Jesus: filho da virgem e da prostituta

Registro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão:(…)Salmom gerou Boaz, cuja mãe foi Raabe; Boaz gerou Obede, cuja mãe foi Rute; Obede gerou Jessé;(…)e Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo. (Mateus 1:1,5,16)
Embora, segundo a Bíblia, todos os seres humanos partilhem uma mesma origem e sejam iguais em valor, não é bem assim que a humanidade se enxerga. Em todas as sociedades existem normas, “réguas” pelas quais nós medimos o valor das pessoas. E uma das mais comuns é a “origem”, o sangue.
Assim as castas na Índia são estruturadas de acordo com a família. Na Europa criou-se a nobreza, os de “sangue azul”. Japoneses não são muito simpáticos a que seus filhos se casem com os gaijin (não japoneses) e o mesmo pode ser dito de várias outras etnias. Mesmo em sociedades que se orgulham de ser mais democráticas, como os Estados Unidos, surgiram padrões como o wasp (branco, anglo-saxão e protestante) para designar as famílias mais “nobres”.
O Brasil não é exceção, inclusive dentro das igrejas evangélicas. A “boa família” é uma característica desejada para um bom partido (seja marido ou esposa), ajuda a arrumar amizades, a conseguir posições eclesiásticas e até a projetar ministérios (como a cantora irmã de Fulana ou o deputado filho do pastor Beltrano). Assim como no resto da sociedade, quem não tem uma “boa origem”, aparentemente, sofre um pouco mais para achar o seu lugar debaixo do “Sol” protestante. Que o digam, por exemplo, os que se convertem já na mocidade e tentam se encaixar em uma igreja onde todos são parte de alguma família.
Mas…isso é bom ou ruim? A resposta pode ser surpreendente.
O filho da virgem
Mas, se há alguém que pode vindicar o título de “Família Real” da humanidade, este é o caso da família do rei Davi. Desde a queda do homem no Jardim do Éden (a história está em Gênesis 3), Deus havia prometido que um Salvador viria “esmagar a cabeça da serpente” e ser uma bênção para todas as nações. Este Salvador era um homem, mas ao mesmo tempo, seria o Filho de Deus. O nome dele é Jesus, 100% Deus e 100% homem.
E é de propósito que Deus determina uma espécie de linhagem santa e real que leva até Jesus. Essa distinção é feita logo na abertura do Novo Testamento: Jesus é filho de Davi (rei) e de Abraão (o patriarca da fé). Ele não é um personagem isolado no tempo, mas o ponto culminante de uma história que começou na criação, passou pela fé dos patriarcas (Abraão) e pela dinastia de Davi. Jesus é o cumprimento de uma série de promessas e histórias, de uma caminhada de fé transmitida de geração a geração por pessoas santas.
Isso tudo é corporificado em Maria, a mãe de Jesus. Ela não era uma mulher qualquer: era uma virgem, da família mais importante da humanidade e cheia de qualidades e virtudes. A Bíblia não registra em detalhes a história dela, mas certamente ela foi a mais virtuosa das mulheres, o símbolo da origem santa de Jesus. O Cristo é filho da virgem.
O filho da prostituta
Contudo, a Bíblia não registra apenas o lado belo da Família Real. Afinal, de todas as ofensas que você pode dirigir a outro ser humano, é meio difícil achar uma mais ofensiva do que “filho da prostituta” (eufemismo). E, bem, a Bíblia mostra que, se Jesus era filho da mais santa das mulheres, Ele também era filho (descendente) de uma mulher desprezada e desonrada aos nossos olhos. De modo deliberado, Mateus destaca que Jesus era filho da prostituta Raabe.
A história de Raabe você encontra no livro de Josué. Ela era cananeia, moradora de Jericó, uma cidade inimiga de Israel, a primeira que seria conquistada pelos hebreus na Terra Prometida. Naquele tempo, a prostituição não era um mero comércio de corpos e prazeres sexuais. Na verdade, era uma atividade ligada aos cultos cananeus de fertilidade. O agricultor fertilizava a prostituta (uma espécie de sacerdotisa) assim como o deus Baal deveria fertilizar a terra (com chuva) para abençoar a colheita.
Raabe era, portanto, uma inimiga, uma prostituta e uma idólatra. Três vezes maldita. Três vezes desprezível segundo a Lei de Moisés. É difícil pensar em uma origem pior, uma forma pior de começar a vida.
Mas a pecadora mudou de lado. Ela protegeu espiões israelitas que foram até Jericó e salvou-lhes a vida. Pediu a proteção de Israel e acabou salvando a si mesma e aos seus parentes. Mais do que isso: ela foi acolhida pelos israelitas. Casou-se com Salmom, filho de Naassom, príncipe da tribo de Judá. Foi mãe de um dos homens mais ricos e respeitados em sua época, Boaz, de Belém, antepassado do rei Davi.
E, embora Raabe não fosse parte de uma linhagem santa, tornou-se parte dela. Tornou-se mãe de reis. Mais que isso, tornou-se mãe do Rei dos Reis, antepassada de José e de Maria, uma das três mulheres destacadas na genealogia de Jesus.
A mensagem de Jesus
O que estes fatos nos ensinam? Qual a relevância de Jesus ser, ao mesmo tempo, filho de uma virgem e de uma prostituta?
Em primeiro lugar, ela nos mostra que o Evangelho não é a história de homens e mulheres que se encontram individualmente com Cristo. Hoje a espiritualidade é vista como uma decisão individual, de preferência, descontextualizada da experiência dos pais e até mesmo do povo. É a história do “meu filho vai escolher a religião que vai seguir”. Mas o Evangelho é mais do que isso: é a concretização de uma fé e de uma esperança de uma família, de um povo, de toda a humanidade. É um tesouro que deve ser passado de geração em geração.
Portanto, as famílias que servem ao Senhor durante várias gerações podem se orgulhar de sua história e de sua tradição. Não legamos aos nossos filhos apenas uma herança material, mas também uma herança espiritual, como aconteceu com a família do rei Davi.
Em segundo lugar, a genealogia de Jesus nos mostra que, aos olhos de Deus, o que conta mesmo é a decisão de servi-Lo. Uma vez que alguém decide servir ao Senhor e abandona os ídolos, os falsos deuses, os pecados e até mesmo os valores errados de seu povo, esse alguém é acolhido pelo Senhor. O passado não conta mais, de forma tal que até mesmo uma prostituta é destacada no meio de todas as outras que foram mães de Jesus.
E aqui há uma mensagem de esperança e uma advertência. Para aqueles que não se sentem filhos “das pessoas certas”, tiveram uma infância problemática e um passado cheio de escolhas ruins, Jesus nos mostra Raabe como o exemplo de que Ele veio mudar tudo isso. Nada pode impedir Jesus de agir em nós e nos tornar iguais aos “príncipes e princesas” de Israel.
Para os demais, que reparam demais na origem das pessoas, fica a advertência de que não é assim que o Senhor nos olha. Jesus não observa a etnia, a conta bancária e nem a certidão de nascimento de seus filhos. Quando Ele vai providenciar as bênçãos para a sua Igreja, Ele ignora até mesmo os pecados cometidos no passado, desde que exista arrependimento. E, se é assim com o Senhor, deveríamos fazer o mesmo e acolher igualmente o bisneto do presbítero e a jovem universitária punk que acabou de se converter. Como está escrito:
Portanto, lembrai-vos de que vós noutro tempo éreis gentios na carne, e chamados incircuncisão pelos que na carne se chamam circuncisão feita pela mão dos homens; que naquele tempo estáveis sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos às alianças da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo. Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, já pelo sangue de Cristo chegastes perto. (Efésios 2:11-13)
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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2 thoughts on “Jesus: filho da virgem e da prostituta

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