Hora de sair da IPB? Perguntas de um presbiteriano carismático

Uma das perguntas que não protestantes fazem é por que surgiram tantas igrejas diferentes da Reforma Protestante? Uma das respostas está no princípio do livre exame da Bíblia. Livre exame não significa livre interpretação, mas dá a cada protestante o direito de examinar a interpretação de seus líderes, para verificar se ela está correta ou não. De certa maneira, foi o que Martinho Lutero fez, ao questionar se o catolicismo romano estava ou não em acordo com a Bíblia. Ao fazer isso, querendo ou não, Lutero examinou e julgou todo o Magistério e a Tradição católicas até então. A esperança do reformador não era criar uma outra igreja, mas sim mudar o catolicismo. Mas, qo ser pressionado entre submeter-se a Roma ou arcar com as consequências, a consciência de Lutero o obrigou a se submeter a Deus, antes de se submeter à Igreja. E assim começou o luteranismo, e o protestantismo.

De modo análogo, o livre exame e o dever de consciência também explicam porque o protestantismo já nasceu fragmentado. A questão do significado da Santa Ceia dividiu os seguidores de Lutero, Calvino e de Zwinglio. E, assim, vertentes diferentes do protestantismo surgiram, porque a discordância doutrinária, embora não fosse tão central quanto a da autoridade da Bíblia, ainda era importante o suficiente para não permitir que pontos de vista tão diferentes como a consubstanciação e o simbolismo da Ceia pudessem coexistir na mesma igreja.

Esse mesmo tipo de dilema se repetiu, em questões mais ou menos importantes, ao longo de toda a História da Igreja. Antes de falar do meu dilema pessoal, lembro-me de como presbiterianos deixaram a Presbyterian Church of the United States of America (PCUSA) por rejeitarem o liberalismo teológico adotado pela PCUSA. Isso não ocorreu no século XVI, mas em pleno século XX ainda ocorreram divisões por esse motivo.

No Brasil, há dois grupos em um dilema parecido: os batistas calvinistas e a Convenção Batista Brasileira (CBB) e os presbiterianos não cessacionistas na Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Submeter-se ao resto da denominação e calar-se sobre as convicções pessoais ou seguir a consciência e sair da denominação? No caso batista, pelo governo congregacional, o problema é até mais fácil de ser equacionado. Mas, para verdadeiros presbiterianos, como eu, a solução não é tão simples.

Como o próprio nome do meu blog denuncia, creio na doutrina reformada, mas também sou carismático quanto aos dons espirituais. Sou um dos poucos que resolveu assumir os dois lados como uma bandeira de fé. Mas, eventualmente, recebo perguntas de leigos, seminaristas e pastores sobre o mesmo dilema: é hora de sair da IPB? Fico e me submeto, tento mudar ou saio? Mas, se sair, para onde ir? Não há uma denominação brasileira de alcance nacional que realmente abrace tanto a doutrina reformada como a contemporaneidade de dons como profecia, línguas, curas, milagres e discernimento de espíritos. Essa opção pode até existir, localmente, mas não para a esmagadora maioria dos que conheço.

Como resolver? Não é um problema simples, e, por isso, esse texto não tem como ser curto. Escrevo aqui principalmente para pastores e seminaristas. Há várias coisas que precisamos considerar.

A discordância justifica sair?
A primeira pergunta que precisamos nos fazer é: eu considero a contemporaneidade dos dons carismáticos um ponto tão importante, a ponto de entender que as igrejas não podem viver de modo saudável sem o exercício desses dons? Se eu não considero um ponto tão importante assim, então não há motivos para sair. O melhor seria se submeter. Agora, se eu considero que as igrejas perdem algo importante sem a crença e o exercício desses dons, então o caminho é influenciar a IPB ou sair.

Reparem que não falei apenas de crença, mas de exercício dos dons. Se nossa crença nos dons extraordinários é forte e incomoda a consciência, mas não há disposição para praticar esses dons no dia-a-dia da Igreja, é melhor ficar onde está. Muitos que dizem crer nos dons vivem em um cessacionismo prático. Se há medo de mudar isso ou se o cessacionismo prático é confortável, então é melhor calar a boca e se submeter.

Você consegue fundamentar a sua crença?
Uma segunda pergunta é se conseguimos fundamentar, na Bíblia, não apenas porque os dons extraordinários não cessaram, mas também porque a Igreja perde muito ao não exercê-los. Vou além: caso eles devam ser exercidos, precisamos ter de modo bem claro quais são os princípios bíblicos que vão limitar e orientar a prática dos dons.

No meu caso pessoal, há vários textos aqui no blog que explicam porque creio na contemporaneidade dos dons extraordinários e até alguns limites sobre como esses dons devem ser exercidos. Há bons livros que tratam do assunto. Entre eles, fui influenciado pela Teologia Sistemática de Wayne Grudem, pelo livro “O Dom da Profecia“, também de Wayne Grudem, e os livros “Surpreendido Pelo Espírito Santo” (CPAD) e “Surpreendido Pela Voz de Deus” (Vida), de Jack Deere (ambos fora de catálogo no Brasil). O livro “Cessaram os Dons Espirituais”, que traz diferentes pontos de vista sobre o assunto, também foi de grande utilidade. Infelizmente, também está fora de catálogo.

Não sei que fundamento você usa (ou não) para justificar o lado carismático de sua fé. Para não deixar completamente em branco qual o meu posicionamento, eu vou deixar apenas um texto bíblico aqui:

Mas o que ocorre é o que foi dito por intermédio do profeta Joel: E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões, e sonharão vossos velhos; até sobre os meus servos e sobre as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e profetizarão (Atos 2:17-18)

Os últimos dias são o período que começou com a vinda de Jesus Cristo e dura até o retorno dele no fim dos tempos. A marca desse período é o derramar do Espírito Santo e a manifestação do dom da profecia. Ao limitar a manifestação da profecia de Joel apenas ao período apostólico, entendo que a IPB erra e abre mão de uma grande promessa dada por Deus para esse momento da História. Só o Senhor sabe a falta que as visões dos jovens, os sonhos dos velhos e a profecia de filhos e filhas tem feito ao crescimento qualitativo e quantitativo de nossas igrejas.

Não sei qual a sua resposta. Mas a minha é: os dons ditos extraordinários deveriam estar sendo praticados. Ao optar por não fazê-lo e ensinar que eles cessaram, a IPB peca e perde muito por isso. Entendo que não apenas devo ensinar que os dons ainda existem, mas que devo buscar o exercício deles em meu ministério.

Reforma ou Carisma?
Uma terceira pergunta que precisamos nos fazer é: se for preciso escolher, fico com Reforma ou com Carisma? É preciso sermos realistas. Nem todos os pastores vão ter dons ou perfil para começar uma nova igreja. Alguns não vão ter recursos financeiros ou tempo para se dedicarem à plantação. E aí é preciso saber para qual lado pende o seu coração.

Há pastores presbiterianos que consideram o “Carisma” mais importante. Entre eles, coloco aqueles pastores que já não ensinam mais nada de reformado em suas igrejas, mas embarcaram em modas como o G-12. Pastores que não são carismáticos por causa de uma teologia sólida, mas porque querem imitar as igrejas “que crescem” e desfiguraram suas congregações de tal maneira que elas não parecem mais reformadas. Igrejas com cultos de cura, de libertação espiritual, que ensinam sobre demônios territoriais, onde pastores não querem mais governar com presbíteros e invejam os bispos e “apóstolos” de outras denominações. Esses eu nem os considero reformados. Deveriam ser honestos, sair e irem a denominações neopentecostais ou abrirem igrejas onde eles podem governar de modo déspota.

Eu considero a “Reforma” mais importante. Por mais que valorize os dons carismáticos a ponto de expor o meu nome por causa deles, jamais os trocaria pelo ensino reformado da centralidade e suficiência da Escritura, da soberania e da providência de Deus e da glória de Deus como objetivo maior de todo ser humano. Mesmo os simples cinco pontos do calvinismo valem mais do que a prática da profecia. Prefiro dez mil vezes estar em uma igreja onde não possa falar contra o cessacionismo, mas ouça sermões sobre a soberania de Deus, do que estar em uma igreja onde possa exercer qualquer dom, mas não possa ensinar o calvinismo.

E é por isso que considero difícil a um verdadeiro presbiteriano simplesmente sair e abrir um trabalho. Eu creio que o governo da Igreja deve ser feito de modo conciliar. Jesus não entregou a chefia dos apóstolos a nenhum deles. Desde o início, o cristianismo teve uma liderança plural. As igrejas não decidiam sozinhas suas questões doutrinárias, como bem mostra Atos 15 e o Concílio de Jerusalém, o texto áureo do governo presbiteriano. Sair para começar algo novo pode significar uma ruptura com esse tipo de governo para começar algo de modo episcopal, onde o pastor governa a Igreja. E esse não é um modelo que eu considere bíblico. Por todos esses motivos, eu ainda não saí da IPB.

Não saí também porque, ao meu ver, os concílios existem para arbitrar questões. Isso pressupõe que haverá diferentes partidos dentro da denominação em relação a algumas questões. Uma igreja conciliar que proíbe seus pastores de questionar a biblicidade de alguma regra já não é mais conciliar. Se o debate é proibido, já não há mais porque haver concílios que se reúnem com regularidade. E eu entendo que a IPB ainda não debateu devidamente essa questão.

O que quer a IPB?
E aqui vem uma pergunta que a denominação como um todo não quer responder de modo claro. A IPB quer pastores carismáticos em seu meio? Se sim, então essa diferença de opinião precisa ser tolerada. Não há porque perseguir e fazer campanhas difamatórias contra pastores não cessacionistas. Eles deveriam ser tratados com respeito e terem liberdade para, em algum grau, praticarem o que crêem. Se não, a denominação também precisa dizer isso claramente. Mais do que isso: ela não pode mais tolerar que pastores desfigurem suas igrejas como tem acontecido em várias cidades do Brasil, com todo tipo de mau pentecostalismo. Ela não pode mais ordenar pastores que sejam carismáticos. O que está escrito precisa ser cumprido, ainda que isso signifique perder pastores e até igrejas no processo.

A indefinição é que não traz paz verdadeira para a denominação. Se o confessionalismo estrito é a norma, amém! Mas que se tirem os pastores que vivem em desacordo. Alguns deles até ganham destaque denominacional, em vários níveis. Enquanto isso existir, a norma escrita sempre será desafiada. Agora, se a contemporaneidade dos dons é um assunto menor, onde pode existir liberdade de divergência, então que a liberdade seja real. Em outras denominações reformadas, é possível apresentar algumas divergências em relação aos Símbolos de Fé de Westminster. O pastor apresenta as suas divergências e o Presbitério julga se o ministro pode ou não ser recebido, se as divergências são menores ou se são significativas. E, caso o ministro seja aprovado, não há colegas de ministério acusando-os ou perseguindo-os, como acontece no Brasil.

Se a IPB responder, de modo enfático, a resposta para muitos como eu seria mais fácil. Hoje eu não sou administrativamente um pastor. Estou há mais de dois anos no exterior, sem campo na IPB, e estou como membro de uma igreja presbiteriana em Brasília. Devo voltar ao Brasil em 2020 (Deus sabe se sim ou se não), mas eu mesmo não sei se persigo uma reintegração ao ministério pastoral ou se busco exercer o pastorado fora da IPB. Peço até que você ore por isso. Mas, da minha parte, confesso que estou disposto a buscar viver de modo integral tanto Reforma como Carisma. Amo a IPB, gostaria muito que fosse lá. Mas, se não for possível, que Deus me mostre o que fazer.

Não tenho uma resposta para quem me pergunta. Mas espero que esse texto ajude outros colegas reformados e carismáticos a tomarem uma decisão. E espero que esse texto motive pastores e presbíteros da IPB a buscarem um posicionamento mais firme e consistente da denominação sobre essa questão.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

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ENEM – Exame Nabucodonosor do Ensino Médio

Entra ano, sai ano, e há duas certezas que você ter sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A primeira é a de que você vai poder fazer vídeos constrangedores dos alunos que chegam atrasado. A segunda é a de que a prova será criticada por suas questões com forte viés ideológico. O ENEM 2018 não podia ser diferente.

De todas as polêmicas, a que está causando mais barulho é a que pergunta sobre o “dialeto secreto” dos travestis, o pajubá, que usa termos da língua iorubá. A maneira usada pelo examinador para saber se o aluno sabe o que é um dialeto foi questionada até pelo presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro, que considerou a pergunta uma supervalorização da questão LGBT. Por outro lado, há pessoas que consideram exagerada a reação à pergunta. Ela não encorajaria nenhum tipo de engajamento homossexual e tamanha aversão apenas contribuiria para o avanço da homofobia no Brasil.

Quem tem a razão? Antes de responder, gostaria de explorar um outro exame feito na Bíblia. Assim como o Enem, esse exame era um pré-requisito para ascender socialmente, era promovido pelo Estado e tinha objetivos bem específicos.

A escola de Nabucodonosor
A história deste exame está no livro de Daniel. No século VI a.C., o grande imperador da Babilônia, Nabucodonosor, havia acabado de conquistar vários povos, entre eles, os judeus. Como parte de sua política de dominação, os babilônios transportavam as elites dos povos conquistados para a sua capital, de modo a deixar o populacho sem liderança. Mas Nabucodonosor tinha mais um objetivo: ele queria desconstruir a identidade nacional de seus conquistados. E, para isso, ele queria que os jovens dessas elites se tornassem babilônios (também conhecidos como caldeus).

Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus. Determinou-lhes o rei a ração diária, das finas iguarias da mesa real e do vinho que ele bebia, e que assim fossem mantidos por três anos, ao cabo dos quais assistiriam diante do rei. Entre eles, se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias. O chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel, o de Beltessazar; a Hananias, o de Sadraque; a Misael, o de Mesaque; e a Azarias, o de Abede-Nego. (Daniel 1:3-7)

Não adiantava tentar transformar homens adultos em caldeus. Jovens eram mais flexíveis. Afinal, eles não deveriam apenas adquirir o conhecimento técnico necessário para trabalhar para o rei: eles deveriam aprender a cultura e a língua. Seus hábitos alimentares seriam mudados: agora eles comeriam a mesma comida do rei. E ganharam outros nomes, na língua babilônica. Foi isso o que aconteceu com o profeta Daniel e seus amigos Hananias, Misael e Azarias.

Há muitas similaridades entre o método de educação babilônico e a educação considerada ideal no Brasil. Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) proibiu a educação domiciliar.  Em seu voto, o ministro Ricardo Lewandowski enfatizou que o Estado deve participar da educação das crianças. O ministro Luiz Fux lembrou que a lei brasileira determina o acesso e a permanência da criança na escola. No Brasil, o Estado deve interferir na educação.

Além da interferência estatal, um outro ponto de excelência seria a educação integral, onde a criança passa o dia inteiro na escola e só entra em contato com a sua família à noite, quando todos estão cansados. Assim, o Estado não apenas participa, como acaba sendo o protagonista da educação, em se tratando de escolas públicas. Afinal, até a maioria das refeições acaba sendo dada pelo Governo. Acrescente a isso a noção de que o educador ideal forma um cidadão, e você tem a receita babilônica a pleno vapor. As escolas brasileiras não transmitem conhecimentos, elas querem educar, elas querem formar a cultura de seus alunos. Em outras palavras, há uma cultura e até uma “língua” a ser ensinada. Qualquer semelhança com o pajubá é mera coincidência.

Por fim, há a questão do nome. Nos tempos bíblicos, quando pais nomeavam seus filhos, isso era um sinal de autoridade. O nome escolhido transmitia alguma mensagem ou ideia, e era uma espécie de definidor de caráter. Ao mudar o nome de Daniel e seus amigos, a Babilônia estava exercendo essa autoridade em um nível extremamente pessoal. Era um sinal externo de que eles não eram mais judeus, mas caldeus. De certa forma, a educação brasileira quer forjar uma nova identidade. Por isso que ministros como Luiz Fux, consideram a educação domiciliar por motivos religiosos como uma “uma superproteção nociva à criança”.

O exame de Nabucodonosor
Mas, muito antes em se falar em mensuração de resultados, os caldeus já sabiam que era preciso medir a eficácia de sua filosofia educacional. E o examinador era a própria encarnação do Estado da época: o rei Nabucodonosor. Ele faria perguntas sobre matérias de “sabedoria e inteligência” e o resultado seria comparado com o da elite intelectual caldéia: os magos e encantadores. Se aprovados, os estrangeiros seriam parte dessa elite. Se reprovados, até a cabeça dos professores poderia ser cortada. Não há motivador melhor para o ensino do que esse.

Duvida? Basta ver a reação de Aspenaz quando Daniel e seus amigos se recusam a seguir a dieta real:

 Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. Ora, Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos. Disse o chefe dos eunucos a Daniel: Tenho medo do meu senhor, o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida; por que, pois, veria ele o vosso rosto mais abatido do que o dos outros jovens da vossa idade? Assim, poríeis em perigo a minha cabeça para com o rei. (Daniel 1:8-10)

Se Daniel e seus amigos estivessem “fora do padrão”, abatidos, diminuídos em relação aos demais, a vida de Aspenaz estava em risco. Por analogia, talvez Daniel até ficasse vivo, mas seria o fim de qualquer possibilidade de ascensão social, e é quase certo que uma vida de servidão o aguardava. Não havia meio termo: a vida dependia daquele exame.

O Enem está se tornando um exame assim. Há uma pressão para que o exame seja o critério principal e decisivo para ingresso em qualquer estabelecimento de ensino superior. Outras formas de seleção são desencorajadas e mal vistas. Não se faz o mesmo que outros países, como os EUA ou o Canadá, onde há o exame mas pode-se ingressar em uma faculdade pelo currículo, pelo desempenho esportivo ou artístico ou outros fatores que podem ser decisivos. Pior: no Brasil, considera-se que não há possibilidade de sucesso profissional fora das faculdades. Em países realmente desenvolvidos, um emprego de ensino médio pode muito bem te pagar mais do que certas faculdades.

“Se fere minha existência, eu serei resistência”
Aqui já deve estar claro qual o meu posicionamento sobre a pergunta do pajubá. Sim, talvez a resposta da pergunta seja sim algo válido de se aprender. Em se tratando de línguas, é bom que alunos saibam o que é um dialeto. O problema é a fôrma usada para a pergunta. Porque, ao analisarmos o quadro maior da educação brasileira, o que podemos ver é que o Enem é um instrumento de submissão ideológica, como afirma o crítico literário Rodrigo Gurgel:

Como afirmei em 25 de outubro de 2015 — e como muitos amigos estão lembrando aqui e em outras redes sociais —, o ENEM não é um exame, não é uma prova. Não… É um exercício de submissão ideológica. É o primeiro exercício de submissão ideológica antes da entrada na universidade, onde a submissão ideológica se completará. O governo não quer saber a opinião do estudante. Não… Quer apenas que o estudante concorde com a ideologia que o próprio governo defende, ensina e estimula. Se isso não é uma forma de totalitarismo, então o que é?

Há uma pauta política e cultural que justifica o uso dos travestis e de um dialeto derivado de uma língua africana na pergunta. Há método ao destacar um advogado como alguém que conhece o pajubá e o usa em ambientes mais formais. O objetivo está ligado à ideologia de gênero: legitimar o travestimento. Por isso a pergunta em um exame de acesso universitário, a ligação com a cultura africana, o uso de um advogado e o ambiente formal: tudo para dar legitimidade a um comportamento que não é bem visto por toda a sociedade. Isso explica também porque a imprensa está querendo eleger “Pablo Vittar como mulher mais sexy do Brasil” e Thammy como “homem mais sexy do Brasil”. Os fatos estão ligados. É essa a língua e a cultura que está se querendo ensinar.

E aí é que entra a lição que a Bíblia nos dá diante de um quadro educacional assim: resistir. Capitular pode não ser o fim da existência física, mas é o fim da existência identitária. Daniel não teve como escapar do exame, nem mesmo como evitar o aprendizado da língua e da cultura dos caldeus. Mas ele nunca capitulou diante de Nabucodonosor. Ele resistiu dentro do cabível, rejeitando as iguarias do rei e preservando a dieta prescrita na Lei de Moisés. Daniel e seus amigos se mantiveram como uma microcomunidade judia na corte babilônica. Preservaram sua fé, seus valores e sua consciência. E porque resistiram, o nome deles foi escrito na Bíblia e perdura até hoje.

Posteriormente, Daniel e seus amigos foram examinados por Nabucodonosor e aprovados. Eles entraram para o serviço público da Babilônia. E aí agiram como “sal na terra”, influenciando por dentro a máquina imperial, de modo que até o próprio Nabucodonosor reconheceu a superioridade do Deus de Daniel:

 Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Daniel 4:34-35)

O nosso papel no Brasil do século XXI é imitar a Daniel e a seus amigos. Como eles confiaram em Deus, devemos confiar em Jesus, que é Soberano sobre Nabucodonosor e sobre toda a máquina ideológica do Estado brasileiro. Devemos resistir, cada um em sua esfera.

Se alunos, façamos as provas e aprendamos os conteúdos, mas que a nossa comida verdadeira seja a Palavra de Deus, e não o alimento imundo da ideologia de gênero e do marxismo cultural. Se somos professores, servidores públicos, escritores, pais ou até presidentes, precisamos desmontar essa máquina e influenciar do lado de dentro. Como? Tendo uma conduta profissional irrepreensivel, colocando Deus no nosso trabalho, orando e falando o que é correto. Se até Nabucodonosor se curvou, por que não os discípulos de Gramsci e Marx?

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

A Reforma Anti-Totalitária e suas lições para o Brasil

Publicado originalmente em 5 Calvinistas.

Sinto saudades de quando as eleições eram realizadas apenas no dia 15 de novembro. Então, outubro ainda podia ser o mês das crianças e da Reforma Protestante. No entanto, quis a Providência Divina que o Brasil realizasse eleições em outubro. Mais do que isso: em 2018 elas acontecem no domingo em que, tradicionalmente, celebraríamos o aniversário da Reforma Protestante. E há sabedoria nisso.

Martinho Lutero ainda não sabia disso, mas quando ele pregou suas 95 Teses na Catedral de Wittenberg, ele começou um movimento religioso que teria implicações políticas, culturais e econômicas. Até os estudiosos seculares se sentem obrigados a explicar a Reforma em seus cursos de História, porque ela é indispensável para compreender o mundo em que vivemos hoje. A fé nunca é apenas um assunto privado, ela é sempre o centro de um abalo sísmico que vai impactar toda a vida do fiel. E, no campo político, a Reforma foi um grito contra o totalitarismo simbolizado pelo papa.

A Bíblia e as constituições
O papado moderno foi forjado durante a Idade Média e é filho de seu tempo. A Igreja sempre foi descentralizada enquanto era perseguida no Império Romano. Houve um início de centralização quando Constantino reconheceu o cristianismo, no século IV, mas o fim do Império Romano voltou a fragmentar a Igreja ocidental. Ao longo da Idade Média, reis buscaram legitimar seu poder e centralizá-lo, lutando para diminuir o poder dos senhores feudais. De modo análogo, o Papado também reivindicou para si a supremacia sobre toda a Igreja e lutou contra reis para assumir o controle das nomeações eclesiásticas e sufocar aqueles que contestassem sua teologia e autoridade. O período medieval termina com reis absolutistas e papas com um imenso poder. Em suma: a Idade Média começa com uma Europa quase anárquica e termina com uma Europa quase totalitária.

Ao questionar publicamente as indulgências (o perdão de pecados concedido por meio de ofertas à Igreja) e apontar os desvios do catolicismo romano, Lutero fez um desafio imperdoável. O erro do reformador foi ter afirmado que, além de Deus, havia uma outra autoridade superior à do papa: a Bíblia Sagrada. Quando ele colocou as Escrituras como a norma a ser observada até mesmo pelo suposto sucessor de Pedro, Lutero desferiu um golpe inconsciente contra o totalitarismo medieval.

Esse deslocamento de autoridade teve repercussões que se fazem sentir até no Brasil do século XXI. Ao colocar a autoridade sobre as leis divinas, e não sobre o seu intérprete, Lutero deu uma justificação teológica para os governos constitucionais de nosso tempo. O poder de reis, presidentes, parlamentares e juízes é definido e limitado pelo texto constitucional. Em caso de abusos de poder, assim como Lutero apelou para a Palavra de Deus, hoje podemos apelar para o texto fundador do país: a Constituição.

Vale lembrar que isso afetou até mesmo os príncipes que protegeram Lutero quando a reação católica colocou a vida do reformador em perigo. Os príncipes alemães gostaram da descentralização de poder, mas talvez aspirassem a um totalitarismo local, menor. Com o passar do tempo, o apelo à Lei acabou alcançando todas as esferas de poder político ocidental, enterrando também o feudalismo e toda a estrutura política medieval.

Concílios e parlamentos
Uma vez estabelecida uma nova fonte de autoridade, é preciso ouvir o que ela diz. A Reforma foi, antes de tudo, uma tentativa de retorno e de resgate do ensino bíblico. E algo interessante a se notar é que nenhuma das denominações filhas da Reforma de Lutero adotou o episcopalismo, o governo da Igreja pelos bispos. As denominações protestantes que possuem bispos ou são filhas da Reforma Inglesa (metodistas, por exemplo) ou são filhas do movimento neopentecostal, o qual tem seu caráter protestante questionável.

De modo geral, duas formas de governo eclesiástico procederam do movimento inicial da Reforma: o governo congregacional e o governo presbiteriano da Igreja. A figura do bispo acima dos demais que decide as questões doutrinárias foi substitúido pelos concílios. O luteranismo formou seu corpo doutrinário na Confissão de Augsburgo, que teve Melanchton como principal redator, e não Lutero. João Calvino defendeu o governo da Igreja por meio de uma pluralidade de presbíteros e as doutrinas do calvinismo foram definidas em concílios posteriores, que produziram documentos como Os Cânones de Dort e a Confissão de Fé de Westminster, entre outros. Até mesmo os batistas decidiram sua doutrina de modo conciliar, produzindo as Confissões Batistas de Londres no século XVII.

A importância dos concílios é que eles são uma espécie de equivalente dos parlamentos. Diferentes pontos de vista são examinados por comissões, discutidos e chega-se a um acordo sobre o texto final. A primeira grande controvérsia teológica cristã foi resolvida de modo similar, no que ficou conhecido como Concílio de Jerusalém, registrado em Atos 15. De modo mais rotineiro, tanto as assembleias congregacionais como as reuniões de Conselhos de igrejas locais também cumprem uma espécie de papel legislativo. O clero não decide sozinho, ele precisa do consentimento da assembleia ou de seus representantes (os presbíteros) para governar a Igreja.

Liberdade: a doença e o antídoto
Contudo, há uma implicação negativa da Reforma, sempre lembrada pelos católicos. Ao evitar a centralização, a Reforma levou a um quadro nunca antes de visto de desfragmentação da Igreja. Ninguém sabe ao certo quantas denominações se divide o protestantismo, e muitas delas sequer carregam os fundamentos teológicos dos reformadores.

Por que isso acontece? Porque o maior problema da Reforma é uma de suas maiores virtudes: a liberdade. Ao tirar o poder de uma pessoa e lançá-lo sobre a Bíblia em si, a Reforma abriu a possibilidade de qualquer um examinar livremente a interpretação bíblica. Como é inevitável (e explico por quê a seguir), divergências surgiram. E, sem uma autoridade central a apelar, nada impediu que se criassem denominações diferentes.

Essa fragmentação era inevitável porque é uma consequência da liberdade em um mundo caído. O ensino bíblico afirma claramente que o pecado afetou o ser humano como um todo, inclusive nas áreas da razão, das emoções e dos desejos e vontades. Por esse motivo, a unidade espontânea de pensamento é inatingível neste mundo. Alie a isso a finitude dos seres humanos e você verá que é impossível que nós enxerguemos todos os lados de uma questão e vejamos tudo como Deus vê.

Mas essa fragmentação tão indesejada acaba sendo uma virtude celebrada na política. Os partidos políticos são como as diferentes denominações protestantes. Cada um deles possui (ou deveria possuir) um programa ideológico, com propostas concretas diferentes sobre como a Constituição deve ser interpretada e executada. E como a Constituição não é a Bíblia Sagrada, eles possuem visões diferentes até de como deveria ser o texto constitucional. Mas, embora sejam partidos diferentes, ainda são parte de um mesmo país. E essa pluralidade político-partidária tem evitado totalitarismos e corrigido erros por meio da alternância de poder.

E é aí que a liberdade trazida pela Reforma se transforma em cura. O que os católicos não entendem é que, embora existam muitas denominações, os protestantes se vêem como parte de uma única Igreja de Cristo. Por isso não digo “igrejas” protestantes, mas sim “denominações”. E, assim como os partidos políticos podem ser classificados em grandes categorias, também as denominações, embora muitas, acabam seguindo um número bem menor de escolas protestantes de pensamento. Há esquerda e há direita, mas há calvinistas, luteranos, herdeiros do anglicanismo, batistas e pentecostais. Dificilmente alguma denominação estaria fora desse enquadramento geral.

Mais do que isso: as diferentes tradições protestantes se complementam. Por mais que eu, por exemplo, considere a tradição calvinista como sendo a mais fiel intérprete do texto bíblico, aprecio muito as contribuições que outras tradições trouxeram ao cristianismo. Este blog é uma pequena demonstração disso, pois embora sejamos cinco calvinistas, todos temos algumas afinidades com outras tradições que moldaram ou moldam a nossa fé até hoje.

E o Brasil?
Mas vamos parar de falar de 1517 e irmos a 2018. Hoje, às vésperas do segundo turno de eleições presidenciais, o país todo teme a volta do totalitarismo. Um grupo teme o advento de uma ditadura socialista, outro o de uma ditadura militar. E aqui eu convido os dois lados a encontrarem na Reforma e nas Escrituras os princípios que podem evitar esse perigo.

A Reforma é o reconhecimento de que o ser humano é pecador e que nenhum de nós pode ter poderes em excesso. Se trouxermos esse reconhecimento para a esfera civil, entenderemos que nenhum político, partido ou Estado pode ter um poder ilimitado. É preciso que tenhamos um documento, uma constituição para a qual possamos apelar, inclusive contra as autoridades constituídas, caso elas se corrompam.

Além do limite constitucional, é preciso que o poder seja compartilhado. Esse compartilhamento pode ser maior ou menor (congregacionais e presbiterianos que o digam), mas é necessário. O povo não apenas deve ser ouvido, mas também deve assumir a responsabilidade de aprovar leis e governar.

E, uma vez que a unidade perfeita só virá quando Cristo voltar, é preciso que convivamos com uma pluralidade de opiniões. Claro, é preciso que exista um consenso em torno de valores básicos e essenciais. Mas há amplo espaço para debates e discordâncias respeitosas em assuntos secundários. A liberdade sempre trará diferenças consigo. E, desde que o principal seja preservado, a liberdade não é uma inimiga da unidade que desejamos como Brasil.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Ponha mais Evangelho nisso, Antônio!

No início da minha carreira ministerial, um dos pastores que me foram apontados como exemplo era o Rev. Antônio Carlos Costa, pastor da Igreja Presbiteriana da Barra da Tijuca e fundador da ONG Rio de Paz. Ele foi um referencial de como seria possível ser evangélico e ter um profundo engajamento social na tentativa de transformar o Brasil em um país mais seguro e melhor. E, indiscutivelmente, Antônio Costa tem obras que o credenciam nesse sentido. Protestou contra as condições de presídios fluminenses, contra assassinatos não resolvidos e ajudou a atrair a imprensa estrangeira para a violência no Rio de Janeiro, entre outros. De fato, eu cheguei a admirá-lo e eu mesmo o apontei como exemplo a outros colegas. Mas, algo mudou.

O discurso de Antônio Costa foi tornando-se cada vez mais próximo do marxismo. Suas críticas vêm sendo cada vez mais desbalanceadas, com um tom muito mais forte com a direita do que com a esquerda. Um dos sinais disso é ver que, para Costa, o apoio de vários grupos evangélicos a Bolsonaro foi pior para a democracia do que a tentativa de assassinato do candidato, a faca, em Juiz de Fora. Nas próprias palavras dele: “Vou morrer afirmando: o apoio ACRÍTICO, EFUSIVO, INSTITUCIONAL, da igreja a Jair Bolsonaro foi página mais triste da história do protestantismo brasileiro.”

A página mais triste? Creio que eventos muito mais escandalosos, como o adultério de líderes evangélicos de projeção nacional, a oração da propina feita por parlamentares evangélicos e até o pastor dizendo na TV que a Bíblia mandou que ele adulterasse com a mulher de um amigo dele foram páginas mais tristes!

Mas há mais. Para Costa, a postura evangélica nas eleições de 2018 mostraram a necessidade de uma nova Reforma. Veja bem: concordo que há necessidade. Os púlpitos estão tomados de psicólogos baratos. Pastores e presbíteros não confrontam o pecado e nem usam a disciplina eclesiástica porque usam um conceito barato de graça. Temos evangélicos que não sabem o que é Trindade e a maioria nunca leu a Bíblia toda. Mas nada disso é tão grave quanto Jair Bolsonaro. Costa chegou inclusive a gravar um vídeo sobre o assunto. E entendo que é necessário responder às acusações feitas por ele.

Apoio acrítico, incondicional e institucional
Costa aponta cinco pecados “gravíssimos” da Igreja brasileira. O primeiro seria o apoio “acrítico, incondicional e institucional” a Jair Bolsonaro. Que tal começarmos com a própria denominação do pastor: a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Em nota, o presidente do Supremo Concílio, Rev. Roberto Brasileiro, afirmou: “Entendemos que os membros de nossas igrejas e seus oficiais e ministros têm liberdade de escolha nas eleições e a Igreja, de maneira alguma indicará em quem se deve ou não se deve votar.” Onde há apoio, de qualquer tipo, da instituição a um candidato?

O mesmo pode ser dito da Convenção Batista do Estado de São Paulo (CBESP), que diz muito claramente que: “acreditamos que cada pessoa tem o direito de exercer sua escolha e voto conforme a sua consciência”. O mesmo fez a Igreja Metodista: “deixamos claro que a Igreja Metodista não apoia nenhum candidato ou candidata de maneira específica.” Tampouco vi qualquer palavra institucional de outras denominações protestantes históricas de apoio à candidatura de quem quer que seja.

Não nego que tenham existido pastores, igrejas locais e até denominações que possam ter dado um apoio institucional à campanha de Jair Bolsonaro. Tal fato, porém, não caracteriza todo o protestantismo brasileiro, e nem seria novo, já que há muito tempo denominações pentecostais e neopentecostais declaram apoio a algum candidato. Mesmo quando pastores, usando seu direito de cidadãos, declararam tal apoio, não conheço um que não tenha deixado claro que apoio não significa endosso total do posicionamento do candidato. Ao contrário, cheguei a ver pastores que declararam voto em Bolsonaro, mas deixando bem claro suas críticas. Um exemplo é o Pr. Yago Martins: “Eu não gosto nada do BOLSONARO. Mas é ele ou o que há de pior, de mais vilanesco, de mais imoral, de mais corrupto, de mais anti-cristão de TODA política nacional. Achar que tanto faz, que BOLSONARO é pior que PT, é estar sujeito a uma mentalidade de trevas.”

Antônio Costa mente. Sua primeira acusação é que é pecaminosa, por querer imputar uma culpa que não existe. Os evangélicos votaram individualmente, seguindo a sua consciência, em Bolsonaro. Costa deveria expor os pecados do petismo para entender porquê.

Ataques aos cristãos nas redes sociais
Costa afirma considerar inadmissíveis os “ataques dos cristãos nas redes sociais”. Nenhuma doutrina central do cristianismo estaria em jogo para justificar os ataques que ele presenciou em redes sociais. Sobre isso, concordo que houve, há e haverá muitos pecados de língua cometidos por cristãos em debates na Internet. Tais pecados devem ser combatidos, lamentados e até disciplinados. Solidarizo-me com ele quanto a isso. Mas, infelizmente, ainda há parcialidade na acusação do pastor.

Costa se queixa de que cristãos antipetistas não teriam preservado a honra de pessoas por quem Cristo morreu quando falaram de modo agressivo na Internet. Porém, eu me pergunto se ele teve o mesmo cuidado:

“Usaram em vão o nome de Deus nessa eleição. Associaram o evangelho à espécie de mundo que botou Cristo num pau de arara chamado cruz. Quem permanecer calado perante esse crime de lesa-cristianismo terá dificuldade de dizer que o evangelho é o valor supremo da sua vida.” (Desde quando votar em Bolsonaro é um endosso à tortura? Que pesada acusação é essa?)

“Difícil de entender, em nome da moral evangélica evangélicos permitiram nessas eleições que o evangelho fosse pisoteado. Associaram-no ao discurso -anti-processo civilizatório-, e milhões se silenciaram por não quererem prejudicar seus interesses políticos.” (Você disse mesmo que milhões de evangélicos pisotearam o Evangelho, favorecem o anti-civilismo, por causa de interesses políticos?)

“Um santo estragado, um fariseu, um inquisidor ou um mágico propiciam mais diversão no inferno do que um simples tirano ou libertino”. C.S. Lewis” (Citou C S Lewis pra acusar quem pensa diferente de ser um santo estragado, fariseu, inquisidor e mágico? Que leve acusação contra irmãos em Cristo!)

Quem é Antônio Costa para emitir julgamentos tão pesados sobre a salvação e a moral de milhões que, democraticamente, não votaram como ele? Como ele pode posar de santo ofendido com o nível das críticas se ele faz generalizações tão gritantes em seu Twitter? Um tom polido e erudito tiram a ofensa dessas declarações?

E pergunto mais: não houve ofensas do outro lado? Basta uma visita a página “Ódio do Bem” (presente em várias outras redes sociais) para ver como petistas lançaram acusações pesadíssimas contra quem pensa e vota diferente. Eu mesmo desfiz amizades com cristãos que afirmaram serem fascistas os que votam em Bolsonaro. Por que Costa só aponta o pecado dos antipetistas? Por que ele não condena os excessos verbais, os xingamentos, a condenação de fariseus lançada por vários eleitores de Fernando Haddad? Talvez porque ele tenha feito o mesmo em seus tuites, como mostrei acima.

Desrespeito à diversidade de opinião
O terceiro pecado gravíssimo seria o desrespeito à diversidade de opinião na igreja, a ponto de “deixar o ar irrespirável” para quem não apoiava Bolsonaro. Segundo ele, esse ar irrespirável vem do apoio institucional, sobre o qual já demonstramos acima que não é verdadeiro. Logo, o fundamento colocado pelo próprio Costa é inválido.

Mas aqui ainda quero acrescentar algumas ponderações. O grande problema dos evangélicos não foi com eleitores de Amoedo, Marina Silva ou Geraldo Alckmin. O problema foi o PT e sua agenda moral e econômica, onde se viu um risco real à liberdade religiosa e à segurança econômica. Não é um temor infundado: basta ver o que acontece com países que seguem o socialismo, como Cuba, Venezuela e Coreia do Norte. Se foi formada uma maioria, isso não é, per se, algo ruim. Talvez a maioria exista por ser um desdobramento natural da própria fé evangélica.

O documento que melhor mostra é isso é a Carta Aberta à Igreja Brasileira, assinada por vários pastores protestantes de renome. A carta não apóia Bolsonaro, mas recomenda “Rejeite candidatos com ênfases intervencionistas na esfera familiar, educacional, eclesiástica e artística”. Outra recomendação é “Apoie propostas que defendam a dignidade do ser humano e a vida em qualquer circunstância, desde sua concepção no ventre materno”. Sobre esses assuntos deveria haver unidade dentro do meio evangélico. Querer liberdade para, por exemplo, não considerar o embrião no ventre materno como tendo direito à vida, seria totalmente indesejável! Ou apoiar interferências do Estado na vida eclesiástica!

A maioria é desejável. Mas, se há discordância, a Carta Aberta aconselha: “ao indicar um candidato para amigos e familiares, faça-o com respeito às opiniões diferentes da sua”. Onde há o tal desrespeito à diversidade de opiniões? Ele pode até ter ocorrido individualmente e até em algumas igrejas ou denominações pentecostais e neopentecostais. Mas não ocorreu, de modo institucional, dentro do protestantismo como um todo.

Faltou preocupação com os não cristãos
Para Costa, o apoio evangélico a Bolsonaro prejudicou a credibilidade da Igreja na evangelização. Segundo ele, os brasileiros, ao verem o comportamento evangélico nas eleições, não desejarão ouvir a pregação. Milhões estariam escandalizados.

Há várias maneiras de responder. Jesus escandalizou várias pessoas em seu ministério (Mateus 13:57, Marcos 6:3, etc). O derramar do Espírito Santo no dia de Pentecostes gerou perplexidade e zombaria (Atos 2:1-13). A carreira do apóstolo Paulo foi marcada por vários tumultos causados por pessoas que se escandalizavam com o Evangelho (Atos 13:45, 16:19-23, 19:23-41, etc). O Evangelho causa escândalos, anormal é quando ele não escandaliza a ninguém. Costa mesmo dá um exemplo disso: o vídeo onde várias pessoas de esquerda marcham ameaçando a Igreja, dizendo “Igreja fascista, tu tá na nossa lista”. O “fascismo” da Igreja não é por causa do voto em Bolsonaro: é porque a Igreja condena o homossexualismo, a imoralidade sexual e o comunismo, em respeito aos ensinos do próprio Evangelho.

Mas, a julgar pelo resultado das votações, a maior parte dos brasileiros não concorda com Costa. Afinal, a maioria votou Bolsonaro. Além disso, de modo conveniente, Costa se esquece do escândalo que foi causado pelos pastores que demonstraram apoio a Fernando Haddad, o candidato do PT. Ou do escândalo causado pela própria presença de Haddad em uma missa. Por que o escândalo apenas de um lado?

Na verdade, não havia uma saída para a Igreja nessas eleições que não pudesse escandalizar não cristãos. Até o silêncio seria condenável. Como pode a Igreja ficar calada no meio de tantas acusações de corrupção, da ameaça de uma ditadura bolivariana, do candidato que recebia ordens de um presidiário?

Não cristãos seriam escandalizados de qualquer maneira. A questão é assumir um posicionamento que traga o escândalo correto. Costa erra ao imaginar que havia alguma possibilidade que não escandalizasse a ninguém.

Não preocupação com a pureza do Evangelho
Por fim, o último pecado gravíssimo seria a falta de preocupação com a pureza do Evangelho pelo fato de Bolsonaro usar como slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Para Costa, isso foi uma espécie de sacrilégio. Como ele mesmo diz: “Tire o Evangelho disso!”

E é aqui que eu me permito rir um pouco. Normalmente, os fariseus é que se preocupam com formalismos e ritualismos enquanto se esquecem da substância das coisas. Os fariseus são os que, por causa de uma única regra, se esquecem de todo o resto e condenam pecadores. E Costa vê mais problemas em colocar Deus no slogan de uma campanha do que em outras campanhas que desejam promover uma agenda frontalmente contrária à lei de Deus: minando a família, o casamento, promovendo o aborto, sendo benigna com os criminosos, indultando corruptos, interferindo cada vez mais no dia-a-dia das igrejas. Sério mesmo, Costa?

A grande luta dos protestantes reformados (calvinistas) é exatamente a de proclamar com Abraham Kuyper que Jesus é soberano sobre cada centímetro quadrado da vida! O grande anseio de qualquer pastor cristão é que sua congregação entenda que tudo é de Deus e deve ser feito para a glória d’Ele! Até o Estado e suas autoridades:

” Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus.” (1 Coríntios 10:31)

“Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11:36)

Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. (Romanos 13:1-2)

E é sobre Romanos 13 que eu quero chamar a atenção. Paulo estava ensinando ali que a Igreja deveria reconhecer a instituição divina da autoridade dos Césares, dos imperadores romanos, e de todas as demais autoridades romanas. Foi Roma quem crucificou a Cristo. Os judeus recorriam aos romanos para pedir a morte de Paulo. Roma não era uma sociedade sem injustiças, torturas e corrupção. Se seguir a lógica de Costa, Paulo manchou o Evangelho ao colocar a submissão aos imperadores romanos como uma ordem à Igreja! E Pedro cometeu o mesmo erro:

Sujeitai-vos a toda instituição humana por causa do Senhor, quer seja ao rei, como soberano, quer às autoridades, como enviadas por ele, tanto para castigo dos malfeitores como para louvor dos que praticam o bem. (…) Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei. (1 Pedro 2:13, 14, 17)

Eu entendi o que Costa quis dizer: Bolsonaro não tem um programa evangélico o suficiente para poder dizer “Deus acima de todos”. Mas ele nunca se propôs a isso. Bolsonaro nunca disse que ele era ungido de Deus para governar em nome dele (embora a autoridade do Presidente venha de Deus). O que o slogan dele mostra é que ele, Jair Bolsonaro, reconhece que Deus existe, que Ele está acima de tudo, e que Bolsonaro vai governar tendo isso em vista. E nada disso desonra o Evangelho ou o Novo Testamento. Na verdade, apenas constata uma verdade bíblica.

O slogan não difere do significado da Coroa britânica. No topo da coroa usada pelos reis ingleses, há uma cruz. O significado é o de que o imperador britânico não deve obediência a ninguém, a não ser a Deus. É essa coroa um objeto de blasfêmia ou um objeto de louvor a Deus? Ao meu ver, tanto a coroa como a frase possuem o seu lado positivo. Em um mundo secularizado, é louvável quando governantes ainda reconhecem que Deus existe e é superior. Calar-se e fingir que Deus não existe é ainda pior, é o sinal de um governante que vai agir como deus de si mesmo e que sequer reconhece a autoridade divina para julgar suas ações.

Back_of_the_Imperial_State_CrownBolsonaro pode estar apenas manipulando a fé? Pode, não conheço o coração dele. Mas aí, Deus é quem o julgará por isso. E a solução, Antônio Costa, não é “tirar o Evangelho disso”. A solução é por mais Evangelho nisso! Esse reconhecimento inicial, incipiente, vindo ainda de uma visão católico-romana e neopentecostal é um começo muito tímido, mas louvável em uma sociedade anticristã. É preciso mais Evangelho para que o reino de Cristo na esfera civil se torne ainda mais e mais visível.

Uma nova Reforma
Encerro dizendo que sim, a Igreja brasileira precisa de uma nova Reforma, mas não pelos motivos apresentados. Falta colocar Cristo e a Bíblia no centro das pregações, da vida cristã e da atuação dos cristãos em todas as áreas da vida. Falta usar a Bíblia como centro e ponto de partida para as reflexões sobre política, economia e direito. Falta mais Sola Scriptura.

Agora, Reforma também é purificação. É colocar a Bíblia como Rainha e a psicologia, a sociologia, o direito, a economia, a filosofia e a política como servas. É remover do ensino bíblico e teológico qualquer impureza trazida por visões de mundo anticristãs, como a marxista. É denunciar e destruir os ídolos do materialismo, da dialética hegeliana, do desejo de conformar-se ao que ensina uma Academia secularizada e relativista. Reforma é acreditar mais no que a Bíblia ensina sobre combate à pobreza e à violência do que naquilo que marxistas ensinam.

Sonho com uma Reforma de vida também, onde pastores não se coloquem tão precipitadamente como profetas, acusando injustamente homens que, como o próprio Antônio Costa admite, são melhores do que ele. Sonho com uma Reforma onde pastores que afirmam que o Espírito Santo sairá do nosso meio sejam cobrados pelo que dizem e, se não se cumprir, que sejam excluídos como falsos profetas. Sonho com uma Reforma na igreja brasileira onde pastores que mentem, exageram e são parciais em seu juízo sejam chamados ao arrependimento e se retratem.

Antônio, eis aí o meu apelo a você. Ponha mais Evangelho nisso! Antes que você siga pela estrada que Rubem Alves e Caio Fábio já trilharam em nossa amada Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB).

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

A oração de Bolsonaro

Em seu primeiro pronunciamento como presidente eleito do Brasil, Jair Bolsonaro recebeu uma oração feita pelo Pr. Magno Malta. A seguir, Bolsonaro começou seu discurso citando João 8:32 – “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. Não fiquei surpreso com a reação da imprensa brasileira, naturalmente avessa ao cristianismo, embora simpática a manifestações religiosas afro-brasileiras, por exemplo. O que me espantou foi o horror ou o desprezo mostrado por alguns evangélicos (?!) com um presidente que resolveu começar com uma oração a sua carreira presidencial.

Para um cristão evangélico, é cabível esse tipo de reação? Será que a oração de Bolsonaro mostra uma visão inferior de Estado? Ou pior: seria ela apenas um ato politiqueiro pelo fato de Bolsonaro ser católico, e não evangélico? Creio que a resposta para as duas perguntas é “não” e explico por quê.

oracaobolsonaroO mito da exclusão da fé
No Brasil, desde a educação infantil é inculcado o mito de que a separação entre Igreja e Estado é algo tão radical que o Estado deveria agir como se não houvesse religião. Quando eleitores e agentes públicos decidem movidos por sua fé, a condenação de professores e jornalistas é imediata, como se fosse possível ter uma religião e não ter sua consciência influenciada por ela. Talvez, por isso, políticos como Marina Silva declarem em seu site que “A trajetória de mais de 30 anos de vida pública de Marina é uma prova concreta de como não há influência de sua religião, como cristã evangélica, em sua atuação política.” (grifo meu)

Não é isso o que vejo em países como os Estados Unidos, onde moro hoje. Anualmente, membros do Congresso dos Estados Unidos promovem o National Prayer Breakfast, o “Café da Manhã Nacional de Oração”. Todos os presidentes americanos, desde Dwight Eisenhower, participam do evento. Há uma data aprovada pelo Congresso americano que convoca americanos de todos os credos a orarem pelo país, o National Prayer Day. Nas posses presidenciais, é de praxe que um pastor faça um discurso, e políticos citam com frequência a sua fé e Deus como motivadores de suas políticas. Seria a democracia americana inferior à brasileira?

Na Europa ainda há Estados confessionais, e não laicos. Para quem não sabe, há vários Estados europeus com uma religião oficial. É o caso do Reino Unido (anglicano) e das subdesenvolvidas Dinamarca, Islândia e Noruega (luterano). Será que esses países possuem um nível de maturidade democrática inferior ao Brasil por terem uma religião oficial?

A presença da religião na política não é um sinal de risco à democracia ou de repressão a minorias religiosas, como os casos acima demonstram. Tampouco é sinal de subdesenvolvimento humano. O laicismo não pode sequer ser considerado algo essencial para a construção de democracias fortes ou países desenvolvidos.

Reis oportunistas?
Mas há a acusação de que Bolsonaro, por ser católico e político, não poderia receber uma oração de um pastor e abrir seu primeiro discurso como eleito usando a Bíblia. O pressuposto por trás desse tipo de argumento é o de que toda e qualquer manifestação similar não é sincera. Em todos os casos é uma simples e barata manipulação política da fé.

Não posso julgar o coração de Bolsonaro. Lembro, porém, que para fazer média seria bem melhor chamar um cardeal católico e que Magno Malta é amigo pessoal do presidente. Mas há precedentes bíblicos de reis pagãos que honraram ao Deus de Israel porque viram o seu poder e aprenderam a reconhecê-lo. É o caso do Faraó, que reconheceu o Deus de José (Gn 41:38-39). É o que o imperador persa Ciro fez ao permitir o retorno de Israel à Canaã (Esdras 1:1-4). Mas, de modo marcante, esse é um dos temas mais fortes do livro de Daniel.

O famoso sonho do rei babilônico Nabucodonosor com a estátua terrível que é destruída pela Rocha é um resumo da mensagem básica do profeta. Daniel proclama que todos os reinos da terra pertencem a Deus, que Deus é quem põe e depõe reis e nações, e que apenas o reino de Deus permanecerá. Uma das maneiras do livro mostrar isso é por meio do reconhecimento de reis pagãos sobre a superioridade e divindade do Deus de Israel.

Nabucodonosor reconheceu que o Deus de Daniel era o Deus dos deuses (Dn 2:47). Posteriormente, quando Deus livrou a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego da fornalha ardente, Nabucodonosor voltou a bendizer a Deus (Dn 3:28) e fez um decreto ameaçando de morte quem blasfemasse contra Ele (Dn 3:29). Em Daniel 4 temos a dramática história da loucura de Nabucodonosor, que termina com o reconhecimento do rei de que o poder real vinha do Deus de Daniel e com a declaração de que “Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e pode humilhar aos que andam na soberba.” (Dn 4:37).

Muitos pensam que Nabucodonosor se converteu, mas a História parece dizer o contrário. Os deuses bebilônicos continuaram a ser adorados. Talvez, para ele, o Deus dos judeus fosse apenas mais um deus, alguém que ele aprendeu a respeitar, a temer e até a adorar. Contudo, em momento algum, a Bíblia desqualifica a adoração de Nabucodonosor como sendo falsa. O temor e a admiração dele eram reais.

Conclusão
Se reis pagãos do passado adoraram com sinceridade a Deus, por que isso não pode acontecer hoje? Será que os homens de hoje são mais perversos que os de antigamente? Não creio que seja o caso. Sim, pode ser que Bolsonaro nunca se torne evangélico ou até que vá para o inferno no fim de seus dias. Mas isso não muda o fato de que o início dele pode sim ser movido por um temor verdadeiro a Deus. E creio que os cristãos não têm porque se envergonhar ou lamentar que um governo comece assim.

Ainda acredito que buscar a direção e a aprovação de Deus são a melhor maneira de começar qualquer relacionamento ou empreendimento. Pode até ser que muitos erros sejam cometidos depois. Mas Bolsonaro teve o melhor começo possível.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Uma igreja megalomaníaca

Corretamente, o triunfalismo é um dos grandes perigos que ameaçam as igrejas evangélicas no século XXI. Esse triunfalismo aparece bastante na pregação da Teologia da Prosperidade, nos decretos e profetadas (eu decreto que) e na confissão positiva (as palavras têm poder). Mas ele também aparece nas igrejas que se preocupam com os pobres, que se envolvem com as questões sociais e que são profundamente envolvidas com a Teologia da Missão Integral (TMI). E, talvez, a megalomania dessas últimas seja ainda maior que no caso da Teologia da Prosperidade.

Para provar o meu ponto, vamos começar com um texto da Bíblia:

Seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo.
Mas Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, o que estava para traí-lo, disse: “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” Isto disse ele, não porque tivesse cuidado dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se lançava.
 Jesus, entretanto, disse: “Deixa-a! Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem; porque os pobres, sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes.” (João 12:1-8)

A missão principal da Igreja
É muito popular a ideia de que a missão principal da Igreja é cuidar dos pobres. Há, inclusive, muitos que sugerem que o dízimo não deveria ser dado a nenhuma igreja local, mas apenas distribuído aos pobres, de acordo com o desejo do dizimista. Qualquer investimento que não seja voltado para a caridade é considerado um desvio de recursos financeiros.

Contudo, o texto acima nos mostra uma outra prioridade: a adoração a Jesus. No dia anterior, Jesus havia ressuscitado a Lázaro. Maria queria agradecer a Cristo por esse grande milagre. O discurso “piedoso” do século XXI diria que ela deveria ter dado dinheiro aos pobres, mas ela preferiu um ato extravagante de adoração: pegou um perfume que custava quase um ano de trabalho (trezentos dias de trabalho) e derramou-o inteiro aos pés de Jesus! A casa inteira ficou com o cheiro do perfume! Ela ainda usou seus cabelos pra enxugar os pés, um ato que denotava humildade, mas também uma intimidade que fosse até indevida.

Judas censurou a mulher pela sua escolha de gratidão. Não precisamos entrar no mérito do caráter de Judas agora: a Bíblia fala que outros discípulos também fizeram a mesma censura (Marcos 14:4). Eles estavam indignados com a atitude, como muitos hoje ficariam. Afinal, o que pode ser mais piedoso e agradável a Deus do que servir ao pobre?

Jesus responde: adorar a Deus é muito mais importante. Maria não deveria ser perturbada. Os pobres sempre poderiam receber o cuidado da Igreja, mas o Cristo na Terra estava prestes a desaparecer. Nenhuma homenagem a Ele era exagerada demais ou mal empregada, porque adorar a Deus é algo que traz honra ao adorador. Por esse motivo, em todo o mundo deve-se contar o que foi feito por ela:

Mas Jesus disse: Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua.  (Marcos 14:6-9)

A Igreja que censura a adoração a Cristo em nome dos pobres é uma Igreja megalomaníaca e idólatra, que dá ao homem aquilo que deve ser dado a Deus.

Mary Magdalen anointing Christâ??s feet - Stained Glass
Catedral de St. Vitus, Praga, Rep. Tcheca

O problema insolúvel
Além do problema da definição da prioridade da Igreja, um outro problema da Igreja megalomaníaca é que ela quer resolver um problema que Jesus disse que nunca seria resolvido. Erradicar a pobreza é uma meta tão impossível como erradicar as doenças. Não é uma tarefa que uma pessoa, as universidades, o Estado e até mesmo a ONU possam atingir. Será uma meta deste milênio e de todos os outros. E nem mesmo o Corpo de Cristo conseguirá erradicá-la.

Por quê? A resposta é bem simples: porque, para acabar com a pobreza, seria preciso acabar com o pecado no mundo. Em última análise, todas as formas de pobreza são consequências do pecado original. Podemos empobrecer porque fomos vagabundos, porque um desastre natural destruiu o que temos, porque uma guerra ou outra catástrofe nos atingiu e até porque o “sistema” impede nossa ascensão social. Tudo isso ou é pecado ou é uma consequência da maldição que Deus lançou sobre a terra por causa do pecado de Adão e Eva no Éden.

Apenas uma pessoa tem o poder de acabar com o pecado, e as doenças, e a pobreza: Cristo Jesus. Apenas Ele é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29). Por meio do seu sacrifício na cruz, Jesus morre no lugar dos pecadores e o pecado da Igreja é morto com Ele. Por meio de Sua ressurreição, Jesus nos dá uma nova vida, e a Igreja ressuscita com Ele. É assim, morrendo e ressuscitando por nós, que Cristo dará fim ao pecado, à pobreza e às nossas enfermidades e deficiências.

Por isso, precisamos ser razoáveis sobre a nossa capacidade e a nossa missão. Jesus quer que a Igreja seja sal da terra (Mateus 5:13), e não que ela transforme a terra velha em terra nova. Quando a Igreja assume sobre si a tarefa de erradicar a pobreza, ela está assumindo uma tarefa que vai esgotar todas as suas forças e que está além de sua capacidade.  O nosso papel é o de minorar a pobreza, o de socorrer os que estão ao nosso alcance, e não o de transformar o mundo inteiro de modo que o mal desapareça! O pregador que lança um fardo assim sobre a sua igreja local está sendo injusto e megalomaníaco.

Amor aos pobres ou a si mesmo?
Por fim, não podemos deixar de apontar para o fato de que, nem sempre, quem cuida dos pobres está realmente interessado neles. Muitos fizeram da pobreza o seu ganha pão. Porque eles cuidam dos pobres, recebem ofertas e verbas, da Igreja, do Estado e de pessoas comuns. Se a pobreza acabar, a ONG fecha e o dinheiro some. Esses são verdadeiros Judas, falsos apóstolos de Cristo usando o pobre em benefício próprio.

Mas há uma forma mais sutil de cair no mesmo erro de Judas. Cuidar dos pobres é uma forma de ser bem visto pelo mundo. É uma boa obra que acalma a nossa consciência e que parece tão poderosa que chega a cobrir nossos pecados. Vejo isso em Nova Iorque, onde moro. Se você faz voluntariado e dá dinheiro a uma causa social, você pode ser sexualmente imoral, abandonar sua família e até abortar. A caridade cobre todos os seus pecados e faz de você alguém que pode exigir reconhecimento. É a boa obra que salva.

Seja por interesse financeiro, seja por interesse espiritual ou emocional, esse tipo de cuidado com os pobres é idólatra e megalomaníaco. Se for feito dentro da Igreja, isso é usar o nome de Deus para colher benefícios indevidos. É tentar um caminho fora da cruz para achar perdão para os seus pecados e para viver segundo a lei do coração, ao invés de se submeter à Lei de Deus.

Conclusão
O cuidado com os pobres não deve ser um fim em si mesmo. O cristão verdadeiro só possui um fim em sua vida: glorificar a Deus e gozá-Lo para sempre. A prática da caridade só é legítima se for um desdobramento de nossa adoração a Deus. Se fixarmos os nossos olhos na riqueza ou na pobreza, estamos sendo idólatras da mesma maneira.

E aqui é preciso ter fé. É preciso muita fé para acreditar que, quando derramamos perfume sobre os pés de Cristo e os enxugamos com os nossos cabelos, fazemos um bem maior do que dando tudo o que temos aos pobres. É preciso fé para acreditar que, por meio da adoração a Deus, fazemos um bem maior ao mundo do que gastando toda a nossa energia na caridade.

Contudo, Cristo veio nos salvar do pecado para a adoração. Quando adoramos a Cristo, a nossa salvação é evidenciada. E, quando Cristo é adorado, também pregamos o Evangelho com nossos perfumes e cabelos, e é apenas o Evangelho que pode nos livrar do pecado, que é a raiz de todo o mal do mundo. Dos pobres podemos cuidar em todo o tempo, e devemos fazê-lo. Mas cuidado para não deixar de derramar o bálsamo do melhor da sua vida aos pés de Cristo Jesus.

Graça e paz do Senhor,

Helder Nozima
Barro nas mãos do Oleiro

Coerência Sistêmica: Boi, Bala e Bíblia

Moral, família, economia, justiça, tudo isso anda junto. Você pode até achar que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas não é coincidência que esquerda e direita estejam em oposição em todos esses campos.

O cristianismo não é nem esquerda e nem direita, dirão alguns. Concordo. Mas o cristianismo também é um sistema de vida. E, considerando que a esquerda rejeita o alicerce judaico-cristão e a direita conservadora exalta esse alicerce, você entende melhor porque os cristãos costumam se alinhar com a direita.

E não, amigo universitário brasileiro, não é o interesse financeiro que determina o resto. É a base religiosa, ética e moral que determina o sistema. A leitura histórica do Antigo Testamento e dos profetas é a de que a fé de um povo determina como ele vive. Jesus disse que do coração humano (centro da vontade e pensamentos) é que procede todo o resto. Se você crê na Bíblia e em Jesus, você precisa negar o marxismo universitário que ensina que tudo é materialismo.

A esquerda é filha do paganismo e do ateísmo. A direita liberal é filha do humanismo . A direita conservadora é filha da fé judaico-cristã e da herança clássica greco-romana.

Quando você entender que religião, ética, cultura, justiça, política e economia andam juntas, você vai entender porque a esquerda sempre insiste em uma agenda moral que valoriza aborto, promiscuidade sexual e enfraquecimento da família (especialmente da figura masculina). E vai entender porque a bancada do boi, da bala e da Bíblia sempre vão andar juntas no Brasil.