A graça exclui o mérito da vida cristã?

Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. (Efésios 2:8-9)

Pois eu vos declaro: a todo o que tem dar-se-lhe-á; mas ao que não tem, o que tem lhe será tirado (Lucas 19:26)

Qual o papel das obras, qual o mérito pessoal que os salvos por Deus possuem? Nenhum, segundo a Bíblia, no que diz respeito à salvação. A Bíblia é clara quando diz que a salvação acontece pela graça e é um dom de Deus. E, para reforçar, ainda se diz claramente que não é por obras, para que ninguém possa se gloriar disso. Logo, é ponto pacífico que o mérito pessoal não possui papel algum na salvação. Somos salvos pelos méritos de Cristo.

Mas, há lugar para o mérito na vida cristã? Ele tem algum papel relevante em nosso destino eterno?

Na prática, em muitas igrejas a resposta tem sido “não”. No lugar do mérito, a “igualdade” (ou a mediocridade, em minha opinião) tem sido valorizada. Se não merecemos a salvação, então a idéia de “merecer” alguma coisa não deve estar presente no dia-a-dia eclesiástico.

Como isso acontece na prática? De várias formas. Vai desde a gincana com crianças em que a campeã em decorar versiculos recebe o mesmo presente daquela que se comportou como uma verdadeira peste até a condescendência com que colocamos “qualquer um” em posições de liderança ministerial em nossas igrejas. A “competição” é vista como um inimigo a ser banido e a ética que prevalece é a da camaradagem.

Quando uma comunidade se sente constrangida em não renovar o mandato de um presbítero, mesmo sabendo que um jovem concorrente tem sido mais atuante do que ele, quando não expulsamos um jovem crente que não merece estar em um jogo de futebol (porque sua conduta é reprovável) e os crentes piedosos que não gostam de confusão precisam sair da quadra (se quiserem ter paz)…estamos deixando de premiar os melhores para favorecer os piores. Estamos agindo com base na camaradagem, e excluímos o mérito do nosso dia-a-dia.

O que, aliás, é um traço da cultura brasileira. Onde os melhores cargos no serviço público não são os da carreira, mas sim os de “confiança”, franqueados aos amigos do chefe. Onde os políticos são eleitos, não por razões de mérito, mas porque “são gente como a gente” ou porque “é um conhecido meu” ou “me fez um favor”. Onde se prefere criar cotas raciais do que políticas que permitam que todos concorram em igualdade de condições. O país onde todos devem ser iguais, e quem se destaca acima dos demais precisa “ser posto em seu lugar”.

E esse é, talvez, o grande problema do mérito. É que, de fato, uns merecem mais que os outros. E a inveja nos leva a querer matar o sucesso do outro, como Caim fez com Abel, porque Deus se agradou da oferta de Abel, mas não da de Caim (Gênesis 4:1-8). No entanto, a Bíblia é cheia de textos que mostram que Deus considera, e muito, o mérito. Isso pode ser visto:

1) Nas parábolas de Jesus. Quando se lê a parábola das minas (Lucas 19:11-27) ou dos talentos (Mateus 25:14-30), o ensino é claro: quem cuidar melhor do que é de Deus, o que for mais hábil na aplicação do que recebeu, recebe mais.

2) No ensino bíblico sobre o galardão. Embora a salvação seja de graça, a recompensa a ser recebida (galardão) varia de pessoa para pessoa. Gostaria de destacar aqui dois versículos sobre o assunto:

Ora, o que planta e o que rega são um; e cada um receberá o seu galardão, segundo o seu próprio trabalho. (1 Coríntios 3:8)

E eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho para retribuir a cada um segundo as suas obras. (Apocalipse 22:12)

3) No estímulo de Jesus para o serviço. Quando Jesus queria estimular os discípulos a se dedicarem ao serviço, era comum que Ele fizesse referência à recompensa. Em certo sentido, quanto maior o mérito, maior o prêmio:

Jesus lhes respondeu: Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando, na regeneração, o Filho do Homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou campos, por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais e herdará a vida eterna. Porém muitos primeiros serão últimos, e os últimos, primeiros. (Mateus 19:28-30)

Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-sse grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. (Mateus 20:26-28)

4) No ensino sobre pobreza e riqueza. Sim, é verdade que sistemas injustos conduzem a uma pobreza estrutural. Mas também é verdade que a Bíblia ensina que a pobreza de muitos se deve à preguiça ou a escolhas erradas, assim como a riqueza de outros é fruto do mérito pessoal. A idéia de mérito está por trás de quase todas as admoestações de Provérbios contra o homem preguiçoso, como podemos ver em alguns textos:

A mão diligente dominará, mas a remissa será sujeita a trabalhos forçados. (Provérbios 12:24)

O preguiçoso não assará a sua caça, mas o bem precioso do homem é ser ele diligente. (Provérbios 12:27)

O preguiçoso deseja e nada tem, mas a alma dos diligentes se farta; (Provérbios 13:4)

Desta forma, vemos que o mérito é uma forma divina de administração do mundo. O ideal de Deus é que as pessoas sejam recompensadas de acordo com o que fizeram…ou deixaram de fazer. Inclusive em nossa sociedade…e em nossas igrejas.

A ordem divina não é a de que todos sejam iguais, nivelados por baixo ou pela média. Deus quer que cada um receba o que é justo, de acordo com o seu mérito. Quem se destaca positivamente deve sim receber as distinções apropriadas e adequadas aos seus feitos. Seja na igreja ou em nossa sociedade.

Que não nos esqueçamos que o mérito pessoal tem sim valor na vida cristã, embora não tenha valor algum no que diz respeito à salvação.

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