O cego evangelista

Eu sempre tive vontade de pregar sobre a cura do cego de nascença. Mas não só a parte da cura, e sim a história toda, mas ela ocupa os 41 versículos de João 9. Ou seja, é impraticável em um culto normal. Mas, no retiro que a minha igreja fez entre 19 e 21 de abril eu pude dar um estudo sobre o texto, e gostaria de compartilhar alguns ensinos sobre ele.

1) Jesus viu o propósito de Deus onde os outros só viam pecado. O texto começa com Jesus vendo o cego e tendo um diálogo com os apóstolos. Quando os últimos olharam para Jesus, eles só viram um homem castigado, seja por seus próprios pecados ou pelo pecado de seus pais (v.2). Em outras palavras, os discípulos nem conheciam o cego e já o julgaram. Ficaram especulando sobre o pecado dele. Já emitiam juízo de valor sobre a vida do homem. Mais ou menos do mesmo jeito como nós fazemos com mendigos ou outras pessoas em uma situação de “desgraça”. No entanto, Jesus viu ali uma vida onde as obras de Deus seriam manifestas (v.3).

2) Até mesmo os novos convertidos são enviados. O texto não traz nenhuma ordem direta de Jesus para que o cego testemunhasse sobre Ele. No entanto, o cego deve se lavar no tanque de Siloé, que significa “enviado” (v.7). De certa forma, quando ele lava os seus olhos, é como se alma dele também fosse lavada. E, a partir daquele momento, ele passa a agir como um enviado para dar testemunho de Jesus. Não apenas os vizinhos e conhecidos reparam nele (v.8), como o enviam para falar aos fariseus (v.13).

3) Evangelizar é contar o que Jesus fez por nós. O cego não tinha muito o que contar aos fariseus ou aos seus vizinhos. Ele não sabia ler (era cego, o Braille não existia ainda), só podia ouvir o que era dito nas sinagogas, logo…não tinha conhecimento bíblico. A única coisa que ele podia dizer era o que Jesus fez por ele. E foi exatamente isso o que o cego fez: contou isso aos vizinhos (v.11) e aos fariseus (v.15, 25). Creio piamente que evangelizar é isso. O conhecimento bíblico é desejável, mas não é necessário. O que é realmente necessário é ter uma experiência com Jesus, é estar ligado a Jesus, é saber quem Ele é.

4) Não se importe com o que os outros pensam de você. Talvez o maior obstáculo para a evangelização em solo brasileiro é o medo da rejeição. O medo de como seremos vistos, de sermos rejeitados por nossos ouvintes. O cego já vinha de um passado de rejeição. Por causa de sua cegueira, era visto como um pecador ou um coitado. Mesmo tendo pais (v.18), ele era um mendigo (v.8). Mas, depois de encontrar-se com Jesus, ele continuou sendo rejeitado. Os pais não quiseram defendê-lo diante dos fariseus. O medo de serem expulsos da sinagoga foi maior do que o amor pelo filho (v.22). Os fariseus o injuriaram (v.28) e expulsaram (v.34).

5) Deus não escolhe como nós escolhemos. Quem você escolheria para dar testemunho de Jesus às pessoas mais cultas e religiosas de sua época? A nossa tendência é escolher alguém como o apóstolo Paulo, tão culto e religioso como eles. Mas Deus escolheu um cego para falar de seu Filho aos fariseus. Note que o cego era mendigo, e que ele não teve tempo de se lavar, barbear e mudar as vestes para falar com aqueles homens. Foi sujo e mal-vestido que ele deu testemunho de Jesus. E, mesmo analfabeto, ele compreendeu melhor do que os fariseus quem era Jesus, a ponto de ensiná-los (v.29-33).

6) Não precisamos saber tudo para evangelizar. No final do texto, não há como não ficar impressionado com o tamanho da ignorância do cego. Ele não sabia quem era o Filho do Homem (v.35-36), mas mesmo assim deu testemunho dele. Existem pessoas que sabem muito mais do que o cego sabia, e ainda assim não se consideram intelectualmente preparadas. Fico pensando se essas pessoas acham que os pastores sabem tudo o que a Bíblia significa ou ensina, porque senão não pregariam. Bom, pelo menos este pastor aqui e a maioria dos que conheço admitem que não entendem todos os textos bíblicos e todos os assuntos da Teologia. Mas, apesar disso, pregamos e assumimos o nosso ministério. Cem por cento preparado, ninguém está. Mas isso não é desculpa para fugirmos de nossa responsabilidade.

7) Quando os homens nos rejeitam, Jesus nos aceita. Para muitos de nós, a evangelização do cego foi mal-sucedida. Afinal, ninguém se converteu e ele ainda acabou sendo expulso. Mas o que determina o sucesso de uma evangelização não é a conversão dos ouvintes, e sim a aprovação de Deus. E, nesse aspecto, o ex-cego foi bem-sucedido. Assim que soube do que aconteceu, Jesus foi até o cego e confortou-o. Mais do que isso, Jesus disse com todas as letras que ele enxergava muito melhor do que os fariseus, porque o cego enxergou e aceitou quem Jesus era, enquanto os fariseus não quiseram fazer isso (v.39-41).

Que possamos ter a coragem e a simplicidade que esse cego teve quando formos evangelizar.

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