Atos 29: quando fui chamado de volta ao Evangelho

Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé. (Romanos 1:16-17)
E do modo por que Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado, para que todo o que nele crê tenha a vida eterna. Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (João 3:14-18)
Participei nesta semana da 2ª conferência promovida pela Atos 29 Brasil, uma rede de plantação de igrejas ligada ao pastor Mark Driscoll. Confesso que o nome “Driscoll” foi uma das razões mais fortes para que eu me interessasse em ir ao encontro. Qual o segredo de um ministério que, mesmo sendo teologicamente conservador, floresceu em uma das cidades americanas mais áridas para se ter uma igreja? Será que as estratégias dele se aplicariam no Brasil? Claro que eu não poderia perder!
A resposta já estava dada no título da conferência: “A Chamada do Evangelho”. Parece óbvio, elementar e até infantil: o segredo é o Evangelho de Cristo Jesus. Viva-o radicalmente e Deus estará com você. É simples. Mas percebi que essa “simplicidade” era ainda mais radical e poderosa do que eu poderia imaginar.
Mais do que isso, vi que estava errado em vários pontos. Erros que preciso dividir com você.
O evangelho errado
Minha primeira e mais gritante falha era uma visão errada do Evangelho. Calma, eu não estou dizendo que fui salvo nesta semana e nem que eu pregava a salvação pelas obras ou outra heresia. Mas o meu foco estava no ponto errado.
Como bom protestante, fiz da “justificação pela fé” a pedra em cima da qual erigi minha teologia, minha santificação, meus sermões e até os meus aconselhamentos. Diz Romanos 1:16-17 que o justo viverá por fé e que o Evangelho é de “fé em fé”. Não há nada errado com isso, exceto por um pequeno detalhe. Na prática, eu pregava a fé na justificação pela fé, e não em Jesus. O meu foco estava na doutrina e não em Cristo Jesus.
Sim, meus caros, é errado focarmos em convencer as pessoas de uma certa doutrina. Evangelizar não é isso. Não é apenas explicar às pessoas quem é Cristo e como Ele veio ao mundo nos salvar e levá-las a acreditar que a morte de Jesus salva pessoas. Isso é bater na trave, não é marcar o gol.
A justificação pela fé é importante e é o Evangelho, desde que eu a complete com um “em Jesus”. O meu verdadeiro objetivo não é convencer as pessoas de que a salvação é pela fé, mas sim de que a salvação é pela fé em Jesus! Na verdade eu tenho que apresentar Jesus aos outros, como eu apresento um amigo a outros. Tenho que mostrar a ela como confiar em Jesus, se relacionar com Ele, ouvi-Lo, senti-Lo e, enfim, depositar a vida dela n’Ele.
A conversão errada
Para que isso aconteça, entendi que devo buscar uma forma nova de conversão. Sabe, até hoje o que eu buscava de todos era uma espécie de “conversão doutrinária”. O que eu buscava na minha evangelização era fazer com que as pessoas mudem de doutrina, de teologia, de pensamento. Queria trazê-las à minha forma de pensar e enxergar Deus, igreja e tudo o mais.
Só que a verdadeira conversão é um voltar-se para Jesus. Essa é a razão pela qual todo sermão precisa ser cristocêntrico, o motivo pelo qual Paulo pregava a Cristo, e esse crucificado. A verdadeira batalha não é trocar as obras pela fé ou o pecado pela santidade. O meu objetivo é arrancar os ídolos, as obras e os pecados para colocar Cristo no lugar! As verdadeiras oposições são as obras vs. Jesus, o pecado vs. Jesus. 

Cometi o mesmo erro em vários aconselhamentos. Quanto tempo eu não tenho perdido dando às pessoas apenas ordens práticas ou conselhos sobre o que elas deveriam fazer para vencer um pecado ou dificuldade! Isso até tem a sua utilidade, mas não é nada se não conseguir achar em Jesus a resposta para essas angústias. A resposta não está em mim, não está em coisas que elas possam fazer, está em Cristo! Era para Ele que eu deveria apontar e confesso que falhei miseravelmente nisso.
A pregação errada
Dessa forma, preciso mudar a maneira como prego, especialmente as aplicações. Afinal, não adianta nada fazer explicar o texto teologicamente da maneira correta se as minhas aplicações se centram na pessoa e não em Jesus.
Entendi que meus sermões são moralistas. Normalmente aplico dizendo o que as pessoas precisam fazer. Elas devem, por exemplo, não olhar pornografia. Amputar a Internet se preciso. Devem separar tempo para orar e ler a Bíblia. E posso dizer aqui mais umas 50 coisas que elas devem fazer para serem santas ou se voltarem para Deus.
Só que o Evangelho mostra exatamente o nosso fracasso em fazer qualquer coisa. Se há algo que o Evangelho nos mostra é como somos incapazes de seguir o menor dos mandamentos de Jesus. A Lei continua sendo um padrão, um referencial de certo e errado, mas ela não é mais a nossa mestra. Um sermão que ensina as pessoas a guardarem a Lei é um fracasso total.
Minhas aplicações devem se centrar em Jesus. Devo encorajar os ouvintes a buscarem o olhar de Jesus sobre as mulheres e homens, um olhar puro e não lascivo. Ensiná-las não só a amputar olhos ou mãos, mas a entregarem todo o seu corpo pecaminoso na cruz de Cristo e receber dele um novo eu. Convidá-las a se unirem a Jesus quando Ele passa as noites acordado buscando ao Pai ou jejuando no deserto. O foco não está em mim, mas em Jesus.
A Igreja errada
E com isso percebi que buscava também uma igreja diferente daquela ensinada na Bíblia. Eu achava que sabia o que era ser missional. Na verdade eu até sabia, mas, na prática, imaginava algo aquém do que a Bíblia ensina.
Eu tenho o desejo de plantar uma igreja no Brasil que seja reformada, carismática e missional. Mas, veja só: na verdade eu queria a teologia certa (reformada e carismática) e a prática certa (carismática e missional). Uma ilha de ortodoxia e ortopraxia em um mar de heresias e erros.
Na verdade o que eu queria era um monastério reformado. Uma espécie de refúgio, onde eu pudesse ouvir os sermões que eu julgo corretos e praticar livremente os meus dons. O evangelismo que imaginava ainda era algo do tipo “bater de porta em porta” ou “entregar folhetos” e mesmo um usar a diaconia como plataforma de evangelização. Mais do que isso: queria uma ilha onde pudesse desfilar o meu orgulho, uma comunidade onde eu e outros fariseus pudéssemos nos sentir superiores aos demais cristãos.
Continuo reformado e carismático e acho que me tornei missional. Mas a verdadeira razão de plantar uma igreja é buscar os que não são de Jesus, sejam eles evangélicos ou não, e ensiná-los a seguirem a Jesus e a viverem o Evangelho. 24 horas por dia. O evangelismo não é algo que eu marque: não é um culto especial, um impacto especial, uma panfletagem ou uma visita. O Evangelho é algo que eu vivo, não é algo que eu faço. Por isso, eu tenho que evangelizar sempre e não só em momentos especiais.
A questão não é ser reformado: o Evangelho é crer em um Jesus Soberano, e entender que Ele controla tudo e isso é bom. Não é ser carismático, mas deixar Jesus profetizar, ensinar, servir aos outros por meio dos dons do Espírito Santo que Ele derramou sobre nós quando subiu aos céus. Não é ser missional: é entender que quando como, saio com as pessoas (irmãs ou não), vivo com elas…que, nessas horas, Jesus as ama por meio de mim. Que é ser como Jesus: sair com os pecadores, ser amigo deles, ouvi-los, amá-los e aproveitar as oportunidades que o cotidiano me dá para dividi-Lo com eles.
A gente acha que só evangeliza quando falamos “a informação doutrinária correta”. Quando explicamos o plano de salvação e ensinamos a justificação pela fé. Isso é apenas uma parcela mínima do evangelismo. A nossa vida toda é o evangelismo. A Reforma e o Carisma são parte do Evangelho. Quando eu perdoo ou peço perdão por causa de Jesus, eu vivo o Evangelho. Ele é a minha vida.
E agora?
Confesso que ainda não sei qual é o impacto que tudo isso vai produzir na minha vida. Entender isso levou Lutero à Reforma Protestante, mudou o ministério de Driscoll e, com certeza, mudará algo em mim, como mudou na vida de milhões de anônimos. Não sei ainda o que fazer, mas sei que o meu desejo de plantar uma igreja alicerçada apenas em Jesus é mais forte do que nunca. Custe isso de mim o que custar.
Talvez você tenha achado as minhas conclusões simplistas demais, piegas, emotivas, básicas, sei lá. Sem problemas: Jesus é Deus dos simples de coração. 
Jesus me chamou de volta ao Evangelho por meio de pregadores e amigos, novos e velhos, lá no Rio de Janeiro, em Atos 29. A minha esperança é que Ele, por meio da Sua graça, me faça responder a esse chamado. E que Ele use a minha vida para chamar você também de volta a este Evangelho.
Obrigado, Jesus. O poder está em Ti e não em mim, nas doutrinas ou nas práticas moralistas que ensinei e tenho tentado seguir. Dai a nós a graça que precisamos para vivermos isso e sermos, enfim, livres. Obrigado por me fazer sentir livre, como há muito não me sentia.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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14 thoughts on “Atos 29: quando fui chamado de volta ao Evangelho

  1. Glória a Deus por tudo isto e pela sua vida, Helder. Foi bom te conhecer num momento em que ambos os nossos olhos estavam sendo abertos para certas coisas que antes, ignorávamos! Abraços!

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  2. “A nossa vida toda é o evangelismo.” Essa é a frase que melhor caracteriza o seu texto. Não dá para separar a nossa vida em caixas e sermos cristãos apenas na igreja ou quando estamos com os “irmãos” da igreja. Jesus veio à Terra e Ele não era o Salvador e Senhor somente quando estava ensinando ou na companhia dos apóstolos, Ele era assim em todos os lugares, com todas as pessoas e praticava o amor, que nos ensinou a todo o momento.

    Jesus era simples e estava próximo das pessoas, não em pedestais ou falando de coisas complicadas de entender. A Sua mensagem era para os simples e ainda é e eu fico muito feliz em saber, primeiramente que você pode ver e ser cheio do poder de Jesus e que por isso você está propagando as boas novas de salvação.

    Que o nome do Senhor seja glorificado naquilo que você se propuser a fazer pelo Seu Reino e que você seja sempre instrumento em Suas mãos poderosas.

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  3. Fala mano! Não cheguei a te conhecer lá na Atos 29 Brasil, mesmo estando lá juntamente com você. Espero que em outras oportunidades possamos nos conhecer.
    Além disso, quero te dizer que senti a mesma coisa que você. Saí de lá totalmente impactado e estou num turbilhão de pensamentos e sentimentos, que ainda precisarão de algum tempo para se organizar dentro de mim. A pergunta que você fez no final do texto é a mesma que a minha, e agora? Não é mais possível ficar nos erros que se evidenciaram diante de nossos olhos, mas ainda não está claro como vivenciar todas estas coisas. O que mais me conforta é o fato de que Jesus, este maravilhoso, que de alguma forma nós O redescobrimos nestes últimos dias, está no controle e tem muito a fazer em nossas vidas e através delas.
    Por fim, quero te dizer que você não foi simplista não, conseguiu colocar em palavras coisas que para mim seriam impossíveis de escrever, pelo menos neste momento. Como também, estas suas palavras de simplistas não têm nada, podem ser simples, pois o Evangelho é simples, Jesus! Mas, hoje, e há algum tempo, viver na religião ou na “irreligião” tem sido mais fácil para a igreja brasileira (na sua maioria).
    Deus te abençoe muito!
    Marcio Tenponi

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  4. Graças a Deus por este ministério maravilhoso desenvolvido pela Atos 29 Brasil e pela RESTOREBRAZIL.

    Graças a Deus por este maravilhoso feedback e pela coragem santa demonstrada na humildade e contrição com que estas suas palavras foram comunicadas.

    Fui muito abençoado lendo este texto, desejo reparar muitos destes equívocos em minha vida e ministério.

    Espero que muitos pastores de nosso Brasil ainda possam ser alvo deste renovo tão necessário e urgente.

    Graça e Paz irmão!!!

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  5. Amigoooo!!! Que orgulho de vc! Que orgulho! Vc entendeu!!! Vc entendeeeeeuuuu!!! É isso! O evangelho é isso! Isso é o poder de Deus! O poder de Deus que transcende as nossas doutrinas, sejam elas quais forem! Que orgulho! Que orgulho de vc!

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  6. Encontros assim são ótimos para nos fazer refletir, bem como para nos dar um fôlego, né?

    Que Deus continue te abençoando, mantendo o pique e solidificando conceitos em teu coração.

    Abraço!

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  7. É isso Nozima! Estar em Cristo!
    É muito forte nos darmos conta de que o nosso problema hoje está no apego às doutrinas e formas da igreja e não em Cristo, o autor e consumador da nossa fé. E não importa nenhum um pouco aquilo que falamos e falamos com tanta propriedade. Não adianta nada falarmos que Jesus é o número um de nossas vidas, que nada é mais importante do que ele, se não vivemos para ele todo o tempo.
    “é entender que quando como, saio com as pessoas (irmãs ou não), vivo com elas…que, nessas horas, Jesus as ama por meio de mim. Que é ser como Jesus: sair com os pecadores, ser amigo deles, ouvi-los, amá-los e aproveitar as oportunidades que o cotidiano me dá para dividi-Lo com eles.”
    É exatamente isso. Não é com a nossa boca que mostramos Cristo, mas com a nossa vida. Porque ele exige tudo de nós, não somente momentos específicos.
    A bíblia gira em torno de Cristo, mas infelizmente não tem sido Cristo o alvo da vida de tantos cristãos. E infelizmente isso tem acontecido por causa de um evangelismo raso. Aprendemos e ensinamos que é só ter fé, levantar a mão e repetir uma oração para se ter uma vida com Cristo. Esse é só o primeiro passo.
    Que possamos permanecer em Cristo!

    Graça e paz sempre!
    Naná:D

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  8. Carambaaaa,meu caro amigo estou muito feliz em ler seu depoimento,e, mais feliz ainda em saber que não estou no caminho errado!Porque quando nós lemos a bíblia e ao mesmo tempo analisamos a doutrina entra em choque de ideias nas nossas cabeças…eu particularmente sou uma protestante que protesta até com coisas que não concordo na igreja(comentários a parte).Se eu parar de ir a igreja ou ficar trocando de banco certamente não estarei em comunhão…E creio fielmente que só temos acesso a vida eterna quando depositamos nossa fé em nosso Senhor Jesus Cristo, o próprio já dizia:”EU sou o caminho a Verdade e a Vida,ninguém vem ao Pai senão por mim”. Suas palavras são táo sábias que utiliza em 1ª pessoa aquilo que buscamos =Verdade e que desejamos = Vida(e eterna!!!)Isso é lindo, o coração acelera só de ter a certeza que a cada dia que passa a igreja do Senhor(nós enquanto seres humanos)e não a doutrina espera por sua volta buscando neste momento a Sabedoria.

    Deus o abençoe cada vez mais!!!
    Que continue crescendo nessa fonte ; )

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