O enigma do profeta de Samaria

Alguns assuntos parecem bem fáceis na teoria, mas não são tão simples quando consideramos tudo o que a Bíblia diz. Um bom exemplo é a identificação de um falso profeta. Como saber se um profeta é ou não de Deus?
Normalmente isso é fácil. Obviamente, alguém que “em nome de Deus” defende o culto a ídolos (santos, orixás, deuses, etc), a prática de pecados ou algum ensino contrário à Bíblia, o profeta é falso. Mas, e se nos encontramos com alguém que não faz nada disso, acerta várias vezes quando profetiza, mas…comete um erro?
A resposta evangélica tradicional é a de que o profeta de Deus jamais erra. Se ele acerta 99 profecias e 1 não é exatamente como ele disse…então o tal profeta é falso. A base bíblica para isso é Deuteronômio 18:20-22.

Porém o profeta que presumir de falar alguma palavra em meu nome, que eu lhe não mandei falar, ou o que falar em nome de outros deuses, esse profeta será morto. Se disseres no teu coração: Como conhecerei a palavra que o SENHOR não falou? Sabe que, quando esse profeta falar em nome do SENHOR, e a palavra dele se não cumprir, nem suceder, como profetizou, esta é palavra que o SENHOR não disse; com soberba, a falou o tal profeta; não tenhas temor dele. (Deuteronômio 18:20-22)

Simples, né? Então, vamos imaginar um profeta idoso, que já deve ter dito várias profecias em nome de Deus. Agora, visualize este profeta entregando uma profecia que ele sabia ser falsa, porque era mentirosa. Detalhe: ele está fazendo isso deliberadamente. Pior: uma pessoa morre porque acreditou nesta mentira, pensando que ela era Palavra de Deus. Com certeza, este cara é um falso profeta e deve estar ardendo no fogo do inferno, certo?
Ahn…errado. Na verdade, depois de ter dado esta falsa profecia, o tal profeta idoso ainda é usado por Deus para profetizar de novo. E mais, continua sendo tratado pela Bíblia como profeta.
Onde está essa história? Bem aqui:

Morava em Betel um profeta velho; vieram seus filhos e lhe contaram tudo o que o homem de Deus fizera aquele dia em Betel; as palavras que dissera ao rei, contaram-nas a seu pai. Perguntou-lhes o pai: Por que caminho se foi? Mostraram seus filhos o caminho por onde fora o homem de Deus que viera de Judá. Então, disse a seus filhos: Albardai-me um jumento. Albardaram-lhe o jumento, e ele montou.

E foi após o homem de Deus e, achando-o sentado debaixo de um carvalho, lhe disse: És tu o homem de Deus que vieste de Judá? Ele respondeu: Eu mesmo. Então, lhe disse: Vem comigo a casa e come pão. Porém ele disse: Não posso voltar contigo, nem entrarei contigo; não comerei pão, nem beberei água contigo neste lugar. Porque me foi dito pela palavra do SENHOR: Ali, não comerás pão, nem beberás água, nem voltarás pelo caminho por que foste.

Tornou-lhe ele: Também eu sou profeta como tu, e um anjo me falou por ordem do SENHOR, dizendo: Faze-o voltar contigo a tua casa, para que coma pão e beba água. (Porém mentiu-lhe.)

Então, voltou ele, e comeu pão em sua casa, e bebeu água. Estando eles à mesa, veio a palavra do SENHOR ao profeta que o tinha feito voltar; e clamou ao homem de Deus, que viera de Judá, dizendo: Assim diz o SENHOR: Porquanto foste rebelde à palavra do SENHOR e não guardaste o mandamento que o SENHOR, teu Deus, te mandara, antes, voltaste, e comeste pão, e bebeste água no lugar de que te dissera: Não comerás pão, nem beberás água, o teu cadáver não entrará no sepulcro de teus pais.

Depois de o profeta a quem fizera voltar haver comido pão e bebido água, albardou para ele o jumento. Foi-se, pois, e um leão o encontrou no caminho e o matou; o seu cadáver estava atirado no caminho, e o jumento e o leão, parados junto ao cadáver.

Eis que os homens passaram e viram o corpo lançado no caminho, como também o leão parado junto ao corpo; e vieram e o disseram na cidade onde o profeta velho habitava.

Ouvindo-o o profeta que o fizera voltar do caminho, disse: É o homem de Deus, que foi rebelde à palavra do SENHOR; por isso, o SENHOR o entregou ao leão, que o despedaçou e matou, segundo a palavra que o SENHOR lhe tinha dito. Então, disse a seus filhos: Albardai-me o jumento. Eles o albardaram.

Ele se foi e achou o cadáver atirado no caminho e o jumento e o leão, parados junto ao cadáver; o leão não tinha devorado o corpo, nem despedaçado o jumento. Então, o profeta levantou o cadáver do homem de Deus, e o pôs sobre o jumento, e o tornou a levar; assim, veio o profeta velho à cidade, para o chorar e enterrar. Depositou o cadáver no seu próprio sepulcro; e o prantearam, dizendo: Ah! Irmão meu!

Depois de o haver sepultado, disse a seus filhos: Quando eu morrer, enterrai-me no sepulcro em que o homem de Deus está sepultado; ponde os meus ossos junto aos ossos dele. Porque certamente se cumprirá o que por ordem do SENHOR clamou contra o altar que está em Betel e contra todas as casas dos altos que estão nas cidades de Samaria. (1 Reis 13:11-32)

Complicado, né? Mas a coisa fica ainda mais interessante. O homem de Deus mencionado em 1 Reis 13 anunciou que, no futuro, o rei Josias queimaria os ossos dos sacerdotes do ídolo de Betel em cima do altar que foi construído por outro rei, Jeroboão. Essa profecia se cumpre em 2 Reis 23. E, neste texto, a Bíblia volta a tratar o profeta de Samaria como…profeta, apesar de sua mentira.

Olhando Josias ao seu redor, viu as sepulturas que estavam ali no monte; mandou tirar delas os ossos, e os queimou sobre o altar, e assim o profanou, segundo a palavra do SENHOR, que apregoara o homem de Deus que havia anunciado estas coisas. Então, perguntou: Que monumento é este que vejo? Responderam-lhe os homens da cidade: É a sepultura do homem de Deus que veio de Judá e apregoou estas coisas que fizeste contra o altar de Betel. Josias disse: Deixai-o estar; ninguém mexa nos seus ossos. Assim, deixaram estar os seus ossos com os ossos do profeta que viera de Samaria. (2 Reis 23:16-18)

E aqui, vejo um enigma digno da atenção de doutores em Teologia: como harmonizar o profeta de Samaria com Deuteronômio 18:20-22?
A minha proposta é:
1) Reconhecer que a falsa profecia é um pecado gravíssimo, digno de morte na Lei de Moisés, e que deve ser confessado e disciplinado nos dias de hoje, especialmente quando o erro é doloso;
2) Admitir que é possível que um profeta de Deus possa sim se equivocar e profetizar falsamente;
3) Aceitar o fato de que Deus não viu problema algum em continuar a usar como profeta alguém que cometeu um pecado tão terrível como o profeta de Samaria;
4) Entender que o profeta de Samaria foi perdoado por Deus e receberá, no Dia do Juízo, o galardão que um profeta deve receber;
5) Reler Deuteronômio 18:20-22 e aceitar que é possível sim que um profeta erre e tenha pecado por soberba, sem com isso ser chamado de falso profeta.
Acho que os pontos acima são as únicas respostas possíveis ao enigma do profeta de Samaria. Respostas que nos ajudam a entender porque, no Novo Testamento, Deus manda examinar as profecias:

Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. (1 Coríntios 14:29)

Vale lembrar que os outros estão julgando as profecias, e não os profetas. Se tudo fosse tão simples como querem os evangélicos que usam apenas Deuteronômio 18, isso seria desnecessário. Uma vez que o profeta é reconhecido como tal, quando ele profetiza, tudo deve ser aceito. Se ele errar uma vez, tudo que ele disse antes pode ser jogado fora, afinal ele seria um falso profeta. Mas 1 Reis 13 fica como um lembrete de que as coisas não são assim tão simples.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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One thought on “O enigma do profeta de Samaria

  1. Olá Rev. Helder, graça e paz!

    Concordo plenamente com o senhor. Fico imaginando o que a maioria dos irmãos hoje fariam com o apostolo João ao saberem que num momento de “vacilo” cometeu um erro ao tentar adorar um anjo (Ap 22.8-9).

    Imagino o que fariam com Samuel ao saberem que ele quase consagrou a pessoa errada para ser o futuro rei de Israel (1Sm 16.6).

    Pense então o que teriam feito ao profeta Natã (1 Cr 17.1-4).

    Não quero dizer que devemos aceitar todo tipo de erros em nome da “comunhão”,etc. Não é isso. Apenas acredito que na grande maioria dos casos acabamos “jogando o bebê fora junto com a água do banho”.

    Em nome da ortodoxia muitos que estavam aprendendo a ser usados por Deus acabam sendo tristemente abortados. A igreja é uma escola. É nela que devemos aprender a discernir entre a “vóz” da nossa consciência e a vóz de Deus.

    Devemos nos lembrar que até mesmo no AT haviam as escolas de profetas.

    Mais uma vez, o senhor esta de parabéns! Que Deus continue a usa-lo poderosamente em sua obra.

    Um abraço fraterno.

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