As multidões

Que atire a primeira pedra o pastor que nunca sonhou em cuidar de multidões. Admiramos pastores de grandes igrejas ou escritores que quebram recordes de vendagem de livros. Normalmente os grandes pregadores da História escreveram seu nome nos livros de homilética por causa do público que atingiram, e não exatamente pela qualidade dos sermões. Aquele que atrai as multidões tende a ser lembrado. O que prega bem ou pastoreia bem, mas não possui uma multidão de seguidores, provavelmente só vai ser recompensado no céu.

Na verdade, de certa forma, há até um certo mal-estar quando não somos campeões de popularidade. Afinal, Deus prometeu a Abraão uma descendência tão grande quanto as estrelas do céu (Gn 15:6). Moisés foi o líder de uma multidão no meio do deserto (Ex 12:37-38). A pregação de João Batista atraía multidões ao batismo (Lc 3:7) e ele não falava exatamente coisas agradáveis de serem ouvidas. E o mesmo acontecia com Jesus. Na verdade, algumas vezes Jesus parecia um ídolo pop, com multidões a procurá-lo (Jo 4:42). E a Igreja começou com pregações apoteóticas, onde milhares de pessoas se converteram de uma única vez (At 2:41, 4:4).

Com tantas evidências, a regra parece ser: se você seguir o caminho de Deus, sua igreja deve ser grande, explosiva, cheia de gente! Há as dificuldades e tribulações do caminho, mas apesar delas, a igreja será numerosa. Mas, será?

O cristianismo foi, de fato, popular em certas áreas do Império Romano, como o Egito e a Ásia Menor, mas ele nunca foi maioria no tempo dos apóstolos. A igreja de Jerusalém cresceu vertiginosamente, mas nunca conseguiu superar a membresia das sinagogas nos dias apostólicos. Além disso, as multidões que aclamavam a Cristo também o rejeitaram na crucificação, pedindo que lhes fosse dado Barrabás (Lc 22:18). E também não era tão difícil encontrar multidões perseguindo os apóstolos (At 14:19, 16:22, 21:27-36). Todavia, o Evangelho avançava e crescia mesmo assim.

Por outro lado, alguns grandes servos de Deus foram bem impopulares. Moisés e Arão quase foram apedrejados várias vezes (por exemplo, Nm 14:10). O profeta Jeremias era tão solitário que chegou a escrever “Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio, porquanto este jugo Deus pôs sobre ele” (Lm 3:27-28). Elias, apesar de ser um homem de Deus, não conseguiu ver o povo de Israel se converter de seus maus caminhos.

Até certo ponto, o mesmo acontece com as igrejas. As duas igrejas que não foram censuradas por Jesus no Apocalipse (Esmirna e Filadélfia) tinham em comum o fato de serem pequenas (Ap 2:9 e 3:8).

Por que essa reflexão? Ora, para um pastor de uma denominação pequena (menos de 0,5% da população brasileira) e de uma igreja pequena (menos de 150 membros), confesso que essas reflexões são perturbadoras. Principalmente quando se tem a sensação de que você não consegue conduzir muitas pessoas para Jesus (eu falo, as pessoas ouvem, acham legal, e só) ou convencer os crentes a seguirem aquilo que você acha correto.

Talvez a grande conclusão do cotejamento das referências bíblicas acima é a de que números não significam nada. As multidões podem tanto seguir a Jesus como persegui-Lo. Assim como não é válido o argumento de que, quando fazemos a vontade de Deus as igrejas lotam, também não é verdade que quando falamos a verdade, as igrejas se esvaziam.

Mas, mesmo assim, a pressão dos números permanece. Principalmente quando você vê tantas denominações e movimentos evangélicos atraindo verdadeiras multidões…e você nota que a sua mensagem e a sua teologia não são nada populares.

O que me consola é notar que as multidões seguem, mas na maioria das vezes, os discípulos são poucos. E isso em qualquer lugar. Uma igreja de mil membros parecerá vivíssima por ter cem crentes comprometidos com os ministérios. Mas, uma igreja de cem membros, com doze membros ativos, não nos parece tão viva assim, embora fosse proporcionalmente maior.

As multidões seguiam a Cristo, mas poucas pessoas o acompanharam até o fim. Uma multidão deixou o Egito, mas apenas dois foram aprovados por Deus. Até mesmo Paulo terminou os seus dias quase que sozinho (2 Tm 3:9-18).

Há exceções? Sim. Em alguns momentos, parece que toda uma geração, de fato, se entregou ao Senhor. Os que entraram na terra com Josué, os que viveram nos dias do rei Ezequias e mesmo a multidão de cristãos que permaneceu fiel, apesar das perseguições.

Não sei o que Deus espera de mim. Até agora, identifico-me muito mais com Jeremias e Elias do que com Pedro e Paulo. Sinto-me muito mais como o pregador que fala a um povo que não ouve do que com aquele que fala e vê o Espírito Santo agindo nas multidões.

Gostaria sim de ser ouvido (sim, eu tenho um lado humano), mas gostaria mais de sentir que a verdade encontra legiões de defensores, de sentir que não estou só, de ter no coração o descanso de ver a Igreja seguindo o caminho do Senhor. Mas hoje, o que sinto são os calafrios de quem vê a Igreja caminhando para a heresia e o erro, os calafrios de quem grita anunciando a catástrofe, mas não é ouvido.

Que Deus tenha misericórdia das multidões que o chamam de Senhor.

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