Jesus e o sistema

A idéia popular sobre Jesus é a de que ele era uma pessoa que trabalhava contra os sistemas. Jesus não estaria apenas contra o sistema romano de dominação política e econômica, ou contra o sistema judaico de fé e religião, ele estaria contra qualquer tipo de sistema. Algo do tipo “ame o seu próximo, e não se preocupe com o resto”. É como se Cristo fosse um dos ícones do anarquismo. E, em cima dessa idéia, vivemos hoje uma época em que milhões de cristãos estão rejeitando as visões institucionais de igreja e embarcando em um relacionamento “livre”. Sem pastores, sem presbíteros, sem confissões de fé. Apenas eu, Cristo e a minha fé.

Ao meu ver, esse pensamento é fruto:

1) De uma compreensão superficial e incorreta sobre a vida e os ensinos de Jesus (o tema deste post);

2) Da idéia errada de que, se um sistema tem problemas, a solução é acabar com todos os sistemas (sobre isso, leia o meu texto anterior);

3) Da nossa preguiça em fazermos um estudo sério e responsável da Bíblia para descobrirmos qual é o sistema (aguarde os próximos capítulos).

E, sim…se você acha que Jesus era contra todo e qualquer tipo de sistema ou de institucionalização da Igreja, a sua compreensão sobre a vida e os ensinos de Cristo é superficial. Por quê?

* Porque Jesus guardou e endossou a Lei de Moisés. Desde o seu nascimento, Jesus veio para viver uma vida 100% debaixo da Lei. Ele foi circuncidado ao oitavo dia (Lc 2:21), foi apresentado e consagrado ao Senhor, segundo a Lei (Lc 2:22-24), ia com seus pais às festas da Lei (Lc 2:41), chamava o Templo de casa de seu Pai (Lc 2:48) e tinha o costume de ir à sinagoga (Lc 4:16). Sobre a Lei, Jesus disse que Ele não veio para revogar a Lei, e sim para cumpri-la (Mt 5:17). Mais do que isso, Jesus disse que quem violasse um dos menores mandamentos da Lei, esse seria mínimo no reino dos céus, mas que quem observasse e ensinasse a Lei, esse seria grande no Reino dos céus (Mt 5:19-20). Ora, endossar a Lei significa endossar um sistema, com sacerdotes, sacrifícios e regras. Logo, Jesus veio para viver dentro de um sistema dado por Deus.
* Porque Jesus atacava os acréscimos feitos ao sistema, e não o sistema em si. Quando lemos o Sermão do Monte, ficamos com a impressão de que Jesus está criticando o Antigo Testamento e colocando um novo padrão. Na verdade, não era bem isso o que Jesus fazia. O que Jesus estava criticando era o ensino dos fariseus. Jesus diz “Ouvistes o que foi dito” e não “Lestes o que está escrito”. Em nenhum lugar da Lei de Moisés você acha o versículo “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo” (Mt 5:43). O “odiarás o teu inimigo” foi acréscimo dos fariseus. Da mesma forma, em Mateus 23, Jesus critica os fariseus pelas suas “inovações”, como dizer que quem jura pelo santuário não é nada, pois o que importa é jurar pelo santuário (Mt 23:16). Se você ler com atenção os evangelhos, verá que Cristo nunca atacou o sistema de Deus, mas sim as deformações que os fariseus haviam feito à Lei de Moisés.

* Porque o próprio Jesus criou um sistema. Jesus não tratava igualmente a todas as pessoas que o buscavam. Havia a multidão de seguidores, mas no meio deles havia setenta mais chegados (Lc 10:1). Essees setenta precediam a Cristo e pregavam o evangelho, inclusive com autoridade para curar enfermos (Lc 10:9). Além destes, haviam os doze apóstolos, que curavam e tinham poder e autoridade sobre os demônios (Lc 9:1). Destes doze, haviam três que eram mais próximos de Jesus. Na agonia do Getsêmani ou no monte da transfiguração, apenas Pedro, Tiago e João estavam com Jesus (Mt 17:1, 26:37). Foi aos apóstolos, e mais especificamente a Pedro, que Cristo confiou a Sua Igreja (Jo 21:17). Jesus não era o líder de um bando, ele era o líder de um grupo organizado. A institucionalização da Igreja começou com o próprio Jesus.

* Porque Jesus morreu para salvar um povo, e não apenas indivíduos. E isso nós já podemos ver na oração que Cristo ensinou aos seus discípulos. O nome da oração é “Pai Nosso” e não “Meu Pai”. Até na oração individual, devemos estar sempre nos lembrando de nossos irmãos. É muito mais fácil vermos Jesus junto de multidões ou grupos de pessoas do que falando isoladamente com alguém. E o próprio Jesus vivia em comunidade com, pelo menos, mais doze discípulos. Não era apenas João, Cristo e a fé de João. Era João, Cristo, mais Pedro, Tiago, André…e até Judas! Um grupo com problemas, com lutas pelo poder…mas sempre um grupo. O discipulado nunca é uma caminhada solitária com Cristo. É uma caminhada em grupo, com uns pisões e empurrões aqui e acolá, mas todos juntos seguindo os passos de Jesus.

E muita da nossa resistência a sistemas vem exatamente da nossa dificuldade em conviver com as pessoas. Da nossa raiva quando vemos “Tiago e João” querendo se assentar à esquerda e a destra de Jesus. Do nosso espanto quando vemos “Pedro” negando a Cristo. Ou mesmo da nossa repulsa quando “Judas” rouba a bolsa e trai a Jesus. Mas, apesar disso tudo…Cristo ainda manteve o sistema apostólico.

Que Cristo nos dê sabedoria para reconhecermos qual é o sistema que Ele criou para Sua Igreja.

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