A caricatura gospel do casamento gay

Este texto reflete um posicionamento pessoal, e não de nenhuma igreja ou denominação.
Começo este texto destacando o óbvio. Sou um pastor presbiteriano que acredita que a Bíblia é a Palavra de Deus. Logo, assim como todos os outros que partem dos mesmos pressupostos, sou contrário ao casamento homossexual. Entendo que não há qualquer motivo pelo qual eu deva me envergonhar de afirmar esta opinião e que ela é sim defensável na arena pública.
Porém…entendo que essa defesa é bem mais difícil do que sugerem os sermões de muitos pastores ou os textos e vídeos de blogueiros e vlogueiros evangélicos. Os protestantes reclamam que o movimento LGBT combate uma caricatura do cristianismo. Que nem tudo se resume a Silas Malafaia e Marco Feliciano (louvado seja Deus por isso). Só que os cristãos também fazem o mesmo! E aí fica fácil: é sempre mais fácil bater na caricatura de um movimento do que na sua essência.
Os cristãos também são ignorantes sobre aquilo que eles desejam combater. E engana-se quem pensa que só os pastores neopentecostais caem nessa. Um bom exemplo é o vídeo “Por que sou contra o casamento gay?“, do Vlog do Yago.
O que tem de errado nele? Muita coisa.
As bases do casamento gay
Ao contrário do que afirma Yago Martins, há sim bases filosóficas, políticas e teóricas para defender o casamento gay. Aliás, bases que se encontram à esquerda e à direita.
A primeira de todas e a mais importante é o antropocentrismo. Desde o advento da Idade Moderna, o paradigma filosófico do Ocidente é o de que o homem é a medida de todas as coisas, e não Deus. Isso significa que a autoridade sai das mãos da “Igreja” (seja ela qual for) e vai para os próprios seres humanos. É a razão humana que determina o que é bom e mau, o que é verdadeiro ou mentiroso.
Quando o antropocentrismo é abraçado, a revelação bíblica torna-se apenas mais uma das muitas vozes que podem ou não ser consideradas na hora de definir a moral de uma sociedade. Ela precisa competir com outras religiões e ideologias. Idealmente, a razão decidiria qual padrão seria adotado, ou melhor, criaria um novo padrão. E aí o desafio cristão é provar, racionalmente, que o casamento gay é um erro.
Contudo, isso não é suficiente, porque o liberalismo é outra base para a implementação do casamento gay. O antropocentrismo não produziu uma unidade entre os seres humanos, já que muitos chegam a conclusões opostas usando a razão (e outros fatores). Para garantir a coexistência pacífica, dá-se a cada um o direito de viver como melhor lhe parece, regulando-se o mínimo possível as relações humanas. A regulação deve ser apenas a necessária e a liberdade deve ser maximizada.
Uma das implicações óbvias do liberalismo é a liberdade de cada um viver sua sexualidade como melhor lhe parece. Por que manter relações sexuais apenas no casamento? Aliás, por que me casar? E por que se casar apenas com uma mulher, se posso me casar com duas? E dois homens e duas mulheres: qual o problema? É meu direito, dizem os liberais.
E antes que o protestante chame o liberalismo de demoníaco, saiba que é o liberalismo que permitiu a existência do protestantismo. Porque o liberalismo não diz respeito apenas à liberdade sexual: ele é a base das liberdades religiosa, de opinião, de expressão e de pensamento. Sem esses direitos fundamentais, minorias religiosas não poderiam sobreviver.
Vale lembrar que o casamento gay vai muito além de um simples debate sobre liberdade sexual. O que o movimento LGBT quer é ter a liberdade de viver os conceitos do casamento e da família de modos diferentes dos estabelecidos pela moralidade judaico-cristã. Isso envolve a liberdade de pensamento, de opinião…e de expressão! Argutos defensores do casamento gay poderiam dizer que não importa se essa união é superior à judaico-cristã, eles têm o direito de escolher um modelo alternativo de união. Negar-lhes tal direito é negar-lhes uma liberdade fundamental. E aí há uma base filosófica, política e teórica forte, que é completamente ignorada na resposta.
Para fazermos um tripé, ainda há o relativismo cultural. Uma das defesas de Yago Martins é a de que o casamento entre um homem e uma mulher fazem parte da nossa cultura e da Constituição. Ele questiona porque o Estado quer agora mudar essas definições e aponta para um perigo totalitário, de excessiva interferência do Estado nas liberdades individuais.
Quanto à interferência, o liberalismo já contradiria a resposta do Yago: restringir o casamento ao conceito judaico-cristão é que seria a interferência do Estado sobre as liberdades individuais. Quanto à mudança de um conceito central sobre a família, o movimento LGBT poderia simplesmente apontar para o passado e para outras sociedades.
A verdade é que o casamento monogâmico entre um homem e uma mulher não é o único modelo. No passado, o amor homoafetivo era glorificado, por exemplo, na sociedade grega. Em tribos indígenas brasileiras, o homossexualismo não só era praticado como era necessário em rituais religiosos dos pajés. Ou seja, há uma raiz cultural que tem sido evocada em defesa do casamento gay no nosso próprio país.
Mas a diversidade não para aí. O islamismo é poligâmico. Palácios reais do Extremo Oriente tinham haréns extensos com esposas, concubinas e outras (lembra das gueixas?). Com tantas possibilidades, por que parar na visão cristã?
Se o homem é a medida de todas as coisas, se devemos ser livres para vivermos nossa vida e se há diferentes padrões em voga…por que submeter-se ao ponto de vista cristão? Se eu, Yago ou qualquer outro pensador cristão quiser defender a visão bíblica do casamento como um valor que a sociedade deve aceitar, é preciso atacar essas três bases. E ainda há outras.
A ridicularização
Mas Yago usa um outro “trunfo” usado por muitos cristãos, inclusive católicos, como Olavo de Carvalho. Se eu estendo o casamento aos homossexuais, por que não autorizar o casamento com crianças ou animais?
Talvez ele não saiba, mas há uma resposta: a capacidade de compreensão e o consenso. Uma criança não poderia se casar porque não tem a maturidade física e psicológica necessárias para consentir com um relacionamento sexual. Se o exercício da sexualidade não é consensual ou pode trazer traumas, o casamento não seria permitido. Esse seria o limite. Se dois ou mais “adultos” querem se relacionar consensualmente e têm consciência das implicações, por que não?
Dito de outra forma: o homem (antropocentrismo) é livre (liberalismo) para redefinir qualquer conceito ou forma de organização social (relativismo cultural). Conceitos mudam com o passar do tempo. Até a visão judaico-cristã de casamento mudou: no Antigo Testamento a poligamia era aceita, no Novo Testamento não. Ah, dirá o cristão, Deus que mudou. Pois bem: o não-religioso pode usar o argumento do Yago e afirmar que “quem me garante que, em nome de Deus, a Igreja não vai redefinir o significado de família, casamento, criação de filhos, como transo…?”.
Mudar o conceito não é o problema: eles mudaram, de fato. A luta é a autoridade: ela pertence a Deus ou aos homens?

Sem méritos?
Mas há sim alguns méritos na visão do Yago. Ele declara claramente o seu pressuposto: a revelação bíblica. Ele denuncia que a permissão de certas escolhas morais pode trazer consequências à sociedade que não estavam previstas e gerar um certo caos. Ele aponta, corretamente, que há grupos, textos e posturas extremadas, que vão muito além da liberdade dos relacionamentos homossexuais: querem por fim à heteronormatividade e/ou admitir práticas ainda mais distantes, como a pedofilia.
Contudo, atacar as versões extremadas é atacar a caricatura. É a mesma coisa que bater no Silas Malafaia e no Marco Feliciano e ignorar bons debatedores do assunto, como o Rev. Augustus Nicodemus. Podemos fazer melhor.
Como? Atacando aquilo que o Yago não conseguiu enxergar (e admitiu isso no vídeo): as bases filosóficas, políticas e teóricas do casamento gay.
Minha visão
Este texto não tem a pretensão de detalhar a minha própria visão sobre o assunto. Há outros textos meus no blog sobre o assunto, é só usar a ferramenta de busca na lateral que você vai achá-los ou buscar a tag “homossexualismo”. Sou contra o casamento homossexual. Entendo que este é um limite que o Estado não deveria cruzar. Mas ainda preciso estudar mais para defender melhor meus pressupostos:
Teocentrismo: é Deus, e não o homem, quem define o que é certo ou errado.
Conservadorismo: as pessoas devem ser livres para viver como quiserem, mas há certos valores que devem ser observados por todos, independente de suas crenças.
“Absolutismo” (na falta de termo melhor): há sim padrões e valores superiores aos outros. Nem tudo é relativo.
Lamento se decepcionei leitores cristãos e não-cristãos. Os últimos me perdoem, mas eu sou um pastor, você não deveria esperar uma conclusão diferente. Os primeiros me perdoem, mas as críticas são formas de melhorarmos.
 Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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6 thoughts on “A caricatura gospel do casamento gay

  1. Ademar,

    Vejo que você é adventista. Desde meu debate com o Leandro Quadros que adventistas vêm aqui e fazem comentários semelhantes…compreensível, não é mesmo?

    Sobre os argumentos, você poderia fundamentar a sua crítica. Talvez oferecendo argumentos melhores. Seria mais construtivo do que simplesmente chamar de fraco.

    Sobre a dor de cotovelo…sem comentários.

    Graça e paz do Senhor,

    Helder Nozima
    Barro nas mãos do Oleiro

    Gostar

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