A culpa é do sistema!

Já virou até clichê de pastores dizer que estamos em uma “sociedade sem pecado”. O mundo já concebeu várias estratégias para banir, de uma vez por todas, a idéia de pecado de nossas mentes. Por meio do relativismo, onde não existem mais absolutos, as noções de certo ou errado se tornam individuais. Desta forma, não tenho como apontar o pecado dos outros, e vice-versa…cada um segue a sua própria ética. A culpa tornou-se algo ruim e indesejável e boa parte do esforço da psicoterapia tradicional é aliviar o homem de suas culpas. Não se perde muito tempo avaliando, por exemplo, se o homem que sente remorsos por ter deixado a sua família e assumido sua homossexualidade agiu bem ou não. O que importa é fazer com que ele não se sinta culpado.

Mas há uma estratégia mais sutil de acabar com a idéia de pecado. Basta por a culpa no sistema! Não, a culpa não é de “A” ou de “B”, é do sistema perverso em que vivemos. Desta forma, tiramos o pecado das pessoas e o colocamos em algo arbitrário, abstrato, que não pode ser punido pelo erro de “A” ou “B”.

Desta forma, o ladrão não é culpado de seu roubo. A culpa é de um sistema perverso, onde ele foi abusado emocionalmente por seus pais, não pôde comprar tênis de marca na adolescência e não consegue arranjar um emprego que lhe permita viver com dignidade.

Essa idéia já está presente na Teologia. Ouvindo um sermão do Pr. Marco André, autor do livro “A religião mais negra do Brasil”, ele falou nos pecados individuais e nos pecados estruturais. O pecado estrutural seria o pecado do sistema, a formação e preservação de estruturas perversas, que oprimem as pessoas.

Eu não nego que, de fato, existe algo de perverso e pecaminoso nas estruturas políticas, econômicas, sociais, emocionais e até eclesiásticas desse mundo. A grande questão é que esses pecados “estruturais”, na verdade, são pecados pessoais. Pecados cujos responsáveis podem ser identificados e responsabilizados. Afinal, estruturas não nascem do nada…elas são mantidas e preservadas por pessoas.

E é dessa forma que a Bíblia raciocina. Por exemplo, o Brasil é um país onde existem leis injustas. De acordo com o profeta Isaías, a culpa não é do sistema, mas sim de quem decreta tais leis:

Ai dos que decretam leis injustas, dos que escrevem leis de opressão, para negarem justiça aos pobres, para arrebatarem o direito aos aflitos do meu povo, a fim de despojarem as viúvas e roubarem os órfãos! (Isaías 10:1-2)

Ou seja, a culpa dos erros do sistema é de quem escreveu as regras! E, se o sistema me impõe leis injustas, não devo me curvar a ele. Tenho a responsabilidade individual de resistir. Como disse Pedro:

Então, Pedro e os demais apóstolos afirmaram: Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens. (Atos 5:29)

Eu posso resistir ao pecado! Da mesma forma que os alemães podiam ter se recusado a seguir as ordens nazistas de denunciarem os judeus, nenhum sistema é tão forte que não possa ser resistido. Mesmo que essa resistência venha a custar a nossa vida.

Se sistemas fossem tão determinantes, a ascensão social seria impossível. E, no entanto, há vários pobres que prosperam ao longo da vida por meio do estudo e trabalho honestos. Assim como há ricos, que tiveram a melhor educação formal e bom apoio familiar que acabam empobrecendo.

Se os sistemas fossem tão determinantes, todos os pobres do Brasil seriam ladrões. Mas sabemos que isso não é verdade. Por mais doloroso que seja, há os que preferiram mendigar a roubar. E, nesse aspecto, o mendigo é, de fato, mais admirável do que o ladrão ou o traficante.

Por mais injusto que seja o sistema, sempre há uma escolha a ser feita. Sempre há a possibilidade de obedecer ao Senhor e resistir ao pecado. A única questão é saber se estamos dispostos ou não a pagarmos o preço dessa obediência.

Os “pecados estruturais” só acabarão se as pessoas reais assumirem suas responsabilidades e culpas individuais. Quando os cristãos pararem de dizer que a responsabilidade é dos outros e arregaçarem as suas mangas, aí sim as portas do inferno não resistirão à Igreja.

Ora, aquele que possuir recursos deste mundo, e vir a seu irmão padecer necessidade, e fechar-lhe o seu coração, como pode permanecer nele o amor de Deus? Filhinhos, não amemos de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade. (1 João 3:18)

Anúncios

One thought on “A culpa é do sistema!

  1. Não gostei da idéia de pecado estrutural. Também creio que os erros “do sistema” são na verdade de seres humanos, indivíduos. Culpar o sistema não resolve nada, mas é preciso coragem (muita coragem) e discernimento para enfrentar e resistir ao sistema. Há uma linha tênue entre resistência e rebeldia. Eu gostaria de aprender a resistir, e creio que muitas de nossas angustias mais íntimas se resolveriam com essa resistência, mas identificar o que resistir é identificar o que há de mal em um sistema que, por ser o sistema em que estamos imersos e o estruturador de tantos aspectos de nossa vida, aos nossos olhos pode oferecer coisas muito boas.É preciso ajuda do Espírito Santo para a resistência, para dizer não à inércia e ao comodismo ante os tais pecados estruturais, para enxergar onde está o pecado e onde estamos em relação à ele.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s