Neemias: tipo de Cristo (VI) – O guerreiro

Tendo Sambalate ouvido que edificávamos o muro, ardeu em ira, e se indignou muito, e escarneceu dos judeus. Então, falou na presença de seus irmãos e do exército de Samaria, e disse: Que fazem estes fracos judeus? Permitir-se-lhes-á isso? Sacrificarão? Darão cabo da obra num só dia? Renascerão, acaso, dos montões de pó as pedras que foram queimadas? Estava com ele Tobias, o amonita, e disse: Ainda que edifiquem, vindo uma raposa, derribará o seu muro de pedra.

Ouve, ó nosso Deus, pois estamos sendo desprezados; caia o seu opróbrio sobre a cabeça deles, e faze com que sejam despojo numa terra de cativeiro. Não lhes encubra a iniqüidade, e não se risque de diante de ti o seu pecado, pois te provocaram à ira, na presença dos que edificavam.

Assim, edificamos o muro, e todo o muro se fechou até a metade de sua altura; porque o povo tinha ânimo para trabalhar.

Mas, ouvindo Sambalate e Tobias, os arábios, os amonitas e os asdoditas que a reparação dos muros de Jerusalém ia avante e que já se começavam a fechar-lhe as brechas, ficaram sobremodo irados. Ajuntaram-se todos de comum acordo para virem atacar Jerusalém e suscitar confusão ali. Porém nós oramos ao nosso Deus e, como proteção, pusemos guarda contra eles, de dia e de noite.

Então, disse Judá: Já desfaleceram as forças dos carregadores, e os escombros são muitos; de maneira que não podemos edificar o muro. Disseram, porém, os nossos inimigos: Nada saberão disto, nem verão, até que entremos no meio deles e os matemos; assim, faremos cessar a obra. Quando os judeus que habitavam na vizinhança deles, dez vezes, nos disseram: De todos lugares onde moram, subirão contra nós, então, pus o povo, por famílias, nos lugares baixos e abertos, por detrás do muro, com as suas espadas, e as suas lanças, e os seus arcos; inspecionei, dispus-me e disse aos nobres, aos magistrados e ao resto do povo: Não os temais; lembrai-vos do Senhor, grande e temível, e pelejai pelos vossos irmãos, vossos filhos, vossas filhas, vossa mulher e vossa casa.

E sucedeu que, ouvindo os nossos inimigos que já o sabíamos e que Deus tinha frustrado o desígnio deles, voltamos todos nós ao muro, cada um à sua obra. Daquele dia em diante, metade dos meus moços trabalhava na obra, e a outra metade empunhava lanças, escudos, arcos e couraças; e os chefes estavam por detrás de toda a casa de Judá; os carregadores, que por si mesmos tomavam as cargas, cada um com uma das mãos fazia a obra e com a outra segurava a arma. Os edificadores, cada um trazia a sua espada à cinta, e assim edificavam; o que tocava a trombeta estava junto de mim. Disse eu aos nobres, aos magistrados e ao resto do povo: Grande e extensa é a obra, e nós estamso no muro mui separados, longe uns dos outros. No lugar em que ouviedes o som da trombeta, para ali acorrei a ter conosco; o nosso Deus pelejará por nós.

Assim trabalhávamos na obra; e metade empunhava as lanças desde o raiar do dia até ao sair das estrelas. Também nesse mesmo tempo disse eu ao povo: Cada um com o seu moço fique em Jerusalém, para que de noite nos sirvam de guarda e de dia trabalhem. Nem eu, nem meus irmãos, nem meus moços, nem os homens da guarda que me seguiam largávamos as nossas vestes; cada um se deitava com as armas à sua direita. (Neemias 4:1-23)

Reconstruir uma cidade caída e acabar com a miséria e o desprezo de um povo. Quem, em sã consciência, se oporia a tal bondade? Seria a mesma coisa que se opor a outras causas nobres, como o fim do tráfico de drogas, da corrupção no Brasil ou da seca no Nordeste!

De fato, sempre que se quer fazer o bem, algum interesse será contrariado. E é quase certo que os contrariados estarão dispostos a fazer tudo, inclusive matar, para tentarem alcançar o seu objetivo. Na verdade, quem quiser seguir a Cristo terá que suportar a oposição:

Ora, todos quantos querem viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos. (2 Timóteo 3:12)

E foi o que aconteceu com a reconstrução dos muros de Jerusalém nos dias de Neemias. Aos olhos dos outros povos ao redor, era bom que a cidade e os judeus ficassem na miséria. Afinal, eram mais pobres que podiam ser explorados, escravizados, discriminados e inferiorizados pelos estrangeiros. Isso sem falar no interesse espiritual diabólico em tentar frustrar a confiança dos judeus no Senhor.

E a oposição era séria. Discursos inflamados feitos diante de um exército (Ne 4:2), planos de ataque e perturbação da paz (Ne 4:8) e até mesmo de promover assassinatos inesperados (Ne 4:11), tudo para impedir o avanço das obras. Havia um risco real de perda de vidas humanas.

Hoje muitas obras missionárias, evangelísticas e até mesmo pastorais se encontram sob ameaça. Seja um governo que proíbe a pregação do Evangelho, líderes religiosos promovendo ataques a templos até ameaças de morte a pastores. Não tenho relatos aqui, mas imagino que esse tipo de constrangimento deve existir, por exemplo, em áreas dominadas pela criminalidade no Brasil. Há também outras ameaças menores, como a de falsos pastores querendo processar blogs que denunciam seus erros, de pregadores genuínos da Palavra sendo caluniados e até expulsos de igrejas e a pura e simples ofensa verbal dirigida aos que querem viver piedosamente em Cristo.

Aliás, quanto a isso, ser perseguido é apenas andar nas pisadas do Senhor, como mostram os dois exemplos a seguir:

Retirando-se, porém, os fariseus, conspiravam contra ele, sobre como lhe tirariam a vida. (Mateus 12:14) Todos na sinagoga, ouvindo estas coisas, se encheram de ira. E, levantando-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até ao cimo do monte sobre o qual estava edificada, para, de lá, o precipitarem abaixo. Jesus, porém, passando por entre eles, retirou-se. (Lucas 4:28-30)

O que fazer nestas situações? Entendo que cada caso é um caso, mas Neemias nos dá lições importantes para estes casos.

1) Ore. Neemias era um homem de ação, corajoso e realizador, mas, antes de tudo isso, ele era alguém que orava. Orou para planejar a reconstrução da cidade, para falar com o rei e agora para pedir proteção para Jerusalém. A esperança de Neemias era a de que Deus fosse em seu socorro, por isso podia dizer que Deus pelejaria pelos judeus (Ne 4:20). Acertadamente, ele também atribui ao Senhor à frustração dos planos de atacar a Judá (Ne 4:15)

Até mesmo na hora de escrever o que aconteceu, Neemias colocou uma oração imprecatória, pedindo o juízo de Deus sobre os seus oponentes. Entendo que, no Novo Testamento, as imprecações não caibam mais, antes, deve-se orar pelos inimigos:

Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem. (Mateus 6:44)

Mas, isso não quer dizer que não possamos condenar, verbalmente até, quem se levanta contra a vontade de Deus. O próprio Jesus chegou a xingar seus opositores:

Serpentes, raças de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? (Mateus 23:33)

Vale lembrar aqui que, quando oramos, não apenas a nossa posição é colocada diante de Deus. As ações dos opositores ao Evangelho também são expostas perante o Senhor. Orar não apenas é um pedido de proteção, é também um pedido de justiça divina.

2) Não pare. Não se ora apenas em busca de livramento dos perigos, ora-se também é para que a obra continue e seja terminada. As ameaças, inclusive de morte, não podem impedir que o bem seja feito. Podem até adiar a obra por algum tempo…mas as orações e os esforços dos perseguidos deve ser no sentido de continuar, não de desistir.

O problema é que, muitas vezes, as pressões não vem apenas de fora: os próprios judeus colocavam dificuldades. “Os operários estão fracos, tem muito escombro para ser retirado” (Ne 4:11). “De todo lugar, virão nos matar” (Ne 4:12). Em situações normais, nós já reclamamos das dificuldades em se trabalhar para Deus. Quando há ameaças físicas então…tudo vira motivo para fugir.

Mas Neemias foi firme. Em momento algum ele permitiu que a reconstrução fosse encerrada. Adaptações tiveram que ser feitas, o ritmo ficou mais lento, mas a obra continuou. Da mesma forma, nem Jesus e nem os apóstolos jamais deixaram de pregar o Evangelho e de socorrer o povo, apesar das ameaças de morte e até de prisões e martírios. Temos que perseverar.

Cabe, no entanto, um porém:

Quando, porém, vos perseguirem numa cidade, fugi para outra; porque em verdade vos digo que não acabareis de percorrer as cidades de Israel, até que venha o Filho do Homem. (Mateus 10:23)

Fugir para salvar a vida não é pecado, é ordem divina. Mas é fugir para continuar pregando, em outra cidade, em outro lugar. Não é calar a boca.

Contudo, algumas vezes a ordem é sim, para ficar e morrer, se for preciso. Uma história que ilustra bem esse ponto é o martírio de Policarpo.Aqui, não sou dogmático. Deus mostrará o que fazer em cada caso. Mas o importante é não parar de fazer a vontade de Deus, mesmo que isso custe a vida.

3) Prepare-se para a luta. Entregar os problemas em oração e descansar no Senhor não significa ficar deitado, de papo pro ar, esperando que os inimigos sejam destruídos pelo sopro da boca de Jesus. Por outro lado, também não é para, afobadamente, se pegar em espadas e fazer um ataque preventivo. O homem sábio irá preparar-se para as eventualidades.

Foi o que fez Neemias. Além de orar, ele colocou guardas na cidade (Ne 4:9), de dia e de noite. Também armou as famílias (Ne 4:13), estabeleceu turnos de trabalho e vigilância (Ne 4:16-18) e deu instruções para que, em caso de problemas, todos corressem para onde tocasse o som da trombeta (Ne 4:20).

Isso significa que, em caso de ameaça de violência física, os crentes devem organizar milícias? Creio que não. Em princípio, o uso da força física é prerrogativa do Estado:

…visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal. (Romanos 13:4)

Ou seja, se há ameaça de violência, é caso sim de procurar as autoridades policiais e alertá-las. Também não veria problemas em contratar vigilantes. Creio até que, em alguns casos, a guerra é sim justificável (Confissão de Fé de Westminster, cap. XXIII, II).

Mas, e se o inimigo é justamente o Estado? Bom, em Atos, em caso de perseguições, os cristãos nunca reagiram de forma violenta. Foram presos e até mortos, sem reagir. Mas, mesmo assim, providências podem ser tomadas, como se reunir em pequenos grupos e locais afastados, selecionar quem é convidado a um culto, formar uma rede de advogados ou pessoas influentes que possam ajudar em caso de prisões e agressões, buscar contatos na imprensa para denunciar abusos, entre outras medidas.

No entanto, na maioria dos casos, devemos nos preparar não para uma luta física, mas sim para uma guerra ideológica e espiritual. Este é o caso do Brasil, onde inimigos como o neopentecostalismo, o ateísmo, a idolatria, o materialismo, a supervalorização do sexo, a idéia do Super-Estado e o hedonismo se opõem ao avanço do ensino e da vivência diária do verdadeiro Evangelho.

E aí os conselhos de Neemias cabem bem:

1) Precisamos formar guardas na cidade, ou seja, apologetas, pessoas treinadas para defender a fé e a verdade;
2) As famílias precisam estar “armadas”. É preciso que elas conheçam a espada do cristão, a Bíblia, e saibam manuseá-la e entendê-la. Que invistam na compra de bons livros e se familiarizem com seu conteúdo. Esses deveres não podem ser delegados a “soldados profissionais da fé”, são de todos nós.
3) Ação e reflexão (reconstrução e vigilância) devem andar lado a lado. As igrejas devem investir em ensino pesado da Bíblia, junto com obras de ação social e pregação evangelística ativa e atuante. Individualmente, os cristãos devem agir na sociedade, mas sem descuidar da vigilância da mente, por meio da reflexão da Palavra.
4) Em caso de ataques à fé, de irmãos que estejam em dificuldades (sejam elas de fé, intelectuais, emocionais ou materiais), é preciso que a trombeta seja tocada e todos corram para ajudar. Se um só ajuda, fica pesado. Mas, se todos nós ajudássemos os irmãos em crise ou os ministérios com problemas ou os pastores e missionários em dificuldades, se todos respondêssemos ao som da trombeta, seria muito mais fácil lutar.

Adotar esse tipo de medida não fere o ensino de Jesus. Ao contrário…os passivos que dizem estar descansando em Deus e não se preparam para a batalha é que vão contra Cristo, que nos mandou ter cuidado com os homens e ser prudentes como as serpentes:

Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos; sede, portanto, prudentes como as serpentes e símplices como as pombas. E acautelai-vos dos homens; porque vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas sinagogas… (Mateus 10:16-17)

A oposição contra o Reino de Deus é sempre real e presente, mesmo que não a percebamos ou que fiquemos lutando contra inimigos imaginários (como acontece em muitas igrejas neopentecostais que seguem um falso ensino de batalha espiritual). Que aprendamos com Neemias a confiar em Jesus e ter fé para a guerra!

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