Uma família para os solitários

Deus faz que o solitário more em família; tira os cativos para a prosperidade; só os rebeldes habitam em terra estéril. (Salmo 68:6)

É incrível como o ser humano se deixa enganar pela aparência. Nós pensamos, por exemplo, que as pessoas mais perigosas são as explosivas. Temos medo daqueles homens grandões, que vivem ameaçando e procurando formas de exibir a sua “masculinidade”, dos “pit boys”, “skinheads” e outros tipos de valentão.
Já os quietos, os calmos, os pacatos, ah, esses são inofensivos. São pessoas que podemos desprezar, ignorar, bater e ofender sem nenhum constrangimento. Olha lá, o nerd magrelo, a “rolha-de-poço”, o canhão de artilharia, a bichinha e o cabeludo esquisito. Esses são “bonzinhos”, não são perigo algum, você pode dar uns sopapos neles se eles quiserem cantar de galo.
Só que a coisa não funciona bem assim. Eu mesmo era, aparentemente, inofensivo. Um japa gordo, de óculos, que mal abria a boca e sempre agia como um idiota quando falava com uma menina bonita. Um nerd que sempre tirava boas notas no Colégio Militar, mas que explodia de raiva dentro de casa. O último a ser escolhido, o cara sem amigos, que não confiava nos pais. Alguém que odiava a tudo: o meu reflexo no espelho, as meninas que não me davam bola e os meninos que ficavam com elas. Ah, se eu fosse grande, forte e soubesse lutar! Com certeza, iria fazer muitas pessoas pagarem.
Mas eu não tinha como destruir os outros. Pensei então em destruir a mim mesmo. E como não tinha coragem de usar drogas, o suicídio parecia algo bastante racional quando eu tinha 13 anos de idade.
Felizmente algo mudou e impediu que a minha história se tornasse algo trágico. Um evangélico resolveu ser meu amigo e falar comigo. Eu zombava do Deus dele, mas ele insistia em continuar falando. E, no momento em que eu decidi acabar com a minha vida, o Senhor fez com que ele ligasse pra mim e me convidasse a ir a uma Assembleia de Deus.
Por causa do amor que recebi de um único amigo…hoje eu estou vivo escrevendo este post.
Uma sorte que não alcançou Wellington Menezes de Oliveira, o assassino do Realengo, que no dia 7 de abril de 2011 assassinou 12 crianças em uma escola do Rio de Janeiro. Segundo a irmã e os seus antigos colegas de escola, ele era estranho, reservado e calado. E, aparentemente, ninguém se importou com isso.
Claro que a solidão não é desculpa para o que ele fez. Não tenho dúvidas de que Wellington está agora no inferno, sofrendo castigos horríveis pelo crime abominável que cometeu. Mas a história dele é um alerta às igrejas para não deixarem que outros solitários matem a outros…ou a si mesmos, como já pensei em fazer.
A solidão não é boa
Para que isso aconteça é preciso que os cristãos entendam de uma vez por todas que a solidão não é boa! Quando olhamos em nossas igrejas, escolas e ruas e achamos pessoas que vivem isoladas, precisamos fazer algo a respeito! Nem mesmo Adão no Paraíso, antes da Queda, deveria estar sozinho:

Disse mais o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea.(Gênesis 2:18)

Eva não foi criada para servir ou dar prazer sexual a Adão. Ela foi criada para fazer companhia a Adão, e vice-versa. O Senhor não quer que os seres humanos vivam sozinhos.
Embora este texto seja usado para falar de casamento, ele também tem uma mensagem para os solteiros. Deus não gosta da solidão humana. Ele fez bilhões de seres humanos povoarem a Terra para que possamos viver juntos, adorando-O e servindo-O ao lado de outros homens e mulheres. O Senhor não ficou inerte vendo a solitude de Adão: Ele fez uma companheira! Deus faz algo para nos tirar da solidão.
Mas os cristãos se esquecem disso. Até hoje, mesmo sendo pastor, descubro que nas igrejas tenho o dom da invisibilidade. Se eu não procurar alguém, raramente sou procurado de volta. Sou capaz de assistir a cultos inteiros, tomar um cafezinho e descobrir que ninguém percebeu a minha presença. Quem me dera ter essa habilidade quando faço uma bobagem no trabalho!
Vou a acampamentos e sinto-me nas high school americanas. Os populares se reúnem e se divertem, riem até…e os adolescentes tímidos andam se esgueirando pelas paredes, perguntando quando aquele suplício vai terminar. É difícil enxergar a diferença entre os adolescentes cristãos e os que não são.
Até hoje as igrejas são ambientes que mais excluem do que incluem. Queixam-se de igrejas que pastores são tatuados ou que tocam músicas de rock ou rap. Mas esses puristas não pensam que é nas tribos urbanas que muitos (e não só adolescentes) encontram o amor e o afeto que deveriam receber em suas casas e na casa de Deus.
Mas o Senhor não é assim. Ele percebe a nossa solidão. E Ele nos ordena que façamos algo a respeito.
O solitário precisa se arrepender
Só que há também o outro lado da moeda. Poucos são os que atentam a este provérbio, mas ele ensina uma grande verdade: ser solitário é uma escolha e um pecado.

O solitário busca o seu próprio interesse e insurge-se contra a verdadeira sabedoria. (Provérbios 18:1)

Sim…é isso mesmo. Se você anda só, a culpa não é apenas dos outros: ela é sua também! E minha! Quando ando só, faço isso porque escolhi pecar.
O solitário é aquele que busca o seu próprio interesse. É alguém que têm dificuldades em se ajustar à comunidade, em viver com os outros. A comunhão pra ele não é um prazer, é um sofrimento. E, biblicamente, o egoísmo é a razão para esta dificuldade.
Antes que eu seja crucificado, sim…eu sei que muitas vezes o mundo é sim uma high school cruel e implacável. Mas há outros, tão estranhos como eu e você, que buscam se ajustar. Tentam servir ao próximo. Acham pessoas que não são esnobes e aproximam-se delas. Sabem perdoar os que são maus e, quando injustiçados, deixam o caso com Deus. O mundo as joga para fora, mas, em Cristo, elas teimam em construir pontes. E acabam vencendo o seu egoísmo. Encontram um lar. Vencem a solidão.
O problema é que os solitários acabam entregando os pontos. É mais fácil se isolar e deixar o ódio e a tristeza crescerem. É mais fácil se retrair do que confrontar e perdoar os inimigos. É mais fácil chorar em casa do que pedir a ajuda de alguém. É mais fácil reclamar dos outros do que fazer um auto-exame e tentar mudar. É mais fácil esperar que o mundo se adapte a nós do que procurar fazer concessões para vivermos com os outros.
E isso não é sábio! O Senhor nos criou para vivermos em comunidade. E há certas coisas que não podemos viver sozinhos. A melhor auto-estima do mundo não substitui o amor sincero de uma amizade! A alegria que não é compartilhada não é completa. Há situações em que precisamos do cuidado de outros. Por isso, mesmo os celibatários devem viver com outras pessoas, amando-as e sendo amadas de volta, porque o amor só é amor se houver pelo menos duas partes!
Certos prazeres a solidão jamais pode dar
E eu e você, solitário ou solitária, temos que aceitar esta exortação. O Senhor nos convida a lutarmos contra este pecado, mesmo que encontremos uns valentões desagradáveis no caminho. Vamos lutar?
Em Cristo, uma nova família
E tanto a Igreja como os solitários podem encontrar ânimo para esta luta. Sim, nós não temos como fazer “companheiras(os) idôneas(os)” para todos, nós é que seremos os companheiros, e isso é difícil. Sim, é difícil querer deixar a solidão quando somos xingados, desprezados e espancados. Mas Cristo nos ajudará.
Em seus dias aqui na Terra, Jesus fez companhia a pecadores. Tocou em leprosos, falou com mulheres de má-fama e até chamou um corrupto publicano, discriminado pelos judeus, um criminoso para Israel…chamou esse aí para ser um dos seus apóstolos. Mais do que isso, Jesus resolveu o nosso maior problema de solidão, ao oferecer o Seu corpo para que nós nos reconciliássemos com Deus.

Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; (Romanos 5:1)

Porque Cristo, quando nós ainda éramos fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios. Dificilmente, alguém morreria por um justo; pois poderá ser que pelo bom alguém se anime a morrer. Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores. (Romanos 5:6-8)

A nossa tendência humana sempre será na direção do mal. Ou seja, os solitários sempre se sentirão tentados ao isolamento. Os “populares” têm a tendência de se esquecer dos que não são “legais”. E os puristas da Igreja vão querer torcer o nariz para aqueles tipos estranhos. Mas Jesus é aquele que veio destruir o pecado nas nossas vidas. N’Ele teremos o que precisamos para sermos diferentes.

Ora, se já morremos com Cristo, cremos que também com ele viveremos, sabedores de que, havendo Cristo ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre ele. Pois, quanto a ter morrido, de uma vez para sempre morreu para o pecado; mas, quanto a viver, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus. (Romanos 6:8-11)

Que estas palavras nos ajudem:
– A oferecer Cristo, consolo e companhia aos que são atingidos pela violência, no Realengo e em nossa vizinhança. A violência, muitas vezes, é a mãe da solidão.
– A oferecer Cristo, consolo e companhia aos solitários dentro de nossas igrejas, escolas, famílias e ruas.
– A buscarmos, em Cristo, o consolo e a companhia e rejeitarmos a solidão.
Sejamos, pois, uma família para os solitários. Que assim seja, para a glória d’Ele. Amém.
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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2 thoughts on “Uma família para os solitários

  1. Que excelente texto, me fez pensar em várias coisas, mas principalmente em duas: como recebemos mal as pessoas em nossas igrejas e como somos acomodados em não perceber que às vezes o defeito que precisa ser modificado é nosso e não dos outros. Romper a barreira da solidão, das coisas que nos levam a fazer coisas que desagradam a Deus é difícil, mas é muito reconfortante saber que o Senhor nos manda ter ânimo e nos garante a sua ajuda na caminhada. Que Deus o abençoe. (que galera legal na foto =P)

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  2. Que post fantástico. Fico me lembrando agora do meu período do ensino fundamental, que ninguém nunca me falou de Cristo, e no ensino médio, que uma amiga e uma professora me falaram o que sabiam dele, e mesmo não tendo me tocado (refutava todas as proposições delas), elas sabiam que estavam plantando uma semente. Me lembro do Daniel TC me falando de Cristo, me convidando a entender quem é ele. E nisso me lembro o quão sozinho eu também era, apesar de nunca ter pensado em me matar ou matar a outros.

    Algumas vezes ainda passa pela minha cabeça de fazer o mal a quem me fez mal, mas pela misericórdia do Senhor, peço perdão pelo meu pecado e uma maneira de como fazer o bem para essa pessoa.

    Que Deus nos abençoe nessa (extremamente) difícil missão de nos achegarmos aos isolados. Eles precisam de Cristo tanto quanto nós, mas também precisam desesperadamente de nós.

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