Uma vida dominada pelo Espírito!

Slide1Efésios 5: 18-21

“E não vos embriagueis com o vinho, no qual a dissolução, mas enchei-vos do Espírito Santo, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor do Senhor.”

UM HISTÓRICO DE AVIVAMENTOS

Ao longo da história vemos várias vezes momentos especiais de derramamento do Espírito Santo, momentos que chamamos de avivamento. Um exemplo interessante ocorreu entre a tribo dos zulus na África do Sul, em que um missionário pregou por lá por vinte anos. Seu resultado foi completamente frustrante, com nenhuma conversão. Ao final desse tempo já completamente frustrado, ele foi tocado pelo Espírito Santo, levado a um quebrantamento, tomado por um senso de necessidade de maior dependência divina, foi levado a reconhecer muitos de seus pecados, entre eles o próprio racismo mesmo estando há vinte anos naquela tribo. Naquele dia era natal, e no período da noite ele ouviu alguém bater na porta e ao abrir se depara com um grupo de zulus dizendo: nós queremos Jesus. Lembramos das suas pregações, não sabemos o que está acontecendo, mas queremos Jesus. Naquele dia houve mil conversões entre o povo zulu, e no dia seguinte mais mil. Duas mil conversões em dois dias. Hoje estão construindo, ou talvez já esteja pronto, um templo para dez mil na região.

Avivamento é uma ação especial do Espírito Santo levando pessoas à conversão, a uma mudança de vida. Na atualidade o conceito de avivamento foi completamente distorcido, e as pessoas creem que avivamento é quando um grupo é tomado por grande emoção durante uma música, ou quando um show gospel em algum estádio fica lotado. Mas o verdadeiro avivamento não é isso, é uma busca por santidade. O verdadeiro avivamento ocorre quando as pessoas ficam cheias do Espírito Santo, e isso é refletido nas suas vidas. Avivamento não é algo produzido pela ação humana, pela música, pela iluminação, é uma ação direta de Deus. Avivamento é ser cheio do Espírito Santo de Deus na nossa vida.

QUEM É O ESPÍRITO SANTO?

Mas antes que possamos pensar sobre o que realmente significa estar cheio do Espírito, é preciso entender quem é o Espírito Santo. Ao contrário do que muitos pensam, o Espírito não é uma força ou uma porção dobrada de um poder extraordinário. Uma visão equivocada da pessoa do Espírito Santo produz uma visão errada do que é ser cheio do Espírito Santo. Não é à toa que na visão da maioria, ser cheio do Espírito é falar línguas extraordinárias, fazer operações extraordinárias e ver coisas extraordinárias. Mas o Espírito não é isso, Ele é o próprio Deus, como mesmo chamamos: a terceira pessoa da trindade. E como uma pessoa da trindade o Espírito tem decisões, ações, sentimentos. Ele estava presente na criação, Ele ressuscitou Jesus da sepultura, desceu como uma pomba no batismo de Cristo, entre outros exemplos. Para nos aprofundar no conhecimento do Espírito, vamos olhar para o que Paulo escreveu sobre ele na carta aos Efésios. Primeiramente o capítulo 1.13,14:

Em quem também vós, depois de ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele também crido, fostes selados com o Espírito da promessa; o qual é o penhor da nossa herança, até ao resgate da sua propriedade, em louvor da sua glória.

 

            Ele é o penhor da nossa herança, isso é, Ele é a nossa certeza da herança que temos no céu. A garantia que Jesus nos deu de que Ele irá voltar uma segunda vez é a presença do Espírito. Além disso Ele é aquele que ilumina os olhos para que possamos enxergar a Cristo (versos 17,18). O homem natural, corrompido pelo pecado, não pode enxergar as coisas espirituais, não pode se achegar a Jesus, se não for por uma ação sobrenatural do Espírito Santo. No capítulo 2.18,19 vemos que ele é o agente que promove união na igreja:

Porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois a família de Deus.

Assim, percebemos que o Espírito Santo é aquele que nos conduz até Jesus. Ele abre os nossos olhos para enxergar Cristo, ele nos faz mais parecidos com Cristo, ele nos dá a certeza da nossa salvação, e ele une a igreja em um único propósito de adoração a Deus. Com uma visão correta da pessoa do Espírito Santo, é possível compreender melhor o que é ser cheio do Espírito. Não é uma força, não é um poder, é o próprio Deus habitando nos crentes e capacitando para a santidade.

DOMINADOS PELO ESPÍRITO E NÃO PELA CARNE!

Olhando agora para o texto de Efésios 5.18-21, notamos que inicialmente Paulo faz uma comparação entre vinho e Espírito. É impossível que se compare duas coisas que não tenham nenhuma semelhança, por exemplo: eu poderia dizer “essa Bíblia é preta, mas esse outro livro é azul”, estaríamos comparando o fator “cor”, mas eu jamais poderia comparar: “essa Bíblia é preta, mas o gato tem bigodes”, isso não faria o menor sentido. Assim, há um fator comum para comparação entre vinho e Espírito na mente do apóstolo Paulo: certamente é o fator “domínio”. Assim como o vinho pode embebedar e tornar a pessoa completamente dependente, de forma que um bêbado não responde mais por si mesmo, mas está sob controle do álcool, o crente deve procurar estar sob controle do Espírito, de modo que suas ações, vontades e decisões sejam completamente submissas ao Espírito Santo. O teólogo João Calvino faz o seguinte comentário sobre essa passagem:

os filhos deste mundo estão acostumados a beber em profundo, como uma emoção para gerar alegria. Essa emoção carnal é contrastada com a Santa alegria da qual o Espírito de Deus é o autor, e que produz inteiramente efeitos opostos.

O que Calvino está dizendo é que aqueles que não são cheios do Espírito de Deus irão buscar satisfação nas coisas do mundo, no “vinho” que existe no mundo, porém essa satisfação é passageira. A pessoa se torna dominada pela busca incessante de algo que preencha sua vida. É o domínio do pecado sobre a vida de tal pessoa. Mas os crentes, cheios do Espírito, são levados a maior proximidade com Deus e encontram assim uma alegria e um preenchimento eternos, uma satisfação completa. São dominados pelo Espírito de Deus, e não pela carne. Existem apenas duas opções para o homem: ser dominado pelo pecado, ou ser dominado pelo Espírito.

Quando desejamos mais as bênçãos materiais do que Deus nas nossas vidas, ou desejamos qualquer outra coisa do mundo mais do que desejamos ao Senhor, estamos sendo controlados pelo pecado. Estaremos dominados pelo pecado. Quando algo terreno traz mais contentamento, satisfação do que a presença de Deus, estamos sendo controlados pelo vinho, estamos embriagados com o mundanismo. Quando uma igreja visa mais o lucro do que a adoração ao Deus trino, quando visa mais o luxo ao em detrimento do necessitado, quando visa mais a politicagem ao invés da evangelização, quando visa mais uma pregação que agrade aos ouvidos do que a exposição fiel das Escrituras, quando visa mais manifestações irracionais supostamente realizada pelo Espírito em detrimento da pregação da Palavra de Deus, certamente é uma igreja embriagada com o vinho do mundo. Mas é preciso lembrar que nesse vinho há “dissolução”, palavra que também pode ser traduzida por inutilidade. Existe uma vida inútil, que nunca vai se sentir preenchida, em quem é dominado pelo pecado.

Em oposição à vida dominada pela carne temos a vida dominada pelo Espírito Santo. É importante notar que quando Paulo diz “enchei-vos do Espírito”, o termo grego original dá ideia de continuidade, de forma que esse enchimento é um processo constante na vida do crente. Ser cheio do Espírito Santo diz respeito a ser cheio do fruto do Espírito. Sabendo que o Espírito Santo tem como função principal revelar Jesus aos nossos olhos, tirar as escamas para que enxerguemos o salvador, então aquele que é controlado pelo Espírito, cheio do Espírito, vê Cristo em Tudo. O Espírito põe em nós o seu fruto que nos faz ser imitadores de Cristo.

Desse modo, o crente dominado pelo Espírito dominado pelo Espírito vive em amor. Um amor verdadeiro, que perdoa, que quer o bem, que não pede nada em troca. Que enxerga aquele necessitado próximo, que sente as dores e as alegrias do próximo. Também é alguém alegre, apesar das lutas, das tribulações, sabemos que servimos ao Deus que é rei, que faz tudo para o nosso bem, que cuida de nós. O que é cheio do Espírito também vive em paz porque Cristo é a nossa paz. Ele nos deu sua paz, em meio a um mundo angustiado e atribulado, ele nos dá a mais serena e tranquila paz, pela certeza que Deus está controlando todas as coisas. Também é longânime, ou paciente, benigno e bondoso. Aquele que é cheio do Espírito é também alguém de fé. Fé essa que tem como objeto Cristo Jesus. Não a fé na fé, como se essa fosse o fator capaz de mudar as coisas. Mas a fé em Cristo. Fé que ele nos salvou e nos libertou do império das trevas, fé que ele vai voltar para redimir todas as coisas, fé que ele está preparando uma nova morada. Por fim, o crente cheio do Espírito tem domínio próprio, sobre suas ações, sobre sua língua, obtendo uma vida centrada e equilibrada.

ENCHENDO-SE DO ESPÍRITO

Surge então uma nova pergunta: como eu faço para me encher do Espírito? A resposta é dada nos versículos 19, 20 e 21. Mas um detalhe é interessante olhando esses versículos de forma geral: o enchimento do Espírito se dá na vida em comunidade. É impossível ser cheio do Espírito Santo e não estar na igreja. Precisamos uns dos outros.

Paulo inicia dizendo: “falando uns aos outros com Salmos”. Quantas vezes nós perdemos muito tempo comentando o que não edifica? Quanto tempo gastamos jogando conversa fora sobre diversos temas (o que não é proibido obviamente), mas fazemos isso em detrimento de conversar sobre a Palavra de Deus. Em segundo lugar Paulo recomenda que louvemos a Deus de todo o coração com hinos e cânticos espirituais. Isso significa louvores que refletem as verdades Bíblicas, e não nossas ideias e opiniões. Em uma época em que o que se canta está passando longe da Bíblia, isso é muito importante de ser lembrado. Para encher do Espírito Santo é preciso um louvor a Deus, de todo coração, em comunidade, mas um louvor bíblico.

Em terceiro lugar Paulo ainda adverte que haja sempre ações de graças nos nossos lábios, precisamos de um espírito de gratidão. Deus não vai encher um coração rancoroso, cheio de mágoa, um coração ingrato, cheio de ódio, ausência de perdão, murmúrio, reclamando de tudo, sem enxergar a mão de Deus na história. Precisamos de um coração grato, liberto. É preciso pedir perdão uns aos outros, libertar-se na ira, da mágoa, da inveja, da imoralidade, da ingratidão. Só assim haverá plenitude do Espírito. É preciso ser grato a Deus em tudo: na dor, no sofrimento, na catástrofe, nos dias maus, e também na alegria e nos dias bons. Curiosamente, para que isso ocorra, precisamos pedir a ação libertadora do Espírito, porque sem ele não conseguimos obter esse coração de gratidão. Paulo finaliza com a exortação à sujeição mútua. Sujeitando-vos uns aos outros. Isso significa respeitar uns aos outros na função em que Deus pôs cada um. Muitas pessoas na atualidade pensam que podem caminhar sem ninguém para direcionar, mas Deus deu pastores à igreja para instruir o povo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da mensagem que foi pregada, eu gostaria que você pudesse aplicar algumas verdades no seu coração, para que você seja cheio do Espírito de Deus.

  1. O Espírito não opera à parte da congregação como vimos no sermão, logo, se você deseja esse controle do Espírito Santo em sua vida, esteja integrado na igreja. Não entre na ideologia do nosso século de que você pode servir a Deus da sua maneira, que você tem Deus na sua vida e isso já está bom.
  2. O Espírito também não age à parte da Palavra, portanto leia a Bíblia. Lendo a Bíblia você poderá cantar hinos e cânticos que verdadeiramente agradam a Deus. Lendo a Bíblia você vai encontrar as características de uma pessoa controlada pelo Espírito, ou seja, vai encontrar como ser uma pessoa segundo o coração de Deus.
  3. Ore pelo avivamento. Ore para que esse Espírito aja na nossa localidade, enchendo o coração das pessoas de temor e tremor diante de Deus. Participe da oração de forma comunitária também. Ore dentro do corpo de Cristo acerca desse assunto.

Peça a Deus que te dê um coração grato, livre das amarguras, do ódio e de tudo que possa te afastar dele. Peça a Deus que te encha com o Espírito Santo.

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Abuso sexual entre evangélicos

20 anos, 700 pessoas abusadas, 380 abusadores.

Minha experiência diz que ninguém gosta de falar no assunto. Ninguém curte, compartilha, poucos lêem. Talvez por achar que falar do assunto apenas afasta as pessoas de Cristo e traz manchas desnecessárias à Igreja. Mas precisamos admitir: existe abuso sexual dentro das igrejas evangélicas, e precisamos definir o que fazer quando tais casos ocorrerem. Veja bem, não é “se”. É “quando”.

Neste domingo, o jornal “Houston Chronicle” publicou uma reportagem sobre casos de abuso sexual dentro da Convenção Batista do Sul, a maior denominação evangélica americana. Pastores, pastores de jovens, diáconos, voluntários, professores de EBD: o abuso foi cometido por todos os tipos de líderes. Você pode ler a reportagem neste link.

Se pensamos que no Brasil é diferente, estamos enganados. Quem é evangélico sabe: qualquer um pode servir no Ministério Infantil. Adolescentes que não sabem nada de Bíblia são recrutados como voluntários. Pais recém-chegados, dos quais pouco se sabe. Não há preocupação com quem serve ali. Já ouvi relatos de professores assediando alunas em seminários, de pastores cometendo adultério e até de estupro cometido contra uma criança em uma igreja. Uma das grandes marcas do “Encontro Com Deus” do G-12 era o fato de pregações dirigidas a mulheres falarem pela primeira vez em “cura” para mulheres traumatizadas pelo abuso sexual.

Infelizmente, quando o estado espiritual de nossas igrejas não é o melhor, e a sociedade é cada vez mais erotizada, o abuso sexual precisa ser uma preocupação no radar de qualquer pastor, de qualquer pai, em qualquer igreja. Igrejas e denominações precisam ter um protocolo claro sobre como lidar com o assunto. Quem diz isso não sou eu: é Russell Moore, presidente da Comissão de Ética e Liberdade Religiosa da Convenção Batista do Sul. Leia o artigo aqui.

É tempo de fazer documentos para que Presbitérios, Sínodos e Assembleias Gerais determinem como lidar quando os casos de abuso forem denunciados e como tratar dos abusados. Bispos deveriam se reunir para fazer o mesmo. Igrejas congregacionais deveriam fazer encontros de líderes para tomarem medidas.

E você, leigo(a), leitor(a), pode ajudar curtindo, compartilhando este post e levando o assunto para o seu pequeno grupo, para o seu pastor, para os seus amigos.

Jesus não acobertou o pecado quando foi cometido em sua presença, no templo. Ele trouxe tudo o que estava escondido à luz. Nós deveríamos fazer o mesmo. Quando nós diminuímos ou acobertamos o que aconteceu em nome de Jesus para aqueles que Ele ema, nós não estamos ‘protegendo’ a reputação de Jesus. Ao contrário, estamos lutando contra o próprio Jesus. (Russell Moore)

OU CRISTO, OU UM ÍDOLO. OS DOIS NÃO DÁ

Alguns podem pensar muito facilmente que não existe idolatria em nossa época. Ou podem ser levados ao pensamento equivocado de que ela exista apenas dentro da Igreja Católica. Digo isso pela associação direta entre idolatria e uma imagem feita por mãos humanas. Mas será que não existem ídolos no nosso coração precisando ser combatidos? Eu concordo com João Calvino, que afirma “o coração do homem é uma fábrica de ídolos”. O nosso século é marcado por forte idolatria, tal qual o Israel antigo. A idolatria está dentro das igrejas tradicionais e pentecostais. Está dentro do coração de muita gente.

Pois bem, o que é um ídolo? Eu definiria um ídolo como tudo aquilo que toma o lugar pertencente a Deus no coração do homem. Pode ser desde algo bastante sutil, algo como uma idolatria velada, até uma idolatria descarada em que outro Deus que não Cristo é adorado. Minha preocupação maior é o com o primeiro tipo. Os ídolos velados que temos construído na nossa era é que preocupam. Os cristãos estão adorando falsos deuses sem se darem conta disso, e nisso mora o perigo. As redes sociais estão aí para não me deixar mentir.

A IDOLATRIA SEGUNDO A BÍBLIA

Olhando para a Escritura percebemos uma coisa: o idólatra se torna semelhante ao seu ídolo. Isaías 6. 9,10 deixa isso evidente quando diz que a nação não iria ouvir, nem ver, nem perceber a mensagem do profeta, assim como os ídolos que adoravam que “tem olhos mas não veem, tem ouvidos mas não ouvem” (Salmo 115.15-17). O mesmo ocorreu quando houve a adoração ao bezerro de ouro, e Israel em seguida foi definido como “gado disperso” e povo de dura cerviz (alusão a vacas de pescoço duro).

Outro ponto de suma importância na teologia bíblica da idolatria: idolatrar é fazer uma troca. É trocar a glória de Deus por algo inanimado. O salmo 106 diz que Israel mostrou a glória de Deus demonstrada e viva no meio do povo (manifestada por meio de seu amor e misericórdia) por um deus falso.

No Novo Testamento, percebemos que a idolatria israelita muda de forma, mas continua persistente. Nos evangelhos vemos claramente a idolatria na religião. A confiança de Israel estava depositada nas suas tradições, muito mais do que em Deus. Em Atos, essa idolatria é manifestada por meio do templo. O templo era um interposto entre Deus e os homens, visto que a adoração a Deus restrita àquele lugar tinha seus dias contados, e terminou com a vinda de Cristo. Os judeus se recusaram a adorar fora do templo, e este então virou um ídolo.

Para que Deus habite plena e irrestritamente com seu povo, não pode haver estruturas humanas separando Deus do povo. (G.K Beale)

A IDOLATRIA PÓS-MODERNA

A pergunta crucial é: o que isso tem a ver com a gente? Por que eu deveria saber sobre a idolatria de Israel e suas consequências? E a resposta é muito simples: continua acontecendo a mesma coisa. Tem idolatria espalhada pela igreja, tem idolatria espalhada nas redes sociais, tem idolatria arraigada no coração e povo nem percebe! Opa…o povo “não vê, nem “percebe”? (Isaias 6. 9,10).

A primeira idolatria que eu percebo é a idolatria da política. E começo por ela justamente porque ela está escancarada para todo mundo ver. A única pessoa que não vê, é o idólatra! (Olha a ironia de novo…). Tenho percebido que muitos crentes tem confiado na política a transformação da sociedade, transformação da sua vida. Tem feito dos políticos seus Messias. Isso vale pra qualquer lado, direita ou esquerda. Os crentes estão cegos e defendem o que seus ídolos, digo políticos, falam e fazem cegamente sem o menor senso crítico. Inclusive há cristãos que abriram mão dos valores do evangelho para aderir a agenda política do seu partido de estimação. Que importa se esse político é a favor do aborto e outras coisas mais? Estão se comportando igual Saul: achando que estão fazendo o bem mediante a desobediência a Deus (lembre-se que Saul “achou” que estava fazendo algo bom trazendo os despojos da guerra, mas a ordem era para não trazer nada – 1 Samuel 15.1-31). É aterrorizante também ver que nos grupos de whatsapp o assunto é somente política e muito pouco sobre a Escritura, mesmo nos grupos das igrejas. É lamentável isso. Lembre-se você pode estar trocando a glória de Cristo pelas migalhas de um político, e talvez não esteja se dando conta disso por causa da dureza do seu coração.

A segunda idolatria é aquela relacionada ao sistema religioso. Eu sou presbiteriano, e sou bastante convicto de que o sistema conciliar e não episcopal é um sistema mais próximo da Bíblia. Percebo muito claramente no Novo Testamento a presença de uma pluralidade de presbíteros em uma igreja. Mas isso não significa que a constituição da IPB seja canônica. Que o sistema que a IPB adota seja santo e isento de erros. Esse é apenas um exemplo, para indicar que existem pessoas adorando a um sistema religioso, seja o da IPB seja qualquer outro. Adorando a denominação mais do que ao Deus da denominação. Pessoas que pensam “se o culto não for exatamente assim eu não posso cultuar”. Como se o manual litúrgico de alguma denominação fosse canônico. O que está oculto nisso é uma adoração ao ego, ao seu gosto musical, à sua vontade de que tudo seja do seu jeito.  Algumas denominações possuem isso de modo tão forte que seus membros até percebem erros teológicos graves, mas ficam paralisados e não conseguem sair porque não conseguem enxergar uma vida fora daquele “sistema”. Pense bem, você pode estar trocando a glória de Cristo, pelos prazeres de um mero sistema.

A última idolatria que trato nesse breve texto (sem a menor pretensão de esgotar o assunto idolatria) é a idolatria doutrinária. Começo pelo calo do meu pé: os chatinistas e os reforchatos (retirei esse termo do Rev Helder Nozima, refere-se aos calvinistas e reformados chatos, muito chatos por sinal). Esses calvinistas, reformados, como quiser chamar, colocam Calvino acima de qualquer suspeita. Isso é um erro grave, afinal, Calvino também falou bobeira. Mas ainda que não façam isso, colocam seu calvinismo acima do amor ao próximo. É melhor ganhar uma boa briga com arminiano, recheada de ironias e sarcasmos, do que simplesmente tentar admoestar o irmão, e promover o amor e o bem da igreja. Mas existem idolatrias piores em relação a doutrina. Já conversei com muitas pessoas que realmente não adita você explicar o que a Bíblia diz, porque o que importa é o que a doutrina da igreja diz. Se você abre a Bíblia e explica o texto, o máximo que essa pessoa vai fazer é mandar você orar e pedir uma experiência com Deus, e Ele irá te mostrar que você está errado (esse caso é real). Outro caso real que eu presenciei foi quando disse que existia mais de uma corrente de pensamento sobre o milênio, e tal igreja adotava apenas uma das correntes (dispensacionalismo). O indivíduo me disse que não adotavam corrente alguma porque a doutrina deles era revelada direto por Deus e por isso não tinha erros, e que eu deveria rever meus conceitos porque teologia é fruto de mentes de homens. Enfim, já ficou muito claro o absurdo que é a idolatria doutrinária não é?

CONCLUSÃO

Eu fecho com o seguinte: cuidado, você pode ser um idólatra sem se dar conta disso. Você pode estar trocando a glória de Cristo por um sistema, por um político, por uma [falsa] doutrina, por uma rede de amizades, por um bom debate teológico, por ai vai. Pode ser que você esteja se assemelhando ao seu ídolo. Ficando surdo e cego, não percebendo a idolatria e mergulhando cada vez mais nela. Ainda nesse sentido de ficar igual ao ídolo, você se torna também mudo, e deixa de falar de Cristo pra falar mais do Lula ou do Bolsonaro. Um outro ponto ainda: você pode acabar se assemelhando à religiosidade fria que você adora, e se tornar morto espiritualmente, igual a falsa religião que você adora. Cuidado com a idolatria. Ou Cristo ou o ídolo, os dois não dá.

Em Cristo,

Vítor Laguardia

Você quer mesmo um país puro ou uma igreja pura?

Começamos mais um governo. Após ser eleito com um forte discurso de honestidade e combate à corrupção, o governo Bolsonaro começou decepcionando vários de seus seguidores. Um ministro com honestidade discutida, o motorista do filho com dinheiro no banco mal explicado, acordo do Partido Social Liberal (PSL) com Rodrigo Maia na Câmara e, tudo isso, em 18 dias de mandato. Desde já, os pragmáticos e os idealistas se dividem em suas reações.
 
Trazendo para a esfera religiosa, pragmáticos e idealistas também se dividem quando o assunto é Igreja. Como presbiteriano, digo que os idealistas bem podem ser chamados de puritanos. O puritanismo foi um movimento reformado que produziu gigantes como John Owen ou John Bunyan. Eles desejavam uma igreja pura, firmemente enraizada na Bíblia e livre de qualquer ranço trazido pela Tradição que não fosse fundamentado nas Escrituras. Puritanos disciplinavam os membros e excluíam da Igreja aqueles que não mostravam frutos de sua conversão. Apesar de seu vigor, eles foram combatidos por muitos pragmáticos, que preferiam manter mais membros, ter menos conflitos com o poder político e não se incomodavam com a manutenção de certas tradições.
 
Mas, o que diferencia mesmo pragmáticos e puritanos? Por que eles optam por caminhos diferentes? Ao meu ver, a resposta é simples: os puritanos entendem que não há pureza sem sacrifícios, sem limpeza. As palavras “purgar” e “expurgo” são meros sinônimos de purificar. Para que o ouro seja puro, é preciso passá-lo pelo fogo, separar os metais de menor valor e retirá-los, de modo que apenas o precioso metal esteja presente. E a mesma verdade vale para instituições, inclusive a Igreja.
 
Isso é ilustrado de modo dramático na escolha dos levitas para servirem a Deus. Por que Deus escolheu apenas a tribo de Levi para servir no tabernáculo? A resposta está em Êxodo 32:25-28:
 
Vendo Moisés que o povo estava desenfreado, pois Arão o deixara à solta para vergonha no meio dos seus inimigos, pôs-se em pé à entrada do arraial e disse: Quem é do SENHOR venha até mim. Então, se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi, aos quais disse: Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Cada um cinja a espada sobre o lado, passai e tornai a passar pelo arraial de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, cada um, a seu amigo, e cada um, a seu vizinho. E fizeram os filhos de Levi segundo a palavra de Moisés; e caíram do povo, naquele dia, uns três mil homens.
Quando o povo de Israel fez o bezerro de ouro, ele ficou fora de controle. Moisés não estava conseguindo impedir a adoração pagã, a bebedeira e a licenciosidade que estavam acontecendo. Tudo parou quando os levitas cingiram a espada e mataram irmãos, amigos e vizinhos que estavam em idolatria. Apenas aí o povo parou.
 
Calma, não estou defendendo que matemos os impuros por aí. Mas não se faz um Brasil puro sem retirar os corruptos do meio, sejam eles filhos, amigos ou vizinhos. Da mesma maneira, não se faz uma igreja pura sem disciplinar e até excluir parentes, amigos e vizinhos. A pureza exige sacrifício.
 
E não adianta apelar para Jesus, porque Ele também purifica o mundo por meio do fogo do juízo. Aqueles que, como os levitas, se ajuntarem ao lado de Jesus, são perdoados e permanecem. Mas, o que vai acontecer com aqueles que permanecerem em adoração idólatra? Serão lançados no inferno pelo próprio Senhor.
 
Eu quero um país puro, uma igreja pura e uma vida pura. A pureza não é uma opção, é um dever para os cristãos. Mas eu entendo que há um preço alto a ser pago por ela. E você: entende isso? Quer pureza para você, sua igreja e seu país? Se sim, junte-se a Jesus. Creia em Jesus. Abra a Bíblia e tire da sua vida o que Jesus quiser remover.
 
Graça e paz do Senhor,
 
Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Em 2018, você lutou por seu país. Em 2019, lute por sua Igreja!

“Mas eles retrucaram: Tu és nascido todo em pecado e nos ensinas a nós? E o expulsaram (João 9:34)”

Uma das lições que aprendi com as eleições brasileiras de 2018 é a de que a participação popular só é aprovada pela elite se o povo concordar com quem manda. Lembro-me de todas as eleições presidenciais pós-redemocratização, e nunca vi tamanho envolvimento popular nas discussões sobre quem votar. Muitos cidadãos comuns ousaram erguer a voz e discutiram nas redes sociais sobre o futuro do Brasil. Gente comum ousou questionar o que professores universitários, jornalistas e artistas ensinavam. O senso comum foi usado como arma e venceu os sofisticados argumentos da elite marxista cultural brasileira.

Obviamente, a elite não reagiu bem a essa “desobediência” popular. Abra qualquer grande jornal e não será difícil ler acusações de que o povo é ignorante e manipulado. Intelectuais não têm receio de insinuar que o povo não tem o conhecimento necessário para discutir temas importantes como o feminismo, a ideologia de gênero ou a arte de uma criança tocar um homem pelado em um museu. Mas, quando o povo votava no mesmo partido das elites, o povo estava finalmente se libertando.

A dinâmica religiosa
Infelizmente, essa dinâmica não é exclusiva da política. Também dentro das instituições religiosas, a elite (clero) não gosta de ver o povo (membresia, leigos) discutir teologia. A membresia é livre para concordar passivamente e acolher o que o clero ensina. Mas, quando membros não se sentem confortáveis com alguma postura ou ensino dos sacerdotes, a ordem é calar a boca e se submeter.

Em João 9, foi exatamente isso o que aconteceu. Jesus curou um cego no sábado, desobedecendo uma tradição religiosa dos fariseus e escribas. Não havia nada na Bíblia que proibisse curar no sábado, mas a interpretação judaica daquele tempo criou essa restrição. Por esse motivo, os fariseus interrogaram o cego sobre a cura. Quando o cego começou a defender a Jesus e a questionar os fariseus, esses o expulsaram, desqualificando-o como alguém “nascido todo em pecados”, indigno de ensiná-los.

O silêncio no século XXI
A maneira como os fariseus trataram o cego curado é a mesma adotada por vários pastores evangélicos quando lidam com seus membros. Darei um exemplo da minha denominação. Vários pastores presbiterianos cortam discussões teológicas com o argumento de que apenas concílios podem discutir tais assuntos. O leigo não foi ordenado ou licenciado para pregar ou ensinar. Em plena era da informação, onde qualquer movimento religioso divulga livremente suas ideias na Internet, os membros são desencorajados a vocalizar dúvidas e discordâncias em blogs, comunidades ou grupos virtuais. Veja bem: não falo de decisões. Essas devem sim ser tomadas em concílios. Mas a divergência é considerada um ato de rebeldia, por menor que seja.

Não se trata, porém, de exclusividade presbiteriana. Nos EUA, é comum existirem sites que fazem uma cobertura jornalística do que acontece nas grandes religiões, promovendo debates e fazendo reportagens sobre escândalos financeiros ou sexuais. Como são vistos? Bom, quando sites católicos americanos questionam o celibato dos padres ou a postura diante de casos de pedofilia, o papa os desqualifica como sendo instrumentos de escândalo e divisão. Normalmente, a mesma resposta acusatória surge quando sites relatam casos como as acusações de abuso sexual contra Bill Hybels ou dentro da Sovereign Grace Ministries. Pergunto: se casos mais leves de discordância doutrinária não podem e devem ser discutidos, o que os pastores dirão se sites e blogs de leigos evangélicos começarem a trazer casos graves de crimes, pecados e desvios de conduta?

Um chamado ao envolvimento leigo
E eu respondo: se os leigos aceitarem a repreensão farisaica e não exigirem que líderes prestem contas de sua doutrina, de suas ações e da maneira como governam suas igrejas, as igrejas afundarão como o Brasil vinha afundando nos anos petistas. Se a membresia confiar tudo ao clero e se calar, por submissão, os maus pastores continuarão a roubar dinheiro, ensinar heresias, distorcer as Escrituras e abusar sexualmente de fiéis. Já os bons pastores não deveriam temer nem restringir a discussão e o escrutínio públicos. Ao contrário, deveriam se engajar nele.

A Igreja deve ser transparente. Como presbiteriano, concordo com a Bíblia que a decisão é conciliar. Mas o debate, o questionamento e as discussões devem ser públicas. Em sua maioria, as cartas de Paulo eram endereçadas à igreja toda. Jesus debatia publicamente, na rua, com os fariseus e com leigos. O que os pastores do século XXI têm a esconder? Qual o medo?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Feliz Ano Novo? Feliz Eu Novo!

E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. (2 Coríntios 5:17)

O ano pode até ser novo, mas nós continuamos os mesmos. Entra ano, sai ano,  muda o animal no calendário chinês e a posição dos astros no céu, e o ser humano continua fazendo promessas de que, a partir do dia 1º de janeiro, tudo será diferente. Reportagens sobre como se exercitar mais, se organizar melhor e ser mais feliz ocupam o noticiário todo dia 31 de dezembro. Milhões se vestem de branco e pulam sete ondas na beira do mar. Fazemos as mesmas coisas, na esperança de que tudo vai mudar. E ano que vem, vai ser a mesma coisa.

Por que isso acontece? Porque a mudança só virá se nós mudarmos, e não o calendário. O elemento comum de uma nova vida amorosa, uma nova saúde e uma nova vida profissional somos nós. Não precisamos trocar de cônjuge, de corpo ou de emprego. A única coisa que precisa ser renovada sou eu e você.

E aqui tenho uma má notícia e uma boa notícia. A má notícia é que a Bíblia nos ensina que o nosso esforço pessoal pode até nos melhorar, mas não nos renovará. A melhor versão de nós mesmos não dura para sempre e irá fracassar. Nossa autodisciplina pode nos salvar por algumas décadas, mas será derrotada cedo ou tarde. Assim como o Ano Velho, nossos esforços também envelhecerão e passarão.

Mas há uma boa notícia: Jesus não apenas nos melhora, mas nos transforma. Ele tem o poder de fazer algo muito maior do que “a melhor versão de nós mesmos”. A promessa da Bíblia é a de que Deus faz de nós novas pessoas, novas criaturas, uma nova criação. Em Cristo, Deus nos faz nascer de novo. E porque nós somos renovados, desde já, tudo pode ser novo. As circunstâncias continuam as mesmas, mas tudo se torna diferente quando estamos em Jesus.

Esse ano, quero te fazer uma proposta diferente. Ao invés de um Ano Novo, que tal um Novo Eu? Que tal experimentar o poder de Jesus de renovar todas as coisas? A Bíblia nos ensina que isso é possível. O nosso velho eu pode até continuar existindo por um tempo: envelhecendo, agonizando e morrendo a cada dia. Mas ele vai desaparecer. E o novo eu, criado em Cristo Jesus, viverá para sempre, a cada dia mais e mais, até o momento em que até os nossos corpos serão transformados, no último dia, quando nós ressuscitarmos. Naquele dia, veremos que tudo ficará velho e ultrapassado, até o calendário. Mas Cristo e aqueles que estão n’Ele, esses permanecerão novos, por toda a eternidade.

Compre uma Bíblia e leia-a. Procure uma igreja evangélica séria, bíblica, como as presbiterianas ou batistas tradicionais. Comece a orar e a buscar a Jesus. Te desejo muito mais do que um Ano Novo. Desejo um novo eu para todos nós.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Natal: um anúncio sobrenatural

Respondeu-lhe o anjo: Descerá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente santo que há de nascer será chamado Filho de Deus. (Lucas 1:35)

Já virou uma tradição do Natal ver cristãos se queixando sobre o caráter secular e comercial dado ao feriado cristão. Pastores assumem os púlpitos para apontar como o Papai Noel tomou o lugar de Jesus e os presentes deixaram de ser um ato de adoração a Cristo e se tornaram uma oferta “sagrada” no altar dos comerciantes. A reclamação é até justa, mas há uma pergunta que raramente é feita: tem a Igreja alguma culpa nesse cenário?

Não sou dono da verdade, mas a minha resposta é sim. Do começo ao fim, o Natal é uma sucessão de milagres. Ele é o momento em que o Filho de Deus encarnou-se, pela ação sobrenatural do Espírito Santo sobre a virgem Maria. Todas as pessoas que adoraram o Menino Jesus tiveram algum tipo de revelação sobrenatural de Deus. Anjos, estrelas e profecias explodem em todo lugar. Mas a Igreja não se encanta mais com a estrela, os anjos e as profecias. Tudo isso foi jogado em um passado distante e já não confiamos mais na revelação mística de Deus como meio de mostrar ao mundo a divindade de Jesus. O Natal tornou-se um evento questionável no calendário, alvo de polêmicas por causa da data e das polêmicas do calendário litúrgico. E, assim, a Igreja deu espaço para que o mundo trocasse os milagres pela “mágica do Natal”.

Só há uma maneira de reverter esse quadro. A Igreja precisa redescobrir o encanto e a maravilha do Natal. Precisamos recapitular o grande evento sobrenatural de Deus que foi a encarnação de Jesus. Mais do que isso: de alguma maneira, precisamos resgatar para os nossos dias o mesmo deslumbramento que levou magos, pastores e profetas à adorarem o Filho de Deus.

Tragam a Trindade para a festa
O primeiro resgate a ser feito é o da Trindade. O Natal não é apenas um tempo de manifestação do Filho de Deus, mas um evento que envolve todas as pessoas da Santíssima Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Ao ser chamado de “Filho de Deus”, fica claro que a paternidade de Jesus é algo que precisa ser enfatizado quando falamos de Natal. Mais importante do que ser filho natural de Maria e filho adotivo de José é o fato de Jesus poder chamar a Deus de Pai, em um sentido que não podemos. É isso que faz de Jesus um homem especial, perfeito e sem pecado. A vinda do Filho é o cumprimento de um plano traçado pelo Pai desde a fundação do mundo (Ef 1:3-14). Os filhos de Deus são aqueles que o Pai adota por meio de Cristo Jesus. Por meio do Filho nós recebemos a graça que foi concedida pelo Pai.

O Espírito Santo foi o meio pelo qual o Filho de Deus encarnou-se e tornou-se homem. A Maria, o anjo Gabriel disse que o Espírito Santo desceria sobre ela (Lc 1:35, citado acima). O evangelho de Mateus deixa isso mais claro: Maria foi engravidada pelo Espírito Santo e, por esse motivo, José poderia recebê-la sem temor.

Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo.  Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. (Mateus 1:18-20)

A importância dos anjos
Uma coisa é acreditar nas profecias do passado sobre a vinda do Messias. Outra, bem diferente, é acreditar que essa profecia vai se cumprir em sua família, por meio de uma gravidez inesperada! Algo tão inusitado não poderia ser aceito por José e Maria com uma simples exposição das Escrituras. Era preciso que entes sobrenaturais anunciassem a novidade. Se fosse diferente, nenhum deles teria aceito a Encarnação.

Para essa missão, Deus enviou Gabriel, o anjo que havia aparecido ao profeta Daniel para explicar as visões que falavam da vinda do Messias e do fim do mundo (Dn 8:16). Assim como Daniel teve dúvidas e precisou de esclarecimentos, Maria também precisou da assistência sobrenatural do anjo para entender a revelação do que significava ser a mãe do Filho de Deus e conceber sem estar virgem. Do mesmo modo, Gabriel também anunciou a Zacarias o milagre do nascimento de João Batista, uma outra história de Natal, o nascimento daquele que precede o Filho de Deus (Lc 1:19). No caso de José, a Bíblia não afirma que foi Gabriel quem lhe apareceu em sonhos para falar que o filho de Maria vinha do Espírito Santo, mas eu considero bem plausível que Gabriel também tenha sido o mensageiro.

Mas a deferência especial de Deus não alcançou somente os pais de Jesus. Simples pastores tiveram o privilégio de uma visão, não apenas de um único anjo, mas de uma multidão deles! Embora pastores não fossem bem vistos na sociedade judaica e, provavelmente, fossem analfabetos, eles conheciam as promessas proféticas do Messias e já deveriam ter ouvido algum rabino explicando as Escrituras. Aqui, o propósito da visão angelical foi duplo. O primeiro era o de fazer com que os pastores cressem que a Escritura havia se cumprido. O segundo era o de mostrar o favor divino aos pastores. Em uma sociedade que os rejeitava, a visão testemunhava que Deus queria o bem deles.

O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem. (Lucas 2:10-14)

Sonhos, sinais e profecias
Contudo, um acontecimento do porte da vinda do Filho de Deus não poderia ser anunciado apenas com um tipo de manifestação sobrenatural. Além das visitas angelicais, Deus usou sonhos, sinais e profecias para comunicar a vinda de Jesus.

Em todas as as vezes em que anjos falaram com José, o meio utilizado não foi o das visões, mas o dos sonhos. Foi por sonho que ele soube da origem divina de Jesus, foi instruído a descer ao Egito (Mt 2:13), a voltar para Israel (Mt 2:19) e a se fixar na Galileia (Mt 2:21).  Também foi por meio de sonhos que os magos souberam que não deveriam voltar a Herodes e voltaram a sua terra sem passar por Jerusalém (Mt 2:12).

A vinda dos magos aconteceu por causa de um sinal no céu: a famosa Estrela de Belém. Esses magos eram astrólogos, buscavam adivinhar o futuro por meio da posição das estrelas. Segundo a Bíblia, astrologia é pecado e não revela o futuro. No entanto, Deus usou a forma que os magos entendiam o sobrenatural para revelar o nascimento do “Rei dos judeus”. É verdade que os magos foram levados por Deus até a Escritura, mas os sinais foram importantes para levá-los até Jesus.

Profecias ou outras formas de comunicação sobrenatural também foram usados por Deus para fazer com que Simeão e Ana reconhecessem a Jesus. Simeão tinha o Espírito Santo (Lc 2:25) e teve uma revelação do Espírito de que veria a Jesus (Lc 2:26). Ele foi movido pelo Espírito (Lc 2:27) para ir ao templo e reconheceu quem era Jesus. Nada disso foi natural ou comum. Como o Espírito revelou? Por meio de uma profecia? Pode ter sido um sonho ou uma visão. Não sabemos ao certo, mas foi sobrenatural. Como o Espírito o moveu a ir ao templo? Não foi algo vago que pudesse ser confundido com uma coincidência, foi algo claro o suficiente para que sua origem sobrenatural pudesse ser identificada. Ana era uma profetisa (Lc 2:36) e não foi por causa das profecias de Isaías ou Jeremias que ela reconheceu a Jesus. Com certeza, o Espírito Santo tevelou a ela, naquele momento, quem era Jesus.

Havia em Jerusalém um homem chamado Simeão; homem este justo e piedoso que esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. Revelara-lhe o Espírito Santo que não passaria pela morte antes de ver o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, foi ao templo; e, quando os pais trouxeram o menino Jesus para fazerem com ele o que a Lei ordenava…(Lucas 2:25-27)

Trazendo para os dias de hoje
O que podemos aprender com essas histórias? Em primeiro lugar, que dependemos da ação sobrenatural de Deus para reconhecer quem é Jesus. Nas narrativas do Natal, chama a atenção de que nenhum fariseu, escriba ou doutor da Lei foi adorar a Jesus ou reconheceu que aquele bebê era o Filho de Deus. Os escribas até foram consultados por Herodes quando os magos foram a Jerusalém, mas não creram. Sem a revelação do Espírito Santo, a Bíblia tornou-se para eles um instrumento de condenação, e não de salvação. Precisamos ter a humildade de reconhecer que o mundo (e a Igreja) dependem do Espírito Santo para crerem em Jesus. Tantos fatos não são mera coincidência, e nem algo que não tem aplicações para a época que vivemos.

Se é assim, então precisamos parar de retratar o Natal como algo comum. Até o mundo reconhece que há algo místico na data, ainda que o atribua ao Papai Noel e a uma mágica impessoal. Por que a Igreja não tem a mesma atitude? Há tantas revelações e diferentes manifestações para celebrar e nos levar a uma adoração reverente e alegre do Deus Triúno! O milagre é muito mais poderoso do que a mágica.

Que nesse Natal possamos celebrar o Deus que fez tantos milagres para nos salvar! Que tantas demonstrações de poder possam nos encher de esperança de que Ele ainda fala, dá sonhos e faz milagres nos dias de hoje. Que os milagres de Deus substituam a mágica do Natal para dar cor ao nosso futuro.

Feliz Natal,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro