Porque a vida privada conta

Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?(1 Timóteo 3:4-5)
Todos devem sujeitar-se às autoridades governamentais, pois não há autoridade que não venha de Deus; as autoridades que existem foram por ele estabelecidas. (Romanos 13:1)
Os Estados Unidos são mesmo um país peculiar. Afinal, não é absurdo que um presidente da República tenha corrido o risco de perder o cargo por causa de um adultério, como aconteceu com Bill Clinton? Ou que a vida pessoal dos candidatos a cargos eletivos seja escarafunchada atrás de casos extraconjugais, amantes ou outro ingrediente sexual da vida privada?
Contudo, a vida privada de um indivíduo pode sim colocá-lo em maus lençóis, inclusive com a Justiça. É o que também vemos nos Estados Unidos, no caso da pré-candidatura do empresário Herman Cain à Presidência pelo Partido Republicano. Embora Cain tenha cometido várias gafes, mostrando-se ignorante sobre uma série de problemas americanos, principalmente em política externa, não é por causa disso que ele decidiu suspender sua campanha à Presidência. A verdadeira razão são acusações antigas de assédio sexual e de um caso extraconjugal que ele teria mantido por 13 anos. Ele está sendo rejeitado por suspeitas quanto ao seu comportamento moral e não por sua incompetência para presidir a nação mais poderosa do mundo.
Mas, para o Brasil, tudo isso é absurdo. Na mentalidade brasileira, as amantes e casos de um político pertencem à vida privada e não deveriam ser considerados em uma eleição. Aliás, é baixaria falar disso em um debate eleitoral ou na campanha. Afinal, escolher um presidente é como escolher o gerente de uma empresa. O que nos interessa é o currículo, e não o que ele faz na cama.
Herman Cain: pré-candidato à Presidência dos EUA
As esferas separadas
O que está por trás dessa maneira brasileira de pensar? A ideia de que a vida é separada em compartimentos estanques, sem relação entre si. É o mesmo princípio por trás da história de que os problemas pessoais não devem interferir no trabalho. É como se nós tivéssemos várias vidas unidimensionais, onde é possível ser uma coisa em público e o seu oposto na vida privada. Algo como defender a honestidade na política, mas mentir para a esposa sobre o “trabalho” depois do expediente.
Só que não é isso o que a Bíblia ensina. Todas as diferentes áreas de nossa vida estão interligadas. O que fazemos no trabalho ou na vida conjugal será julgado por Deus da mesma forma que a nossa vida “espiritual” ou eclesiástica. Uma prova disso é a visão bíblica sobre o poder temporal (deste tempo). Deus controla todas as coisas, inclusive os poderes ligados ao Estado. Romanos 13 afirma que todas as autoridades, do sub-prefeito ao presidente da República, do vereador ao senador, do juiz de pequenas causas ao ministro de tribunais superiores, procedem de Deus e são ministros d’Ele.
Vale lembrar ainda que a simples observação do dia-a-dia mostra o quão irreais são os muros que erguemos para dividir a nossa vida. Se não cuidamos de nossa saúde, faltamos ao trabalho e produzimos menos. Ganhamos uma bronca do chefe e fica difícil chegar em casa animado para ir à festinha de aniversário da cunhada. Quando o casamento está em crise, não é fácil manter-se concentrado o tempo todo. As melhores empresas já perceberam isso.
O teste da família
Se uma visão holística da pessoa já faz parte da administração de empresas, penso que o mesmo deveria ser verdadeiro quanto a política. Principalmente quando levamos em consideração que os políticos estão sendo eleitos para ser nossos chefes, com poderes reais sobre a vida de cada um. Se eles não tiverem caráter, o poder que eles terão será usado em benefício próprio, com prejuízo para toda a sociedade. Algo que o Brasil tem sentido na pele.
É preciso, portanto, examinar sim o caráter de alguém que concorre para ser um líder dentro de uma nação. Não adianta apenas confiar no currículo político, o candidato deve inspirar confiança em seus eleitores. E um dos critérios mais confiáveis para se medir essas qualidades é a família.
A pergunta que abre este post ilustra essa verdade. Embora inicialmente ela se aplique a pastores, entendo que ela é pertinente para outras posições de liderança. Se alguém não sabe governar a sua família, como pode governar a igreja de Deus, uma cidade, um Estado ou uma nação? Se o desempenho de alguém como marido ou pai é sofrível, com um currículo marcado por traições, mentiras, infidelidades e filhos abandonados e malcriados, por que ele seria confiável como líder?
Quem trai a esposa, por que não trairia o seu país?
Ah, alguém pode dizer, isso não tem nenhuma relação. Um médico ou um professor pode ser ótimo, mesmo que seja um desastre dentro de casa. Fracassos familiares não anulam o talento de um cirurgião ou a habilidade de um homem de negócios, por que isso descredenciaria um candidato? Repito: porque a liderança envolve caráter. E como eu posso confiar em alguém que não foi bem-sucedido no cuidado das pessoas que ele deveria amar mais? Se um marido não é capaz de honrar os votos conjugais feitos à sua esposa, por que ele honraria os juramentos feitos de servir ao país?
Jesus: o modelo supremo
A questão fica ainda mais séria quando consideramos o papel teológico das autoridades governamentais. Embora não exista algo como “as exigências bíblicas para se presidir um país”, os agentes políticos são ministros de Deus. Nessa posição, eles são tipos, símbolos do papel de Deus como Rei e Juiz da criação. Quando os governantes agem, legislam e julgam com justiça, buscando o bem da população, eles cumprem o seu papel espiritual. Por outro lado, quando usam de seus poderes de modo injusto, mancham a imagem de Deus.
O melhor exemplo desse tipo de liderança é Jesus. O ensino bíblico é o de que Jesus voltará como Rei e Juiz no futuro. Mas antes Ele veio como servo. Jesus mostrou as suas credenciais de líder por meio de uma vida simples e sacrificial. Ele mostrou a sua competência por meio de seus ensinos e obras, de vários discursos e milagres que atestam a Sua capacidade de julgar e governar. Mas, acima de tudo, Ele mostrou ter o caráter de um líder que ama os seus liderados, a ponto de entregar a própria vida em favor deles.
Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. (João 10:11)
Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. (João 15:13)
Jesus também mostrou isso ao se preocupar com a sua mãe na hora em que estava sendo crucificado.
Quando Jesus viu sua mãe ali, e, perto dela, o discípulo a quem ele amava, disse à sua mãe: “Aí está o seu filho”, e ao discípulo: “Aí está a sua mãe”. Daquela hora em diante, o discípulo a levou para casa. (João 19:26-27)
Jesus cumpriu aquilo que Ele mesmo ensinou sobre serviço e liderança: quem é fiel no pouco (família), também o será no muito (igreja, nação):
“O senhor respondeu: ‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!'” (Mateus 25:23)
Embora eu admita que a incompetência de Cain em compreender noções básicas de política externa seja motivo suficiente para que não veja com bons olhos a sua candidatura, confesso que deixa-me feliz ver que os americanos ainda se preocupam com a vida privada de seus candidatos. A Bíblia não exige que os presidentes sejam crentes nem traz uma lista de qualidades indispensáveis para o comando de uma nação. Mas ela mostra que nossa vida é um todo indivisível. Ela nos dá dois modelos de liderança: Jesus e as exigências para o pastorado (um modelo para outros tipos de líderes). E ela consagra o princípio de que é no “pouco”, dentro de casa, que é lá que vemos se o candidato será ou não um bom líder.
A crucificação de Jesus: o melhor exemplo de liderança
Que tais ensinos orientem os brasileiros na escolha de seus próximos governantes.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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