Tolerância e confrontação: resposta a uma ateia

Tudo indica que a parábola do taxista se tornará cada vez mais frequente nas ruas do Brasil – em novas e ferozes versões. Afinal, não há nada mais ameaçador para o mercado do que quem está fora do mercado por convicção. E quem está fora do mercado da fé? Os ateus. É possível convencer um católico, um espírita ou um umbandista a mudar de religião. Mas é bem mais difícil – quando não impossível – converter um ateu. Para quem não acredita na existência de Deus, qualquer produto religioso, seja ele material, como um travesseiro que cura doenças, ou subjetivo, como o conforto da vida eterna, não tem qualquer apelo. Seria como vender gelo para um esquimó.(…)
Me arriscaria a dizer que a liberdade de credo – e, portanto, também de não credo – determinada pela Constituição está sendo solapada na prática do dia a dia. Não deixa de ser curioso que, no século XXI, ser ateu volte a ter um conteúdo revolucionário. Mas, depois que Sarah Sheeva, uma das filhas de Pepeu Gomes e Baby do Brasil, passou a pastorear mulheres virgens – ou com vontade de voltar a ser – em busca de príncipes encantados, na “Igreja Celular Internacional”, nada mais me surpreende.
Se Deus existe, que nos livre de sermos obrigados a acreditar nele. (Eliane Brum em “A vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico”. Meus negritos.)
No meio das igrejas evangélicas, corre o mito de que muitas pessoas se convertem porque ser evangélico “está na moda”. Como, hoje em dia, é “bacana” ter uma religião e ser católico é algo meio “antiquado”, muitos estariam aderindo ao evangelicalismo.
Contudo, trata-se de um mito. A verdade é que, para as camadas mais “intelectualizadas” do país, ser evangélico é sinônimo de ser intolerante, uma ameaça à liberdade de credo no Brasil(!) e até uma prova de inferioridade intelectual em relação a católicos e ateus. Ver que a identidade do “brasileiro” está sendo mudada pelos evangélicos é acender uma luz amarela. Ser cool, legal e inteligente mesmo é nunca confrontar os posicionamentos de quem declara não ter fé e confiar apenas na sua razão e na ciência. Ao  menos é essa a leitura que faço do artigo “A vida dos ateus em um Brasil cada vez mais evangélico”, de Eliane Brum.
Embora eu não seja um neopentecostal e até relute em me identificar como evangélico (sou protestante histórico, pastor presbiteriano), não posso negar a minha raiz e protestar contra algumas distorções presentes no texto…e principalmente em quem tem republicado o artigo em redes sociais. No caso, o meu propósito não é exatamente o de defender os evangélicos…mas sim os seguidores de Cristo.
Intolerância é diferente de confrontação
E a primeira coisa que precisa ser esclarecida é que há uma diferença entre “tolerância” e “confrontação”. Tolerar não é sinônimo de concordar ou se calar, é permitir que o outro professe e viva de acordo com as suas crenças e valores. Confrontar é conflitar com a outra parte. A confrontação pode ser violenta ou pacífica. A tolerância não exclui a confrontação pacífica entre as diferentes correntes de pensamento, de fé ou de valores, mas não aceita a confrontação violenta.
Isso é fácil de ver quando transportamos os conceitos para a política. Em uma democracia, correntes tão diferentes como o comunismo e o conservadorismo de direita são tolerados. Mas os pressupostos e propostas de cada partido são questionados publicamente por seus adversários. Há debates em universidades, associações de moradores e até na TV. E há um período de enfrentamento, que são as eleições. No meio disso tudo, há declarações fortes e vários atritos. Um lado chega a acusar o outro de ser a desgraça do país, do estado…mas há tolerância. As diferenças e conflitos são vistos como parte do processo, a confrontação é pacífica.
E aí, relendo o texto de Brum, fica a pergunta: o taxista foi intolerante ou a confrontou? Ele questionou-a, expôs o que ele pensava dentro de suas limitações e manifestou a sua opinião sobre a crença dela. Vale lembrar que quem perguntou de religião não foi o pobre motorista, mas sim a jornalista.
A “superioridade” ateia?
Não nego, porém, que exageros aconteçam. De fato, há evangélicos que podem querer exorcizar o demônio da incredulidade na vida de um ateu. Há os que se excedem nas palavras e chegam ao ponto da injúria. Contudo, sendo sincero, eles são minoria. No Brasil, a maioria dos verdadeiros discípulos de Cristo nem chega a ponto de confrontar, pelo medo de não estarem bem preparados para discutir.
Mas engana-se quem acha que os ateus são um exemplo de cordialidade com os cristãos. Se não dizem que iremos para o inferno, há outras formas nada sutis de confrontação. Questionam como podemos guiar a nossa vida baseados em um livro escrito há uns dois mil anos. Fazem piadas dizendo que acreditamos em um Amigo Imaginário, mesmo tendo 30 anos de idade. Chamam-nos de supersticiosos, dizem que a religião é a culpa de todos os males da humanidade. E eu estou falando apenas da minha experiência pessoal.
Também há perfis na Internet como o da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos, que fazem uma confrontação mais pesada. Exemplos? Olha a tirinha que está no álbum do perfil da ATEA no Facebook:
Segundo eles, as religiões seriam a causa do atraso da humanidade:
E o que eu vou dizer? Intolerância? Não, não é…é confrontação. Agora, será que não temos o direito de confrontar de volta?
A intolerância ateia
Na verdade, o ensino bíblico é o de que as liberdades fundamentais devem ser respeitadas. Jesus nunca pregou que os cristãos deveriam derrubar o Império Romano e proibir qualquer fé que não fosse a cristã. Na verdade, os cristãos deveriam confiar em Deus, e não no poder militar, crendo que sua fé prevaleceria. Foi o que aconteceu. Os cristãos foram mortos, presos e torturados, mas venceram. Preservado o ensino bíblico, é isso o que os cristãos devem fazer.
É verdade porém que, em nome de Cristo, mas não com a Sua aprovação, muita perseguição foi feita. Mas, quando se consideram os países realmente influenciados pela Reforma Protestante, o sangue derramado por causa de fé ou de ateísmo não se compara ao que ainda se vê em países ateus em pleno século XXI. Apesar das bruxas de Salém, a tolerância prosperou em terras protestantes, como mostram o exemplo de países como os Estados Unidos, a Suíça, a Suécia, a Holanda e até o Reino Unido.
Ao contrário do que insinua Brum, no mundo todo, as pessoas que mais são ameaçadas pelos intolerantes não são os ateus, mas sim os cristãos. E engana-se quem imagina que apenas países islâmicos extremistas façam essa perseguição. As ditaduras marxistas, valendo-se do conceito de que “a religião é o ópio do povo”, buscaram cooptar (regulando com a mão de ferro do Estado) ou extinguir todas as igrejas. A união do marxismo com o ateísmo provocou a morte de milhares de cristãos na antiga União Soviética e até hoje mata e prende cristãos na Coreia do Norte, na China e em Cuba. Aliás, o país campeão em perseguição aos cristãos é precisamente a Coreia do Norte:
O Estado não hesita em torturar e matar qualquer um que possua uma Bíblia, quer esteja envolvido no ministério cristão, organize reuniões ilegais, quer tenha contato com outros cristãos (na China, por exemplo). Os cristãos que sobrevivem às torturas são enviados aos campos de concentração. Lá, as pessoas recebem diariamente alguns gramas de comida de má qualidade para sustentar o corpo, que deve trabalhar 18 horas por dia. A menos que aconteça um milagre, ninguém sai desses gigantes campos com vida. (Portas Abertas)
“Ah, mas nem todos os ateus concordam com isso!” Ótimo: eu também não concordo com o sangue derramado injustamente em nome de Cristo. Mas o fato é que hoje há regimes ancorados no ateísmo matando cristãos, e isso sim é intolerância! Antes de dizer que os cristãos evangélicos são intolerantes, gostaria muito que a jornalista e outros ateus olhassem para a pilha de cadáveres cristãos sendo aumentada dia após dia por causa da intolerância no mundo todo. Que país protestante está exterminando ateus por que o ateísmo é um crime?
Olhando para o Brasil
Mesmo no Brasil os protestantes têm os seus mártires. E isso já vem do século XVI, quando os franceses mataram protestantes reformados no episódio que gerou a Confissão de Fé da Guanabara. Em 1898, um fanático matou o presbiteriano Manoel Villela, em Canhotinho (PE), outro mártir da Igreja Presbiteriana do Brasil. Em outras denominações há outras histórias. Nós sim sabemos o que é não sermos tolerados.
Mesmo hoje, projetos de lei como o PL 122 querem impedir que os cristãos preguem abertamente o que a Bíblia ensina sobre o homossexualismo. Quem está tendo a sua liberdade de crença e expressão ameaçada são os cristãos. Agora, além de querer nos calar por meio de leis…querem proibir que nós questionemos os ateus sobre a sua fé?
O taxista errou é pelo despreparo em lidar com a questão. Errou sim na escolha das palavras, no tom e por focar na igreja e não em Jesus. Mas não errou por ter questionado as convicções de alguém que começou o debate perguntando sobre a fé dele.
Fora do mercado?
Por fim, engana-se Brum se ela pensa que os ateus estão “fora do mercado”. Primeiro porque nem todos enxergam as religiões como um mercado. Com certeza não é isso o que pensa um muçulmano, um judeu ou um cristão sério. Para eles, a fé é parte da identidade, até mesmo dos valores de suas nações. O Ocidente, quer queira quer não, ainda hoje segue uma ética judaico-cristã em muitos aspectos.
Os ateus também têm o seu deus: o próprio homem. Ao negarem servir a qualquer deus, o que eles fazem é colocar-se no lugar dele e adoram-no. O homem é a medida de todas as coisas, é nele que devemos depositar a nossa esperança, é ele quem define o certo e o errado. Não devemos contas a nenhum ser superior.
Segundo a Bíblia, a avaliação de quem pensa assim é esta:
Diz o tolo em seu coração: “Deus não existe! ” Corromperam-se e cometeram injustiças detestáveis; não há ninguém que faça o bem. Deus olha lá dos céus para os filhos dos homens, para ver se há alguém que tenha entendimento, alguém que busque a Deus. Todos se desviaram, igualmente se corromperam; não há ninguém que faça o bem, não há nem um sequer. (Salmos 53:1-3)
Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. (Romanos 1:20-23)
O mérito do ateu do século XXI é o de acabar com a hipocrisia. Hoje não adoram mais imagens, colocaram no altar quem a humanidade sempre quis adorar: ela mesma.
Sou tolerante. Não proíbo ninguém de pensar assim. Não vou pedir na Justiça que impeçam os ateus de proclamarem livremente as suas crenças e até as críticas quanto à minha fé. Mas, como cristão e como cidadão, não posso abrir mão do direito de criticar livremente o ateísmo, como uma idolatria do próprio homem. Se sou louco para eles, digo que vocês também são loucos aos olhos de Deus…e aos olhos de todo o que segue a Bíblia. E vou continuar orando e trabalhando para que o máximo possível de ateus, agnósticos, católicos, evangélicos, espíritas, budistas e outros deixem o seu engano e adorem ao Deus vivo e verdadeiro, revelado na Bíblia.
Um dia Ele virá e mostrará que todos se prostraram diante de algum deus. E, naquele dia, Deus vindicará para Si o governo do mundo, que é d’Ele de direito. Até lá, Deus continuará a atender o desejo de Eliane Brum e ela continuará tendo, da parte d’Ele, a liberdade de não acreditar n’Ele.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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5 thoughts on “Tolerância e confrontação: resposta a uma ateia

  1. Bom dia Helder, com a paz do Senhor! Mais um texto abençoado com a unção de Deus que acabei de compartilhar!

    Na minha congregação o pastor tem falado muito em um termo que você tocou no texto: egolatria. Vou te citar:

    “O mérito do ateu do século XXI é o de acabar com a hipocrisia. Hoje não adoram mais imagens, colocaram no altar quem a humanidade sempre quis adorar: ela mesma.”

    Basicamente, não estamos vivendo um momento de ateísmo clássico, como Nietzsche citou no fim do século XIX de que “Deus está morto.” – no fim, quem morreu foi ele porque Deus é eterno.

    Estamos sim, vivendo um momento de uma nova idolatria: a egolatria. Vivemos em uma sociedade de ególatras. O homem adorando a si e suas invenções e conquistas, esquecendo de que foi Deus que o deu inteligência e capacidade acima de tudo para alcançá-las. E ainda esconde isso sob uma máscara de ateísmo. Com muita, MUITA intolerância. E vejo que nós, protestantes, somos mais perseguidos que os demais religiosos, sendo acusados falsamente (ou seja, injuriados e caluniados) de “provocar e fomentar o atraso na sociedade”. Mas desde Paulo somos perseguidos, e assim sempre será (Lutero, Calvino…), porque o caminho da salvação é estreito, assim como está escrito na Bíblia.

    Quanto a estes duros de coração, assim como você Helder, eu digo e faço o mesmo: confrontar não resolve. Mas a oração a vigilância com fé no Senhor e coração honesto pode aquebrantar qualquer coração.

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