E música do mundo: pode?

Alguns termômetros de santidade dos evangélicos são realmente estranhos. Ao invés de falarmos do amor, da justiça ou da fé das pessoas, escolhemos coisas mais simples de medir…e sem muita importância. A música é uma delas.

Não é difícil entrar no Google e descobrir estudos defendendo que evangélico não pode ouvir música “do mundo”, ou seja, música não evangélica. Aí você encontra os pastores que tocam a música ao contrário e apontam mensagens subliminares. Ou então que vasculham a vida dos cantores e compositores, caçando a menor referência à orixás e outras formas de idolatria.

A única opção segura seriam as músicas evangélicas. Mas, mesmo assim, ainda há restrições: alguns acham que o rock, o rap e vários outros tipos de ritmos (principalmente música eletrônica) são, simplesmente demoníacos. Mesmo que em uma versão gospel. Dançar então…escândalo! Se podemos chamar um grupo de forró evangélico para tocar, é só para ouvir. Dançar é pecado gravíssimo. Quase mortal.

A solução encontrada pela maioria dos evangélicos é a criação de um gueto cultural. Criamos as versões evangélicas, para os nossos jovens se divertirem. Assim temos rock gospel, rap gospel, até mesmo raves gospel, como a Azzucar, aqui de Brasília. A opção foi o isolamento cultural. E, se um evangélico quebra esta barreira, tocando “música do mundo”, ele já se torna malvisto. Todos o vêem como alguém que está prestes a se desviar do Evangelho. A crença-base é de que a música só é permitida se for dirigida de modo explícito a Deus.

Mas, e aí, pode ou não pode? Vou dar o meu ponto de vista sobre o assunto.

1) Tudo o que fazemos deve ser para a glória de Deus. Está lá, em 1 Coríntios 10:31: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. Logo, quando ouvimos ou fazemos música, isso deve ser para a glória de Deus. Mas, será que isso significa que toda música que ouvimos ou fazemos tem que ser de adoração? Ora, as pessoas estudam para concursos públicos, comem pizza, se divertem em clubes, trabalham em bancos…e ninguém diz que Deus não pode ser glorificado nessas atividades. Assim sendo, é possível ouvir música não evangélica e glorificar a Deus.

2) Devemos controlar o que entra em nossa mente. O cristão não pode manter a sua mente “livre”, divagando sobre qualquer coisa. Os nossos pensamentos podem sim influenciar o nosso caráter e comportamento. Não é à toa que Paulo diz que somos transformados pela renovação da nossa mente: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12:2). Ou então que uma parte do seu ministério era levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo (2 Co 10:5). E, com toda certeza, aquilo que lemos e assistimos influencia o nosso pensamento, assim como o nosso corpo é influenciado por aquilo que comemos. Em Filipenses 4:8, lemos o que deve ocupar a nossa mente: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Fp 4:8). Vejam bem que isso não quer dizer que só devemos ouvir músicas evangélicas…mas indica claramente que não podemos ouvir qualquer coisa. Músicas blasfemas, que faltam com o respeito e denigrem a Palavra de Deus devem ser evitadas. Quanto a isso, não pode haver dúvidas.

3) A fé do compositor ou do cantor não tem importância. Uma neurose evangélica, tipicamente pentecostal e neopentecostal (mas que, infelizmente, contamina vários históricos) é a do comprar ou ouvir algo consagrado a demônios. Escritores como Rebecca Brown ganharam muito dinheiro dizendo que quase tudo o que compramos e consumimos é fruto de um pacto com algum demônio. Mas, ainda que ela esteja certa (o que eu duvido muito), a Bíblia ainda tem a última Palavra e diz “Comei de tudo o que se vende no mercado, sem nada perguntardes por motivo de consciência, porque do Senhor é a terra e a sua plenitude” (1 Co 10:25-26). Ou seja, compre sem se preocupar se a pessoa é umbandista, espírita, católica ou evangélica. Tudo é do Senhor. Se não podemos ouvir música de um compositor não cristão, então não podemos ler um livro de escritores não cristãos, vermos programas de televisão de não cristãos, comprar uma camiseta costurada por uma operária não cristã…e por aí vai.

4) Não é pecado conhecer e conviver com a cultura ao redor. Se assim fosse, o profeta Daniel estava perdido. Daniel teve que conhecer a cultura e a língua dos caldeus (Dn 1:4). E Deus deu conhecimento e inteligência a Daniel em toda cultura e sabedoria (Dn 1:17). Obviamente, a cultura pagã dos caldeus (ou babilônios) estava no pacote da bênção divina. Paulo conhecia (e citava) poetas pagãos. Quando Paulo fala: “Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres peguiçosos”, ele citou o poeta grego Epimênides. Paulo também cita poetas gregos no seu discurso em Atenas: “pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração” (At 17:28). Obviamente, o “vossos” se refere a poetas gregos.

5) Não há diferença prática entre ouvir música, ler livros e ir ao cinema. É, no mínimo, hipocrisia, uma pessoa que não ouve “música do mundo” não ver problema em ler livros não cristãos, assistir a programas de televisão (qualquer um) não cristãos ou ver filmes não evangélicos. Livros, televisão e filmes podem ser bons ou ruins, assim como a música. Todos alimentam o pensamento, assim como a música. Por que a neurose é só musical?

Gostaria de terminar olhando para Salomão. Em 1 Reis 4:29-34, a Bíblia fala da sabedoria que Deus deu a Salomão. Com essa sabedoria, Salomão compôs cinco mil provérbios e mil e cinco cânticos. Desses, nós só conhecemos um salmo de Salomão (o Sl 72) e o Cântico dos Cânticos. Tenho minhas dúvidas de que todos os mil e cinco cânticos foram exclusivos de adoração. Ainda mais porque Salomão era um homem de vários interesses, que conversava com pessoas de outros povos e tinha um profundo interesse científico (no caso, pela biologia).

Imagino que assim devem ser os cristãos. Pessoas inteligentes e sábias, ativas na ciência e na arte. Pessoas que convivem com os que não são cristãos e dialogam com elas. Pessoas tão capazes, como Salomão ou Daniel, a ponto de influenciarmos o pensamento e a sabedoria seculares. E o isolamento cultural não vai ajudar em nada.

Jesus não pediu que o Pai nos tirasse do mundo, mas sim que Ele nos guardasse do mal (Jo 17:15). Não somos do mundo, mas é nele que habitamos e é aqui que devemos cumprir a nossa missão. Se queremos tanto falar e sermos ouvidos, o mínimo que devemos fazer é não taparmos os nossos ouvidos ao que o mundo diz. Jesus não fez isso.

Mais uma coisa: a Bíblia não proíbe as pessoas de fazerem músicas de amor, de protesto ou sobre a vida. Se ela não proíbe, quem somos nós para proibir?

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2 thoughts on “E música do mundo: pode?

  1. FANTÁSTICO POST NOZIMA! =Dtp, eu acho o seguinte, a Bíblia ensina aos cristãos principalmente como ter um bom senso.Pq ser uma boa pessoa, é nada mais que ter um bom senso.E assim, pessoas q desvirtuam tal pensamento, não gostam de seguir Deus do jeito q Ele deseja, mas sim seguir a Deus do jeito e eles desejam, o que eu acho errado, pois apesar de muitos falarem que não existe livre-arbitrio, o que vale são as escolhas q devemos fazer em certas horas…Por mais que na visão de Deus não tenhamos o livre-arbítrio, pois ele sabe de tudo o que acontece, nós não somos Deus pra saber o que vai acontecer a frente, por isso acho que eu acho dificil quebrar o argumento do livre-arbítrio que ele nos deu.O melhor exemplo é o de Jesus em nossas vidas.Ele não faz “nada” (entre aspas pois se ele é Deus tbm, e se ele ele quiser que vc o conheça ele o fará) enquanto não permitimos ele entrar na nossa vida, dificilmente há transformação.Então, mesmo apesar de não termos o livre-arbítrio no sentido literal, Deus nos dá oportunidade de escolha, sendo assim algo que podemos aceitar no momento, apesar de estar nos planos de Deus.Tá, dei uma viajada meio grande, mas a escolha de escutar ou não musicas não cristãs, e até mesmo faze-las, não pode tornar uma pessoa mais ou menos seguidora de Jesus, se ela está realmente firmada na fé que tem nele.Então o q cabe é respeitar e ter bom senso de escolher boas músicas para serem escutadas.Valeu nozimão! =DOggvaldz

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  2. ótimo post, nozima.espero que as pessoas levem em consideração isto que está escrito aqui. recomendarei toda vez que vierem com essa pergunta pra mim (parece que o texto de um pastor convence mais :P)abraços

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