltar-se para o Senhor. Nunca as tribos do Norte deixaram os ídolos que Jeroboão fez. Deus foi glorificado pelo testemunho, mas não pela mudança cultural e religiosa do país.

Por outro lado, muitos saíram. Quando os israelitas piedosos viram que não havia mais espaço para cultuar ao Senhor no Norte, eles deixaram o seu país de origem, se arrependeram de terem rompido com Roboão e…emigraram!

Também os sacerdotes e os levitas que havia em todo o Israel recorreram a Roboão de todos os seus limites, porque os levitas deixaram os arredores das suas cidades e as suas possessões e vieram para Judá e para Jerusalém, porque Jeroboão e seus filhos os lançaram fora, para que não ministrassem ao SENHOR. Jeroboão constituiu os seus próprios sacerdotes, para os altos, para os sátiros e para os bezerros que fizera. Além destes, também de todas as tribos de Israel os que de coração resolveram buscar o SENHOR, Deus de Israel, foram a Jerusalém, para oferecerem sacrifícios ao SENHOR, Deus de seus pais. Assim, fortaleceram o reino de Judá e corroboraram com Roboão, filho de Salomão, por três anos; porque três anos andaram no caminho de Davi e Salomão. (2 Crônicas 11:13-17)

Não é pecado deixar um barco que vai afundar e ir para outro, que vai pelo caminho certo. Assim como não é errado permanecer em um barco que está afundando e pregar o Evangelho aos que continuam ali. Se há nobreza no último ato, permita-me dizer que há nobreza também em fortalecer a nação que busca andar nos caminhos de Deus!

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Judá se desviou depois? Sim: os judeus também falharam, assim como os cristãos falham hoje. Mas Roboão se arrepende depois, mais uma vez. Judá teve bons reis, que seguiram ao Senhor. No final do Antigo Testamento, é o povo que habitava no Sul, em Judá, que permaneceu vivo. Os descendentes do reino do Norte desaparecem. Ou se mesclaram com outros povos, ou foram mortos e alguns continuaram abandonando o Norte para viver no Sul ao longo da História. Mas o fato é que somente os que emigraram tiveram seus descendentes preservados nos dias de Jesus como povo da aliança, como Israel. As duas tribos tornaram-se o berço onde os fiéis das outras dez se abrigaram. Judá tornou-se o novo Israel.

A nossa pátria é o céu
Emigrar não é pecado porque a nossa verdadeira pátria não é o Brasil ou os Estados Unidos ou qualquer outra nação da terra. Antes de sermos fiéis ao nosso país terreno, precisamos entender que a nossa fidelidade maior é com o Senhor. O nosso país é o céu, e é a ele que devemos nossa lealdade. Como está escrito:

Todos estes morreram na fé, sem ter obtido as promessas; vendo-as, porém, de longe, e saudando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos sobre a terra. Porque os que falam desse modo manifestam estar procurando uma pátria. E, se, na verdade, se lembrassem daquela de onde saíram, teriam oportunidade de voltar. Mas, agora, aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. Por isso, Deus não se envergonha deles, de ser chamado o seu Deus, porquanto lhes preparou uma cidade. (Hebreus 11:13-16)

Os filhos de Deus são estrangeiros neste mundo. Eu sou brasileiro, mas, espiritualmente, sou um estrangeiro que mora no Brasil. Assim como os patriarcas da fé, também eu estou “procurando uma pátria” e aspiro por uma pátria superior, a celestial. Nessa terra, sou um peregrino. Mesmo que eu nunca deixe o país, o Brasil não é o meu local definitivo de residência. Estou aqui de passagem. E isso é válido para todos aqueles que são filhos de Deus, ou seja, os que possuem a mesma fé que tiveram Abraão, Isaque e Jacó.

Quando entendemos isso, outras histórias complicadas da Bíblia perdem a complicação. No livro de Josué, a prostituta Raabe trai o seu povo, acolhe os espiões israelitas e deserta para o lado de Israel. Muitos, erroneamente, dizem que isso mostra um ponto fraco de Raabe, um sinal de que ela não era patriota. Errado: isso salvou a vida de Raabe! Ela ansiou por uma pátria melhor, confessou que o Deus de Israel era o Senhor, amou mais a Ele que o seu povo, e isso a salvou!

Antes que os espias se deitassem, foi ela ter com eles ao eirado e lhes disse: Bem sei que o SENHOR vos deu esta terra, e que o pavor que infundis caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra estão desmaiados. Porque temos ouvido que o SENHOR secou as águas do mar Vermelho diante de vós, quando saíeis do Egito; e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Seom e Ogue, que estavam além do Jordão, os quais destruístes. Ouvindo isto, desmaiou-nos o coração, e em ninguém mais há ânimo algum, por causa da vossa presença; porque o SENHOR, vosso Deus, é Deus em cima nos céus e embaixo na terra. Agora, pois, jurai-me, vos peço, pelo SENHOR que, assim como usei de misericórdia para convosco, também dela usareis para com a casa de meu pai; e que me dareis um sinal certo de que conservareis a vida a meu pai e a minha mãe, como também a meus irmãos e a minhas irmãs, com tudo o que têm, e de que livrareis a nossa vida da morte. (Josué 2:8-13)

Tradicionalmente, o livro de Rute pode ser entendido como uma advertência contra a emigração. O livro começa com uma família que abandona a sua herança em Israel e vai para Moabe, um país pagão. Lá, os irmãos israelitas Quiliom e Malom se casam com moabitas, mas acabam morrendo, e a família se vê em grande dificuldade financeira por causa disso. Embora Quiliom, Malom e Elimeleque (o pai deles) possam ser reprovados por terem emigrado sem consultar o Senhor, o livro fala que a moabita Rute renegou o seu povo e os seus deuses, e tomou a Israel como o seu novo país. Ela resolveu acompanhar a sua sogra Noemi e emigrou. Trocou a sua pátria de nascimento pela pátria do Deus vivo.

Disse, porém, Rute: Não me instes para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. (Rute 1:16)

Para os moabitas, Rute pode até ser uma traidora e desleal, uma fraca! Mas, para o Senhor, Rute é uma mulher virtuosa, que aspirou por um país superior, e o encontrou.

Ilustração de Rute e Noemi
Ilustração de Rute e Noemi

Consulte o Rei
O que podemos dizer, particularmente no contexto atual? O Brasil vive um momento muito delicado. Conseguimos reunir os erros dos reinos do Norte e do Sul ao mesmo tempo. A alta carga de impostos dividiu Israel em dois reinos, e vemos que o Governo continua insaciável em sua fome por mais dinheiro. Ainda temos liberdade para cultuar ao Senhor, mas as leis defendidas pelo Governo são cada vez mais distantes dos padrões bíblicos e há uma hostilidade crescente contra o verdadeiro Evangelho e contra Jesus. Há um esforço enorme para legalizar o aborto, impedir pregações contra o pecado do homossexualismo e domesticar os sermões para que sigam a cartilha do politicamente correto. Na economia e no tratamento dos criminosos, vai-se na direção contrária daquela preceituada na Bíblia. O desprezo contra o Senhor é cada vez maior.

Os cristãos devem fugir ou ficar? A melhor resposta é: ore e pergunte ao Senhor. Deus é quem sabe quem deve ficar e dar testemunho, ser sal da terra no nosso país e lutar para que os brasileiros se arrependam. Grandes homens de Deus, como Elias e Eliseu, viveram e profetizaram no reino do Norte. Por outro lado, Deus também sabe quem ele quer retirar do Brasil para serem forasteiros em outros países. Nem todos serão missionários, a maioria será formada por emigrantes mesmo. Não há nada de errado nisso. A profetisa Ana, por exemplo, que falou a respeito de Jesus em Lucas 2, era descendente de pessoas da tribo de Aser que fugiram do reino do Norte e foram para o reino do Sul. Que um não jogue pedra no outro.

O que todos devem entender é que, antes de sermos brasileiros ou japoneses ou o que seja, somos cristãos. Antes de jurar fidelidade à bandeira do meu país, minha fidelidade é com o Senhor. O país onde nascemos e residimos é apenas a nossa residência temporária. Somos todos estrangeiros e peregrinos. E um irmão de fé é mais próximo de nós do que um compatriota que não sirva ao mesmo Deus a quem servimos.

E, como somos fiéis ao Rei dos Reis, pediremos que Ele nos guie sobre onde devemos morar. Confiaremos em sua decisão, seja ela qual for.

E, antes que me perguntem, sim…acho que o raciocínio deste texto pode ser aplicado aos cristãos que frequentam igrejas que têm se desviado do ensino correto da Bíblia e estão abandonando ao Senhor.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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