Rolezinhos e o amor ao próximo

Cada vez mais, o Brasil tem se dividido fortemente a respeito de uma série de assuntos. As diferenças de opinião vão desde o aborto e o casamento entre homossexuais até a questão das cotas em universidades e, mais recentemente, os rolezinhos. Caso você não esteja sintonizado no planeta Terra nesses últimos dias, os rolezinhos são encontros marcados em shopping centers por centenas de adolescentes para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras, pegar geral e se divertir“.

O problema é que há registro de tumultos nesses encontros e shoppings entraram com ações na Justiça para impedir a ocorrência desses eventos. Enquanto uma parte do Brasil aprova a medida e entende que os rolezinhos devem sim ser proibidos ou coibidos, outros acusam os shoppings de serem preconceituosos e racistas. Os primeiros defendem a manutenção da ordem e o respeito à propriedade, já que os participantes não são tão pacíficos, como mostra o vídeo abaixo:

Por outro lado, os defensores argumentam que o choque da classe média e dos comerciantes é porque os jovens da periferia teriam invadido um espaço de consumo feito para excluí-los, os shoppings, e que os eventos são uma espécie de afirmação social deles, como é o caso da jornalista Eliane Brum.

No meio disso tudo, qual deve ser o posicionamento dos cristãos?

Amor ao próximo
Começo dizendo que a chave da questão está na observância do mandamento de amar ao próximo:

Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento. O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. (Mateus 22:37-40)

Parece óbvio o que vou dizer, mas muitos se esquecem que o mandamento de amar ao próximo aplica-se a todos os seres humanos. Não apenas os “ricos” devem amar os “pobres”, mas os pobres, os jovens e os moradores da periferia também devem amar os ricos, os outros seres humanos e os comerciantes e clientes de um shopping. E, segundo Jesus, amar ao próximo é fazer por ele o que gostariam que fizessem com você:

Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas. (Mateus 7:12)

Por uma questão de ordem lógica, começo com os jovens. Se eu reunisse milhares de pessoas apenas para “zoar e dar uns beijos” e chegasse cantando funk, em bando, na rua da sua casa ou debaixo do seu prédio, você gostaria? Se eu fizesse isso na porta da sua loja, espantando clientes? Se o seu carro estivesse do lado de fora quando eu chegasse com meus “amigos” e você descobrisse que riscaram seu automóvel e quebraram um retrovisor, como você veria a minha “flash mob“?
Tradicionalmente, entendemos que os Dez Mandamentos são formados pela “Tábua de Deus”, com os mandamentos referentes ao amor que devemos nutrir por Ele, e a “Tábua do Próximo”, onde ficam aqueles que se referem ao amor pelo próximo. É interessante notar que, segundo o Decálogo, respeitar a propriedade alheia é amar ao próximo:
Não furtarás. (Êxodo 20:15)

Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo. (Êxodo 20:17)
Este respeito não é apenas não desejar ou roubar o próximo. Se causamos algum prejuízo, é justo que façamos, por exemplo, uma compensação:

Se alguém fizer pastar o seu animal num campo ou numa vinha, e largá-lo para comer no campo de outro, o melhor do seu próprio campo e o melhor da sua própria vinha restituirá. Se irromper um fogo, e pegar nos espinhos, e queimar a meda de trigo, ou a seara, ou o campo, aquele que acendeu o fogo totalmente pagará o queimado. (Êxodo 22:5-6)

Não é preciso um grande malabarismo para ver que, se a minha, digamos, “diversão coletiva” causa tumultos, serve de camuflagem para pequenos furtos e prejudica o ganha-pão de outros, ela não é, de modo algum, uma forma de amor ao próximo. Ao contrário, é egoísmo: o meu desejo de divertir é mais importante do que as outras pessoas. Isso vale para rolezinhos, bailes funk na rua e até para aquele vizinho que liga o som no máximo de madrugada.
Quanto ao Estado, cabe a ele punir aqueles que procedem mal, o que inclui aqueles que desrespeitam a propriedade alheia. Aplicando aos dias de hoje o princípio atemporal por trás de várias leis de propriedade no Antigo Testamento, cabe ao Estado punir quem viola os bens do próximo e garantir que as devidas compensações serão feitas. Nos dias de hoje, isso é feito por meio das decisões que resguardam os shoppings e prendem os que cometem infrações.

Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. (Romanos 13:3-4)

Ou, no popular: “o seu direito termina onde começa o direito do outro”.
O lado social
Mas, e quanto aos comerciantes? Não são eles injustos quando restringem o acesso de adolescentes aos shoppings? Será que eles não pecam quando se valem da autoridade policial e da força contra jovens que, em princípio, só querem se divertir? 
Ou, dito de outra forma: será que, no fundo, o verdadeiro problema não é a classe média? A indignação não seria por causa da violência, mas sim no fato de que a classe média elegeu os shoppings como o seu último refúgio livre da presença dos pobres da periferia e está indignada porque teve seu espaço invadido. Então ela chama os policiais, os agentes do sistema, para “descer o cacete” nos que se atrevem a frequentar um espaço que não é para eles.
O que há de errado com os argumentos acima? Em primeiro lugar, esses jovens já eram frequentadores de shopping centers. Não se trata de coitadinhos despossuídos protestando pelo seu direito de terem coisas básicas. Ao contrário, embora venham de locais “humildes”, eles possuem artigos desejados de consumo. Vivem conectados na Internet em seus celulares. Basta ver reportagens, como uma da Folha de São Paulo, sobre o perfil dos idealizadores dos rolezinhos. Estudam, até fazem pequenos empregos e gastam seu dinheiro nos shoppings com roupas de marca:
“Tô ligado que ‘os polícia’ tão em peso e já sabem quem eu sou” diz Lucas Lima, 17.
De bermuda jeans, camiseta regata branca do UFC, tênis Oakley preto, corrente no pescoço e uma réplica do relógio Invicta no pulso, ele era um dos 3.000 jovens no shopping Metrô Itaquera, no “rolezinho” do último sábado.
Mais do que isso, o adolescente organizou o evento daquele dia, que acabou em confusão, confronto com a Polícia Militar e registros de furtos e roubos.
Desconfiado da ação da polícia, resolveu se precaver. “Vou para casa trocar de roupa e ficar mais apresentável”, disse o estudante do terceiro ano do ensino médio em um colégio público da zona leste que faz bicos como ajudante de pedreiro.
Quando eles vão como consumidores, sem ser em grupos enormes, cantando funks e assumindo posturas intimidadoras, eles são aceitos nos estabelecimentos. A indignação não é porque eles não podem frequentar o shopping. Eles podem, desde que se comportem de forma ordeira. Mas, quando o “direito” individual pressupõe-se ao dos demais, é justa a repressão. Assim, fica claro que o argumento “ideológico” é balela.
Na verdade, amar esses jovens é discipliná-los. Se a disciplina não vem de casa, que venha do Estado, por meio do magistrado e do aparelho policial, cumprindo o seu papel de castigar quem pratica o mal. Ainda que o interesse dos lojistas não seja o de amar os rolezeiros, a verdade é que impor limites e usar a força para ensiná-los a respeitar o bem alheio é um dos melhores bens que se pode fazer a eles. E, sim, eu realmente quis dizer isso: a disciplina quando erramos, ainda que seja a do Estado, é uma bênção para quem a recebe.
O direito de impor limites
No mais, lembro que o bom senso nos diz que, em espaços privados, respeitam-se as regras estipuladas pelo dono da casa. Um restaurante pode recusar-se a servir quem vai sem camisa para lá. Tribunais que julgam as causas de qualquer cidadão impõem regras de vestimenta para quem quer entrar lá, e elas são obedecidas. Até mesmo templos religiosos impõem restrições e podem expulsar quem não respeita as regras de uma determinada religião. Não é errado, por exemplo, expulsar de um culto quem começa a gritar no meio dele, desrespeitando a adoração prestada a Deus.
Shoppings são espaços privados. Ainda que fossem públicos, há restrições quanto ao tipo de manifestações e comportamentos que são tolerados em lugares como praças e avenidas. E, para quem quer um princípio bíblico, até Deus controla quem entra e quem fica de fora do céu, local onde Seu domínio é mais visível:

Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para que lhes assista o direito à árvore da vida, e entrem na cidade pelas portas. Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira. (Apocalipse 22:14-15)

As restrições não acontecem por causa da cor da pele, como acontecia na África do Sul ou no Sul dos Estados Unidos. Surgiram após um comportamento agressivo, marcado em redes sociais e que trouxe prejuízos reais. Chamar de “apartheid brasileiro” é uma desonestidade intelectual. É querer impedir o direito dos donos do espaço de protegerem seu patrimônio.
Porque amo os jovens, quero sim que eles descubram que há limites para tudo, e que há consequências caso esse limite seja rompido. Porque amo os lojistas, quero que eles tenham seu patrimônio defendido. E, porque amo a Deus, tenho o desejo e ver a lei, que é tão ignorada no Brasil, ser, enfim, respeitada. Quem sabe assim os brasileiros não aprendem que há consequências em se desrespeitar as leis do Senhor?
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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