Alimentos e espiritualidade

Então lhes disse: Assim vós também não entendeis? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e sai para lugar escuso? E, assim, considerou ele puros todos os alimentos. (Marcos 7:19-20)

O que comida tem a ver com espiritualidade? Muita coisa, para dizer a verdade. A alimentação saudável é um dos pilares do adventismo do sétimo dia e das igrejas messiânicas. A abstinência de certos alimentos também é uma marca do judaísmo e do islamismo. Muitas ofertas feitas nas religiões afro-brasileiras envolvem comida. E até mesmo o cristianismo trata do assunto, quando aponta a gula (ou glutonaria) como um pecado:

invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam. (Gálatas 5:21)

E por que a comida é tão importante? Ela não é apenas uma forma do corpo obter energia para a execução de suas atividades? O que algo tão “material” tem de tão importante?

Em primeiro lugar, não podemos esquecer que alimentação é um assunto de vida ou morte. Por causa da fome, conflitos ainda hoje eclodem no mundo. Por outro lado, a obesidade e a má alimentação provocam uma série de problemas de saúde, como doenças do coração, pressão alta e até mesmo ajudam a formar cânceres. A nossa relação com a comida também pode dizer muita coisa sobre o nosso caráter e emoções. Carência e tristeza podem ser compensadas com dois litros de sorvete de chocolate. Por outro lado, seguir uma dieta à risca é uma grande prova de persistência e disciplina.

No entanto, há um aspecto em que o cristianismo se diferencia de outras religiões. Judaísmo, islamismo, adventismo e messianismo tendem a enxergar algo de mal nos alimentos em si, daí a abstinência. A picanha gorda, o toucinho, os vegetais com agrotóxicos e a cachaça fazem mal, logo, o ato de consumi-las é um pecado ou, no mínimo, uma falta de respeito com o próprio corpo, uma forma de desequilibrá-lo. Abster-se dessas coisas é, simbolicamente falando, uma forma de se abster de tudo aquilo que é mal.

A Bíblia, ao contrário, condena o excesso (glutonaria), mas permite o livre acesso a todo tipo de alimento, inclusive ao pernil de porco natalino. O que isso ensina?

1) O verdadeiro problema do homem é interior, e não exterior. Espiritualizar demais os alimentos é atacar o problema errado. O pecado, o desequilíbrio, a enfermidade (segundo a Bíblia, a morte entra no mundo pelo pecado)…em última análise, tudo isso encontra a sua raiz no pecado do coração humano, e não em coisas exteriores, como a comida. O alimento, por si só, é puro. Como disse Jesus:

E dizia: O que sai do homem, isso é o que o contamina. Porque de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios, a prostituição, os furtos, os homicídios, os adultérios, a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura. Ora, todos esses males vêm de dentro e contaminam o homem. (Marcos 7:20-23)

2) A matéria não é má. Tudo o que Deus criou é bom. Uma outra conseqüência da abstinência de alimentos é que esse comportamento reforça a crença de que a matéria (ou parte dela) é má. Abster-se de certas comidas é uma forma de se desligar deste mundo e se tornar mais “espiritual”. Mas, quando se age desta maneira, acaba-se condenando algo BOM que foi criado por Deus. Como diz Paulo:

Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios (…) que proíbem o casamento e exigem abstinência de alimentos que Deus criou para serem recebidos, com ações de graças, pelos fiéis e por quantos conhecem plenamente a verdade. (1 Timóteo 4:1-3)

Cabe aqui lembrar que mesmo vilões como o colesterol, a gordura e os açúcares são necessários a todo ser humano. O atleta mais “seco” da Terra possui algum percentual de gordura e se vale dos carboidratos como fonte de energia. O problema não está na picanha em si, está no seu consumo exagerado (glutonaria). Um outro problema é o sedentarismo, que pode perfeitamente ser chamado de preguiça (um pecado no qual tenho caído). Mas não o alimento em si.

3) Nem excesso e nem abstinência, mas equilíbrio. No que diz respeito às coisas materiais (sexo, comida, álcool e até dinheiro) os extremos são errados. A Bìblia condena uma vida de prostituição, glutonaria, bebedices e avareza. Mas ela não exige o celibato e a pobreza de todos. A anorexia, com certeza, é pecado. Em todas essas matérias, o segredo da espiritualidade (e da saúde) é o equilíbrio: casamento, comida e bebida com moderação e contentamento com o que se tem.

Gostaria, no entanto, de fazer um esclarecimento sobre agrotóxicos e certos elementos industrializados, como a gordura trans. Hoje, um número muito maior de pessoas se alimenta graças aos agrotóxicos, que permitem uma redução de pragas. Claro, esse uso precisa ser controlado e ambientalmente responsável, senão é pecado, e dos grandes, o de matar pessoas por causa de lucro. O mesmo pode ser dito de certos componentes criados industrialmente que não trazem nenhum benefício nutricional real.

No entanto, isso não significa que abaster-se de certos alimentos seja sinal de espiritualidade. Não é. Mas também, nada contra os cristãos se envolverem com campanhas de reeducação alimentar saudável. Até porque os valores bíblicos de moderação tem MUITO a ensinar sobre este assunto.

Anúncios

One thought on “Alimentos e espiritualidade

  1. Em 2008 tive o privilégio de contar com suas visitas, comentários, críticas e sugestões ao < HREF="http://cincosolas.blogspot.com" REL="nofollow">Cinco Solas<>. Sou grato a Deus por isso e queria que você soubesse disso.Eu também tive o privilégio de receber seus emails, interagir com você em fóruns, ler e participar de seu blog e em tudo isso fui grandemente abençoado. Por isso louvo a Deus por sua vida.Nessa interação, muitas vezes concordamos, outras tanto discordamos e em outras mais discordamos e concordamos. Mas o que resultou para mim não foi apenas o calor da convivência humana, ainda que virtual, mas a luz de novos conhecimentos, novas perspectivas, que moldaram a minha visão de mundo, consolidando às vezes o que eu já pensava ou me levando a revisar meu ponto de vista.Sendo assim, o que eu posso desejar para mim em 2009? Apenas que pessoas maravilhosas como você continuem comigo nesta curta mas prazerosa jornada para a glória.Para você, desejo todas as bênçãos de Deus. Que a boa vontade de Deus se cumpra na sua vida e que Sua vida esteja alinhada com a vontade dEle. Feliz 2009!

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s