Vivendo sem figos

O que provoca uma crise de fé? O que faz com que as pessoas deixem de confiar no Senhor e passem a vê-Lo como um Deus mau e insensível? O senso comum diz que é preciso algo muito grave. Um grande desastre pessoal, como uma morte ou então uma guerra que seja difícil de suportar. Talvez seja um livro ou artigo científico que questione pilares básicos da fé. 

Mas a experiência pastoral mostra que coisas muito mais simples abalam o nosso relacionamento com o Senhor. A fé vacila e algumas vezes desaparece por causa de coisas tão importantes…como figos. Sim, figos são frutos deliciosos (pelo menos eu adoro quando estão frescos) que podem ser transformados em doce ou fazer parte de sobremesas saborosas. Porém, por mais fantásticos que sejam, qualquer um vive sem figos. Menos o povo de Israel:

Chegando os filhos de Israel, toda a congregação, ao deserto de Zim, no mês primeiro, o povo ficou em Cades. Ali, morreu Miriã e, ali, foi sepultada. Não havia água para o povo; então, se ajuntaram contra Moisés e contra Arão. E o povo contendeu com Moisés, e disseram: Antes tivéssemos perecido quando expiraram nossos irmãos perante o SENHOR! Por que trouxestes a congregação do SENHOR a este deserto, para morrermos aí, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este mau lugar, que não é de cereais, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem de água para beber? (Números 20:1-5)

“Calma aí, não é bem isso não. O povo queria água.” Sim, em um primeiro momento, parece que a razão da reclamação dos israelitas era a falta de algo essencial. Sem água, não dá pra viver. Todavia, repare que a queixa não era só por causa dela. Os israelitas queriam saber porque Deus, usando Moisés e Arão, os levou a um lugar onde eles não tinham cereais, vides, romãs…e figos! Como diz certa música, “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.

O básico como disfarce do supérfluo
Por outro lado, os israelitas sabiam que água não era problema. Quando chegamos em Números 20 e verificamos outros textos da Bíblia, sabemos que essa história aconteceu no ano quadragésimo da saída de Israel do Egito. Ao longo de quarenta anos, Deus havia suprido alimento e água para uma multidão de cerca de dois milhões de pessoas. Os mais velhos se lembravam de como Deus sarou as águas de Mara (Êxodo 15:22-27) ou de como a água saiu da rocha naquele mesmo lugar, no deserto de Zim, quarenta anos antes (Êxodo 17:1-7). A verdade é que não havia motivos para por Deus em dúvida quanto ao suprimento do que era básico.

O que a falta de água proporcionou foi o momento ideal para que os israelitas se queixassem de não poderem usufruir de certos luxos. Como se eles fossem sindicalistas profissionais, aproveitaram uma revindicação básica para acrescentar outros itens à pauta. Não perderam a chance de atacarem os líderes e chegaram ao exagero de desejarem ter morrido! Afinal, a morte era melhor do que viver em uma terra má, sem certos alimentos que eles tanto desejavam.

Não que seja algo ruim comer um pão de trigo ao invés do maná, que era o pão que caía do céu para alimentar o povo. Ou que seja pecado beber vinho e comer figos e romãs. São prazeres lícitos. Mas não são essenciais à vida. A falta de tais luxos não compromete a nossa vida a ponto de desejarmos a morte. Não é motivo para que ataquemos nossos líderes espirituais (e mesmo os temporais).  Não justificam nossas acusações de que Deus nos levou a uma terra má.

Hoje não agimos de modo diferente. Usamos necessidades básicas, por exemplo, amar e ser amado ou a companhia, como disfarces para reclamarmos de desejos que não são essenciais, como namorar ou ter a admiração das pessoas ao nosso redor. Sabemos que Deus suprirá nossas necessidades, até nos recordamos de como Ele fez isso no passado, mas nos esquecemos disso e usamos o básico como camuflagem para a nossa verdadeira queixa. Sem os figos dos prazeres da vida, das riquezas, do casamento ou da popularidade, dizemos que a morte é melhor que a vida.

A posição de Deus quanto ao supérfluo
Embora o pedido do povo fosse egoísta, Moisés e Arão fizeram o mesmo que Jesus faz por nós: eles foram orar ao Senhor pelo povo. E Deus respondeu:

Então, Moisés e Arão se foram de diante do povo para a porta da tenda da congregação e se lançaram sobre o seu rosto; e a glória do SENHOR lhes apareceu. Disse o SENHOR a Moisés: Toma o bordão, ajunta o povo, tu e Arão, teu irmão, e, diante dele, falai à rocha, e dará a sua água; assim lhe tirareis água da rocha e dareis a beber à congregação e aos seus animais. Então, Moisés tomou o bordão de diante do SENHOR, como lhe tinha ordenado. Moisés e Arão reuniram o povo diante da rocha, e Moisés lhe disse: Ouvi, agora, rebeldes: porventura, faremos sair água desta rocha para vós outros? Moisés levantou a mão e feriu a rocha duas vezes com o seu bordão, e saíram muitas águas; e bebeu a congregação e os seus animais. (Números 20:6-11)

Há uma lição dura aqui para os crentes brasileiros do século XXI: o compromisso do Senhor é com o básico, e não com o supérfluo. Não é que Ele não permita que tenhamos luxos ou que desfrutemos dos prazeres santos que a criação oferece. Recebemos isso muitas vezes. Só que luxo não é necessidade. E o Senhor quer que estejamos fiéis mesmo que tenhamos somente o necessário. Aquilo que é suficiente para a nossa existência também deve ser suficiente para a nossa alegria:

Tendo sustento e com que nos vestir, estejamos contentes. (1 Timóteo 6:8)

Nós podemos viver em um deserto árido, sem nenhuma paisagem agradável à vista. O clima pode ser seco todos os dias, com direito a tempestades diárias de areia. A comida pode ser a mesma: o pão do céu que Deus manda diariamente, incrementado com a carne de sacrifícios pacíficos oferecidos ocasionalmente e o leite dado pelo rebanho. A vida pode até não ter o doce de um figo ou o sabor do vinho. Ainda que a nossa existência seja apenas “pão é agua” no deserto, isso é suficiente para que estejamos contentes.

A casa pode ser alugada, tão provisória como uma tenda no deserto. O emprego ruim, só dá pra comprar comida e roupa…e olhe lá. O amor da vida pode parecer tão real como uma miragem. O reconhecimento das pessoas em relação ao nosso trabalho pode ser nulo. Mesmo assim, se estamos na presença de Deus e Ele supre o que necessitamos, nossa reação deveria ser de louvor e gratidão.

Uma vida melhor não existe?
Isso quer dizer, então, que devemos esperar uma vida miserável neste mundo e deixar todas as esperanças de felicidade e realização para o céu? Não exatamente. Primeiro porque uma vida com o necessário não é miserável. Troque de lugar com alguém que não tem nada por um dia e a gratidão será automática. E, em segundo lugar, Deus promete sim coisas boas, luxos (sim, luxos!) aos seus filhos. Só que tais bênçãos só são dadas no tempo d’Ele e de acordo com os propósitos d’Ele.

Disse ainda o SENHOR: Certamente, vi a aflição do meu povo, que está no Egito, e ouvi o seu clamor por causa dos seus exatores. Conheço-lhe o sofrimento; por isso, desci a fim de livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra a uma terra boa e ampla, terra que mana leite e mel; o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferezeu, do heveu e do jebuseu. (Êxodo 3:7-8)

Só que essa bênção não é para todos. É preciso ter fé em Jesus e obedecê-Lo:

Todos eles comeram de um só manjar espiritual e beberam de uma pedra espiritual que os seguia. E a pedra era Cristo. Entretanto, Deus não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram prostrados no deserto. Ora, estas coisas se tornaram exemplos para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. 

Não vos façais, pois, idólatras, como alguns deles; porquanto está escrito: O povo assentou-se para comer e beber e levantou-se para divertir-se. 

E não pratiquemos imoralidade, como alguns deles o fizeram e caíram, num só dia, vinte e três mil. Não ponhamos o Senhor à prova, como alguns deles já fizeram e pereceram pelas mordeduras das serpentes. Nem murmureis, como alguns deles murmuraram e foram destruídos pelo exterminador. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos e foram escritos para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado. (1 Coríntios 10:3-11)

E ainda:

Ora, quais os que, tendo ouvido, se rebelaram? Não foram, de fato, todos os que saíram do Egito por intermédio de Moisés? E contra quem se indignou por quarenta anos? Não foi contra os que pecaram, cujos cadáveres caíram no deserto? E contra quem jurou que não entrariam no seu descanso, senão contra os que foram desobedientes? Vemos, pois, que não puderam entrar por causa da incredulidade. (Hebreus 3:16-19)

Mas, para os que estão com Cristo:

Tornou Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos por amor de mim e por amor do evangelho, que não receba, já no presente, o cêntuplo de casas, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições; e, no mundo por vir, a vida eterna. (Marcos 10:29-30)

Conclusão
Deus é bom. Ele conhece mais do que as nossas necessidades: Ele também sabe do que desejamos e ansiamos. Mas Ele também quer nos ensinar que a vida pode ser boa, mesmo sem “figos”. Que Ele é suficiente para nós. E que não devemos viver ansiosos ou nos sentindo diminuídos quando vivemos uma vida sem luxos.

Por outro lado, Ele também quer nos mostrar que “figos” não valem uma crise de fé. Eles não são tão preciosos a ponto de nos fazer questionar a bondade do Senhor e atacarmos os nossos líderes, sejam eles pais, pastores ou amigos piedosos. Não é o doce dos “figos” que torna uma vida boa ou ruim. Se entendermos isso, Ele nos levará a uma terra de leite, mel…e vinhas e figos. Nós só precisamos crer. E nos manter fiéis.

É uma lição difícil, principalmente pra mim. Mas que o Senhor tenha compaixão e nos ensine a viver com alegria, mesmo sem “figos”.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s