Autoridade, impunidade e os protestos na USP

Naquela época não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo. (Juízes 21:25)
Hoje, enquanto escrevo este post, o Brasil assiste mais um ministro ameaçado de queda por causa de denúncias de corrupção. O sexto (Jobim caiu por falar a verdade) no primeiro ano do mandato da presidenta Dilma Rousseff. Em um dos ministérios investigados, o do Esporte, há denúncias que também atingem um governador de Estado, Agnelo Queiroz, do meu querido Distrito Federal. Um deputado estadual teve que fugir do país para que as ameaças de morte feitas contra ele por milicianos sejam levadas a sério.
O que veríamos em qualquer país democrático onde tais coisas acontecem? Veríamos o povo na rua, protestando, exigindo vergonha na cara dos políticos, questionando a capacidade administrativa da presidenta e a punição dos criminosos, dentro e fora do Estado. É de se esperar que os estudantes, por sua juventude e idealismo, fossem os protagonistas deste movimento.
Mas, o que vemos no Brasil? Vemos os estudantes da universidade mais renomada do país, a Universidade de São Paulo (USP), mobilizados, participando de uma greve geral…contra a presença da Polícia Militar no campus da USP!!! É isso mesmo: ao invés de protestarem contra os ministros corruptos, os políticos ineptos, os milicianos que matam juízes e ameaçam um deputado, eles armam um escarcéu para pedir a PM fora do campus! E o que é pior: a origem dos protestos não foi nenhum tipo de repressão política, mas sim a prisão de estudantes que quebravam a lei do país, fumando maconha.
Quando a Polícia Militar cumpriu o seu papel, começou uma série de protestos, que redundaram em mais crimes e desafios à ordem. Ocupou-se um dos prédios da USP, foi feita uma assembleia e o lado perdedor, insatisfeito, resolveu invadir a Reitoria. Lá, eles agrediram jornalistas, depredaram o patrimônio público, guardavam coquetéis “molotov” e desafiaram a determinação da Justiça de reintegração de posse. O resultado foi a prisão dos estudantes que insistiram em permanecer na Reitoria…que agora virou uma “greve geral” dos estudantes.
Assembleia de estudantes da USP

A impunidade
Embora existam algumas pessoas que apoiem a “revolução” dos estudantes da USP, creio que a maioria dos brasileiros está chocada com os acontecimentos. As universidades públicas são o sonho de muitos pais e jovens, são os locais onde se espera que serão formadas as elites do Brasil. Como pessoas que deveriam ser a nata do país, gratas a Deus por poderem estudar de graça na melhor universidade do país são capazes de tudo isso?
A resposta é simples e também serve para uma série de outros problemas brasileiros: a impunidade. O Brasil é o país onde, do filho dentro de casa até as mais altas autoridades da República, as punições aos culpados são sempre aliviadas. O país onde, mesmo que a autoridade esteja respaldada pela lei, ela precisa buscar alguma alternativa mais branda, ao invés de aplicar a pena prevista. A nação onde quem mais sofre são os inocentes.
O caso da USP é exemplar. A maioria dos estudantes de universidades públicas do país não é filha de gente pobre, mas sim de classe média para cima. São pessoas que podem “não trabalhar”, seja porque ganharam uma bolsa (minoria) ou porque são sustentados pelos pais de alguma forma. É gente com mais dinheiro do que os policiais militares que foram prendê-los. Não se trata nem da “ralé” e muito menos de pessoas inocentes, como descrevi nos parágrafos acima.
“Ah, Helder, mas eles foram punidos!”. É mesmo? Vamos recapitular alguns fatos.
1) Quando os estudantes foram presos por fumarem maconha, professores da Universidade tentaram livrá-los de irem à delegacia;
2) Nenhuma punição foi aplicada aos estudantes que convocaram uma outra assembleia na calada da noite para invadir a Reitoria;
3) A Universidade montou uma comissão para negociar com os estudantes e chegou a oferecer “anistia” para os envolvidos;
4) A Justiça prolongou o prazo original dado para a reintegração de posse.
Isso é ou não “passar a mão na cabeça”? Quem fuma maconha e é pego em flagrante precisa se explicar na delegacia. Quem desrespeita uma assembleia deveria ter algum direito censurado pela organização estudantil, ainda que seja o presidente! Quem invade, depreda e guarda bombas caseiras deve responder, criminal e academicamente pelo que fez.
Talvez muitos não tenham notado, mas o processo com os alunos da USP é usado com muitos outros no Brasil. Quantos empresários ou funcionários públicos estão presos por corrupção? Também eles, quando flagrados no erro, entram com recursos e várias medidas para escapar da punição da lei.

Coquetéis “molotov” apreendidos com estudantes da USP

E o mesmo acontece com gente pobre também. Militantes “sem-terra” invadem e destroem prédios públicos e fazendas particulares, negociam…e não são presos. Vários estupradores, sequestradores e assassinos aproveitam os indultos dos feriados para escaparem e cometerem novos crimes e também conseguem benefícios que os livram da cadeia antes de cumprirem metade da pena. É o mesmo processo.

Sem falar que a manifestação da USP está sendo dirigida por movimentos partidários de esquerda. Partidos e correntes que estão tentando ganhar espaço por meio da defesa do erro e do enfrentamento do governo, só porque o governador é de outra corrente política.

Falta de autoridade
E qual a origem da impunidade? A falta de autoridade que impera no Brasil. Vivemos em um país onde, não importa o nível, as autoridades são frouxas e desrespeitadas. O brasileiro nunca gostou de cumprir regras, muito menos de quem exige o respeito à elas.
Pais não disciplinam os seus filhos porque querem “parecer legais” e não aguentam quando o veem de “cara amarrada”. Deixam que as crianças mandem neles, escolham o que querem e não impõem limites. Nas escolas, o professor pode até ganhar um tiro, mas não tem o respaldo da escola para disciplinar o aluno desobediente, “para não desagradar os pais”. O funcionário é incompetente, faz coisas erradas e não é demitido porque “como, afinal, ele vai se virar?”.
O resultado é que, na prática, na família, na escola e até no trabalho “cada um faz o que lhe parece certo”, exatamente como nos dias dos juízes. Naquela época, mais ou menos entre 1400 e 1000 anos antes de Cristo, Israel não tinha um rei, um poder central responsável pela aplicação das leis. Sem uma autoridade forte, cada israelita agia como achava melhor. Afinal, quem iria punir o culpado? O resultado era uma mistura de violência, idolatria, apoio ao pecado (uma tribo inteira ao lado de estupradores), estagnação econômica, derrotas militares e insegurança.
A autoridade forte garante estabilidade e ordem. Quando pais, professores e até chefes são firmes e punem com justiça, a sociedade toda ganha. Até mesmo os punidos ganham a oportunidade de reconhecerem seu erro e mudarem de conduta.
Além disso, a autoridade é um símbolo do reino de Deus. Quando pais, mães, professores, pastores, chefes, juízes, governadores e outras autoridades exercem seu poder, agindo com justiça, punindo quem faz o mal e premiando quem faz o bem, elas se tornam símbolos do governo de Cristo sobre o mundo. Como está escrito:
Deus “retribuirá a cada um conforme o seu procedimento”. Ele dará vida eterna aos que, persistindo em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade. Mas haverá ira e indignação para os que são egoístas, que rejeitam a verdade e seguem a injustiça. (Romanos 2:6-8)
A falha das igrejas
Lamentavelmente este ensino tem sido negligenciado. E as grandes culpadas são as igrejas evangélicas. Não apenas porque isso não tem sido pregado, mas porque a mensagem hoje é contrária à autoridade.
Um bom exemplo é a questão da liderança. A moda é dizer que o líder não é aquele que exerce autoridade, mas sim o que influencia. Sinceramente, por este critério, homens como Moisés e Elias, que foram rejeitados por todo o povo de Israel e ameaçados de morte, são péssimos líderes. Muitas vezes Deus teve que disciplinar a Israel, inclusive com mortes, para que o povo não destroçasse esses grandes homens de Deus.
O mesmo pode ser dito de Jesus. O líder que arrastou multidões terminou sendo abandonado por todos. Mesmo hoje, a despeito do grande número de cristãos, o mundo de uma forma geral rejeita a liderança de Cristo. E, no dia do Juízo, Cristo vai sim usar a força da autoridade para fazer com que todos se ajoelhem diante d’Ele.
Hoje as igrejas precisam recuperar este ensino. O pai, o pastor, o professor…todos eles devem ser obedecidos simplesmente porque eles são o que são. Por mais que eles não sejam carismáticos ou influentes, eles devem aplicar as punições necessárias e serem temidos pelos que procedem mal. As igrejas precisam abandonar o ensino herético sobre liderança e voltar a ensinar o que a Bíblia fala de autoridade.
E, claro, precisam praticá-lo. Há graça sim, para os que se arrependem. Mas para aqueles que persistem no erro e continuam no mau caminho, que venha a disciplina eclesiástica. Que a igreja cumpra o seu papel de representante de Cristo no mundo.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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2 thoughts on “Autoridade, impunidade e os protestos na USP

  1. Cara, eu fico feliz em ver que a PM invadiu mesmo aquele ANTRO e desceu a lenha. Afinal, autoridade imputada pelo governo é pra ser respeitada, e as leis não foram feitas para serem quebradas.

    Que a justiça do Senhor seja feita naquele lugar!

    Ótimo post, Nozima!

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  2. Anayran,

    Uma correção: quem invadiu foram os alunos. A PM apenas cumpriu uma ordem judicial. E não desceu a lenha, fez o que tinha que fazer. Espero que eles continuem assim.

    Graça e paz do Senhor,

    Helder Nozima
    Barro nas mãos do Oleiro

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