Jesus acreditava na comunicação com os mortos?

Quando entrares na terra que o SENHOR, teu Deus, te der, não aprenderás a fazer conforme as abominações daqueles povos. Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR, teu Deus, os lança de diante de ti. (Deuteronômio 18:9-12)

Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos? À lei e ao testemunho! Se eles não falarem dessa maneira, jamais verão a alva. (Isaías 8:19-20)

Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. (Jesus Cristo, em Mateus 5:17)

É o espiritismo kardecista uma religião cristã? Muitos espíritas insistem em dizer que sim, tanto que um dos livros-base usados por essa corrente é O Evangelho Segundo o Espiritismo. Embora os espíritas rejeitem a divindade de Cristo, O consideram como sendo um dos espíritos mais elevados que já encarnaram e até enxergam a Bíblia como sendo uma revelação da verdade, embora seja imperfeita e menos evoluída do que as informações coletadas por Allan Kardec ao ouvir os espíritos de pessoas mortas.
Contudo, se o espírita realmente considera que Jesus Cristo foi um espírito iluminado, a ponto de muitos colocarem o espritismo dentro do cristianismo, é razoável supor que Jesus tinha mais luz e conhecimento do que muitos “espíritos” que se revelaram a Kardec. Contudo, embora a fonte primária onde possamos ler os ditos e as obras de Jesus seja a Bíblia, os espíritas enxergam nas revelações dos “espíritos desencarnados” a fonte primária de sua doutrina. Entre a Bíblia e as manifestações mediúnicas, a escolha kardecista é a de que os fenômenos merecem mais crédito que a Palavra.
No entanto, vale a pena registrar que, mesmo para estudiosos seculares, a Bíblia permanece como o registro principal dos discursos e das ações de Jesus. E, de todos esses discursos, o Sermão do Monte, registrado no Evangelho de Mateus, capítulos 5 a 7, é o mais conhecido de todos.
E é lá, no monte, que Jesus faz uma afirmação à qual damos pouco valor e os espíritas não prestam atenção. Jesus não veio revogar, anular, descumprir o Antigo Testamento, destacado na Lei e nos Profetas. Jesus veio cumprir e obedecer ao Antigo Testamento: o Novo Testamento, na verdade, não é, em nada, a anulação do que veio antes, e sim a sua continuação.
Portanto, se queremos saber o que Jesus pensava da comunicação com os mortos, precisamos saber o que a Lei e os Profetas têm a dizer sobre o assunto.
A comunicação com os mortos é abominável a Deus
Abri esse post citando Deuteronômio 18. Lá, Deus dá instruções ao povo de Israel sobre coisas que eles não deveriam fazer após entrarem na terra de Canaã. As proibições vão desde o sacrifício de filhos a divindades cananéias até a adivinhação, incluindo-se aí a necromancia e a consulta aos mortos.
A razão dada por Deus é simples: essas práticas são abomináveis a Ele. A abominação é uma palavra mais forte do que um simples “algo que Ele reprova”. Na verdade é uma palavra que evoca nojo e horror, algo que desagrada profundamente a Deus, que lhe provoca repulsa e não pode ser tolerado. Tanto que a ideia é repetida em outro texto da Lei:

Não vos voltareis para os necromantes, nem para os adivinhos; não os procureis para serdes contaminados por eles. Eu sou o SENHOR, vosso Deus. (Levítico 19:31)

Mais do que isso, a promessa de Deus é a de destruir quem segue essas práticas:

Quando alguém se virar para os necromantes e feiticeiros, para se prostituir com eles, eu me voltarei contra ele e e o eliminarei do meio do seu povo. (Levítico 20:6)

A história que melhor mostra esse princípio é a morte do rei Saul. Depois que o rei fora abandonado por Deus, devido à sua desobediência aos mandamentos do Senhor, ele resolveu procurar uma médium. O resultado dessa ação está em 1 Crônicas 10:13-14:

Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão cometida contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, que ele não guardara; e também porque interrogara e consultara uma necromante e não ao SENHOR, que, por isso, o matou e transferiu o reino a Davi, filho de Jessé. (1 Crônicas 10:13-14)

A história da consulta feita por Saul é narrada em 1 Samuel 28:1-25, e é nela que alguns eruditos evangélicos se baseiam para dizer que a comunicação com os mortos é possível. Mesmo assim, vale destacar alguns detalhes:
– A consulta, independente de ser possível ou não, é retratada como sendo um erro grave de Saul. Logo, a necromancia, quer seja possível ou não, é um pecado que seria condenado por Jesus;
– Deus não respondia a Saul de modo algum. Ele se recusava a falar com o rei. Será mesmo que Deus mandaria o espírito de um servo fiel seu para falar, se Ele já não estava falando antes? E faria isso usando um meio abominável pra Ele?
– O texto não diz, com clareza, que era Samuel que subiu. A médium diz que viu um “deus” (elohim) que subia da terra, na forma de um ancião com capa (1 Sm 28:13-14). Ela não diz que era Samuel, diz a Saul que viu um ancião. Saul entendeu que era Samuel (1 Sm 28:14). Isso mostra um subjetivismo na interpretação da visão, cuja inspiração, aliás, não pode ser divina (Deus contrariaria a sua própria Lei?). O primeiro relato do que aconteceu ali só pode ter sido feito por uma testemunha ocular, provavelmente um dos servos de Saul. E o contexto indica claramente que eles acreditavam na necromancia, senão não teriam protegido a médium se seu próprio senhor. Daí pode se explicar porque o espírito é chamado de Samuel em alguns momentos, embora o relato deixe claro que a mulher não disse que era mesmo Samuel.
– O suposto Samuel erra a profecia. Esses erros podem ser comprovados em outro estudo bíblico, que pode ser acessado aqui. Mas do verdadeiro Samuel é dito que Deus não deixou nenhuma de suas palavras cair em terra (1 Sm 3:19).
Logo, o ensino do Antigo Testamento é claro: a necromancia é condenada por Deus. Como Jesus veio cumprir a Lei e os Profetas, ele partilhava da mesma opinião.
A Lei e o Testemunho
O ponto de vista bíblico é o de que a consulta aos mortos não é um meio válido para se comunicar com Deus e descobrir a verdade. Qual é, então, o veículo autorizado por Deus como forma de revelação bíblica?
A resposta foi dada pelo profeta Isaías no início desse post. A favor dos vivos, os mortos não podem ser consultados…e quem fizer isso não deve ver a alva (um eufemismo para a morte prevista na Lei de Moisés). A resposta está na Palavra de Deus: na Lei e no Testemunho, nos símbolos de fé dados pelo próprio Deus:

Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos? À lei e ao testemunho! Se eles não falarem dessa maneira, jamais verão a alva. (Isaías 8:19-20)

E é essa a grande lição que Jesus ensina na parábola do rico e de Lázaro, que está em Lucas 16:19-31 (o texto é muito longo, por isso não o publicarei aqui, mas você pode lê-lo aqui). Quer se acredite ou não na literalidade da parábola, é ponto pacífico que ela traz lições a serem aprendidas. E a grande lição é essa: se as pessoas querem ser salvas, devem ouvir a Lei e os Profetas, a Bíblia (Lc 16:29-31)! O pedido do rico, de que Lázaro volte e fale com os seus parentes é rejeitado, porque a Palavra já está disponível. Aqueles que querem saber a vontade de Deus devem rejeitar a comunicação com os mortos e voltarem sua atenção para a Bíblia.
Registre-se também que, segundo Abraão, só havia uma maneira de Lázaro falar com os parentes do rico; E não era indo em espírito, mas sim ressuscitando (Lc 16:31). Logo, segundo a parábola, a única forma de um morto falar a vivos é voltando a viver. O que mostra que, para Jesus, não foi Samuel quem falou com Saul em 1 Samuel 28.
A única conclusão possível
Dessa maneira, a única conclusão possível é que o Jesus descrito na Bíblia não acreditava, de modo algum, na comunicação com os mortos e a via como um pecado abominável aos olhos de Deus. E, se isso é verdade, toda a doutrina espírita se sustenta em uma forma de revelação espúria aos olhos de Cristo, e, por isso, o espiritismo não pode reivindicar para si a posição de religião cristã.
A não ser, é claro, que o espiritismo apele para algumas saídas:
– A Bíblia não é um livro santo, uma revelação de Deus e deve ser descartada (o que seria a saída mais coerente);
– A Bíblia não é confiável para dar informações sobre Jesus Cristo (mas aí eles teriam que responder onde poderíamos ter essas informações…e porque eles insistem em usar a Bíblia em suas reuniões);
– O Jesus da Bíblia não tinha o mesmo conhecimento dos espíritos que, séculos depois, falaram com Allan Kardec (e aí veríamos uma contradição na doutrina kardecista).
Quanto a mim, prefiro seguir o conselho de Jesus e a profecia de Isaías. A Bíblia, ou seja, a Lei e o Testemunho, são as fontes onde busco as verdades sobre Deus.
Louvado seja o Senhor!
Anúncios

3 thoughts on “Jesus acreditava na comunicação com os mortos?

  1. Muito legal e esclarecedor o seu post Nozima!!! Ele me explicou várias coisas, mas ainda não consegui entender direito se mesmo abominando, se fala mesmo é com os mortos ou com os demônios.

    Mas mesmo assim, muito esclarecedor!!! Valeuzão!

    E gostaria de saber se posso divulgar esse artigo para uns amigos meus… =D

    Gostar

  2. Anayran,

    Eu acredito que nas sessões espíritas são demônios que falam. Acho que, se você reler meu texto com atenção, especialmente nas entrelinhas, isso fica claro.

    No mais, o blog é público, você pode passar o link para quem quiser.

    Gostar

  3. Você disse:

    “Será mesmo que Deus mandaria o espírito de um servo fiel seu para falar, se Ele já não estava falando antes? E faria isso usando um meio abominável pra Ele?”

    Ora, mas Deus não decreta pecados? Você foi incoerente consigo mesmo nessa frase. Matar o próprio filho na cruz também era abominável, mas ele assim o decretou, fazendo pessoas pecarem.

    Nesse caso, pode ser que Deus tenha mesmo mandado Samuel, para fazer com que o pecado de Saul fosse ainda mais evidente (Rm 3:4), e zoar com a cara dele, sendo que pelo próprio pecado, nele mesmo se anunciasse a sua perdição, pelas palavras proféticas de Samuel. E há controvérsias se a profecia dele foi mesmo falha, pois a narrativa subsequente pode ser não linear (os acontecimentos do capítulo 31 podem ter acontecido antes ou ao mesmo tempo que os acontecimentos dos capítulos 29 e 30, confira)

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s