Não, eu não quero nenhuma censura!

Um ditado diz que devemos tomar cuidado para não jogar a criança fora junto com a água da bacia. Às vezes, o nosso desejo de limpeza é tão grande que corremos o risco de jogar fora, junto com a água suja, a criança que queremos ver limpa. O nosso zelo purificador não deve ser tão grande a ponto de destruir algo valioso que queremos preservar.
Eu diria que é com este espírito que se deve criticar o texto Em defesa da CENSURA!, escrito por Solano Portela no blog O Tempora, O Mores. A sociedade brasileira, de fato, navega nas águas sujas da imoralidade e da promiscuidade sexuais. Tais pecados encontram ampla divulgação nos meios de comunicação. A Igreja precisa buscar formas de conscientizar os brasileiros de que isso é um problema grave. Mas daí a querer defender uma censura, de qualquer espécie, é cair em um zelo tão cego que pode sim comprometer as crianças que se pretende defender. Por isso, não concordo quando Portela diz:

Sou, portanto, defensor de algum tipo de censura que poupe os nossos filhos e as nossas famílias, hoje prisioneiras de uma sociedade amoral e insolente. Elas precisam ser poupadas do estímulo à sexualidade precoce; do mau gosto das relações sexuais diárias trazidas pelas novelas à mesa de jantar; dos anúncios que se intrometem em programas, selecionados pelo suposto conteúdo de mérito, trazendo o sexo e inversões sexuais agressivas como arma de venda; e de tantas outras situações que apelam aos sentimentos mais rasteiros e egoístas da natureza humana. Esta sociedade se preocupa muito em preservar supostas “liberdades”, mas se autodestrói (Pv 5.22-23) esquecendo as pessoas que a compõem e os valores que realmente precisam ser protegidos.

Censura: faca de dois gumes
A censura não é uma experiência nova no Brasil. Seja em ditaduras mais à direita (como a militar) ou com uns toques de esquerda (como o Estado Novo, de Getúlio Vargas), sempre houve uma tentativa de controlar a produção artística e cultural. Em nome da “moral” e dos “bons costumes”, patrulhavam-se filmes, radionovelas, peças de teatro, entre outros. A questão é que também se patrulhava a imprensa, os intelectuais e todos aqueles que tivessem um pensamento político divergente.
Para implementar-se a ideia de Portela, o Estado teria que montar um aparelho de censura. Tudo teria que ser visto pelos censores para aprovar ou não a exibição do que é “imoral”. Mas, por que ficar só por aí? A moralidade pode muito bem ser usada como escudo para mascarar objetivos mais perversos. Nada garante que o Estado se limitará aos assuntos morais, como propõe o autor.
O que me lembra, aliás, que é um péssimo momento para evangélicos defenderem a censura. Hoje, vários grupos ativos de direitos dos homossexuais querem censurar o que pregadores dizem nos meios de comunicação. Ateus e ativistas da democracia da comunicação acham um absurdo que igrejas sejam detentoras de concessões públicas de radiodifusão. Como a radiodifusão é um bem público, não deveria divulgar ideias de um grupo particular. Logo, as igrejas não deveriam ter concessões. Combine isso com as tendências “politicamente corretas” do governo de ocasião e fica claro o quão inoportuno é o texto de Portela. A censura é uma ameaça aos evangélicos, e não uma solução para o país. Defendê-la é dar a arma ao inimigo.
Sem falar no prejuízo cultural causado pela censura. Pode-se discutir, mas arte é transgressão, é a busca do novo. A censura não permite a inovação, ela apenas reproduz o que já existe.
Censura: uma solução inútil
Mas o mais grave é que, além de arriscada, a censura é inútil. Vinte anos de ditadura e de controle dos meios de comunicação não tornaram o Brasil um país menos sensual. Aliás, a revolução sexual com suas promessas de promiscuidade, a aceitação social do uso de drogas e o início da banalização dos divórcios começaram exatamente nos anos 60 e 70.
Podemos ver o mesmo em países onde a mídia é menos sensual, como é o caso dos países islâmicos. Prova disso são os casos de estupro coletivo durante as manifestações na Praça Tahrir, no Egito. Burcas não impedem que estupros aconteçam no talibã Afeganistão. Isso mostra, claramente, que a censura é inútil em produzir uma sociedade pura e livre de pecado.
O mesmo acontece com qualquer lei. Se a lei de Deus não pode salvar, imagine a dos homens!

Porque, aquilo que a lei fora incapaz de fazer por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho, à semelhança do homem pecador, como oferta pelo pecado. E assim condenou o pecado na carne…(Romanos 8:3)

Não é por meio da censura que o Brasil se verá livre da imoralidade sexual, mas sim por meio da transformação dos corações. Não é de fora pra dentro, mas de dentro pra fora, como ensina o próprio Jesus.

“Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês limpam o exterior do copo e do prato, mas por dentro eles estão cheios de ganância e cobiça. Fariseu cego! Limpe primeiro o interior do copo e do prato, para que o exterior também fique limpo. (Mateus 23:25-26)

Uma experiência pessoal
Foi o que também pude constatar quando passei três meses e meio em Botsuana, na África. Um país onde a maioria das pessoas é evangélica, a prostituição e o homossexualismo são crimes e a coisa mais sensual que você acha em uma banca de revistas é a capa da Sports Illustrated (porque a pornografia não é permitida). Quando passam filmes na TV por assinatura, os palavrões são silenciados. Talvez Portela considere uma nação assim um exemplo de como é uma cultura influenciada pelo cristianismo.
Contudo, é em Botsuana que se registram uns dos maiores índices de AIDS no mundo: mais de 38% dos adultos em 2002 era soropositiva. E o maior foco de disseminação foram as relações sexuais sem proteção. Para mim, essa viagem mostrou claramente o quanto este tipo de controle da mídia é inútil para purificar a sociedade.
Se o coração não for mudado, as pessoas continuarão a chafurdar gostosamente na lama da imoralidade.
A solução?
Se realmente queremos proteger as nossas crianças, adolescentes e até cônjuges da imoralidade, a solução é uma só: pregar e ensinar a Palavra de Deus. O Novo Testamento não diz que devemos usar o Estado para forçar as pessoas a obedecerem ao Senhor, como pretendem alguns. Ao contrário, o ensino de Jesus e dos apóstolos é o de que devemos convencer os pecadores a serem discípulos de Cristo por meio da pregação da Palavra.
O problema é que este processo é lento e sem garantias de que alcançará a todos. É difícil esperar até que consigamos massificar a educação bíblica e vê-la produzir frutos. Queremos ver o reino de Deus implantado na terra já, e usar o Estado para forçar as pessoas a seguirem a Cristo é muito tentador. Afinal, se Deus for o ditador, qual o problema?
Entretanto, Deus não quer implantar já uma teocracia no mundo. Até o retorno de Jesus, a igreja é convidada a viver “em exílio”, como peregrinos em um reino que não é o nosso. Não deveríamos buscar implementar já um reino teocrático, como o de Davi. Não…isso Jesus fará quando voltar. Até lá, devemos olhar é para Daniel e seus amigos, para Esdras e Neemias, para os judeus que viviam no meio de um império e uma cultura pagãos. Eles nos mostram que não precisamos de um Estado cristão para vivermos em santidade.
Uma nova mídia
Por fim, é preciso destacar um erro de compreensão por parte de Portela. Segundo ele:
Na realidade, o que acontece quando o tema da censura é debatido é que estamos sendo constantemente bombardeados com pelo menos duas falácias pelos meios de comunicação e terminamos absorvendo conceitos que não se sustentam, nem encontram abrigo na visão cristã de mundo. São eles:

1. “Cada um de nós decide o que é bom, válido e correto para nossa pessoa e família”. Consequentemente, qualquer forma de censura é errada, pois temos de nos expor a tudo para então tirarmos nossas próprias conclusões.
Eu sou jornalista e atuei na profissão. Ninguém defende que temos que nos expor a tudo, como acha Portela. O lema é que cada um se expõe àquilo que quiser. Tanto isso é verdade que se investe na segmentação da televisão: programas e canais inteiros dedicados a determinado tipo de público.
Agora, a liberdade que, para Portela, é ruim, pode ser uma ótima oportunidade. Se há abertura para expor o que é pecaminoso, também há para expor o que é santo e bíblico. Quem usa os meios de comunicação encontra seguidores. Não há maior prova disso do que as igrejas neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus ou a Mundial do Poder de Deus.
Se os meios de comunicação só transmitem pecado em seus produtos culturais é porque as igrejas reformadas e históricas, até hoje, irracionalmente, fogem da televisão e do rádio. Não há uma estratégia nacional para conseguir recursos e produzir programas de longo alcance para oferecer algo novo à sociedade brasileira. Tampouco os membros são encorajados a estudarem e produzirem cultura pura (e inovadora) na mídia dita “secular”.
Se a nossa mídia é tão ruim, a culpa é, em grande parte, de uma igreja que tem medo da câmera e do microfone. Ou que só produz programas “de gueto”, ao invés de pensar em algo que alcance um público geral.
Por isso, melhor do que defender “algum tipo de censura” é arregaçar as mangas e aproveitar a liberdade de opinião e expressão que nós temos para produzir uma cultura que verdadeiramente honre e glorifique o nome de Deus. Assim…e só assim…poderemos adequadamente glorificar a Deus e usar a mídia para mudar o interior dos brasileiros.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

P.S: Não deixe de ler um segundo texto, onde explico certas dúvidas sobre o meu real posicionamento. Para lê-lo clique aqui.

Anúncios

2 thoughts on “Não, eu não quero nenhuma censura!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s