A regra da contradição aparente: chave para entender a soberania de Deus e a liberdade do homem

Ó SENHOR, por que nos fazes desviar dos teus caminhos? Por que endureces o nosso coração, para que te não temamos? Volta, por amor dos teus servos e das tribos da tua herança. (Isaías 63:17)

Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra. Logo, tem ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz. (Romanos 9:16-18)

Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida. (João 5:40)

Um dos mistérios da doutrina da soberania de Deus é entender como conciliar as idéias trazidas pelos versículos acima. Afinal, é Deus quem endurece o coração dos ímpios (e, às vezes, até mesmo o coração dos justos, segundo Isaías) ou somos nós que nos recusamos a ir até Deus?

As duas coisas. Existe uma regra de interpretação bíblica que chamo aqui de “regra da contradição aparente”. Quando a Bíblia faz afirmações que sejam aparentemente contraditórias, e cuja conciliação não for possível, devemos afirmar, com igual ênfase, os dois lados do paradoxo. Essa é a regra usada, por exemplo, na formulação da doutrina da Trindade. Deus é um, mas isso não parece harmônico com a idéia de que o Pai, o Filho e o Espírito Santo sejam pessoas distintas, e sejam, ao mesmo tempo, Deus. A mente humana não concilia adequadamente as duas idéias, mas a Bíblia não vê problema em colocá-las uma do lado da outra. Quando isso acontece, devemos fazer como a Bíblia faz, e afirmar os dois lados.

É isso o que faz o calvinismo. A Bíblia ensina que pecamos porque queremos, que os réprobos rejeitam a Cristo de livre e espontânea vontade, mas também fala que é Deus quem endurece o coração dos que serão condenados ao inferno. Não precisamos afirmar apenas um dos lados, o correto é ensinar as duas coisas. Se assim fizermos, resolvemos a contradição aparente e entendemos um pouco melhor a relação entre a soberania de Deus e a liberdade do homem.

P.S: Sei que alguns calvinistas vão querer jogar pedras em mim por usar o termo “liberdade”, ao invés de “responsabilidade”, que, como diz Lutero, somos “nascidos escravos”. Mas cabe sim o uso de “liberdade” aqui. Tanto justos, como ímpios, pecam porque quiseram pecar, porque o desejaram, porque assim escolheram, e, nesse sentido, usaram a sua liberdade para o mal. Uma palavra pode ter várias conotações, e não falo aqui de liberdade em termos absolutos, inclusive para ir contra a própria natureza, mas sim da liberdade de escolha cotidiana do dia-a-dia, a chamada “livre agência”.

Anúncios

2 thoughts on “A regra da contradição aparente: chave para entender a soberania de Deus e a liberdade do homem

  1. Hélder,Não atirarei a primeira pedra. Não vejo problema no uso da palavra liberdade, desde que bem entendida.Os arminianos usam liberdade com o sentido de capacidade. Neste sentido, é claro que o homem não tem liberdade de ir a Cristo. Por outro lado, se entendermos como liberdade de escolha como escolha feita sem nenhuma coerção externa, então liberdade pode ser utilizada.Ótimo texto.Em Cristo,Clóvis

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s