Neemias: tipo de Cristo (IV) – O paciente

Cheguei a Jerusalém, onde estive três dias. Então, à noite, me levantei, e uns poucos homens, comigo; não declarei a ninguém o que meu Deus me pusera no coração para eu fazer em Jerusalém. Não havia comigo animal algum, senão o que eu montava. De noite, saí pela Porta do Vale, para o lado da Fonte do Dragão e para a Porta do Monturo e contemplei os muros de Jerusalém, que estavam assolados, cujas portas tinham sido consumidas pelo fogo. Passei à Porta da Fonte e ao açude do rei; mas não havia lugar por onde passasse o animal que eu montava. Subi à noite pelo ribeiro e contemplei ainda os muros; voltei, entrei pela Porta do Vale e tornei para casa. Não sabiam os magistrados aonde eu fora nem o que fazia, pois até aqui não havia eu declarado coisa alguma, nem aos judeus, nem aos magistrados, nem aos mais que faziam a obra.

Então, lhes disse: Estais vendo a miséria em que estamos, Jerusalém assolada, e as suas portas, queimadas; vinde, pois, reedifiquemos os muros de Jerusalém e deixemos de ser opróbrio. E lhes declarei como a boa mão do meu Deus estivera comigo e também as palavras que o rei me falara. Então, disseram: Disponhamo-nos e edifiquemos. E fortaleceram as mãos para a boa obra.

Porém, Sambalate, o horonita, e Tobias, o servo amonita, e Gesém, o arábio, quando o souberam, zombaram de nós, e nos desprezaram, e disseram: Que é isso que fazeis? Quereis rebelar-vos contra o rei? Então, lhes respondi: o Deus dos céus é quem nos dará bom êxito; nós, seus servos, nos disporemos e reedificaremos; vós, todavia, não tendes parte, nem direito, nem memorial em Jerusalém. (Neemias 2:11-20)

Combinar a urgência da realização de uma tarefa com o tempo necessário para preparar a sua execução é um talento raro em líderes. Uma qualidade que Neemias possuía. Tão logo ele ouviu o relato da situação em Jerusalém, ele imediatamente se pôs a orar e a planejar a reedificação da cidade. Mas, uma vez tendo chegado à cidade, ele teve o sangue frio necessário para não começar as obras de maneira afobada.

Hoje, muitos pregadores, líderes e até mesmo pastores e missionários erram por pressa. Antes de por a mão na massa, Neemias sabia que alguns passos eram necessários.

1) Conhecer a realidade. Quem é jornalista sabe que uma coisa é ouvir um relato da realidade feito por alguém. Outra, bem diferente, é ir lá e ver com os próprios olhos. Não é difícil que coisas importantes acabem despercebidas aos olhos de um observador inexperiente.

Por isso Neemias gasta três dias observando o estado de Jerusalém. Sem alarde, ele e poucos homens foram conferir, pessoalmente, os muros caídos e as portas queimadas. Passaram, inclusive, por lugares onde nem mesmo um cavalo ou jumento poderia passar. Sentiram, na pele, a dificuldade dos hierosolimitas.

Esse “observar”, esse percorrer os lugares e sentir a vida das pessoas também foi uma marca do ministério de Jesus. Sim, Ele foi muito ativo, mas também teve vários momentos de contemplação da realidade humana:

Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de enfermidades entre o povo. (Mateus 4:23)

Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos… (Mateus 5:1)

Vendo ele as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor. (Mateus 9:36)

Ao desembarcar, viu Jesus uma grande multidão e compedeceu-se deles, porque eram como ovelhas que não têm pastor. E passou a ensinar-lhes muitas coisas. (Marcos 6:34)

No Seminário Teológico Cristão Evangélico do Brasil, aprendi que o bom pastor deve ter “cheiro de ovelha”. Ele não deve fazer o sermão de domingo ou traçar as metas da igreja para o próximo ano trancado em seu gabinete pastoral ou na sala de sua residência. É preciso que ele ande pela comunidade, visite a casa de suas ovelhas e conheça as reais dificuldades enfrentadas pela congregação. E isso deve ser feito antes de se pensar no que fazer na igreja.

Mas a regra vale também para o aspirante ao presbiterato ou ao diaconato, para os presidentes de sociedades de homens ou senhoras, de mocidades, professores de Escola Bíblica…para todo líder, enfim.

2) Ganhar a ajuda de outros. A liderança evangélica brasileira padece do mal do individualismo. Há, em muitas denominações e movimentos evangélicos uma ideia de que o líder é o grande realizador, como se as obras daquela corrente fossem mérito de um homem só.

Neemias sabia que sozinho ele não conseguiria reconstruir os muros de Jerusalém. Mais do que isso: Neemias não queria apenas reconstruir muros, mas sim a moral de um povo que estava em opróbrio, ou seja, em uma situação de vexame e vergonha.

Em seu sermão, Neemias lembrou ao povo a miséria de Jerusalém, desafiou-os a mudar a situação e testemunhou como Deus o ajudou e estava dando meios para que a obra fosse feita. Neemias incluiu o povo na obra a ser feita.

Quanto a Jesus, é claro que a grande obra que Ele veio fazer, Ele a fez sozinho.

Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Marcos 10:45)

No entanto, Jesus chamou os doze apóstolos para ajudá-lo:

Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar e a exercer a autoridade de expelir demônios. (Marcos 3:14-15)

A Igreja precisa recuperar o sacerdócio universal dos crentes e recuperar a bandeira de que o avanço do reino de Deus é tarefa de todos. Os bons líderes serão, precisamente, os que entenderem que a obra é coletiva, e não individual.

3) Enfrentou a oposição. Antes mesmo da reconstrução começar, Neemias já teve que enfrentar adversários. A comunidade judaica após o exílio não deixou que os estrangeiros que moravam em Canaã ajudassem na hora de reedificar o Templo:

Ouvindo os adversários de Judá e Benjamim que os que voltavam do cativeiro edificavam o templo ao SENHOR, Deus de Israel, chegaram-se a Zorobabel e aos cabeças de famílias e lhe disseram: Deixai-nos edificar convosco, porque, como vós, buscaremos a vosso Deus, como também já lhe sacrificamos desde os dias de Esar-Hadom, rei da Assíria, que nos fez subir para aqui. Porem Zorobabel, Jesua e os outros cabeças de famílias lhes responderam: Nada tendes convosco na edificação da casa a nosso Deus; nós mesmos, sozinhos, a edificaremos ao SENHOR, Deus de Israel, como nos ordenou Ciro, rei da Pérsia. (Esdras 4:1-3)

A razão da recusa era o sincretismo religioso destes estrangeiros, que, mais tarde, deram origem aos samaritanos do Novo Testamento:

Assim, estas nações temiam o SENHOR e serviam as suas próprias imagens de escultura; como fizeram seus pais, assim fazem também seus filhos e os filhos de seus filhos, até ao dia de hoje. (2 Reis 17:41)

Começava aí o ódio entre judeus e samaritanos. Nos dias de Neemias, esse ódio se traduzia nas acusações levantadas por Sambalate, Tobias e Gesém de que a construção era uma tentativa de revolta contra o rei. Neemias, porém, deu uma resposta firme, de confiança em Deus e de exclusão dos pecadores idólatras na obra do Senhor.

Da mesma forma, a oposição de Satanás a Jesus começou antes de seu ministério público, com a tentativa de Herodes assassinar a Cristo quando ele ainda era um bebê (Mateus 2:1-18) ou na tentação (Mateus 4:1-11). Essa oposição permaneceu, por meio dos fariseus e saduceus, mas não impediu que Jesus, corajosamente, fizesse o Seu ministério, inclusive excluindo do reino de Deus esses opositores, assim como Neemias:

Serpentes, raças de víboras! Como escapareis da condenação do inferno? Por isso, eis que eu vos envio profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis; a outros açoitareis nas vossas sinagogas e perseguireis de cidade em cidade; para que sobre vós recaia todo o sangue justo derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem matastes entre o santuário e o altar. Em verdade vos digo que todas estas coisas hão de vir sobre a presente geração. (Mateus 23:33-36)

Hoje, ao invés de enfrentar a oposição, muitos evangélicos têm é se esforçado em simpatizar com os idólatras, como é o caso de Brian McLaren e sua ortodoxia generosa com o erro. São poucos os que têm enfrentado real oposição de Satanás e o tem enfrentado com coragem e determinação.

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos dê novos Neemias!

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