Pastorado unidimensional

Algumas vezes, as igrejas históricas são fortemente incoerentes quanto às críticas que fazem nos púlpitos e suas práticas institucionais internas. Poucas coisas ilustram isso tão bem quanto o pragmatismo. Nas pregações, criticamos uma sociedade pragmática, que preocupa-se mais com os resultados do que com princípios. Contudo, não me parece que a visão que se tem de igrejas, ministérios e pastores seja assim tão diferente do pragmatismo secular.

Talvez o melhor exemplo disso seja o que chamo de pastorado unidimensional. Ele se revela quando só ordenamos pastores se eles tiverem um “campo”, ou seja, uma igreja definida para pastorear. Quando seminaristas bons são aqueles que possuem muita “experiência ministerial”, isto é, aqueles que sabem organizar acampamentos, fazer cultos jovens, realizar evangelismos de rua e outras atividades práticas. Ou, de forma mais marcante, quando se espera que pastores falem apenas de assuntos “espirituais”. Ele deve se manter dentro de sua área de expertise, o que pode trazer mais frutos (resultados?) para a instituição, e se calar sobre outros assuntos, como ciência, política ou economia.
Mas, será que é assim que se mede o ministério de um pastor? Não há espaço para pastores “intelectuais”, que pretendem se dedicar ao magistério, por exemplo? O pastorado esgota-se mesmo apenas no “sagrado”? O “secular” não deve fazer parte dos interesses e estudos de um ministro da Palavra?
O reino de Deus abarca todas as coisas
Uma das bandeiras levantadas pela teologia reformada é a de que não existe mais diferença entre “sagrado” e “secular”. Tudo é sagrado, uma vez que o reino de Deus não se restringe àquilo que é espiritual. Todas as coisas pertencem a Ele e o nosso dever é o de glorificá-Lo em tudo.

Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. (Salmo 24:1)

Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém! (Romanos 11:36)

Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus. (1 Coríntios 10:31)

Se levamos esses versículos a sério, entendemos que não há área de conhecimento ou assunto que esteja fora da ação da Igreja. Se tudo está no reino de Deus e pertence a Ele, é mais do que correto inferir que as Escrituras podem ser consideradas fora da teologia, uma vez que confiamos na Bíblia como uma revelação segura da vontade de Deus. E, se é papel dos pastores ensinar ao povo como as Escrituras moldam a nossa fé e a nossa prática, então é um desdobramento natural considerarmos que eles, necessariamente, terão que se pronunciar sobre assuntos ditos “seculares”.
Cosmovisão
Uma consequência desse ensino é o que se chama “cosmovisão”. Quem só avalia o ministério pastoral segundo critérios de produtividade “eclesiástica” pensa que a vida está dividida em compartimentos que não se comunicam. Não há problemas, por exemplo, se minha visão política ou sentimental choca-se com meus valores religiosos. Sagrado e secular não se comunicam. Mas os que se lembram de que o reino de Deus atinge tudo percebem que não há como fazer essa separação. Toda a sua vida é sagrada, o que significa que ela deve ser compreendida e vivida de acordo uma certa forma de ver o mundo, o que chamamos de cosmovisão: um sistema de crenças e valores que, na prática, determina nossas escolhas.
Na prática, todos vivem em uma cosmovisão. Mesmo os incoerentes, que são religiosos no domingo, mas rejeitam o que sua religião fala sobre ciência ou comportamento, seguem uma cosmovisão: o relativismo. Mas nem todos têm a consciência de que são governados por um sistema identificável de crenças ou filosofias. Os que a possuem, trabalham consistentemente para implementá-la. Isso é verdadeiro quanto aos que trabalham pelo socialismo, pelo fundamentalismo islâmico ou pelo neoateísmo, por exemplo.
E o que significa implementar a sua cosmovisão? Significa, no mínimo, desdobrar os valores do sistema de crenças para outros campos do conhecimento. No máximo, é traçar um plano consistente de convencimento (ou um plano de tomada de poder) para que a maioria da sociedade viva segundo aquela cosmovisão. 
Outras religiões, como o catolicismo, já perceberam isso. Basta ir a uma livraria católica boa que podemos ler livros de padres discorrendo sobre ciência, política, economia, arte, cultura…este é o motivo pelo qual existe uma grande rede educacional católica, de escolas primárias até universidades, incluindo uma Academia Pontifícia das Ciências. Os bispos e papas não se constrangem em dar instruções políticas ou econômicas em seus documentos e mensagens.
E, mais revelador de tudo isso: católicos não questionam porque o dinheiro da Santa Igreja é gasto na manutenção de instituições “seculares”, na formação de padres que estudam áreas “seculares” e até ordenam bispos ou cardeais que não cuidam de dioceses, mas sim, que se dedicam ao estudo.
A estupidez do pragmatismo
É bem diferente do que vemos nos meios protestantes brasileiros. Denominações tradicionais, como a Convenção Batista Brasileira, não possuem uma universidade secular, apenas seminários e faculdades teológicas. A Igreja Cristã Evangélica do Brasil considera que foi melhor abrir mão da UniEvangélica para dedicar-se apenas à pregação e abertura de novas igrejas. Mesmo dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil, muitos questionam porque ainda mantemos a Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Esse pensamento ignora que a transformação de almas humanas acontece quando nossas mentes são transformadas.

E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Romanos 12:2)

A mente não é transformada apenas por meio da pregação. A educação também contribui para que isso aconteça. Tanto que há diferentes formas de instrução descritas no Novo Testamento, incluindo o ensino. Aliás, Efésios 4:11 indica, claramente, que pastores devem ser mestres, já que as duas funções foram postas lado a lado.
A pobreza de visão acontece quando restringimos os “mestres” aos assuntos de fé. Quando olhamos para o Antigo Testamento, vemos um Davi artista, um Salomão cientista, um Daniel político, um José tendo que fazer novos arranjos econômicos para a situação específica do Egito. Vemos um Samuel que era profeta, sacerdote, mas também juiz e comandante militar. No Novo Testamento, temos um Paulo que dialogava com os sábios de Atenas citando literatura pagã. E pregadores que eram ordenados, mas que exerciam seu ministério de forma itinerante, indo “de igreja em igreja”.
Será mesmo que o Novo Testamento é mais restritivo que o Antigo, de modo que hoje não podemos ter um Samuel ou um Daniel no ministério pastoral? Os únicos bons pastores, mesmo, são aqueles que servem em tempo integral, cuidando de uma igreja específica? Não há espaço para prepararmos e ordenarmos pastores que se dedicarão, principalmente, ao estudo?
Deixem o Reino crescer
Minha resposta é um sonoro não. Considero revelador que as igrejas cristãs mais antigas (a católica e a ortodoxa) tenham escolhido doutores como santos, inclusive homens sem grande experiência “pastoral”, como Tomás de Aquino ou Catarina de Sena. Há cristãos que entram para a História, não pelo que produziram de modo “prático” em suas igrejas, mas sim pelo que construíram intelectualmente. E o fazem de forma tão forte, que até mesmo protestantes se jactam do católico Blaise Pascal e do anglicano C S Lewis.
Por que não temos um Pascal protestante no Brasil? Por que os presbiterianos brasileiros formam sua visão política lendo Olavo de Carvalho, Reinaldo de Azevedo ou Leonardo Boff e Frei Betto? A resposta é simples: porque não aplicamos ao ministério pastoral a nossa cosmovisão. Temos uma visão pobre:
– Do ministério pastoral;
– Do papel da Igreja no mundo;
– Da teologia;
– Do Reino de Deus.
A Igreja de Atos era simples, mas era apenas o primeiro broto da árvore. Jesus disse que o reino de Deus cresceria, até que se tornasse uma grande árvore onde as aves se aninham nos ramos, até que toda a massa fosse levedada:
E dizia: A que é semelhante o reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante a um grão de mostarda que um homem plantou na sua horta; e cresceu e fez-se árvore; e as aves do céu aninharam-se nos seus ramos. Disse mais: A que compararei o reino de Deus? É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até ficar tudo levedado. (Lucas 13:18-21)
Isso significa que a Igreja deve crescer. Atos não é o fim da Igreja, é o começo. Para isso, ela deve pregar não apenas nos púlpitos, mas também nos jornais, nas universidades e nos livros. Deve sim abrir e manter escolas e universidades, além de fazer uso dos meios de comunicação, pois elas formam a mentalidade do mundo em que vivemos. Deve entrar no domínio da arte e da cultura, pois elam determinam o que consideramos belo e desejável.
Um pé-de-mostarda
E deve abrir mão de uma visão mesquinha e pragmática que reduz o pastorado a um universo unidimensional. Seja no que estudamos, seja no que falamos, e até mesmo no que fazemos, o pastorado pode ser bem mais do que a visão tradicional. 
Sim, pastores são filhos da Igreja e devem estudar Teologia, e com profundidade. É a partir da Bíblia e da Teologia que eles olharão o que está ao redor. Tampouco significa que os pastores tradicionais não são necessários: eles o são…mas deviam falar sobre mais assuntos do que, normalmente, falam. Porém, os presbíteros e outros líderes devem ordenar e sustentar pastores que tenham um outro perfil ministerial. Devem, sim, gastar dinheiro abrindo escolas, editoras (e publicando livros que não sejam só teológicos), hospitais, museus e outras instituições. E seria ótimo se, ao invés de censurar os pastores que se pronunciam sobre assuntos “estranhos” a fé, os presbíteros e líderes leigos os incentivassem a estudar mais e a falar com mais frequência e propriedade sobre o mundo ao nosso redor.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s