O sofrimento dos bons

Num dia em que os filhos de Deus vieram apresentar-se perante o SENHOR, veio também Satanás entre eles apresentar-se perante o SENHOR. Então, o SENHOR disse a Satanás: Donde vens? Respondeu Satanás ao SENHOR e disse: De rodear a terra e passear por ela.
Perguntou o SENHOR a Satanás: Observaste o meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal. Ele conserva a sua integridade, embora me incitasses contra ele, para o consumir sem causa.
Então, Satanás respondeu ao SENHOR: Pele por pele, e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida. Estende, porém, a mão, toca-lhe nos ossos e na carne e verás se não blasfema contra ti na tua face.
Disse o SENHOR a Satanás: Eis que ele está em teu poder; mas poupa-lhe a vida.
Então, saiu Satanás da presença do SENHOR e feriu a Jó de tumores malignos, desde a planta do pé até ao alto da cabeça. Jó, sentado em cinza, tomou um caco para com ele raspar-se. Então, sua mulher lhe disse: Ainda conservas a tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre.

Mas ele lhe respondeu: Falas como qualquer doida; temos recebido o bem de Deus e não receberíamos também o mal? Em tudo isto não pecou Jó com os seus lábios. (Jó 2:1-10)
Imagine acordar sábado de manhã para fazer uma viagem. Você se levanta, ora, pede a proteção divina para você e para a sua bagagem, que está trancada com cadeados. Algumas horas depois, no aeroporto de destino, a sua mala aparece rasgada e sem cadeado…com várias coisas roubadas.

Isso foi o que aconteceu comigo há alguns dias. E nessas horas, por mais que você não queira, algumas perguntas começam a surgir. Por que Deus não protegeu o que eu pedi pra que Ele protegesse? Será que não tive fé o suficiente? Será que Deus falhou? Terá sido tudo uma armadilha diabólica?
Se um pequeno incidente como esse gera tantos questionamentos, o que pensar quando, em um curto espaço de tempo, somos atingidos por uma catástrofe que leva tudo: posses, família e a saúde! De certa forma, essa é a realidade de vários cristãos brasileiros atingidos por enchentes no estado do Rio de Janeiro, de outros que são perseguidos, presos e até torturados em países onde o Evangelho é proibido e de vários que servem a Deus fervorosamente e, de repente, são atingidos subitamente por algum tipo de mal.
Quando isso acontece, o que pensar? Deus perdeu o controle? Ele cochilou e o diabo se aproveitou para destruir os filhos d’Ele? A fé não foi forte o bastante para alcançar o favor divino? Para muitos, certas respostas são tão insuportáveis que é melhor pensar que esses incidentes são obras diabólicas (onde o papel de Deus é ignorado) ou castigos divinos a pecadores (porque pessoas boas não são afligidas com esses sofrimentos).
Mas, será que é sempre assim? Não é o que a Bíblia ensina.
Os justos também sofrem
Se você ficou com dó de mim porque eu fui roubado, então você se derretaria em lágrimas e indignação se soubesse o que aconteceu com Jó. Afinal, quantas pessoas você conhece que receberam, verbalmente, a aprovação pública do próprio Deus? Uma coisa é ouvir uma mãe dizendo como seus filhos são bons, outra é Deus dizer que um homem é “íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal”, alguém tão especial que “ninguém há na terra semelhante a ele”. Se existia uma pessoa na terra que merecia tudo de bom, ah, com certeza era Jó.
E, de fato, Deus o abençoou com muitas coisas: riqueza, filhos, saúde e o respeito da sociedade. Em qualquer dimensão pela qual um homem possa ser medido, Jó poderia ser considerado um vencedor, inclusive na devoção ao Senhor. Se as obras, a conduta e as orações são o melhor seguro contra o mal, ninguém era mais protegido do que Jó.
Mas ele perdeu tudo. Os bens e os filhos foram destruídos ou roubados em um único dia. Como se isso não bastasse, Satanás foi até a presença de Deus para acusar a Jó…e o Senhor autoriza o diabo a tirar dele a saúde. A santidade de Jó não o livrou de sofrimentos profundos e intensos.
Quando o mal nos atinge, nós questionamos a Deus porque, inconscientemente, pensamos que pessoas boas não sofrem. No fundo de nossos corações, achamos que nossos atos são bons e puros, que somos melhores do que a média e que merecemos um tratamento à altura do Senhor. Nossas obras seriam uma espécie de apólice de seguro, um pagamento dado a Deus em troca de livramentos e proteção. Quando alguém perde tudo, fica doente ou é roubado, isso é porque houve algum pecado ou falha. Ainda acreditamos que pessoas boas ficam longe do mal.
No entanto, o ensino bíblico é o de que ninguém é, de si mesmo, bom e justo:

Que se conclui? Temos nós qualquer vantagem? Não, de forma nenhuma; pois já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado;como está escrito: Não há justo, nem um sequer,não há quem entenda, não há quem busque a Deus; (Romanos 3:9-11)

Nem mesmo Jó, que teve um testemunho tão elevado da parte do Pai escapa do pecado, como é revelado por Eliú quando ele diz a Jó:

Na verdade, falaste perante mim, e eu ouvi o som das tuas palavras: Estou limpo, sem transgressão; puro sou e não tenho iniqüidade. Eis que Deus procura pretextos contra mim e me considera como seu inimigo. Põe no tronco os meus pés e observa todas as minhas veredas. Nisto não tens razão, eu te respondo; porque Deus é maior do que o homem. (Jó 33:8-12)

Coisas ruins acontecem a pessoas boas porque, na verdade, ninguém é bom.
Deus manda o bem e o mal
Contudo o problema não é só admitirmos que todos, sem exceção, são pecadores e sujeitos a ação do mal. A própria ideia de que uma enfermidade, um roubo ou um acidente tenham sido autorizados por Deus é intolerável a muitos. Talvez por esta razão alguns evangélicos neopentecostais rejeitem a ideia de que um cristão pode adoecer ou empobrecer.
Eu vi essa crença na Namíbia. Lá conheci um jovem que estuda para ser pastor e teve uma diarreia um dia após comer uma carne apimentada demais. A maioria das pessoas procuraria comer algo mais leve no dia seguinte ou buscaria um remédio. Esse jovem preferiu orar repreendendo o demônio que o deixou doente porque ele não acreditava que um filho de Deus pudesse adoecer.
No entanto, Deus não é apenas o Doador da vida, Ele também é o Pai que disciplina duramente os Seus filhos:

porque o Senhor corrige a quem ama e açoita a todo filho a quem recebe. (Hebreus 12:6)

E, muitas vezes, o chicote divino pode ser um demônio. Lendo o livro de Jó vemos que era o diabo quem roubou seus bens, matou seus filhos e o encheu de tumores. Jó, porém, disse à mulher que eles recebiam de Deus o bem e também o mal. E tem mais: ele não pecou quando disse isso! Em última análise, o mal causado pelos demônios vinha da mão de Deus. Nada no mundo, nem mesmo as piores calamidades ou violências, acontecem sem a permissão divina. Ele realmente está no controle de tudo, inclusive do mal.

No caso dos Seus filhos, o mal não é a punição pelos pecados, mas sim a disciplina que nos corrige. Não importa se ela vem na forma de um roubo, de uma diarreia, uma enchente ou mesmo o maior ataque diabólico possível. Ao contrário do que Jó pensava, Deus não procura pretextos contra Seus filhos nem os considera como inimigos. Não importa o que de ruim aconteceu: Deus não é nosso inimigo.
Mesmo quando o mal atinge aqueles que não servem a Deus, ainda aí o mal é permitido para levar os homens ao arrependimento. Quando sofremos por causa do nosso pecado ou do pecado de outros, o Senhor nos lembra que deixar os Seus mandamentos é algo que causa dor e prejuízo. Quando sofremos por causa de fatores que fogem ao nosso controle, como em uma catástrofe natural, o Senhor nos lembra de que o fim de todas as coisas vai acontecer de modo tão imprevisível quanto o momento da nossa morte. Se não temos controle sobre a próxima calamidade, devemos confessar isso diante do Deus que controla todas as coisas e nos rendermos diante d’Ele.
Todo sofrimento será compensado
Mas, afinal, qual a vantagem em servir a Deus? Se a nossa salvação não é uma garantia infalível contra os males que atingem a todos, por que deixar o pecado e servi-Lo? Era exatamente essa a angústia de Jó.
Jó não sabia, mas na verdade ele estava personificando a vida de Jesus. Se Jó era justo, Jesus viveu de modo perfeito. Se o sofrimento de Jó era uma injustiça, a maior de todas era fazer o Filho de Deus sofrer.
Quando sofremos, podemos encontrar consolo no fato de que Jesus também sofreu. Deus Pai não açoitou somente aos seus filhos adotivos, o seu Unigênito, embora inocente, também foi aperfeiçoado na mesma escola que nós:

Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade, embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque. (Hebreus 5:7-10)

Jesus foi rejeitado, xingado, acusado, caluniado, surrado, torturado, roubado e morto. Mais do que isso: Ele carregou em Seu corpo a culpa dos pecados da Igreja. Se a nossa carga de dores parece enorme, a d’Ele foi ainda maior.

Mas todo esse sofrimento foi compensado. Jesus, enquanto homem, aprendeu. Foi aperfeiçoado. Ganhou como prêmio o ser nomeado sumo sacerdote de Deus. Como diz a Bíblia:

Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu. (Isaías 53:10-12)

Jesus sofreu, mas ficou satisfeito quando viu o resultado de seu penoso trabalho. No final, aquele que teve o sofrimento supremo, foi exaltado acima de todos. E, de certa forma, isso é o que acontece com a igreja.
No final do livro de Jó, ele ora por amigos que pecaram contra ele, acusando-o (Jó 42:8-9). O justo sofredor ainda pediu ao Pai que perdoasse aqueles que fizeram falsas acusações. E, assim como Jesus, Jó também foi exaltado por Deus após seu sofrimento:

Assim, abençoou o SENHOR o último estado de Jó mais do que o primeiro; porque veio a ter catorze mil ovelhas, seis mil camelos, mil juntas de bois e mil jumentas. Também teve outros sete filhos e três filhas. Chamou o nome da primeira Jemima, o da outra, Quezia, e o da terceira, Quéren-Hapuque. Em toda aquela terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó; e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos. Depois disto, viveu Jó cento e quarenta anos; e viu a seus filhos e aos filhos de seus filhos, até à quarta geração. Então, morreu Jó, velho e farto de dias. (Jó 42:12-17)

O que aconteceu com Jó é o que vai acontecer com todos os irmãos de Jesus, com todos os filhos de Deus. Pode ser que a exaltação só aconteça no último dia, quando o Senhor Jesus voltar. Mas cada presente roubado, cada pessoa perdida, cada dor que sentimos…tudo isso será compensado.
Males grandes e pequenos atingirão a mim, a você e a todos os filhos de Deus enquanto vivermos. Mas com Jó podemos aprender que Deus está sim no controle de tudo e que essas dores fazem parte de um plano maior do Senhor.
Soli Deo Gloria!
Graça e paz do Senhor,
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro
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One thought on “O sofrimento dos bons

  1. Ótimo post, nozima. Usar uma experiência pessoal para dissertar sobre foi muito legal!

    Escreva mais, por favor, Deus te usa muito bem para escrever para aprendermos um pouquinho mais sobre ele. =)

    Abraços!

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